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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A terra prometida


14 de novembro de 2011


Queremos ter uma terra. Um lugar em que não existam fumaças escuras nem poluição química que se movimenta no ar sem que ninguém se dê conta. Esse desejo tem a ver com minha infância vivida ao lado da roça. Minha casa era a última da cidadezinha. Nosso quintal se multiplicava infinitamente com a terra e mata a perder de vista, onde eu corria junto com um cão fila de pêlos cor de castanha que nunca soube morder ninguém – um cão de guarda desmoralizado, guardador de crianças, que adorava brincar de cabo de guerra. Com mandíbula boba, o cão podia até ameaçar atacar um desconhecido, mas jamais o feria. Um cão próprio para os ares pacíficos daqueles tempos. Vivíamos em paz. Ninguém perdia a vida ou sofria nas mãos dos maus.

Sob o olhar do meu pai, pulávamos com o cão na mata, ouvindo aqui e ali um chocalho que diziam ser de cobra. Mas nunca vimos uma nos domínios do campo, embora meu pai, à época um sócio-gerente de empresa, tenha chegado a encontrar uma falsa coral no terraço de casa nos domínios do urbano. Mantendo-nos a distância, ele brincou com aquele filhote deslizante, tirou fotos e liberou a pequena em sua casa, no mundo ao lado. Havia sábados em que meus pais montavam a cesta de piquenique e seguíamos caminho de terra a dentro, ao lado de minas brotando pela terra pálida e fértil, povoada por pés de café e nichos generosos de mata intacta. Meus pais não moram mais naquela casa situada em uma das pontas da cidade, que oferecia o melhor da vida urbana no campo – a extensão verde e selvagem da minha infância nutrida por muitos dias de céu azul ou de chuva suave. A natureza era calma. Depois de tantos anos, aquela cidade enriquecida engoliu o campo. Só na memória não há cimentos nem fábricas.

A necessidade de superação da endometriose trouxe de volta a imagem da criança com seu cão e a natureza. Imagem que por tanto tempo mantive quieta. Ao ler sobre a importância de uma vida desacelerada, sobre o valor da água e do ar puro, sobre o alimento cultivado de maneira a respeitar a terra, lembrei-me dos tempos idos. Saí de lá para ganhar o mundo. Morei em vários lugares, estudei em universidades, conheci meu marido e cheguei a esta cidade, com suas oportunidades e sentenças. Foi aqui que conheci a dor da endometriose.

Precisamos voltar no tempo, parar o tempo. Encontrar um lugar onde os minutos não avançam o sinal da sanidade. Queremos ter uma terra. Conhecemos toda a área rural da região onde moramos. Nenhuma semelhança com minha antiga casa metade-cidade-campo. Toda vez que estávamos prestes a fazer um negócio, encantados pela oferta de vida bucólica, descobríamos as vilezas do lugar – chocalhos reais da violência que avança. Contaminação ambiental, assaltos, crimes, insegurança, brutalidades alimentadas pelo tráfico e uso de drogas. O crack se espalha por este país.

Depois de muitas tentativas e desfechos frustrantes, pensamos em ir para um condomínio com terrenos mais amplos que preservassem um pouco da natureza. O marketing habitacional é hábil em identificar nosso DNA ancestral edênico ao nomear esses feudos de “Colinas...”, “Jardim...”, “Estrelas...” Meu sonho de infância pareceu reviver quando encontramos um condomínio no centro da cidade vizinha. Estar dentro da cidade e, ao mesmo tempo, no “campo”, com segurança, nos pareceu a solução perfeita. Mas como perfeição não existe, o condomínio está rodeado de antenas, tem como vizinho um cemitério centenário (que pode contaminar o lençol freático) e uma delegacia de polícia superlotada que fere a decência humana. No entanto, comparativamente ao que tínhamos visto, o lugar ainda parecia excelente pela beleza e aparente segurança – não havia registro de assalto ali, enquanto outros condomínios são alvos da invasão de bandidos armados.

