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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Uma mulher de 34 anos, como eu



Escrevi que a médica Jan Caravaglia nos convida a amar a vida. Pode parecer um conselho a la Poliana, afinal de contas, ela recebeu dois diagnósticos de câncer, mas não era câncer. Com os ovários doentes, tentou engravidar por anos seguidos. Demorou oito anos, mas conseguiu. O primeiro casamento não deu certo e terminou em divórcio, mas ela se casou novamente, formou outra família. Sua profissão é um tanto assustadora para a maioria das pessoas, mas ela é uma médica conceituada, escritora, profissional bem remunerada. E se teve endometriose, venceu e realizou sonhos. Assim, parece fácil dizer: ame a vida, seja grato, compartilhe as boas coisas, sorria, busque a paz.

Não, o mundo não é maravilhoso. Para alguns, ele parece ser mais fácil do que para outros. Mas sua imprevisibilidade faz com que todos nós, de alguma forma, tenhamos a porta da vida arrombada com dor, sequência de dores, pelo que é triste. Acontece sempre com intensidades variáveis e desfechos diferenciados – um continuum. Aconteceu comigo, e é difícil manter o verbo no passado quando se tem endometriose. A endometriose é para muitas mulheres um continuum. Adere aos dias, espalhando-se por anos, comprometendo sonhos, reeditando o corpo num total insolúvel quando órgãos, colando-se entre si, perdem-se na capacidade de resistência. Aderências redefinindo os traços internos – os órgãos juntam-se, funcionam em meio a focos de sangue, os órgãos falham e, às vezes, se fazem ausentes.

Como aceitar o lócus de sangue, ainda tão deficientemente entendido pela medicina, que incontrolavelmente luta por territórios – o território que somos nós, cada peça viva e interna que nos compõe e deveria nos pertencer, sem concessões? Chorar pelos nossos órgãos é legítimo, mas não é tudo que nos resta. Pode-se lutar, ainda, junto deles e vencer. Sim, acredito. E agora, além de crer, eu sei. Igualmente, pode-se também reviver após perder alguns deles ou todos eles que nos dariam filhos.

A você, minha querida, de 34 anos, como eu, a minha tristeza por aquilo que se perdeu na batalha dolorida contra a endometriose. Sinto muito. Li a mensagem que me enviou, e sua dor faz parte de mim também. Você escreveu:

Fiz uma salpingo-ooforectomia bilateral, devido à endometriose severa, em 8/2/11. Tinha dor incapacitante, vários endometriomas, meus ovários estavam completamente comprometidos. Estou tendo problemas de aceitação, pois sou nuligesta e tenho apenas 34 anos...

Se ler esse texto, saiba que você está nas minhas orações, coloque-me nas suas também. Sou apenas uma mulher de 34 anos, nuligesta, que há dois anos perdeu o ovário direito, mas mantém um deles, ainda que unido a um endometrioma contra o qual tenho lutado. Não somos iguais na dor. No plano humano, não há igualdade na dor.

Gostaria de lhe dedicar uma flor em forma de música. Está no site da musicista Ana Caram: http://www.anacaram.com.br/. Clique em Discografia, depois no segundo álbum, o CD Pura Luz. Encontre a música 10, ouça. Ele está com você.


PS.: Escrevi sobre a relação entre reposição hormonal e câncer – texto para o qual você enviou sua mensagem. Não precisa ser assim. Há um caminho para vencer essa associação. Recomendo a leitura do livro de David Servan-Chreiber, “Anticâncer” (Editora Fontanar, 2008). É mais do que um livro sobre câncer, é um livro para a vida, escrito por um rapaz que aos 30 anos venceu um câncer no cérebro e, após quase uma década, a despeito de tudo que se perdeu, venceu um segundo câncer. Muitas perdas, mas um desfecho transformador.

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