Arquivo do blog

sábado, 4 de maio de 2013

O livro da vida



4 de maio de 2013



Esses dias, eu tive um sonho. Estava folheando um livro encadernado com folhas brancas de papel coche. Era um livro com ilustrações do ovário, não de uma fisiologia convencional nem de imagens inertes e frias ultrassonografadas. De um lado, havia um tampão tão branco quanto a página. Um nada. Do outro, quatro hastes de uma planta com flores e pequenos frutos no topo. Eu apreciava a página das quatro hastes como se aprecia o livro da vida.


Não acredito em sentidos místicos de sonhos, nem sou tentada a buscar no oráculo on-line interpretações para símbolos diversos que me clarifiquem o amanhã. O futuro a Deus pertence, e só. Os sonhos são tão-somente a releitura do vivido com toques curiosos de um realismo fantástico que o subconsciente exibe, um cinema artesanal que nasce dentro de nós à luz da lua.

Pois à luz do dia, eu havia dirigido o olhar para aquilo que depois se fez filme à noite. Quase todos os dias de manhã, eu rego uma jardineira. Nela, plantei sementes de morango silvestre, mas nasceram várias plantinhas diferentes, e duas hastes verticalmente firmes e esguias que pareciam que se tornariam mudas de árvores. Quando alcançaram uns 15 cm, pararam de crescer, produziram flores doces e agora estão surgindo vagarosamente pequenos frutos, nos quais diariamente assisto encafifada e ansiosa à transformação. Em que se tornarão? Seriam, por acaso, pés de uma berinjela exótica que vi no catálogo, cuja semente é semelhante a dos morangos? Teria a fornecedora agrícola se confundido com as sementes? Aquilo que você semear, colherá, mas eu não sei o que semeei, nem sei se um dia haverá colheita. Eram essas hastes que vi no ovário no livro.

Como de costume, no mesmo dia, antes de regar as moringas, os ramos de feijões, vagens e ervilhas, as duas pequenas árvores de cereja que plantei e a jardineira, li as primeiras notícias do dia. Leio Folha de S.Paulo (FSP) invariavelmente, depois outros jornais. É um hábito antigo. Era o jornal que meu pai trazia para casa diariamente, foi a escola onde aprendi a ler antes da escola. Nesse dia, na compactada editoria de saúde, havia uma notícia sobre a resposta da indústria farmacêutica à desistência precoce de mulheres de métodos para engravidar devido ao incômodo e à dor desencadeados pelas sete injeções em horários programados. A nova droga propagandeada substitui as sete injeções por uma dose única que promete aumentar, talvez garantir, a adesão ao tratamento. Ao ler o texto, comecei a pensar no ovário.

A FIV utiliza, em regra geral, indutores de ovulação, entre outras drogas. Pode-se usar, em comprimidos, apenas indutores. O indutor de ovulação obriga, não induz, o ovário a ovular (ou ovocitar). A droga obriga, mas não induz, o ovário a liberar mais de um óvulo (ou ovócito) por vez. Com mais óvulos à disposição, aumenta-se a chance de que um ou mais espermatozoides atinjam seu objetivo. Matematicamente, os indutores aumentam a probabilidade de gravidez. Com a dose única, carregada das sete injeções, o efeito promete ser concentrado, potencializado, instantâneo, com mãos de ferro, pois o tempo urge, por isso é preciso vencê-lo antes que nos vença. Óvulos liberados no ritmo em que as plantas levam para crescer, florescer e frutificar não são óvulos viáveis. A sinfonia precisa ser substituída por tambores. É preciso apressar a colheita, numa euforia oposta ao que o texto judaico diz sobre a seiva e o seu tempo.

Indutor não induz, obriga. Não há como o ovário pular do livro e escrever outra história, ele está preso na tela. Ele está dentro do enredo que escrevemos ou aceitamos que outros escrevam. A torrente de hormônios dita o ritmo de trabalho. Ele trabalha, ele se exaure. Da exaustão colocada sobre ele, imposta por uma ou sete picadas, pode surgir um filho, pode não surgir, podem surgir outras coisas. O tempo violado deixa suas marcas.

