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terça-feira, 16 de abril de 2013

Ela atravessou os rios da tragédia. O que essa história me ensina?

16 de abril de 2013
 
“No verão de 1990, Barbara Bradfield, mulher de 48 anos de Burbank, Califórnia, descobriu uma massa no seio e um caroço debaixo do braço. Uma biópsia confirmou o que ela já suspeitava: um câncer de mama se espalhara pelos nódulos linfáticos. Foi tratada com mastectomia bilateral, seguida de quase sete meses de quimioterapia. ‘Quando acabei de fazer tudo isso’, ela disse, ‘senti que tinha atravessado um rio de tragédia.’
Havia muitos rios para atravessar: a vida de Bradfield foi atingida por outra incomensurável tragédia. No inverno de 1991, dirigindo por uma estrada não muito longe de casa, a sua filha grávida, de 23 anos, morreu em um terrível acidente. Poucos meses depois, enquanto assistia, entorpecida, a uma leitura da Bíblia certa manhã, Bradfield encostou os dedos no pescoço. Uma nova massa, do tamanho de uma uva, tinha aparecido pouco acima de clavícula. Seu câncer de mama reincidira e se espalhara em metástase – prenúncio quase certo de morte.
O oncologista de Bradfield em Burbank propôs mais quimioterapia, mas ela recusou. Em vez disso, ingressou num programa alternativo de terapia herbácea, comprou um espremedor de hortaliças e planejou uma viagem para o México. Quando o oncologista lhe perguntou se podia mandar amostras do câncer de mama ao laboratório de Slamon na UCLA para ouvir uma segunda opinião, ela, embora relutante, concordou. Um médico fazendo testes com amostras de seu tumor a distância não poderia afetá-la.
Uma tarde de verão de 1991, Bradfield recebeu um telefonema de Slamon. Ele se apresentou como pesquisador que tinha analisado suas lâminas de microscópios. [...] Disse-lhe que estava começando um estudo clínico [...] e que ela seria a candidata ideal para a nova droga. Bradfield recusou-se. ‘Eu estava no fim da estrada’, ela disse, ‘e já aceitará o que parecia inevitável.’ [...]
Na manhã seguinte, bem cedo, Slamon voltou a telefonar. [...] “Sobreviventes olham para trás e veem presságios, mensagens que não perceberam”, escreveu Joan Ddion. Para Bradifield, o segundo telefonema de Salmon foi um presságio que ela não deixou de perceber [...]
Quinze mulheres, incluindo Bradfield, inscreveram-se no estudo de Slamon na UCLA em 1992. [...] A droga foi administrada durante nove semanas, em combinação com cisplatina, agente padrão de quiomioterapia usada para matar células de câncer de mama, ambas intravenosamente. Por conveniência, Slamon planejara tratar todas as mulheres no mesmo dia e na mesma sala. [...] No fim da tarde, depois de todos os testes, as mulheres iam cada uma para o seu lado. Bradifield ia para casa rezar. Outra mulher se enchia de martínis.
O nódulo no pescoço de Bradfield – único tumor do grupo que podia ser fisicamente tocado, medido e observado – tornou-se a bússola do estudo. [...] Duas semanas depois da primeira dose do anticorpo, quando o grupo passou em fila por Bradfield, tocando-lhe o nódulo, a mudança era incontestável. Seu tumor tinha amaciado e encolhido visivelmente. [...]
Nem todas tiveram a sorte de Bradfield. Certa noite, exausta e nauseada, uma jovem com câncer metastático reincidente foi incapaz de reter o líquido necessário para hidratar o corpo [...] Morreu de insuficiência renal na semana seguinte.
A extraordinária resposta de Bradfiel continuou. Quando as tomografias foram repetidas, no segundo mês do estudo, o tumor do pescoço tinha praticamente desaparecido, e as metástases do pulmão também tinham diminuído de número e tamanho. A resposta em muitas das outras treze mulheres foram mais ambíguas. [...]
Barbara Bradfield concluiu as dezoito semanas de tratamento em 1993. Ela ainda está viva. É uma mulher grisalha, de olhos azuis-acinzentados cristalinos, que mora na pequena cidade de Puyallup, perto de Seattle, faz caminhadas nos bosques vizinhos e comanda grupos de discussão em sua igreja. Lembra-se vividamente dos dias que passou na clínica de Los Angeles – a sala dos fundos meio iluminada, onde as enfermeiras dosavam as drogas, o toque estranhamento íntimo das outras mulheres que apalpavam seu nódulo do pescoço. E de Slamon, é claro. [...] a animação e energia de sua voz passam pela linha telefônica como uma corrente elétrica. Ela me arguiu a respeito de minha pesquisa. Agradeci-lhe pelo tempo cedido e ela, por sua vez, desculpou-se pela distração. ‘Volte para o trabalho’, disse, rindo. ‘Há gente esperando por descobertas.’” p.488-491.
História narrada no livro premiado em 2011 com o prêmio Pulitzer “O imperador de todos os males – Uma biografia do câncer ” (Companhia das Letras), escrito por Siddhartha Mukherjee, formado em Stanford, Harvard e pesquisador na Universidade de Columbia.

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