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domingo, 14 de agosto de 2011

Para Anita

14 de agosto de 2011

Aproveitando a oportunidade queria lhe perguntar mais uma coisinha!!! Sobre a linhaça e ômega3, você tem alguma experiência com eles? Bjs. Obrigada. Anita.

Oi, Anita:

O uso de ômega-3 é bastante recomendável pelos médicos, como sabemos. Esse óleo é anti-inflamatório e, por isso, previne e combate o câncer, por exemplo. Quanto à endometriose, um dos mais importantes estudos já feito, que correlaciona a doença aos hábitos alimentares, chegou à seguinte conclusão: mulheres que consumiam ômega-3 tiveram 22% menos probabilidades de serem diagnosticadas com endometriose, enquanto mulheres com uma dieta rica em gordura trans tiveram 48% mais chances de ter a doença. Publicado na revista científica Human Reproduction, o estudo foi feito com mais de 70 mil mulheres de 1989 a 2001, sob a coordenação de Stancey Missmer, da área de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva do Hospital Brigham e da Harvard Medical School, em Boston, Massachusetts, EUA (Veja aqui). Missmer afirma:

Milhões de mulheres no mundo sofrem de endometriose. Muitas mulheres têm procurado algo que podem fazer por si mesmas, ou suas filhas, para reduzir o risco de desenvolver a doença. Esses resultados sugerem que mudanças na dieta podem ser algo que podem fazer.

Mas é preciso tomar cuidado com a fonte de ômega-3. De acordo com o médico David Servan-Schreiber, peixes gordos podem estar contaminados com mercúrio, PCB e dioxinas, abundantes no fundo do oceano. Essas substâncias provocam endometriose. Entre os peixes contraindicados, estão: atum, cação, peixe-espada e aqueles criados em cativeiro, sejam de água doce ou salgada, ou vendidos em latas. Os peixes congelados perdem progressivamente o ômega-3 ou estão contaminados devido ao uso, por exemplo, de monóxido de carbono para preservar a cor e o sabor. Segundo matéria publicada no New York Times, um dos peixes mais vendidos, a tilápia, tem pouca quantidade de ômega-3 (o salmão tem dez vezes mais) e mais ômega 6, que deve ser evitado. Por isso, a tilápia predispõe o organismo a doenças (Veja matéria). Sendo assim, que peixe comer? Sobram como recomendável, por exemplo, a sardinha e o salmão, desde que não sejam de cativeiro.

Mas é possível encontrar fontes de ômega-3 em outros alimentos. Uma opção parece ser os suplementos. No entanto, há controvérsias. Para o nutrólogo e cardiologista Daniel Magnoni, muitos acham mais fácil ingerir suplementos do que buscar a nutrição na comida. Magnoni afirma:

A situação nutricional do brasileiro é compatível com as piores expectativas da atualidade [...]. O maior tempo dedicado ao trabalho leva a um consumo crescente de alimentos industrializados, prontos e com excesso de sal, açúcar e gordura saturada, além da opção pelo fast food. A manipulação dos alimentos na forma natural, principalmente frutas, legumes e verduras, está sendo relegada ao segundo plano do planejamento doméstico. Ao mesmo tempo, cada vez mais observamos a popularização do uso de suplementos de minerais, como cálcio, potássio e zinco, ou de vitaminas, na tentativa de suprir uma necessidade artificial, criada pela publicidade. É mais fácil tomar uma pílula do que comer três porções de frutas e vegetais todos os dias (Para assinantes).

É mais fácil tomar suplementos, mas será que faz bem para a saúde? O médico diz que devemos buscar os nutrientes nos alimentos, não nos suplementos, que erroneamente são indicados por muitos profissionais de saúde. Mas será que os suplementos podem ser perigosos? Sim. A médica norte-americana Jan Caravaglia menciona a morte de uma mulher que tomava mais de 24 suplementos diariamente. Um caso extremo. De acordo com pesquisa feita na Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, e publicada na revista especializada British Medical Journal, os suplementos de cálcio podem aumentar o risco de ataques cardíacos em mulheres idosas. O cálcio do suplemento se deposita nos vasos sanguíneos, levando a obstruções (Veja aqui). Sobre o ômega-3, um estudo feito por várias universidades franceses, entre elas, a Sorbonne, indica que os suplementos não reduzem doenças cardíacas. A pesquisa foi feita com 2.500 pacientes por quatro anos. Assim, uma das conclusões a que se chegou é de que o consumo de alimentos não deve ser substituído por suplementos (Para assinantes). É importante dizer que sobre o uso de ômega- 3 não há consenso. Pesquisa publicada no American Journal of Epidemiologyu indica aumento de câncer próstata com o uso de ômega-3 em suplementos (Veja aqui).

