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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

As amoras


2 de setembro
Amoras são tinturas vermelhas que respigam pelo ar. Anticancerígenas, antiendo e medicinais, pendem em finos galhos, escondem-se sorrateiras entre folhas, mergulham abissais para a terra suave, alimentam pássaros nas copas e gente, nas ruas.

No sábado, eu e meu marido saímos para caminhar pelas ruas de terra do condomínio, cercadas de amoreiras frutificando. Passamos por uma árvore e, enquanto colhia algumas frutinhas pendentes, uma mulher, aparentando minha idade, falou do outro lado da cerca. Hostil, começou a dar instruções quanto à colheita, recriminando-nos. Disse que havia plantado dezenas de árvores frutíferas pelas ruas daqui, apresentando-se como nativa da terra, como se o território comum a todos tivesse o dono original, um espaço cravado de cercas de arame que faiscavam em seu olhar. Éramos os invasores.

Meu sangue circula rápido com vermelhidão incontida. Inúmeras vezes, meti-me em discussões acaloradas, como quando entrei em um hospital em que um médico humilhava publicamente um homem cabisbaixo e desesperado, e sua família. Fosse qual fosse o motivo, ninguém deveria falar com outra pessoa daquela forma. Comprei a briga e o médico atacou-me com fúria redobrada. Seguiu-se troca de fúrias, na qual entraria novamente se me visse na mesma situação.

Meu marido me conhece bem. Sabe da calma que tenho até que a calma se vai. Apresentou-se à mulher, disse que éramos moradores, travou um diálogo amistoso, surdo aos insultos, enquanto eu tomava tempo para respirar. Em poucos segundos, a mulher começou a contar que perdera o pai há um ano, a mãe estava doente, ela havia acabado de voltar do Oriente Médio, depois de um tempo trabalhando em uma empresa internacional nos Emirados Árabes. Falou da insana guerra que arde daquele lado, da intolerância, da xenofobia. Desandou a falar, sem perder o olhar e as palavras de mando.

Troquei algumas palavras, fiz perguntas e, quando pretendia seguir em frente, ela me perguntou se eu estava gostando de morar aqui. Disse-lhe que há muitos pontos positivos, mas que as queimadas e o barulho ensurdecedor das festas que adentram as madrugadas incomodavam muito. Prontamente, ela respondeu que coloca fogo sim (inclusive em pés de amoreiras frutificando) e adora barulho. Quanto a isso o que alguém adepta do silêncio e do respeito ao ar que os vizinhos respiram poderia fazer? Esse alguém, pra ela “um outro ninguém”, nada pode. Respondi apenas, com a calma possível, que há sim técnicas ambientalmente sustentáveis de manejo de galhos secos e subprodutos do mato para que não sejam queimados. Mas são técnicas que dão mais trabalho. Despedimo-nos e seguimos andando.

Debaixo de outra amoreira, perguntei ao meu marido se ele não havia ficado nervoso com a situação. Disse que ficara, mas decidira imediatamente reagir com o diálogo e tentar encontrar, mesmo que um pouco, de humanidade naquele terreno de farpas. Fez isso por mim e pelo João, nosso filho em mim. Eu colhia as amoras ainda com a indignação pulsando: como pode alguém agir com tamanho senso de que tudo lhe pertencesse e de que o outro desconhecido é ameaça que se despreza e ataca? Se a incompreensão entre sunitas e xiitas a incomoda, se o julgamento contra a fé e a religião do outro lhe deixa perplexa, por que ela traz esse Oriente em chamas em seus olhos claros de peleja? Forasteiros somos todos nós, ela e eu, todo chão é terra distante, mas a raiz é comum. Somos potes de incoerência.

