Arquivo do blog

domingo, 21 de abril de 2013

Cálice de vinho


21 de abril de 2013

O consumo de álcool tem relação com a endometriose. No texto Dieta Antiestrogênica, o autor menciona que o álcool aumenta o estrógeno no corpo. Mais álcool, mais estrógeno, mais endometriose. A via não é única. A bebida alcoólica debilita o organismo de outras formas.  Mas o que dizer de um cálice de vinho diário?  

O álcool me assusta desde a infância. Minha avó ficou viúva cedo, e a ausência do marido, diziam, a fez adoecer do mal que rondava a família. A aposentadoria do marido, funcionário público, e seu emprego de enfermeira-chefe lhe davam condições financeiras suficientes para viajar, conhecer lugares e pessoas. Mas imperceptivelmente, no decorrer dos anos, ela adoecia. Irmãos, sobrinhos, primos sucumbiram à bebida. Beberam até morrer e morreram de cirrose, choque decorrente da ingestão de bebida alcoólica com remédios, carência crônica de vitamina B12, suicídio alcoólico, etc. Um bebeu porque havia lutado na Segunda Guerra e queria fugir dos demônios alojados na memória. Outro, dizia-se, se desgostara com a mesmice da atividade no cartório e fora traído pela mulher. A irmã de minha avó morava em frente à praia e bebia apreciando o mar. Morreu trancafiada em um hospital. Com 13 anos, em um dia marcante pra mim, minha avó morreu também. Estava aposentada, era considerada a rainha da alegria nas viagens em grupo, mas confidenciava a poucos que sofria de profunda solidão. Em um domingo, já bêbada, com apenas 63 anos, tomou seus remédios. Não resistiu.

Minha mãe foi a primeira da família a dizer não ao álcool. “Nenhuma gota de álcool”, diz a pequena mulher que conhece a violência dessas chamas. Ela se tornou cristã de uma maneira diferente. Liberdade. Minha tia, há alguns anos, caiu na sina da família e começou a beber. Parou recentemente, após o neto receber alta da UTI. A mãe bebera e fumara a gravidez inteira, o bebê nasceu fraquinho, teve de ser internado. A avó fez voto por ele, diz agora que não volta a beber. Mas meus primos, engenheiros bem colocados no mercado, bebem. Estão a alguns passos do alcoolismo fatal. A bebida é uma cultura, um legado de sangue. Escolhi o legado de minha mãe.

A história de alcoolismo na família se deu da porta pra dentro. Sem violência, sem alarde. Quando bêbados, poderiam estampar as propagandas de cerveja. Eram leves. A história só vinha à tona quando se tornava incontrolável e o fim estava próximo. E sempre, a despeito da falsa alegação do controle, o álcool fez de todos eles pessoas destituídas. O jugo era pesado, o vinho os sepultou. Histórias semelhantes estão por toda parte, muitas entre paredes. Recentemente, uma professora de universidade pública me contou que a mãe era alcoólatra.  Morreu por causa do vício. Quando morei em Curitiba, conheci uma jovem pesquisadora da área de Farmácia na Universidade Federal do Paraná. Ela fez seu mestrado sobre tratamento farmacológico para alcoólatras. O pai, um rico fazendeiro paranaense, bebia. Mais tarde ela me contou que seus conhecimentos adquiridos no mestrado não foram suficientes para ajudar seu pai, mas ela descobrira a novidade de vida. Após anos de desespero, a família viu acontecer o improvável: o pai deixou de beber, reconhecera a Cristo.

Nunca presenciei nenhum ato de violência por causa do álcool. Na família, o álcool atingiu os mais velhos, depois de anos de ingestão diária em contexto social. Eram bêbados sociais que se desintegraram. Carregavam no peito a desesperança que dinheiro algum resolve. Só agora, com meus primos, é que os pequenos meninos têm a desgraça de ver os pais embebedados. Ainda que bebam e riam, é muito triste. A ladeira vai se tornando íngreme e sinuosa, serpenteando-se.

Na última semana, mais uma vez foi noticiado que o consumo de álcool entre mulheres tem aumentado. No ano passado, fizeram uma pesquisa com mulheres paulistanas. As com maior grau de instrução bebem mais para “aliviar as pressões” diante das cobranças sociais e dos múltiplos papéis que precisamos desempenhar. Bebem para esquecer, diferentemente dos homens com maior grau de instrução que geralmente reconhecem, segundo a pesquisa, os riscos da ingestão alcoólica. Do ponto de vista bioquímico, a mulher está em desvantagem em relação ao homem. A bebida no corpo feminino é mais agressiva, pois a atuação enzimática do organismo é mais lenta, tornando-a mais vulnerável aos efeitos do álcool (Pesquisa publicada na revista Clinics).

Qual a relação entre álcool e endometriose?

Mulheres que têm endometriose tendem a consumir mais álcool (Vejas as pesquisas: 1 e 2), o álcool também está relacionado à infertilidade (Veja). De acordo, com pesquisa citada por cientistas brasileiros o consumo de álcool e a baixa atividade física estão entre as causas de endometriose (Veja).

Embora haja pesquisadores e profissionais médicos que não deem importância para a relação entre álcool e endometriose, pesquisas científicas apontam que problemas ginecológicos se manifestam, principalmente, em mulheres que consomem álcool. De acordo com pesquisadores da Universidade de Medicina de New Jersey, “gynecological problems of endometriosis may be a major medical correlative of alcoholism in women” (Veja).