Pessoas compram chácaras e casas em condomínios sem saber que esses lugares têm se tornado muito perigosos, mesmo nas regiões mais interioranas e nos estados mais ricos do país. Fomos à delegacia para ver os boletins de ocorrência do local e acessamos dados da Secretaria de Segurança Pública. O lugar era realmente seguro. Mas antes de fechar negócio, fomos à prefeitura, conversamos com o engenheiro, fomos ao cartório e falamos com moradores. Decepção – os terrenos têm escritura, mas por um erro na documentação da empresa que construiu o condomínio, as casas não podem ser averbadas. Um funcionário público, sem saber disso, comprou o terreno, contratou uma construtora e adiantou os valores. Por causa dessa irregularidade, o fundo de garantia (FGTS) não pode ser liberado. A fim de pagar a construtora, vendeu sua casa por qualquer preço e entrou em dívidas. Agora, não consegue vender a casa construída, pois não pode ser financiada. Diante da situação, desesperou-se e acabou sofrendo um sério problema cardíaco. Levado pela promessa de uma vida de paz, pela aparência do lugar e pelos moradores ilustres, ele perdeu de vista informações essenciais. Há sonhos que cegam e cerram a vida. Mas sempre é possível se reconstruir. A despeito de nossos erros e acertos, somos a habitação mais importante.

Depois desse quase-negócio, pausa. Estávamos cansados, embora gratos a Deus por não termos feito a escolha errada. Mas após algum tempo, retomamos a busca. Meu marido me levou para conhecer um condomínio que havia encontrado pela internet, ao lado de montanhas, distante 80 km de nossa casa. Com água de mina e paisagem de tirar o fôlego, a região também apresenta índices baixos de violência. Ao visitar o lugar, avistei chácaras mais distantes, entre montanhas. Fomos até lá após percorrer uma estrada de terra solta, apinhada de pedras pelas encostas. Encontramos um sítio de 22 mil metros, com nascente de água, um rio pequeno correndo entre a mata preservada – visão deslumbrante. Para saber a verdade do lugar é preciso conversar com muitas pessoas. No conjunto dessas falas, você se aproxima da realidade. Há muita gente que omite ou falsifica informações para não desvalorizar seu chão. Mas ainda há os que falam o que precisa ser falado.

Foi uma experiência antropológica, uma reportagem extensa tendo como cenário aquele verde hipnotizante que a todo momento parecia me implorar majestosamente: compre de olhos vidrados... Resistindo ao ímpeto, continuamos a checar os fatos. A verdade não vem fácil, é uma conquista – precisamos desejar encontrá-la. Conversei com um técnico da Casa de Agricultura, o responsável pela Sabesp, uma geóloga com mestrado e doutorado em agronomia que dedica a sua vida a recuperar terras inférteis (a terra desse sítio é arenosa), um químico que analisa a toxicidade e potabilidade da água (embora a água seja de mina, pode estar naturalmente com excesso de fluoreto – um risco para a saúde), um geólogo, moradores...

Além de tomar ciência da química da terra e da água, conhecemos pessoas maravilhosas. O mais reservado de todos nos convidou para ir até sua casa e nos ofereceu um copo de água. Após nos verem pela primeira vez, dois moradores nos acompanharam no reconhecimento da área. Um senhor de 70 anos e o marido de uma secretária aposentada de São Bernardo nos guiaram entre a mata preservada. Uma pequena floresta de cambarás verde água floridos compõe o pelotão de frente. Chegamos às minas de água e ao riozinho correndo entre pedras lisas e esverdeadas. Nenhuma cobra, poucos insetos e muitas folhas de árvores gigantescas a obstruir a visão do céu com sua copa desgrenhada. Os cipós se lançavam em apoio aos passos vacilantes. A raiz de uma grande árvore segurava a encosta solidificada, enquanto o senhor de 70 anos, que mora ali há dez, media a profundidade da piscina de rocha esculpida ao acaso e, ao mesmo tempo, dizia com generosidade surpreendente: “não comprem a metade do meu terreno que eu havia oferecido a vocês, comprem aqui. Esse lugar é incrível.” O último sítio, da última rua, sem saída. Nesse lugar último, encontramos nosso chão – a terra se fez nossa ao menos naqueles instantes.

