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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Endometriose e crise financeira



17 de maio de 2013

A endometriose é uma grande crise que se abate contra o corpo, mas não apenas a saúde física é afetada. As ameaças da dor e da infertilidade nos colocam diante de uma crise com muitas implicações e desafios. O tratamento é caro. Os grandes especialistas custam fortunas.

Tenho dois planos de saúde. Mas os médicos que atendem por eles não foram capazes de reconhecer a doença no meu corpo, muito menos apontar as causas ou oferecer tratamentos. Sem diagnóstico, como se tratar? Sem conhecer a lei da saúde transgredida, como é possível encontrar a cura? Por um bom tempo, não houve doença, nem transgressão, muito menos cura. Por último, como ato derradeiro, fui diagnosticada erroneamente com câncer.

Eu precisava de um especialista, custasse o que custasse. Custou caro, mas tive o diagnóstico. Endometriose profunda, com focos espalhados na cavidade abdominal, focos no intestino, um novo endometrioma no ovário esquerdo. O olhar acurado dos médicos me custou, à época, uns 10 mil reais, entre exames e consultas particulares. Mas, finalmente, eu tinha a cartografia da doença que se espalhava dentro de mim. Contudo, saber que há algo errado e identificar esse erro é apenas o primeiro passo, um espelho do reverso. Eu precisava de tratamento, precisava de algo que ainda desconhecia.

Se não encontrei diagnóstico com os médicos do convênio, também não encontraria tratamento. Se encontrei diagnóstico com os médicos especialistas, com eles eu encontraria o caminho da cura? Após uma crise de dor aguda, que me fez desmaiar, eu liguei para o celular de meu médico. Ele me atendeu prontamente. Por telefone disse: “você vai ter que ser operada.” Pessoalmente, me falou da técnica e dos valores. Haveria uma equipe multidisciplinar, retirariam um segmento do intestino, havia o risco de eu ficar por algum tempo ou permanentemente colostomizada, com uma bolsinha externa para coletar as fezes. Perderia parte de um ou outro órgão. No hospital mais em conta, em que o médico aceitaria fazer a cirurgia junto com sua equipe, o custo seria de uns 30 mil reais. Hoje, esse valor está bem mais alto. Em meio às terríveis dores, perguntei: “se operar, estarei livre da doença?” Respondeu: “não podemos garantir isso.” Ninguém pode. Não há cirurgia curativa, os focos podem voltar. Esse profissional falou a verdade. Mas ainda que não houvesse cura, que alternativa eu tinha? A dor nos faz morrer em vida. Sob tortura, se há dinheiro, o dinheiro é de menos. Damos aos médicos tudo aquilo que temos, porque aquilo que somos está desvanecendo.

Fechei a dor dentro de mim. Com esforço, pensei. Poderíamos com muita dificuldade pagar pela cirurgia, mas quando a endometriose voltasse, como eu pagaria pela segunda e terceira? Se eu não pagasse o preço, aquele médico, que me atendia tão prontamente ao celular e me recebia por umas duas horas nas consultas em seu consultório, não seria mais meu médico. Ele era meu na medida em que eu pagava o valor. E quando já houvesse dado tudo que tinha? Ainda que não cessasse de pagar, a cura não poderia ser comprada. Dinheiro nenhum no mundo compra a cura de uma doença sem cura.

Havia, contudo, certa esperança. O entra e sai em consultórios de especialistas, sempre ligados a técnicas de fertilização in vitro (FVI), deixava bem claro o que os médicos não ousavam dizer abertamente, mas sugeriam sempre, aqui e ali, às vezes de forma sufocantemente ostensiva: “engravidar cura a endometriose.” Sabemos que nem sempre isso acontece, sabemos que há quem engravide para se curar, há quem vende a gravidez com o argumento da cura. No meu caso, primeiro seria feita a cirurgia. Depois, a FIV, com preço de ouro. Como contestar o preço de um filho?

A mulher tem que estar bem de saúde para engravidar ou tem que engravidar para ficar bem?
 
A dor, como o vinho, queria calar a mente. A saída mais fácil, ainda seria difícil. Foi nesse momento que decidi mudar meu estilo de vida e tentar alterar as causas da doença. As dezenas de teorias sobre a causa da endometriose apenas podiam me dizer uma coisa: o organismo não está funcionando bem. Como fazê-lo funcionar com saúde? Nós somos o que comemos, bebemos e respiramos. A química do corpo não é mágica, segue uma lei, como tudo nessa vida, ainda que não acreditemos em leis e tenhamos espedaçados os mandamentos. Passei a estudar sobre como o corpo se nutre, como o exercício físico nutre o corpo, como estamos intimamente ligados ao sol, à água, ao ar que respiramos, à forma como respiramos. Procurei remédios fitoterápicos, para uma situação em que a dor, o emagrecimento e as doenças autoimunes me consumiam. Mudei minha relação com o trabalho e com as emoções. Eu orei a Deus.

Vendemos nossa pequena casa em uma rua apinhada e compramos, com algum lucro, uma pequena chácara em um condomínio. À época, amigos foram para condomínios mais caros, com um financiamento a perder de vista. Com o valor do condomínio e dos rateios, tudo está encarecendo, eles nos contam. Um deles construiu uma ampla casa. Eles querem filhos, mas continuam fazendo as contas de quanto ela pode trabalhar em vários turnos até que eles decidam pela gravidez. Disse-me que ainda vai trabalhar por mais alguns anos, querem ampliar a casa, surgem novas demandas. Por precaução, trabalharão também para economizar para as tentativas de FIV, caso precisem. A mãe dela tem endometriose, ela acha que corre algum risco.

