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quarta-feira, 9 de março de 2011

Sem culpa


9 de março de 2011

O mundo é hiperestrogênico. Estrógeno provoca endometriose. Por isso, não quero carregar a culpa pela doença. Nem por meio da culpa, buscar a saúde. Rejeitar a culpa não é negar mudanças. Mudar é, sobretudo, decidir que a vida pode ser leve e feliz. Que a alimentação natural é fonte de prazer. “Tu não deves” passa a ser: “eu quero, porque quero. E ponto.” É um bater o pé para selar amizade – a autoamizade.

No último exame, pensei: fiz mudanças, mas também falhei tanto. Não amei as pessoas como deveria, não segui o conselho de Renato Russo – é preciso amar as pessoas... Quero o nome mais bonito pra mim, mas jamais será um nome santo. É preciso amar a si mesmo, como se não houvesse o amanhã – sem o peso do futuro, sem o peso do passado. Somos reais e falhos. Mas como é difícil aceitar isso.

Na sala de espera, fazia promessas: perdoar mais, amar mais, relevar mais. As horas foram passando. O médico das imagens atrasou, simplesmente, quase três horas. Normalmente, demora uma hora para começar a ultrassonografar meu abdômen. Naquele dia, teve uma urgência. Precisou atender a uma mulher com dor, devido à torção no ovário. Teve dificuldades em deslocar o sangue velho e preso sem que se perdesse o órgão ou espalhasse as células endometriais. Explicou-me depois.

A última hora de espera foi na maca, na penumbra, entre máquinas de alta tecnologia. Ali, reconheci que errei: não amei como se ama em Monte Castelo, de Russo – o roqueiro genial que buscou no capítulo 13 de I Coríntios, livro da Bíblia, a letra de sua música. Ainda que eu falasse a língua de homens e anjos, sem amor, eu nada seria... Sofri com a indiferença da minha família. E não perdoei por algum tempo. Ressenti-me com o sucesso profissional de uma amiga, porque lamentei por desejos meus não realizados... Ali, na sala do exame, disse-me, na retrospectiva de seis meses, que pesavam na consciência: errei, erros, não perdoei...

Sem internet ou revista em mãos, na posição de espera, esticada na maca, ainda não perdoava, ainda errava. A culpa é pesada, ela dói, arraiga-se e espalha-se, prejudicando-nos. Aos poucos, como diálogo em prece, no tempo de silêncio, repensei outras coisas... Primeiro, é preciso amar a mim mesma. Se errei, devo me amar. Se amo, não há culpas, nem me culpo, nem há culpados. O fogo da consciência pode estar presente, mas ele não arde. A ferida dói, no reconhecimento do erro, mas não se sente. A dor tem que desatinar sem doer. Depois da face agredida, é expor a outra ao perdão, sem estapiar-se, protegendo-me de mim mesma, para ser possível me proteger do mundo e também recebê-lo sem receios. Para ser possível estar só e inserida na multidão. Para protestar pelo erro, num contentamento descontente. Ressurgir como em Ressurreição, de Tolstói – o livro, de todos os livros, que me atravessou, intensamente.

Fechei os olhos, e sorri. Estava em paz. Pouco depois chegou o médico transtornado com a urgência que teve de atender. Pela primeira vez, eu pensava em me amar primeiro, sem o peso da autocrítica habitual. “Amar como a mim mesma”, Ele disse. O resultado do exame foi maravilhoso, pelos motivos que já contei no texto anterior. A endometriose diminuiu!

Mudar a vida – hábitos, alimentação, emoções – por causa da endometriose, mas mudar com prazer, para celebrar a vida pela vida, não movidos por culpa. Como disse Russo, é um estar-se preso por vontade. Nessa prisão libertadora da vida reescrita e musicalizada, com amor.