Demos a volta no quarteirão, de mãos dadas, em direção a uma sequência de amoreiras, espalhadas por toda parte. Quando apontamos em um lado da rua, vimos que do lado oposto, vinha a mulher. Meu marido quis recuar, mas decidi que o melhor era prosseguirmos. Caminhávamos frontalmente e nos encontraríamos no caminho diante de outras amoreiras, mais uma vez. Um pouco antes desse ponto médio, havia dois meninos e uma menina colhendo frutinhas. Sorri para eles e o garoto, bronzeado de piscina, com o pote carregado de colheita, ofereceu-me as amoras. Disse-lhe, treinando para ser mãe, que as amoras faziam bem à saúde e que ele deveria comê-las. Ele mostrou a barriga cheia, falou da colheita que fizera nos galhos mais altos, sorriu faceiro: “tem mais amoras.” Já dizia Fernando Pessoa, o melhor do mundo são as crianças.

Aproximamo-nos no caminho sem escape, eu e a mulher trocamos algumas palavras sobre polinização e abelhas, enquanto o homem que a acompanhava colhia e comia as frutas do pé e meu marido se deliciava em conversar com os pequenos. O menino que sorrira pra mim chegou perto e ofereceu à mulher as amoras. As amoras eram dele, mas também eram de todos. Ninguém era estrangeiro.

Em um quarteirão de dez minutos, a resposta que não dei se deu. A fúria se ascendeu feito doçura de árvore e mãos de criança. Quem sai andando e chorando, voltará com júbilo. Quantas vezes, nesses últimos tempos, senti a força do preconceito de todo tipo que me entristeceu profundamente quando as palavras caíram de fontes que se perderam na insanidade, de pessoas de quem não esperava ouvir o que ouvi. “Como posso estar ouvindo isso?”, perguntava-se. Mas em dez minutos de um quarteirão do tempo, vi também a resposta que se deu, sem que fosse preciso provocá-la.

Nem sempre é possível assistir a um quadro que se completa, com enredo que começa e se conclui. Às vezes, a dor provocada surge como dor mais solitária do mundo perdida em incompreensões e injustiças, sem desfechos nem sentido. Mas a colheita vem, para mim, para nós, na invisibilidade ou à luz de uma rua, nas pequenas lições que nos chamam à razão e nos mostram nossa incoerência e intolerância, os vis preconceitos. Nessas caminhadas de terra desnuda, o melhor a fazer é ter o controle da palavra, nem que a decisão mais sábia seja usá-la para desmanchar-se em silêncio. Os fracos são fortes. É livre quem controla as emoções. A justiça se faz melhor assim, ainda mais quando as palavras precisam quebrar o silêncio e gritar feito espadas. Ajuda também acreditar nas escrituras infalíveis, não para aquietar-se: um dia o resultado de toda semeadura será conhecido sem disfarces, e todo olho o verá. Por enquanto, nas microcolheitas dessa lavoura arcaica, escuta quem quer, entende quem deseja. As lições estão por toda parte, mas o mundo ensurdece. 

Embaixo da planta que pertence mais aos pássaros do que a qualquer outro, por pouco não fiz guerra. Colhi amoras, porque as pequenas frutas que meu marido cultivara se chamavam tolerância, escuta, diálogo. Ele me alimentou com elas, então fui capaz de acolher o silêncio da paz, aquele mesmo que digo que prefiro em lugar do caos. Amai o que semeia a inimizade, sem aliar-se à semeadura insana, indignando-se sem perder-se. Esse é um tremendo desafio.


De nada adianta as amoras medicinais e se elas riscam o ar e se perdem na terra, entre estrondos. Mas elas se tornam frutas curativas quando acolhidas pelas mãos de uma criança – criança feito criança, criança que ainda vive em adulto feito. O reino dos céus pertence aos pequeninos. Com afetividade e leveza, alcançam o alto das copas. Descem de lá, do céu verdejante, estendem o pote e sorriem faceiras, com as mãos alegres e tingidas de sangue doce de amora.

4 comentários:

  1. Parte II

    Alguns adultos, pobres adultos, mandam a criança ir embora. Esquecem-se desse sentimento. Perdem-se medindo sua vida e sua felicidade pelo termômetro da vida do outro. Tornam-se defensivos, malucos, arrogantes quando não esnobes. Vestem-se de armaduras, travam guerras em nome de falsas questões. Encobrem a verdadeira fagulha causadora do fogo da rebelião.

