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domingo, 17 de janeiro de 2010

Endometriose, câncer e reposição hormonal


A endometriose é considerada uma doença benigna. Sim, ela é benigna, na maioria das vezes. Mas existe uma porcentagem de casos em que há transformação maligna. Isso significa que a endometriose pode, sim, se transformar em câncer.

De acordo com pesquisadores japoneses, em um estudo intitulado Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon, a transformação maligna da endometriose ocorre em cerca de 1% dos casos, na maioria das vezes no ovário (78,7%). Já 5% dos casos estão relacionados à endometriose intestinal. Se a estatísticas estão corretas, a transformação maligna é remota. Entre 100 pacientes com endometriose, ocorre câncer em uma. No artigo, está escrito “ocorre câncer”. E não, “pode ocorrer”. Parece que necessariamente 1% das mulheres são atingidas. Veja a frase em inglês: “Malignant transformation of endometriosis occurs in 0.7–1% of patients with endometriosis, with 78.7% of the cases occurring in the ovary” (grifo meu). Em mil pacientes, dez terão câncer.

Provavelmente, pela estatística acima, oito terão no ovário e uma tem a probabilidade de ter no intestino. Cálculos matemáticos óbvios. Os autores chegam a conclusão dos 1% com base em outro estudo conduzido em 1990 por Heaps e Nieberg (Heaps JM, Nieberg RK, Berek JS. Malignant neoplasms arising in endometriosis. Obstet Gynecol 1990;75:1023–8). Portanto, a estatística do 1% é de 1990. Esse índice se mantém? Talvez sim. Além da dor, da infertilidade, do inchaço abdominal e outros sintomas, por que adicionar mais uma preocupação? A pior de todas as preocupações? A palavra câncer é assustadora. Não li relatos que oferecem detalhes sobre o câncer proveniente da endometriose. Não sei como avança, qual é o prognóstico. De qualquer forma, simples não é. Não podemos deixar de considerar a seriedade da doença e suas implicações, sem perder o compromisso com o otimismo.

Escrevo sobre esse tema para alertar sobre uma informação que considerei muito relevante. Nas mulheres em que a endometriose se transformou em câncer havia relação direta com reposição hormonal. Veja o que a pesquisa diz: Hyperestrogenism has been implicated as a risk factor for the development of cancer from endometriosis. The patient had been receiving high-dose unopposed estrogens for 14 years after a total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy [...]It is important to recognize the possibility of tumors arising from endometriosis when evaluating intestinal […]even in the patient who has previously undergone total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy, particularly if the patient has a history of endometriosis and has received hormone replacement therapy. (Tradução: "O hiperestrogenismo tem sido relacionado como um fator de risco para o desenvolvimento do câncer da endometriose. A paciente havia recebido alta dose de estrógenos durante 14 anos após uma histerectomia total abdominal e salpingo-ooforectomia bilateral [...]. É importante reconhecer a possibilidade de tumores resultantes da endometriose intestinal [...] mesmo em pacientes que já se submeteram a histerectomia total e salpingo-ooforectomia bilateral, particularmente se o paciente tem uma história de endometriose e tem recebido a terapia de reposição hormonal."

Estatisticamente, a possibilidade de ter câncer é mínima. Mas como o artigo diz é importante ver a relação entre transformação maligna da endometriose e reposição hormonal. Esse artigo não é único. Há outras pesquisas que apontam para essa relação. Para quem deseja conversar com seu médico sobre o assunto, aqui está o link do artigo: http://jjco.oxfordjournals.org/cgi/reprint/35/3/154.pdf (Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon). Glossário: Hiperestrogenismo: excesso de estrógeno, que pode ser provocado por reposição hormonal. Histerectomia: cirurgia para retirada do útero. Ooforectomia: retirada do ovário.



7 comentários:

  1. Eu descobrir que estou com endometriose no implante peritonel.Tenho 23 anos, descobrir essa doença emquando tentava engravidar a 2anos e sem sucesso.Confesso que esta doença esta acabando com meu auto estima.

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  2. Resposta (Moderação Blog)22 de novembro de 2010 13:15

    Sei o quanto é difícil. A endometriose que tenho também não é simples. Descobri a doença em estágio muito avançado. Antes, eu não me importava com o que comia, geralmente trocava o almoço por lanches e doces, não fazia exercícios físicos. Uma vida de muito stress e erros. Agora, fiz mudanças, e realmente estou muito melhor. Mas houve momentos em que me senti muito triste. Senti desespero. Mas acredite, você pode superar a endometriose. Pode mantê-la sob controle, alcançar seus sonhos. Como disse, quero voltar a escrever, depois que passar essa fase de maior correria. Quero contar com mais detalhes como tenho buscado superar essa doença. Sou pesquisadora universitária, mas mantenho além da confiança na ciência, a confiança em Deus. Estarei orando por você. Não desanime!!

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  3. Você é pesquisadora em que área? É estudante de algum curso da área de saúde?

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  4. Resposta (Moderação Blog)

    Faço pós-doutorado e estudo a saúde com enfoque sociológico. Mas o blog diz respeito a minha vivência e a pesquisas de interesse pessoal.

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  5. Fiz uma salpingo-ooforectomia bilateral, devido a endometriose severa, em 8/2/11. Tinha dor incapacitante, varios endometriomas,meus ovarios estavam completamente comprometidos. Estou tendo problemas de aceitacao, pois sou nuligesta e tenho apenas 34 anos...

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  6. Resposta (Moderação Blog)

    Escrevi um texto no blog em resposta a sua mensagem: "Uma mulher de 34 anos, como eu."

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  7. Temos de ter esperança. Também tenho endometriose ainda não sei o grau, o meu sonho é ser mãe... o único sonho da minha vida! Estou à espera da consulta para diagnósticos mais precisos...
    Tenho seguido as recomendações da bloguista, sol, exercício e boa alimentação, esqueci-me do açúcar, mas também não aprecio nada doce e daí ter-me esquecido! De qualquer forma não tem resultado, pelo contrário, voltei a tomar a pílula porque não parava de perder sangue (e ainda não parou).
    Não acho que seja por isso, mas sim pelos meus erros, tive uns meses muito stressantes, a descoberta, a ansiedade e acima de tudo o receio de não poder vir a ser mãe desgastou-me muito mais do que as minhas boas atitudes. Mas é a fase pela qual todas nós passamos. E no meu caso não vale a pena sofrer por antecipação, não sei como evitar.

    Vou iniciar novamente direitinho as recomendações e evitar os stresses :)
    Espero daqui uns tempos também poder dizer que comigo resultou.

    Obrigada pelos vossos testemunhos, fazem-me sentir que não estou só.

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