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domingo, 1 de abril de 2012

O gigante adormecido


1 de abril de 2012

Em determinados meses, minha menstruação atrasa um pouco, o ciclo fica mais longo. Dia 19, 21, 23... Neste mês, fiquei menstruada no dia 27. Nenhum episódio de cólica, nada de dor, mal-estar ou essas dezenas de sintomas terríveis que atormentam a mulher com endometriose – sintomas que conheço muito bem, porém não os tenho mais. O sangue desceu límpido, praticamente sem coágulos, em pouca quantidade. Sim, a endometriose segue sob controle. Além de todas as mudanças que fiz, uma delas tem relação direta com o ciclo menstrual. É impressionante. Se aumento a frequência e intensidade do exercício físico durante o mês, o intervalo entre uma menstruação e outra aumenta um pouco. Se faço menos atividades, o clico diminui. Neste mês, eu e meu marido caminhamos duas vezes ao dia, bem de manhã e no final da tarde. Diariamente, fizemos nosso circuito predileto: 45 minutos, com intensidade média, num percurso com subidas bastante íngremes. Corremos um pouco, conversamos bastante, apreciamos os pássaros e as árvores urbanas desgrenhadas. Começamos e encerramos o dia assim, caminhando. O fluxo menstrual responde ao fluxo do exercício.

O exercício é minha cura, meu marido sabe. Quando não quero ir, ele me empurra. O exercício é minha cura. Quando ele não quer ir, eu o lembro disso. E de tanto empurrar um ao outro, o exercício se transformou em desejo. Quando se torna impossível caminharmos, o dia começa triste. De alguma forma, a química liberada pela atividade física se mistura com o que sentimos um pelo outro. É um condicionamento de desejos – sentir o vento da manhã, conversar com ele, correr da fumaça maldita de algum ônibus, rir sem parar após uma observação invariavelmente muito engraçada que ele faz. Amo caminhar. Mas junto a isso tudo, amo meu marido. Esses desejos todos se entrelaçaram nas manhãs quase frias de outono, nas tardes azuis roseadas de cada dia. E também nos dias de chuva. Em manhãs chuvosas de verão, sem querer substituir o percurso pela academia, ele sugeriu caminharmos de guarda-chuva. Fomos... Com chuva e/ou Sol, não vemos mais ninguém na rua no horário em que caminhamos. O mundo desconhece o seu lugar de cura.

Prosseguir com o sangue límpido, sem dor, sem cirurgias desde 2008, mesmo carregando a endometriose profunda, me motiva a caminhar. O exercício físico mantém a endometriose na posição de um gigante adormecido – uma pedra enorme que interrompeu abruptamente o caminho, mas que também se tornou a visão mais transformadora de minha vida. Num domingo, fizemos nossa caminhada no Polo Cuesta, na região de Botucatu. Há muitas cachoeiras, trilhas ecológicas, paisagens inesquecíveis. Do ponto mais alto, avistamos o Gigante Adormecido, estendido sobre o Aquífero Guarani. É uma imagem de perder o fôlego. Imensidão desdobrada em imensidão. 



Só quem tem endometriose sabe a intensidade das perdas e dores que essa doença inflige. Só quem decide lutar contra ela com as armas certas, sente o horizonte de possibilidades e superações que se abre. Acho que mesmo diminuindo, sempre haverá focos. Mesmo pequenos, sempre estarão prontos para crescer e se espalhar, entravando o corpo feito um leviatã traiçoeiro. Não se pode subestimar a endometriose, é um gigante que carregamos no ventre. Mas o exercício físico decreta a latência, a doença adormece tanto quanto nos movimentamos.

PS.: Leia o texto Endometriose e exercícios físicos, com informações científicas estratégicas sobre o assunto.

Leia também: Exercícios físicos combatem a endometriose

Minha receita contra a endometriose, em linhas gerais:Como superei a endometriose – Parte I


































Imagens do Gigante Adormecido, no polo Cuesta.
A segunda foto foi meu marido quem fez.

