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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Endometriose e cafeína


19 de dezembro de 2011

Tenho acompanhado seu blog e vi uma notícia e lembrei de vc. Talvez seja interessante buscar mais sobre o assunto, segue:http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/efe/2011/12/16/tomar-cafe-reduz-risco-de-cancer-endometrial-diz-estudo.jhtm

Agradeço o comentário que você enviou para este blog! Obrigada pelo link da notícia. Muitas pesquisas recentes têm apontado para os benefícios relacionados ao consumo do café. Outros estudos acadêmicos apontam para os riscos desse hábito. As pesquisas científicas chegam a conclusões diferentes por causa de variados fatores: metodologia, cultura em que está inserido o cientista, fonte de recursos financeiros etc.

A cultura do café faz parte de minha vida, em vários sentidos. Minha mãe era uma consumidora voraz de café, desde sua infância. Chegava a tomar várias xícaras por dia. A abstinência lhe provocava tremedeira, ansiedade, crises de dor de cabeça etc. Após muita determinação, conseguiu superar esse vício. Por causa de sua experiência, minha mãe não quis passar esse hábito para mim e minhas irmãs. Mas embora eu não beba café, já utilizei cafeína de outras fontes. Por exemplo, em duas ocasiões precisei, após longas horas de viagem, dar palestras de três horas para pesquisadores. Usei pó de guaraná, que tem mais cafeína do que o café. Resultado: fiquei tão “disposta” e “produtiva” que não consegui desligar nem mesmo à noite. Naquela noite, não dormi (Quinze gramas de pó de guaraná pode ter aproximadamente 550 mg de cafeína. Essa quantidade pode desencadear doenças e se enquadra no que especialistas chamam de “cafeinismo”). A cafeína está presente em refrigerantes, chocolates, chás, além do café. Assim, embora não tome café, já ingeri muito mais cafeína do que se tivesse tomada uma xícara da bebida. Essa é uma situação comum. Por isso, muito facilmente os consumidores de café ultrapassam a quantidade de cafeína hipoteticamente considerada segura (pois, ainda não há confirmação sobre segurança no consumo da bebida), ao ingerir também refrigerantes e chocolates.

Para avaliar se é seguro ou não consumir cafeína, é preciso acompanhar as pesquisas e também olhar para os sinais que o organismo dá. Por isso, é necessário buscar informações e ter acesso a artigos científicos e notícias como a que você enviou. As notícias, em geral, não nos oferecem uma avaliação das diferentes pesquisas sobre determinado assunto. Frequentemente, divulgam o resultado de um estudo específico. Se a notícia divulga apenas uma pesquisa científica que aponta unicamente para os malefícios de um alimento, por exemplo, pode desestimular seu consumo. Se ao contrário, for noticiado somente um estudo que concluiu ser saudável fazer uso de um alimento, pode estimular a sua utilização. Assim como a ciência, o jornalismo noticia pesquisas (e outros assuntos) em função de vários fatores: credibilidade da fonte, cultura do jornalista, cultura da empresa jornalística, interesses institucionais diversos, interesses do mercado, tempo de apuração etc. Dessa forma, embora as notícias jornalísticas sejam fundamentais, é importante buscar fontes acadêmicas mais amplas (de preferência que façam uma análise bibliométrica sobre o conjunto de pesquisas na área considerada, seguida de análise qualitativa) e/ou pesquisar notícias e fontes jornalísticas adicionais.

Tenho acompanhado as pesquisas e notícias sobre o café. Entre elas, destaco a entrevista com o médico Robert van Dam, professor do departamento de Nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard, que oferece informações amplas sobre o assunto no site da Universidade Harvard (Veja
). Trata-se, portanto, de uma fonte institucional de informação que reproduz conclusões científicas. As informações do Dr. Dam são interessantes porque ele faz uma análise de um conjunto de pesquisas nessa área, considerando alguns pontos controvertidos. Trata-se de um especialista sobre o assunto. Destacando os resultados positivos sobre o consumo do café, Dr. Dam faz as seguintes ressalvas:

1. Consumo em excesso – O consumo excessivo de café pode provocar tremores, estresse, insônia, entre outros sintomas. Segundo o médico, as pesquisas que apontam o benefício do café consideraram, em geral, o consumo de pouco café (a unidade analisada tem 100 mg de cafeína, enquanto na prática muitas pessoas podem fazer uso de 300 mg de cafeína por unidade/copo. Dez gramas de café é letal ao ser humano). Além disso, as pesquisas utilizaram o café preto, com pouco leite ou açúcar, “mas não com o tipo de bebidas com café de alto teor calórico que se tornaram populares ao longo dos últimos anos”.

