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sábado, 11 de outubro de 2008

Mulheres em pote de vidro




Quando descobri a endometriose, vi um pote. Sua grande tampa estava aberta. É um pote onde cabem milhões de unidades. Amplo, grande e construído por médicos. Um pote para conter gente. Um pote para colocar mulheres. Muitas mulheres. Uma brasileira em cada seis, totalizando milhões de mulheres com endometriose. Um pote de vidro, nada flexível, gélido, mas capaz de receber muitas outras mulheres. Embora cada mulher seja única, o pote não se importa. Na sua onipotência, o pote sentencia: são todas iguais. Seguindo as recomendações de saúde, o pote tem rótulo. Quais são os ingredientes que formam essa multidão de mulheres? De que é formada essa massa feminina vitimada pela endometriose? O pote responde.

Fui lançada dentro do pote, sem que me conhecessem. Nem sequer me consultaram. Nada sabem de mim. Mas estou no pote. E como todas as outras mulheres, fui rotulada. Na busca por informações sobre endometriose na Internet, encontrei estudos que falam do “perfil da mulher com a doença”. A mulher com endometriose é descrita em três artigos da seguinte maneira:

1. “Perfil psicológico e personalidade (mulheres magras, com aspecto enfermo, ansiosas e submetidas a ‘stress psíquico’, elevado coeficiente intelectual, perfeccionistas e egocêntricas).” Clínica e Centro de Pesquisa em Reprodução Humana Roger Abdelmassih (
www.abdelmassih.com.br/download/coletanea/01.pdf ).

2. “Perfil psicológico: mulher magra, estresse psíquico, elevado nível
cultural, perfeccionista e egocêntrica.”
Prefeitura do Município de São Paulo
Secretaria Municipal da Saúde
- Coordenação de Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde (CODEPPS) - Área Técnica de Saúde da Mulher (
www.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/secretarias/saude/mulher/0013/Prot_CA_125_2005.pdf).

3. “Alguns profissionais de saúde acreditam que existe um perfil psicológico característico das mulheres com endometriose. Ainda não foi desenvolvida uma pesquisa científica que comprove esse fato, mas alguns traços de personalidade são observados freqüentemente nessas mulheres. Alguns deles são: perfeccionismo – tudo tem que estar perfeito, sob controle e muito organizado; auto-exigência – se cobram demais, tudo tem que acontecer como o planejado e é difícil admitir as falhas, lidar com os próprios erros; capacidade de controle e comando – conseguem com facilidade organizar e estruturar tarefas, não enrolam em suas atividades diárias e podem até organizar a vida de pessoas em sua volta, assumindo problemas dos outros; sentem necessidade de manter o controle daquilo que poderá acontecer. Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose. Ainda precisamos de estudos científicos que determinem a força de associação dos fatores emocionais no desenvolvimento da endometriose e que permitam traçar um perfil psicológico característico dessas mulheres.” [grifos meu]. A importância do aspecto emocional no tratamento da endometriose. Ambulatório de Endometriose CAISM-Unicamp (
http://www.abend.org.br/corpoemente.htm).

No rótulo, uma lista extensa de traços de caráter. Os artigos, dos itens 1 e 2, são praticamente iguais, o que leva a concluir que um dos estudos apenas reproduziu a conclusão do outro. Já no último artigo, mesmo os autores admitindo que não há pesquisa científica sobre o perfil psicológico de mulheres com endometriose, eles optam pelo caminho do rótulo e rotulam livremente, irresponsavelmente. Afinal, admitem: “Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose.” Então, por que rotular? Cientificamente estão desautorizados. Os próprios autores se desautorizam ao tentarem se resguardar de conclusões precipitadas.

Fui jogada no grande vidro. Não é o vidro da ciência e dos estudos sérios, pois jamais emitiriam opinião sem fundamentações documentadas, balizadas pelos seus pares, academicamente comprovadas. Estou exposta no vidro, rotulada e espremida em meio a milhares de mulheres que, além da dor e da infertilidade, precisam, agora, conviver com rótulos opinativos. É fato que as emoções estão em relação direta com o organismo. Saber controlá-las é essencial para vencer qualquer doença, seja doença que atinja homens ou mulheres. Contudo, visões precipitadas não libertam as mulheres de suas possíveis ansiedades, mas as aprisionam, as comprimem em pote rotulado.

Cada mulher é única. Agradeço pelo “elevado coeficiente intelectual”, rotulado no primeiro artigo, mas dispenso esse e outros rótulos. Proponho não apenas a retirada do rótulo único do pote, mas a quebra definitiva do único e soberbo pote de vidro. Rótulos cuidadosos, cientificamente pesquisados, amigavelmente descobertos – se é que rótulos são realmente imprescindíveis –, colocados em cada vidro com sua história de vida, apontam para uma direção mais saudável.

Acesse:
http://www.avidadejesus.blogspot.com

2 comentários:

  1. Eu também fui lançada no pote. Nem deles nunca me fez uma pergunta sequer! Parabéns pelo blog! Precisava ser divulgado!

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    1. Obrigada, Maria! Não importa quanto tempo tenha passado, nem o que tenham nos feito, podemos sair desse pote, sempre. Há Alguém que nos fortalece. Carinho,

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