A atriz da Globo Christiana Guinle se submeteu a sete FIVs em menos de dois anos. O excesso de hormônios a levou à beira da morte. "Na hora, você quer tanto ser mãe, que nem se dá conta de que está morrendo por causa do excesso de hormônios. Eu não queria desistir, queria ser forte, queria ser mãe, e meu médico me incentivava, dizia que era normal", revelou a atriz (Veja aqui). "As pessoas têm que tomar muito cuidado. Sei que não fui a única que passei por isso e sofri muito, quase morri de fato, após tantas tentativas sucessivas. Não há organismo que aguente. Meus triglicerídios chegaram a 1850 e meu fígado aumentou 10 centímetros. Me sinto uma vitoriosa por estar voltando [...]. Fiquei mal quando pensei que talvez não pudesse voltar...", revela (Veja aqui).

Indutor induz obrigando, mas não produz. É um mercantilismo biológico, em que o mais importante não é produzir, mas comercializar. E o comércio invade o templo que somos. A droga nos comercializa diminuindo mais rapidamente, a cada tentativa, a reserva de óvulos. A natureza os libera delicadamente, a droga esgota com intrepidez, cuja velocidade furiosa tem consequências que já foram documentadas o suficiente pela própria ciência para nos alertar e nos fazer tremer. A notícia da FSP "Nova droga reduz injeções para fertilização" traz o depoimento de um médico sobre a nova injeção de dose única: "O ginecologista Eduardo Motta, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), faz ponderação semelhante. 'Precisamos ter cuidado. Se houver uma hiperresposta do ovário, não será possível revertê-la porque a medicação estará agindo por seis ou sete dias'", diz ele (Veja aqui). O que isso significa? O médico se refere ao risco de a mulher apresentar Síndrome de Hiperestimulação Ovariana, uma efeito colateral do indutor potencialmente grave que causa, entre outros sintomas, nos casos mais intensos, hemorragias intracranianas, derrames, hemorragia no pericárdio, insuficiência renal. Nesses casos, a mulher precisa ser hospitalizada na UTI. Cerca de 20 a 25% das mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida apresentam as formas mais leves da síndrome, que podem incluir distensão abdominal, náuseas, vômitos, aumento do ovário (Veja aqui). Qual será a estatística envolvida com a nova droga? O que o médico está querendo dizer quando falou que "não será possível" reverter esse efeito perigoso de hiperestimulação? O que acontecerá com a mulher? 


No Google Academics você pode encontrar pesquisas sobre a FIV e indutores. A bula do indutor Clomid, por exemplo, nos informa que os efeitos colaterais podem incluir neoplasia, aumento do ovário, hiperestimulação ovariana, entre outros efeitos. Sobre a endometriose, a bula afirma: "CLOMID não deve ser administrado na presença de cistos ovarianos (incluindo endometriose ovárica), pois pode produzir aumento adicional do tamanho dos mesmos" (Leia a bula
). Não é raro encontrar mulheres que foram diagnosticadas com endometriose após usar indutores, mas que são levadas a crer que já tinham endometriose antes. Será? Se tinham, qual é precisamente a interação entre a droga e a endometriose? Sabemos que além da ovulação, a droga pode também induzir a velocidade de propagação da endo. Por quanto tempo a droga continua ressoando no organismo após o seu uso?


Se eu tivesse sido alfabetizada no livro da vida antes, talvez teria cuidado melhor do meu ovário direito que perdi, teria respeitado meu corpo, meu ovário esquerdo que resiste e está melhor agora. Mas não sabia ler meu organismo, nem apreciar sua beleza, nem respeitar suas leis. Não sabia ou desaprendi. Aquele ovário era quase um órgão vestigial, se é que órgãos vestigiais existem. Não conheci o tempo da sua visitação. Ele me constituía, mas era como se eu não fosse ele. Não me exercitava, comia o que não alimenta o corpo, engolia as drogas lícitas para não conceber, não cuidava das minhas emoções, não valorizava o poder curativo do sol, da água, do ar, não acreditava que algo recebido de graça pudesse ser determinante. A graça não me tocava. No mundo mercantilizado, quem valoriza o que é de graça? Em uma realidade altamente midiática e imagética, quem acredita no que não vê, ainda que se leve por dentro ou que o tenha gerado? Anônimos não existem. Quando recebi o diagnóstico de câncer que se demonstrou ser uma endometriose profunda, não pensei sequer um segundo em manter o ovário e retirar o cisto de 15 cm. "Tira." O desaparecimento não incomodou, mal foi notado, eu o extirpara antes, a incisão cirúrgica fez o que eu já havia feito. E ainda perguntei à médica: "Você acha que seria prudente tirar o segundo ovário também"? Eles eram o problema, mas era exatamente o contrário: eu os havia perdido muito antes deles se perderem. Eu não aprendera a amar, como a mim mesma, o outro que me constituiu. O outro sou eu. Não me amava e me desconhecia. 