2. O hábito de beber café está relacionado a comportamentos de risco – “Beber café normalmente ocorre junto do cigarro, e com um estilo de vida que não é muito consciente com a saúde. Por exemplo, pessoas que bebem muito café tendem a fazer menos exercícios físicos. Eles são menos propensos a usar suplementos alimentares, e tendem a ter uma dieta menos saudável.”

3. Café representa um risco para mulheres grávidas – “Para as mulheres grávidas, tem havido um pouco de controvérsia sobre se o consumo elevado de café ou a cafeína pode aumentar o risco de aborto. [...] Mas nós sabemos que a cafeína passa pela placenta e atinge o feto, e que o feto é muito sensível à cafeína, que a metaboliza muito lentamente. Então, para mulheres grávidas parece prudente reduzir o consumo de café a um nível baixo, por exemplo, um copo por dia.”

4. Café aumenta o risco de diabetes – “Com diabetes, é um pouco paradoxal. Estudos ao redor do mundo mostram consistentemente que o consumo elevado de cafeína ou café descafeinado está associado com baixo risco de diabetes tipo 2. Mas se você olhar para estudos específicos, após ser dado às pessoas o café, elas têm que comer algo rico em glicose. Sua sensibilidade à insulina diminui os níveis de glicose no sangue ficam mais elevados do que o esperado.” Diante disso, o médico recomenda café descafeínado. O café, em si, baixa a glicose no sangue. Mas o efeito posterior desencadeado pelo consumo de café leva a um desejo por açúcar. No que diz respeito à endometriose, o café poderia nos induzir ao consumo maior de açúcares – um fator de alto risco para o aumento da inflação e de focos da endometriose.

5. Café representa um risco para hipertensos – Dr. Dam afirma que o consumo de cafeína pode aumentar a pressão, mas que com o tempo há uma estabilidade do quadro. Contudo, ele alerta: “Mas se as pessoas têm hipertensão, e estão tendo dificuldade em controlar sua hipertensão, poderiam tentar mudar de café com cafeína para o café descafeinado, para ver se ele tem um efeito benéfico.”


6. Café aumenta o colesterol – O café possui uma substância chamada cafestol que eleva o mau colesterol (LDL). “Assim, para pessoas que têm níveis elevados de colesterol ou que querem evitar ter níveis elevados de colesterol, é melhor escolher o café filtrado com papel [...]”.

Mas qual o impacto do café ou da cafeína na endometriose? Qual é a consequência do consumo de café/cafeína para a fertilidade da mulher? Sim, há pesquisas nessa área. Selecionei algumas:

1. No artigo Selected food intake and risk of endometriosis
, pesquisadores da Universidade de Milão, na Itália, afirmam que o consumo de carne vermelha e presunto está relacionado com a endometriose. Mas não encontraram relação “significativa” entre o consumo de café e álcool, entre outros hábitos, com a endometriose.

2. No artigo Early follicular phase hormone levels in relation to patterns of alcohol, tobacco, and coffee use
, pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, afirmam que o consumo de café aumenta os níveis de estradiol na mulher, aumentando as chances de infertilidade. Uma quantidade de 500 mg de cafeína por dia aumenta em 70% o estradiol.

3. No artigo The Epidemiology of Endometriosis
, publicado na The New York Academy of Sciences, em 2002, os pesquisadores constatam aumento do risco de elevação do estrógeno (que provoca endometriose) com o consumo de café.

4. No artigo Hormonal therapies for endometriosis: implications for bone metabolism
, pesquisadores da Universidade do Texas, Estados Unidos, avaliam o impacto negativo de determinados tratamentos para a endometriose na estrutura óssea (agonista GnRH, como leuprolide [Lupron], nafarelin [Synarel], goserelin [Zoladex] e buserelin [Buserelina]). Após três meses de uso, há perda óssea significativa. Entre as recomendações desses pesquisadores, é que a mulher diminua o consumo de café e o hábito de fumar.