7 comentários:

  1. Bom-dia, minha querida amiga! Descobri o seu blog há pouco tempo, mas, desde então, já fiz muitas mudanças em meu estilo de vida. Quase um plágio do seu. Tenho feito caminhadas diárias de 2h pela manhã. À minha alimentação, só estou reduzindo o açúcar, principalmente, o de doces e chocolates. De resto, sempre investi em frutas, legumes, verduras e peixes. Parabéns pelo blog, pelo carinho, pela solidariedade. Seus textos são formidáveis. Sua escrita precisa, poderosa. Um remédio em si. A sabedoria norteia a sua vida e, assim,você publiciza os seus ganhos. Muito obrigada!

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  2. Bom-dia, minha amiga escritora! Seu comentário me deixou muito feliz. Fiquei lendo e relendo. Liguei para o meu marido e compartilhei suas palavras. Recebi seu carinho, de maneira muito próxima. Como você disse, é palavra funcionando como remédio. Além disso, sua mensagem me ajudou a tomar uma decisão muito importante. Espero poder contar os bons resultados dessa decisão daqui um tempo. Parabéns pela construção diária de sua saúde. Agradeço muito a partilha de sua experiência!

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  3. Boa-tarde, minha amiga! Antes de mais nada, adorei o escritora! Se minhas poucas palavras puderem fazer por você só um décimo de tudo que as suas fizeram e fazem por mim, então, ganhei o ano! Sempre me lembro, quando caminho aqui na minha quadra, em Brasília, da sua frase que diz que o mundo desconhece seu lugar de cura. Perfeita!Isso me dá força para continuar caminhando. Estarei, ansiosa, torcendo e esperando pelos resultados da sua decisão. E, que, saiba desde já, que só a coragem de tomá-la é a própria conquista. Sucesso, menina! Você e o seu marido realmente merecem tudo de bom! Um exemplo! Beijão e bom fim de semana!

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    1. Olá, respondi seu e-mail no texto "Respostas aos Comentários" (http://endometrioma.blogspot.com.br/2012/05/respostas-aos-comentarios.html).
      Um grande abraço!

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  4. Ah... Fiquei curiosa! Qual a decisão importante??!!!

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  5. olá, acabei de descobrir seu blog e me animei muito em saber de pessoas reais com esse "probleminha"...tenho o diagnóstico de endometriose grau 4 há 7 anos mais ou menos, já passei por 2 viedolaparoscopias, já tomei elani, gestinol, cerazetti, os quais nunca cortaram minha mesntruação, engordei 10 quilos em 3 meses com algum desses q tomei logo após a cirurgia. em 2008 coloquei o Mirena que tive q tirar antes de completar 11 meses, pois a reincidiva de cândida era constante e engordei mais uns 8 quilos...tomo o diane 35 há anos ele é unico que "corta' a mesntruação, além de ser ótimo pra pele e pro cabelo!!! alguma coisa tem q fazer de bom né!!! rsrs
    vi seu texto sobre candida e me senti aliviada por alguem tb compreender o q é ter candida...principalmente qdo fico meses e meses tomando a pilula sem pausa, ai é insuportável...em 2009 li alguns artigos, livros sobre candida e vi que batiam sempre na mesma tecla, sobre a mudança de alimentação, principalmente laticinios, eu na verdade não tomo leite há anos por nao gostar mesmo, nem iogurte, mas há umas 3 semanas atras, voltei a tomar por tomar mesmo, e, claro a candida veio com tudo menina!!! já tomei as capsulas de alho e nem dei tempo p ver se faria efeito pois nao suportava o hálito, e eu que trabalho com úblico, na época trabalhava em loja de roupas nao podia ter esse "cheirinho" né!!rsrs...mas vc me encorajou a tentar novamente...o incrivel é q são poucos, pouquissimos médicos que pensam sobre isso, o meu médico é espetacular na área, mas sobre a tal da candida so manda tomar o mesmo remédio mandou tomar gamaline e fisioton p aumentar a imunidade...mas nao acredita no alho e q alimentção tenha a ver...enfim, vou acompanhar vc e postar minhas angustias com vc tb, pode???
    adorei conhecer esse portal...não estamos sozinhas...
    fiquei muito tempo sem pesquisar, pois tem hora q parece q a gente so ve a mesma historia, agora me interessei novamente...
    obrigada por se expor, por relatar nossos conflitos...

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    1. Olá, respondi seu e-mail no texto "Respostas aos Comentários" (http://endometrioma.blogspot.com.br/2012/05/respostas-aos-comentarios.html).
      Um grande abraço!

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