Como já disse, eu usei suplementos. De maneira geral, me senti melhor. Mas naquele período, a endometriose cresceu um pouco. Mas, como conseguir ômega-3 em alimentos? Essa resposta inclui a segunda parte de sua pergunta: com linhaça. Ela ajuda a equilibrar a atividade dos hormônios e a reduzir a inflamação. Ela pode ser moída e misturada com outros alimentos. Mas embora eu só tenha lido indicações positivas em relação à linhaça, não tenho feito uso regular dessas sementes. Ainda não incorporei esse hábito, mas tenho usado, com moderação, nozes, sementes de girassol, tahine, quinua – importantes fontes de ômega-3. Folhas verdes também são fontes de ômega-3.

É preciso considerar que a constatação dos benefícios do ômega-3 partiu da análise da dieta de determinados grupos de pessoas que comiam peixes e tinham uma alimentação mais saudável. A partir daí, a indústria criou uma necessidade artificial baseada na venda de suplementos. Publicidade perigosa. Agora, a própria ciência tem contestado os benefícios dos suplementos. Mais do que isso: tem concluído que suplementos podem provocar doenças graves. Diante de todas essas pesquisas, minha experiência tem sido a seguinte:

1. Não uso suplementos. Prefiro as vitaminas presentes nos alimentos e em refeições saudáveis. Isso não é fácil. Às vezes, levanto mais cedo, para preparar minha comida. Na medida do possível, procuro diminuir também meu tempo de trabalho para me dedicar a uma vida mais equilibrada. Sei que isso nem sempre é possível. A dica é procurar por bons restaurantes vegetarianos ou orgânicos, com refeições saborosas e saudáveis. Há restaurantes simplesmente incríveis!

2. Mesmo sendo bom e recomendável, procuro não exagerar em apenas um alimento. Quanto o assunto é ômega-3, acho que o consumo precisa ser bem
moderado e bastante variado.

3. Procuro informações. Tantas informações diferentes que, por vezes, contrastam com recomendações de alguns médicos podem provocar um sentimento desnorteador. Mas gosto muito de ler essas diferentes opiniões fundamentadas em pesquisas científicas sérias. Leio as pesquisas, comparo as informações, faço as experiências na minha dieta e chego as minhas conclusões. Além do mais, procuro deixar a ansiedade de lado. Sei que o peixe, embora nutritivo, está cada vez mais contaminado, assim como outros alimentos saudáveis. É importante saber. Mas quando viajo, como salmão. Às vezes, é a refeição mais saudável que encontro. Além disso, em vez de praticar a restrição alimentar, procuro diversificar minha dieta, experimentando novos sabores e receitas. Há algumas semanas, por exemplo, tenho usado aspargos frescos, comprados na feira. Fiz uma torta integral com aspargos e palmito. Ficou ótima. Em vez de complicada, a vida pode ser mais saborosa e prazerosa com a variedade de informações e nutrientes saudáveis a nossa disposição.

Anita, obrigada por escrever! Desejo boa sorte no seu tratamento contra a endometriose!




PS.: O NYT começa seu artigo sobre os peixes com uma referência sobre um milagre que ocorreu no mar da Galileia (Veja aqui). Assim, para falar de algo mais importante do que a comida, sugiro a leitura de uma história linda sobre a fonte da saúde, no texto Milagre no mar da Galileia.














Criação de tilápia: um problema ambiental e de saúde. Peixes alimentados com ração de soja ou de milho são ricos em ômega-6 (gordura ruim em grandes quantidades) em vez de ômega-3, um óleo saudável.

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