5. No artigo Relation of Female Infertility to Consumption of Caffeinated Beverages
, pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard (a mesma ddo Dr. Dam) afirmam que vários estudos têm relatado uma associação entre a ingestão de cafeína e o atraso da concepção (gravidez). Eles analisaram mais de 1000 mulheres, durante três anos, com e sem endometriose, de acordo com o hábito de consumo de café. Com o consumo de cafeína (mais de 7gr, por mês), houve um risco maior de infertilidade entre mulheres com endometriose. Os pesquisadores consideram necessário ampliar as análises sobre o risco da ingestão de cafeína no sistema reprodutivo da mulher.

6. No artigo Relation of endometriosis and neuromuscular disease of the gastrointestinal tract: new insights, pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, propuseram um tratamento para mulheres com endometriose intestinal cujos sintomas podem incluir dor abdominal crônica, náuseas, vômitos, saciedade precoce, distensão abdominal e alteração de hábitos intestinais. Esse tratamento consiste em mudança de dieta alimentar, com prescrição medicamentosa. A recomendação foi: eliminar o consumo de alimentos com cafeína e tiramina (queijo, carnes embutidas, shoyo, leveduras, leite de soja) incluindo a redução de carboidratos, entre outras orientações (Para quem usa antidepressivos, veja aqui os riscos da interação entre alimentos com tiramina e remédios antidepressivos neste estudo feito pela Universidade de São Paulo/USP
).

Como disse, para superar a endometriose fiz mudanças no meu estilo de vida. Entre elas, eliminei a cafeína. Embora o Dr. Dam não tenha considerado as pesquisas que relacionam endometriose e cafeína (inclusive uma feita em sua própria instituição); com base no que ele diz, penso que o uso do café pode fazer mal a minha saúde, ao aumentar meu desejo por doces; ao aumentar meu desejo por mais cafeína (pois a cafeína é deliciosamente viciante); ao estar associada, no meu caso, a um estilo de vida pouco ou nada saudável (é nos momentos de muita correria e de exigência de desempenho máximo que sinto ser impossível viver sem a cafeína. Por isso, para não usar a cafeína, tive que primeiro alterar uma “vida cafeínada”, reduzindo o excesso de atividades e as tensões diárias).

Quanto às demais acusações contra o café (provoca diabetes, causa hipertensão, aumenta o colesterol, faz mal ao coração, está associado à endometriose e à infertilidade etc), há pesquisas sérias que apontam para esses resultados. O mesmo se pode dizer sobre seus aspectos favoráveis. Diante de resultados tão diversos e, por vezes, paradoxais, a medicina acadêmica não pode recomendar o consumo do café para uma vida saudável, como afirmou o pesquisador de Harvard. Portanto, penso que nossa decisão quanto ao consumo de cafeína deve ser orientada pelo exercício de pesquisa contínuo; pela reflexão sobre os resultados divulgados; pela leitura crítica de notícias; não só pela quantidade, mas principalmente pela qualidade das análises científicas; pelo olhar atento ao nosso corpo e os sinais que envia. Por todos esses motivos, somados a uma orientação definidora em minha vida, eu eliminei a cafeína de minha alimentação. Com as demais mudanças no meu estilo de vida, não tenho mais dor e a endometriose diminuiu.

Minha receita contra a endometriose, em linhas gerais:
Um caminho, entre tantos

Gramáticas da nossa vida



4 comentários:

  1. Bom dia.
    O seu blog é um oásis em meio a tantas informações.
    Suas pesquisas e busca por trabalhos científicos é maravilhosa. Parabéns.
    Eu descobri há um mês que tenho endometriose profunda e uma lesão de 4 cm no intestino. O dr. Maurício Simões sugeriu a cirurgia.
    Passei em outros médicos até que encontrei o dr. Paulo Serafini que indicou a mudança no estilo de vida.
    Eu encontrei o blog pelo Google e que benção de Deus é ele, que vc continue sempre inspirada em pesquisar e postar.
    Eu comecei a comer alho todos os dias e estou disposta a reduzir o carboidrato. Além da atividade física e sol.
    Gostaria muito de manter contato com você. Tenho 28 anos e estudava para ser juíza de uma forma extenuante e estressante. Até que, no meio do caminho,descobri a endometriose e decidi mudar em prol da qualidade de vida.
    Um grande abraço,
    Que 2012 seja um ano de muitas realizações.