Fizemos a proposta de compra. Estamos esperando um retorno. No início, fiquei muito ansiosa. Mas agora, estou em paz. Entreguei nas mãos de Deus. Se for para o bem, tudo dará certo. Se não, o rio correrá em outra direção. “Por isso, quando a vida se desentende com o destino e descarrila em desgoverno no rumo do imprevisto, eu penso: talvez seja uma boa coisa... e eu acabe em lugares mais interessantes”, afirma a escritora-jornalista-literata... repórter Eliane Brum, no texto “A vida dos mortos”, que me emocionou profundamente (
Veja aqui).

No lugar de beleza rara, sonho em reunir mulheres que passam pelo que passei para contar, em meio à criação de Deus, como tenho superado a endometriose – um percurso de trilhas, diálogos, dificuldades, descobertas, ciências, preces e gratidão. Quem sabe ali, naquela terra arenosa candidata à fertilidade, eu conte a um filho (que, talvez, eu possa gerar ou que talvez eu receba de quem o gerou) o que Deus fez por ele. A promessa da terra prometida é para todas nós.

PS.: Neste fim de semana, estive com meus pais. Sábado, eu e meu marido fotografamos a chácara onde eles moram e lugares da cidade onde nasci. Abaixo estão algumas fotos que meu marido fez.

Para encontrar a cura, o caminho e a paz, leia sobre
A importância da insistência


Minha receita contra a endometriose, em linhas gerais:
Um caminho, entre tantos

Gramáticas da nossa vida











































4 comentários:

  1. O caminho da cura atravessa as paisagens naturais. Força sempre!

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  2. Enquanto você fotografava a mata, atravessei a rua. Ao lado do pé de limão, vi o pequeno pássaro branco. Comecei a conversar com ele delicadamente. Não queria que ele se fosse, até você chegar. Ele parecia entender. Ficou ali. Me olhava, às vezes. Então, pudemos ter sua imagem... Na foto das árvores junto a um banquinho vazio há tantas lembranças fortes, de um tempo que está junto de nós. Meu pai e minha mãe sentados ali. Nós todos conversando sobre o amor de Deus, sob o sol da manhã de sábado. Então, você viu aquela aranha "angorá" (uma tarântula de tamanho médio), que não representa perigo, saindo da grama verde e subindo no tênis de minha mãe. Ela se levantou um pouco assustada e sacudiu a aranha. Meu pai a pegou na mão e a levou a lugar mais seguro para ela e para nós (Essa falta de medo, ele trouxe da infância nos campos do Paraná). Que sábado feliz... Pela primeira vez, depois de anos visitando o lugar, fomos à chácara vizinha e encontramos uma cachoeira de mais de 30 metros. Ainda fico pensando como foi possível nunca vermos a cachoeira que estava ali, grandiosa, durante anos, do nosso lado... As sensibilidades vão se despertando... Sim, o caminho da cura atravessa as paisagens naturais.

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  3. "...bicho ruim baixa a cabeça e deixa o cristão passar" É um pequeno trecho q ainda consigo me lembrar da oração que minha avó ensinou. Ela deveria ser feita antes de de nos aventruarmos pelo mato. Me recordo que eu e alguns primos, em carrerinha de idades, a fazíamos na fronteira da estrada com o cerrado. Só depois da oração colocávamos os pés no verde do mato. Acreditávamos tanto que estávamos protegidos, blindados contra qualquer mal. Ouviamos os "chocalhos" mas nunca nenhum bicho se aproximou da gente. Era o anjo de guarda que não deixava. Era nossa inocência que trazia o anjo. Ainda hj senti falta dessa época, qdo tudo era fácil de acreditar. Tb almejo muito uma terrinha, sem barulho, poluição e com uma enoooorme horta! Que Deus abençoe o projeto de vcs. Que seja feito conforme a vontade dEle - a melhor forma possível.

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  4. Olá, querida Daniella:

    Que lindas lembranças de um tempo bom e feliz!! A poesia na sua infância no cerrado protegida pela canção... Gostei muito. Também entrávamos na mata com a criançada da família, tudo “escadinha”. Eu e minhas duas irmãs e meus dois primos. Também desejo uma enoooorme horta, apesar de eu estar “urbanizada de dar medo”. rssrs. Agradeço muito suas palavras e seu desejo da condução de Deus para esse projeto.

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