2 comentários:

  1. É incrível, mas às vezes parece mais fácil amar nosso próximo do que amar a nós mesmos. A endometriose me fez parar para pensar com mais carinho em mim. Me cuidar, me amar mais. Nesses últimos dias não tenho me cuidado. Não tomei café da manhã para não perder tempo no trabalho. Almocei cachorro quente e refrigerante. Não tenho ido a academia nem tomado meus florais e vitaminas. Trabalhei muito. Estou me sentindo culpada e mais uma vez com raiva de mim mesma. Estou sentindo dores. Fico imaginando o que pode estar acontecendo aqui dentro... Foi bom ler o blog hj. Tenho que me perdoar e me dar mais uma chance sempre. Como é difícil manter a disciplina. Amar a Deus é amar a nós mesmos tb. Amar a obra de Deus e nos tratar com carinho. Fico muito feliz por sua constante melhora. Vc chega lá!!!
    Daniela.

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  2. Oi, Daniela:

    Como é importante o que você diz! Aquilo que queremos fazer, muitas vezes não fazemos. Mas saber o que tem que ser feito já é uma vitória. É sobre a construção de uma nova maneira de viver, que vai surgindo gradativamente, entre retrocessos e conquistas, que fala o livro "Ressurreição", de Tolstói. Ressurgir aos poucos, sem desistir. Tolstói, assim como Dostoiévski, se alimentou da Bíblia para construir histórias. Incrível. Para religiosos ou não, cristãos ou não, a Bíblia traz uma história, interessante para todos, sobre fazer o que não se quer, e deixar de fazer o que é imprescindível e urgente. História de todos nós. História de Paulo. Ele percebe que está errado. Percebe que precisa muito de Cristo, em quem reconhece o Salvador. Então ele diz: “Tudo o que eu quero é conhecer a Cristo e sentir em mim o poder da sua ressurreição” (Filipenses 3:10). “Tudo o que eu quero...”, que desejo forte, que o diferencia como homem. Tolstói em sua própria vida e na vida de seus personagens que surgem após sua conversão queria, como Paulo, ressurgir – a Ressurreição... Quanto a Paulo, após um encontro marcante, surgiu nova compreensão da vida: “Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço” (Romanos 12:19). Sim, o São, Santo Paulo ou o apóstolo Paulo ou o intelectual Paulo de cidadania romana era assim: falho. Essa é a essência da natureza humana. Somos assim, impotentes. O que chama a atenção é o que ele diz depois: “Porém uma coisa eu faço: esqueço aquilo que fica para trás e avanço para o que está na minha frente. Corro direto para a linha de chegada a fim de conseguir o prêmio da vitória. Esse prêmio é a nova vida para a qual Deus me chamou por meio de Cristo Jesus.” Para Paulo, a meta era o encontro com Cristo na vida diária, pois ele havia descoberto que Cristo promete retirar a culpa do seu dia a dia: “Agora já não existe nenhuma condenação (culpa) para as pessoas que estão unidas com Cristo Jesus” (Romanos 8:1). Que descoberta! Paulo leu: “Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar” (Miqueias 7:19). Se Deus faz isso, por que não aceitar que seja feito? Para as profundezas do mar... O que diferencia Paulo e os personagens dos escritores russos aos quais estou no momento com certo interesse fixo (rsrs) é o “sempre” da determinação, ainda que imperfeita. E sua fé. Mas para nós, a meta é superar a endometriose – uma doença que não é simples, embora a novela brasileira (com a personagem de Camila Pitanga absolutamente sem dor, numa exceção que não retrata a realidade geral sobre endometriose profunda) simplifique a doença de maneira irresponsável; ou quem não vive o que vivemos não compreenda a dor que isso envolve. É bom refletir sobre onde erramos, mas é ainda mais necessário esquecer o que passou, se livrar da condenação, e recomeçar “sempre”, como você disse. Daniela, nosso organismo tem uma capacidade incrível de se recompor. Vamos juntas recomeçar sempre. Pelo que vejo, minha alimentação possivelmente foi muito pior do que a média, por causa do meu gosto pelos doces, da troca de almoços por doces... (Hoje, como frutas e outras invenções doces, mas saudáveis). Mudei, com muitas recaídas, e meu organismo, ainda assim, respondeu de maneira incrível. Você vai superar a endometriose! Deus está com você. Ele está onde você está, e a aceita como é. Ele tem planos para sua vida!

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