Apesar do resultado dos estudos citados acima, é comum que a mídia divulgue outras pesquisas que apontam como positivo a ingestão diária de álcool, desde que em baixas doses. Segundo o médico Dráuzio Varella, o consumo moderado de álcool é benéfico para o coração, “mas nenhum outro efeito benéfico do álcool para a saúde foi demonstrado até hoje” (Veja). O álcool ajudaria a evitar ataques cardíacos porque aumenta o colesterol bom (HDL) e deixa o sangue menos coagulável.

Sabendo que qualquer dose de álcool aumenta o estrogênio no corpo, como obter os propagados benefícios do vinho, por exemplo? A substância benéfica está na uva – o resveratrol, os polifenóis – e não no álcool. Os polifenóis, substâncias anti-câncer, antienvelhecimento, que combatem doenças cardiovasculares, são encontrados no vinho porque estão contidos naturalmente na uva, não no álcool. Embora haja alguma controvérsia sobre uma diferença mínima de um suposto benefício isolado com o efeito do etanol contra a oxidação de princípios ativos da uva no vinho, outras pesquisas apontam que o potencial antioxidante do suco de uva é igual ou superior ao do vinho, principalmente se for vinho branco (Veja pesquisas que comparam o suco de uva ao vinho: 12 e 3). Por isso, se desejamos evitar os riscos que o álcool nos expõe, podemos substituir o vinho por uva ou suco de uvas, sem o risco de aumentar o estrogênio no organismo. Se queremos combater o LDL e aumentar o HDL, podemos ingerir nozes, abacate e outros alimentos que não incluem no pacote os riscos à saúde e nos beneficiam com múltiplos nutrientes. Se desejamos evitar os coágulos, podemos fazer uso do alho, levedo de cerveja, limão, cebola, entre outros alimentos, igualmente ricos em vitaminas e princípios medicinais ativos. Antes de fazer a mudança de estilo de vida, eu estava com o colesterol alto. Há cinco anos, tudo está normal.

Apesar de aumentar o estrogênio, que outra objeção haveria para o hábito de beber moderadamente ou tomar um cálice de vinho por dia?  Apenas pequenas doses podem desencadear um desejo químico por álcool. A história de minha família é para mim a maior evidência. O vício em álcool está ligado à dopamina, o hormônio do prazer. O álcool libera dopamina. A novidade, de acordo com pesquisas científicas, é que apenas a degustação do álcool, um leve sabor de cerveja na boca, é suficiente para liberar a dopamina. Em pessoas que não bebem, mas têm um histórico familiar de bebida, a liberação de dopamina com a mera degustação do álcool é quatro vezes maior. A liberação de dopamina provocada pelo álcool não nos condicionada necessariamente ao vício, mas nos predispõe ao vício. De acordo com a revista Time, o lema dos Alcoólatras Anônimos agora tem comprovação científica: “É com o primeiro drink que você se torna um bêbado.” (Veja aqui).

Ainda que minha história familiar seja triste, eu tenha conhecido histórias trágicas entre círculos fechados, histórias de liberdade entre os que escolheram a abstinência ou venceram o vício, as pesquisas me convençam a ponto de não haver em minha vida lugar para goles ocasionais, o que considero decisivo para rejeitar o álcool é a importância da consciência. Não quero escapar da realidade, ainda que ela seja muito difícil por vezes. Não quero amortecer minha mente nem a conta-gotas. Eu vivo uma esperança. O ópio em líquido não redimensiona minha história, nem lhe dá saúde, tira minha saúde, desencadeia tantas mortes violentas no mundo, mata aos poucos a consciência de muitos, enriquece uma indústria ávida pela cultura da bebida, é metáfora do mal que cega, fez se perder a quem amei, não me ajuda a encontrar outros trajetos. Digo não ao álcool não porque ele está relacionado à endometriose ou à infertilidade, mas porque quando ele funciona, eu me subtraio e deixo só a quem me espera, bebo porque sou livre e me torno menos livre, calo-me, mas as dores não me deixam.

2 comentários:

  1. O discurso ganharia mais força se falasse de espiritualidade, mas não da sua religião especificamente. Embora eu seja cristã, protestante, interdenominacional, ecumênica, eu leio seu texto com certa reserva. Em meio a tantos argumentos interessantes, aparecem alguns que parecem dar a impressão que você estaria querendo pregar, converter, ou coisa e tal. Perde a força de discurso científico e desliza para um estilo meio Paulo Coelho, apelativo. Falo isso com a intenção de que aprimore seu blog, pois ele é muito relevante! Parabéns de qualquer modo pelo seu trabalho e sua força! Abraço!

    ResponderExcluir
  2. Olá, querida Débora:

    Obrigada por escrever e colocar de maneira direta seu ponto de vista. Compreendo sua visão, agradeço por expressá-la.

    Minha pretensão é escrever aquilo que Deus gostaria que eu escrevesse. Procuro orar para escrever porque procuro orar para viver. Ele me conduziu pelo caminho da cura, Ele me envolve com seu terno amor. Sem Ele não haveria palavra. Mas sou tão falha. Sinto a necessidade de falar sobre o que encontrei.

    Que Deus nos ajude a fazer sua vontade, a fazer sua vontade em todas as coisas. O que Ele deseja escrever em nós? Só a oração pode dar forma e essência à palavra. Eu preciso orar.

    Carinho,

    ResponderExcluir