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domingo, 24 de julho de 2011

Centelha

24 de julho de 2011


Inverno límpido. Um encontro da família de meu marido. Hoje, conheci o jardim fitoterápico de uma de suas tias. Cultivado por mãos especiais, há essências verdes de cura médica nesse canteiro de pequenas dimensões e cobertura variada, cromática e delicadamente multiforme. Entre as hastes esguias e elegantes das cavalinhas se encontram as três espécies da mais admirável das plantas – as aloés. Essência forte, subversiva, de sabor fel, de flores vermelhas e amarelas, folhas imponentes retas e espreguiçadas, de pinturas riscadas em folhas carnudas, carregadas de vida – vida –, que tantas pessoas almejam reter, que tantos estão perdendo sem que, ao menos, suspeitem que num jardim cresce, em silêncio, a segunda chance.

Aloés vigorosas de extensões inteiras com cor e semitom esverdeados, também de verde uniforme. Crescem cultivadas. Para quem já viu tantas delas e conhece seu licor interno, hoje foi um dia único. Jamais tinha visto aloés como as que encontrei nesse canteiro. Mais adiante, manjericão, hortelãs, o vento a mover pequenas folhas estufadinhas – bálsamos. “É só comer alguns pedaços dessas folhas, após o almoço, que a digestão se normaliza”, explicou a mulher que cultiva seu jardim com estética medicinal. Moradora de uma cidade ágil e acimentada, ela aprendeu aos poucos, com conversas e leituras, a importância daquele verde restrito a centímetros sensivelmente multiplicados. Uma mulher como qualquer uma de nós, na sua vida longe do campo. Mas que soube me dizer, enquanto limpava a mão suja de terra: “Entregue-se à leitura. Procure saber. Há tanto que descobrir.” É noite, estou cansada, mas sinto a centelha desse encontro. Por isso, escrevo.

Na casa, mostraram-me alguns livros que haviam acabado de chegar da Espanha. Presentes de um amigo. Dois volumes de uma obra fitoterápica escritos por um médico espanhol e publicados por uma editora de Portugal. Nos parcos minutos que me restavam ali, folheei o quanto pude, tão rápido quanto foi possível. Lendo e observando a sucessão de plantas e as indicações. Diferentemente de outras obras, naqueles livros havia informações históricas, medicinais e instruções precisas de como utilizar cada planta, com suas respectivas indicações. Sobre o alho – lilácea, assim como as aloés – uma recomendação exata referente ao uso diário. A sugestão era de um a três dentes todas as manhãs. Para evitar o hálito, ainda que com perda de propriedades essenciais, o médico indicava outras formas de uso. Li também sobre a onagra e seu óleo prensado a frio proveniente da flor amarela da planta. Uma das essências fitoterápicas mais valiosas para a saúde da mulher, dizia o livro. Conhecida também como prímula, essa planta ativa o funcionamento dos ovários. Remédio para a endometriose.

Fechei o livro e fomos. Havia muito que conversar, pessoas a rever, outros encontros. Minha sogra deve ir à Espanha daqui alguns meses e trará os livros. Livros são importantes, mas centelhas são mais. Palavras podem resignificar trajetos, mas jardins com suas cavalinhas ao vento, entre aloés, emitem luz e sons vivificantes. Quantos são capazes de sentir essa sinfonia? Para um vizinho, ela cultivou a planta, fez o composto e ofereceu. Ele está com câncer. Ao sentir o fel, negou-o. Prefere não ver, nem sentir, nem ouvir o que tem naquela planta que já salvou a tantos. Silêncio. Ela, a mulher, entristeceu sem lamentos. Prossegue seu cultivo de variadas folhas e seivas, aos poucos certificadas pela ciência tardia. Simples, terreal, no jardim sem nome e sem crédito. Para os que ousam saber e sanar suas dores, para os que sentem necessidade do bálsamo-tranquilo, compartilhando o que dia a dia é cultivado devagar e substancialmente, há muito o que descobrir. Sim, há medicina entre relvas de canteiros diminutos incrustados em grandes cidades.



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