Compreendemos que a escolha do mais simples nos ajudaria a priorizar o que realmente nos mostrava ser o mais importante. Decidimos não entrar em dívidas. Optei por trabalhar menos, ganhar menos, mas ganhar mais. Temos o que podemos pagar. A saúde física também depende da saúde financeira. Desacelerei e minhas ações valorizaram, ainda que esse lucro seja o valor do avesso. O organismo vai bem. Uma vida pautada pelo consumo consome a própria vida.

Meu tratamento teve o custo da mudança. Esse custo é alto. Dizem que comprar alimentos saudáveis, como castanhas e frutas, encarece o orçamento. Mas o custo não é alto por causa disso, pois é possível ter uma vida saudável com criatividade acessível. Falo do custo de alterar uma vida inteira de hábitos e formas de pensar, de tradições e pressões familiares e sociais. Falo do nosso enraizamento. É como metástase social que faz duvidar, nos joga para o caminho de todos, obscurece a visão coletiva. O custo é alto, porque conhecer a lei lança a responsabilidade sobre nós e a paz vem como espada, mas o caminho é suave, a vida cresce e nasce. Não há nada mais belo.

Estou há cinco anos sem nenhuma cirurgia, sem o uso de remédios ou hormônios. Nunca mais tive um episódio de dor. Tive no passado, mas agora não tenho dor na relação sexual. Os focos de endometriose diminuíram (Veja as imagens de meus exames do ovário, em três etapas. Os links estão no texto Transformação). Tenho endometriose profunda, mas estou curada.

Quem acompanha o noticiário sabe que a crise financeira de 2008 prossegue. Na Europa, a situação está cada vez pior. Um dos grandes sustentáculos, a Alemanha, está sentindo fortemente a crise. O que dizer do Brasil cujo crescimento está baseado no endividamento das famílias? Nesse cenário, a endometriose se agiganta. Pensar a endometriose é também pensar as finanças, em todas as suas implicações. Optar por um ou outro tratamento, escolher um ou outro estilo de vida, é fazer escolhas que nos empobrecerão ou nos fortalecerão no que diz respeito às finanças pessoais, às células e ao sangue.

A economia do corpo não é assunto de menor importância.

4 comentários:

  1. Nossa! Como me identifiquei com seu texto... Maravilha!!! Gostaria muito de poder não somente pensar assim mas, também, agir desta forma!! Isso caiu como uma luva para um ponta pé inicial, quem sabe? Um estímulo talvez... uma esperança maior... Obrigada!!

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    1. Olá, Charlene. Obrigada por escrever! Respondi ao comentário no texto: http://endometrioma.blogspot.com.br/2013/06/resposta-aos-comentarios.html

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  2. Querida amiga!
    Há muitos dias queria lhe escrever...
    Seu texto nos faz parar e refletir.
    Dizemos que o estilo de vida saudável e uma boa alimentação custa caro. Mas quanto gastamos com analgésicos e anti inflamatórios para amenizar as dores causadas pela endo? Quanto gastamos com medicamentos para "reduzir" ou "estabilizar" a endometriose, que além de serem caros causam diversos efeitos colaterais? Quanto gastamos na compra de medicamentos para combater esse efeitos colaterais? Quanto gastamos com consultas, exames e médicos especialistas que não atendem convênios e com cirurgias que não resolvem o problema?
    Sem falar no que podemos ou poderiamos gastar com tratamentos para fertilidade e FIVs...
    Se colocarmos na ponta do lápis, a alimentação saudável é muito mais econômica e nos proporciona qualidade de vida. Nos proporciona saúde e vida.
    No mesmo dia em que li seu texto, meu marido colocou em um filme/ documentário chamado Food Matters (segue o link: http://www.foodmatters.tv), onde especialistas falam sobre a extrema importância de se alimentar saudavelmente. Doenças como o câncer tem sido tratadas de forma natural e com a ingestão do que eles chamam de super alimentos e super dosagem de vitaminas. Os resultados tem sido excelentes!
    Vale muito a pensa assistir o documentário.
    Uma frase que uma das médicas disse me chamou a atenção: "Nosso próprio corpo é a fonte da nossa cura."
    E isso é real. O corpo humano é a mais perfeita máquina criada pelo Grande Arquiteto, o Grande Deus. Ele nos fez saudáveis e nos deu as ferramenta para nos mantermos assim e vivermos bem.
    Basta querermos. É uma escolha.
    Não é uma escolha fácil e nem o caminho fácil de trilhar. Não é fácil abrir mão de tantas delicias e praticidade que nos é exposta a cada prateleira, em cada freezer, em cada vitrine de padarias e docerias...
    É uma escolha árdua, porém prazerosa, pois surte resultados, é efetiva.
    Viver com muito menos dor é incrível! Ainda sinto um pouco e tenho que recorrer a medicamentos, mas sei que isso tudo é reflexo daquilo que como ou deixo de comer, daquilo que eu faço ou deixo de fazer...mas nada se compara ao que eu sentia antes. E isso não tem preço!
    Agora posso afirmar que a frase tão conhecida "você é aquilo que você come" é verdadeira. Faz sentido pra mim e pra minha vida.
    Desejo continuar aprendendo e seguindo o caminho estreito (rsrs), pois é ele que me levará onde quero chegar.
    Um grande beijo com carinho.

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    1. Olá, Gaby. Obrigada por escrever! Respondi ao comentário no texto: http://endometrioma.blogspot.com.br/2013/06/resposta-aos-comentarios.html

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