Somos livres para impor aquilo que quisermos ao nosso corpo, a única coisa que defendo é que todas as mulheres, todos os candidatos a pais, tenham o direito de conhecer as implicações do exercício dessa liberdade. Cientes dos riscos, conhecedoras do nosso corpo, seremos donas em potencial do nosso destino, nunca jamais as donas por completo. A vida é mais do que a exatidão matemática, ela está acima de números e valores, desconhece a sede de poder. A vida é sagrada. A vida não está em nós. Se queremos que ela surja de uma forma ou outra, temos todo o direito de escolher, ainda que a escolha possa resultar em desfechos sem escolhas, mas que essa decisão seja tomada com o conhecimento dos prós e contras descritos pelas pesquisas científicas da área médica, descritos pela história viva de mulheres que nos cercam, ouçamo-las. 

Sinto pelas mulheres que, sem informações suficientes, sem serem levadas a olhar de outra forma, tiraram o que lhes era caro – seus órgãos – por acreditarem, como eu acreditei, que eles as faziam adoecer, quando talvez estivesse ocorrendo exatamente o contrário, quando poderiam recuperá-los, recuperando-se. Essa mulher fui eu. Esses dias eu recebi pelo blog um comentário que dizia que eu não precisaria ter tirado meu ovário direito, poderia ter tentado outras formas de preservá-lo, um médico especialista também havia me dito isso. Senti uma dor pulsando fortemente e lamentei pelo que foi feito, pelo que fiz. Publiquei o que ela me disse. Essa leitora tem razão, havia outros caminhos, um deles eu descobri agora com a mudança de estilo de vida. Mas que aquele comentário chegue a muitas outras mulheres e as ajudem a tempo. Sinto pelas que fizeram FVI sem serem informadas suficientemente dos efeitos colaterais. Sinto por Guinle. Sinto por nós. 



Não acho que a FVI ou a indução artificial da gestação sejam proibitivas por razões religiosas. A decisão de seguir por esse caminho é legítima e pode resultar sim em crianças muito amadas, ainda que as implicações ultrapassem a questão da saúde em si e entre em um campo ético bastante controverso, basta considerar as atrocidades cometidas pelo "Dr." Roger Abdelmassih (Veja).

Eu decidi não usar indutores, nem fazer FIV, mas que a todas as mulheres que decidam seguir por outro caminho sejam disponibilizadas as informações necessárias para tomar sua decisão, pois a ciência ainda não nos ensinou como recuperar a página em branco. Que esse método seja oferecido gratuitamente às mulheres que não podem pagar por ele e que todas elas tenham o direito de escolher se querem fazê-lo ou não, depois de terem sido bem informadas. Que o resultado desse método na prática dos consultórios, principalmente na prática médica de centros de saúde públicos ou de consultórios de médicos ligados à pesquisa pública, seja amplamente conhecido estatisticamente, incluindo a investigação dos efeitos colaterais indicados na bula. Que as evidências clínicas e científicas sejam publicizadas e tenhamos acesso integral a elas. Que essa indústria lucrativa seja energicamente fiscalizada pelos órgãos competentes. Que a vida valha mais do que o dinheiro. Que histórias como a da atriz Christiana Guinle sejam conhecidas nos consultórios e compartilhadas pelos próprios médicos com sua pacientes. Que os médicos que sugerem não tentar uma FIV, depois de uma avaliação cuidadosa da saúde da mulher, sejam respeitados, ainda que se discordem deles. Que as meninas na infância sejam ensinadas, no espelho em que começam a se reconhecer, a amar aquilo que veem e o que não podem ver, mas lhes dá a vida.