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  2. Olá!

    Sua mensagem, especialmente neste momento do ano, é um grande presente!!! Precisamos terminar 2011 confiantes de que, apesar da descoberta da endometriose (muitas mulheres receberam o diagnóstico recentemente), podemos prosseguir com esperança, alegria, certeza de renovação, determinação e novo ideais para 2012. Seremos melhores no próximo ano, no próximo dia, pois estamos redescobrindo as possibilidades de vida na superação da endometriose.

    Temos algo em comum em relação a médicos e cirurgias... Além disso, como você, também procurei outros médicos. Com ou sem cirurgia, a mudança no estilo de vida é essencial para o combate à dor e ao crescimento da endometriose. Ao fazer essas mudanças, você precisa se submeter periodicamente os exames de controle. A mudança de estilo de vida é gradativa. Um aprendizado constante. Por isso, é necessário buscar acompanhamento médico (ir a uma clínica naturalista ajuda muito a aprender esses conceitos novos) e ver se as mudanças estão surtindo resultados no corpo. Quando rejeitei a cirurgia e mudei meus hábitos de vida, fiz muitos exames de controle. Se a endometriose estivesse crescendo, eu optaria pela cirurgia. Por isso, faça sempre os acompanhamentos. Você tem feito bem em procurar bons médicos.

    É importante ter o conhecimento exato de nossa situação com a finalidade de encontrar os caminhos mais adequados para a cura. A mudança de hábito deve vir acompanhada de um processo de pesquisa e consciência. No início dá muita ansiedade, mas ao concentrarmos nossa atenção em novos conhecimentos e mudança de estilo de vida, esse sentimento vai dando espaço à tranquilidade, à medida que o corpo se renova.

    Esteja absolutamente certa de que a mudança no estilo de vida – feita adequadamente, com prazer e persistência – traz benefícios incríveis! No meu caso, como disse, superei a dor, os focos deixaram de crescer e depois regrediram. Todos os dias de manhã, antes do sol nascer, eu e meu marido saímos para caminhar. No final do dia, fazemos o mesmo. É uma sensação tão boa. Dedique-se aos exercícios físicos. Encontre um exercício aeróbio que lhe dá prazer e tente fazê-lo todos os dias. Esse é um dos principais remédios. O sol também é um grande aliado na regulação do organismo.

    Deus vai conduzi-la pelo melhor caminho. Ele está com você. A endometriose não pode deter nossos sonhos. Podemos redimensioná-los. Você poderá ser uma juíza e ajudar muitas pessoas na prática da justiça. O mundo está sedento por isso.

    Sua mensagem, nesta semana, foi como uma linda canção (conforme, escrevi no texto que publiquei hoje, no dia 24). Às vezes, também me sinto só. Obrigada por escrever. Certamente, o toque de Deus chegou até mim por meio de suas palavras.

    Este é o e-mail do blog: endometrioma.blog@gmail.com
    Escreva-me, quando puder. Estarei esperando.

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  3. Olá!! Tenho 22 anos e descobri que tenho endometriose na passada sexta-feira, foi um choque mas com otimismo e com a ajuda de Deus sei que irei superar. Não tive oportunidade de ver mais coisas no seu blog mas a minha pergunta está relacionada com a cafeína. Cortaste a cafeína apenas do café ou do chá verde e preto também? Obriga!!!!

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    1. Olá, Jennifer. Quando recebi o diagnóstico não foi nada fácil. Mas com fé e determinação, é possível sim superar a endometriose. Eu cortei tudo que tem cafeína: chocolate, chás, pó de guaraná etc. Veja aqui um resumo do meu tratamento ou meu novo estilo de vida: http://endometrioma.blogspot.com.br/2014/01/meu-tratamento-contra-endometriose.html

      Desejo forças e sucesso em seu tratamento! Com carinho,

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