    Amiga querida, em tantas guerras você já lutou, em tantos desafios você já se superou. Quem vê a casa pronta não enxerga a sua construção. Tampouco se preocupa em aprender a construi-la. A quer pronta e acabada e, se não der, que, pelo menos, o outro a perca também. Pobres pessoas que têm vidas pobres. Desconhecem o verdadeiro sabor da amora, subtraem a própria felicidade.

    Mas, a criança continua a brincar no nosso jardim. Não foi ela que quis ir embora, fomos nós que a mandamos ir. Por isso, quanto mais felizes e bem realizados nós formos, mais essa criança, e toda a sua liberdade, vai voltar para nós. Seu marido tão bem sabe disso. Sábio, institivamente as considerou. Afinal, só quem é feliz entende a língua das crianças. Se se precisa de uma resposta para tudo isso, elas a deram.

    Seu texto é muito bonito, minha amiga. É um prazer lê-lo. Quanta coisa importante, verdadeira você colocou. Tantas reflexões, questões. Não dão para dar conta. Análise rica de uma situação tão delicada. Seu passeio rendeu uma história e tanto. Êta amorazinha danada!

    Por falar nisso, vivo atrás dela aqui no supermercado, mas quando ela chega, o preço é de botar para correr, assim como a mulher atrás da cerca. Fazer o quê? Cada pé tem o seu calo. Eu driblo o preço daqui e, você dribla a mulher daí. O importante é não perder o gosto pela colheita. Seja o ultrapassando obstáculo que for, vamos sempre buscar pelas nossas Amoras.

    Um beijão grandão!
    Com muito carinho,
    Michele.

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  2. Parte I

    Querida amiga

    Poder acordar o dia com uma caminhada tranquila e gostosa acompanhada de um marido parceiro é mesmo um privilégio danado de bom! Além de termos a recompensa do corpo, a da mente vem de quebra, povoando-a das doces lembranças de uma manhã simples, porém mágica.

    Talvez seja nisto, na mágica dos acontecimentos simples das nossas vidas e da expectativa de esperar por esses doces momentos, que encontremos a nossa verdadeira felicidade. E esta é tão bem-vinda que, aos poucos, nos tornamos fiéis praticantes dela, já que ela nos transforma, nos une, nos fortalece. É um ritual motivador, libertador, engrandecedor. Bonito de viver e de ver.

    O problema é que, por vezes, a felicidade alheia incomoda. Traz à tona, para algumas pessoas, rios de frustrações não superadas, expectativas não correspondidas, demandas não atendidas. Feridas que não são tratadas, inflamações que são alimentadas todos os dias.

    Uma cena verdadeira como a sua, um carinho verdadeiro, um amor real - não manipulado ou encenado para alvos específicos-, é de tirar o chapéu! É de perder o fôlego. É de derrubar qualquer um que não saiba amar, que desconheça que o amor não é só para ser recebido. É também para ser dado! Quem ama ama, só ou não. Quem não ama não ama, ainda que não esteja só. Quem é derrubado pela falta de amor tende a se voltar implacavelmente não contra os seus pensamentos destrutivos, mas contra as pessoas que eles não são.

    Já para as três crianças, que lhe ofereceram o fruto, a amora docinha e suculenta, a felicidade dos outros é estímulo e oportunidade para amar, compartilhar, usufruir de um alegre momento apenas por usufruir. Sem exigências, sem inculcações, sem cobranças de que sua vida tinha que ser assim ou assado para que pudessem se entreter de forma amistosa com aquele casal e o bebê deles, por chegar. Lembro-me de uma passagem do livro O Mundo de Sofia na qual um gatinho (se não me falha a memória) brinca com um objeto que rola à sua frente a despeito de maiores questionamentos sobre como aquele objeto rolando apareceu por ali. Ele só quer brincar. A oportunidade surgiu. E ele brincou. Vêm as crianças, fazem o mesmo. A oportunidade surge, o dia é lindo, a amora madurinha, a paz é presente, compartilhar é felicidade. Com elas, temos tanto do que nos lembrar.