Que a nossa concepção do livro da vida inclua as páginas de uma fertilidade em estado de imensidão. O resultado poderá ser um filho gerado em nós, um filho que trouxemos para ser nosso, um projeto em prol do outro que nos estimule a continuar a viver não apenas porque nascemos e aqui estamos, mas a viver em estado de graça, ajudando a ilustrar com verdade e delicadeza o livro de nosso semelhante, mesmo que a figueira não dê seu fruto, a vide não floresça. A vida ainda é bela, como uma floresta de coníferas. Ela se refaz.







8 comentários:

  1. Sem palavras... Sua inspiração para a escrita e a maestria com que discorre é um dom divino. Você é poeta.
    Preciso reler para meditar um pouco mais, de tão profundo e intenso que é!!!! Um texto que nos toca. Só quem passa pelos caminhos entende a sutileza do texto.
    Continue sempre!
    Um grande beijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amiga muito querida:

      Toda gravidez é um milagre divino. A vida vem de Deus. Ele nos inscreve em Seu livro. Há muitas implicações, ciência delicada e ciência dura, eu preciso pensar sobre elas, mas toda gravidez é um milagre divino. Agora há a poesia mais bela, em nós. Somos Sua escrita.

      Excluir
  2. Toda vez que eu quero parar de pensar de pensar enlouquecidamente em tudo que está acontecendo comigo eu venho até aqui. As suas palavras, o seu ponto de vista, são uma luz. Daqui a vista é de fato, mais bela. Obrigada

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, querida Jenni:

      Tem algo diferente nas suas palavras. Em frente ao meu escritório, há uma árvore. Há pequenos frutos nela agora, e surgem muitos pássaros e sons. O sol nasce entre seus galhos. A manhã é um momento único. Essa sensação de que algo solene acontece, eu tenho quando olho para além dessa janela, eu tenho quando leio o que você escreve. Sinto algo muito especial. Obrigada pelo que faz por mim com suas palavras. Quando quiser conversar, escreva-me. Podemos nos falar.

      Excluir
  3. Minha flor, qual exame você fez para diagnosticar a endometriose profunda? Foi a ressonância magnética da pelve?

    Khadija.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. http://endometrioma.blogspot.com.br/2011/03/exame-para-deteccao-de-endometriose.html

      abraços. carinho.

      Excluir
  4. Que texto lindo! Muitas pessoas me perguntam porque não busco tratamento (em clínicas de fertilidade), ou diretamente porque não faco FIV... mas eu decidi e meu marido concorda que uma gravidez a custo de bombas de hormônois e medicamentos não vale o preço. Não desejo submeter minha saúde a isso. Exatamente se meu corpo não concebe, é sinal de que algo está irregular, já há tantos anos tento adaptar minha alimentação para tentar equilibrar isso, não quero me entupir de remédios. Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por escrever, Ariana! Não vale o preço, como você diz. Por vezes, é o preço de uma vida.

      Após mudar meu estilo de vida, eu engravidei naturalmente do João, que hoje está com 1 ano e 6 meses! Um bebê saudável, vegetariano, fruto de uma transformação em minha vida. Veja aqui as mudanças que fiz: http://endometrioma.blogspot.com.br/2014/01/meu-tratamento-contra-endometriose.html

      Leia também este depoimento emocionante de uma mulher que entrou no blog e fez as mudanças em seu estilo de vida: http://forum.mulherendo.pt/t518-acreditar

      Mas esse é um caminho árduo, repleto de incertezas, caminho solo. Eu trilhei por ele com a ajuda de Deus. Ao olhar para esses últimos sete anos, agradeço a Ele pelas decisões que tomei. Agradeço a Ele pela força que recebi para mudar meus hábitos e resistir às pressões. Não existe pílula mágica, nem mesmo se ela for fitoterápica ou estiver restrita apenas à alimentação. A cirurgia ou drogas tampouco são curativas. É necessário mudar o estilo de vida, que engloba muitos aspectos.

      Desejo muito sucesso e muitas bênçãos em sua caminhada. Com muito carinho,

      Excluir