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  3. Querida amiga Michele:

    Esta terra onde estou tem surpresas saborosas e desencantos. Esta terra, nosso blog, é releitura saborosa e terapêutica. Reflito e sorrio muito com seu texto, com seus textos maravilhosos. Trouxe-me ainda mais das crianças, como esse meu marido, nascido em 12 de outubro, que me alimenta de amor-amoras. Rimos muito com a mulher atrás da cerca no supermercado...

    Há uma, mais pedras em cada um dos caminhos. Nada de paraísos. Mas também há dezenas de reinos infantis na realidade de todos, a despeito dos obstáculos. Seu olhar desmascara as pedras com entendimento que me escapa e exalta os reinos. Que privilégio é receber suas palavras! Elas não fogem à luta e revelam a doçura da existência. Que colheita saborosa eu fiz!

    Aqui há pó e pedras. Na fase do enjoo, enjoei desta terra. Esqueci-me do texto “Transformação” (http://endometrioma.blogspot.com.br/2012/12/transformacao.html), dos pássaros que nasceram no pilar da garagem e cujo primeiro voo foi em um domingo, prefigurando o voo de outros filhotes. Os dois filhos ganhando o mundo e os pais alvoroçados depois de tanta entrega e dedicação aos pequenos. Deram muitas voltas pela chácara, desabafando com palavras de aves. Há tempo para tudo, o momento da chegada, o momento da partida. Das não-amoras e das amoras, seu texto mais lindo. Os enjoos e o fim dos enjoos. Tempo da volta na/da terra querida. Voltei a gostar da chácara. Íamos nos mudar, mas os três meses passaram. Agora os hormônios me dizem outra coisa.

    Esses dias, o pedreiro esteve aqui para arrumar um cano quebrado e trouxe seu filhinho de dois anos, de nome João. Veio com seu carrinho de plástico, circulando a pedaladas os contornos da casa. Depois, pegou o rodo para supostamente varrer as folhas secas da grama. O menino saboreava o espaço aberto, sensível ao contraste das cores e formas naturais. Criança nasce gerada na terra, depois as dessensibilizamos. Mas menino e menina precisam de espaço aberto, nem que seja aos fins de semana. O menininho, com a pele morena clara e os cabelos lisos e compridos em formato de cuia, parecia um indiozinho. Coisa mais linda, como um gatinho de Sofia. Levamos o menino para colher amoras. “Abre a mãozinha, fecha a mãozinha e puxa”, ensinei. O menininho colhia as frutinhas. Agradeci a Deus por aquele momento.

    As crianças não precisam ser nossas para estarem presentes. Nós as escolhemos, nós as chamamos, elas também nos escolhem. Há tantas oferecendo pequenas amoras na esperança de que sejam aceitas. “Meu nome é Esperança”, escrevera um dia o sensível e genial Ganymédes José, que me falou na infância. Esse livro é lindo, fala do adulto que adota a criança, da criança que adota seu lar. Ainda criança, chorei tanto pela criança, depois chorei por Ganymédes.

    Uma amiga me contou que um casal esperava engravidar, mas não aconteceu. Esperavam adotar uma menina, mas não aconteceu. Tempos de não-amora. Então, de repente, surgiu um bebê inesperado. Ganharam seu filho, também de nome João (quantos Joões!). A resposta de Deus foi diferente de tudo que esperavam, mas o sentimento intenso de felicidade que vive o casal neste momento o faz agradecer ao Pai o maravilhoso presente, pois Ele sabe o tempo de todas as coisas. Mais do que o nosso olhar, Seu olhar refaz os tempos. As crianças se apresentam de diferentes formas, mas sempre são imprescindíveis. Que caminhada!

    Querida amiga, desejo aprender a linguagem das crianças, como você bem colocou. Que nas próximas caminhadas, eu me lembre do caminho das amoras.

    Beijos. Carinho!

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    1. Ganharam o João. Eles o adotaram. Uma história muito linda!

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