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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O nascimento de João


23 de dezembro de 2014

João, meu querido filho, nasceu em janeiro deste ano.

Era sábado. As primeiras contrações vieram de madrugada. Durante nove meses, sem pensar na dor, construí certas imagens esparsas dessa chegada. Mas jamais imaginei que passaria por dores além das dores do parto.

Escolhemos um médico precursor em parto humanizado em Campinas. Pagamos adiantado por um parto normal. Mas sofri todo tipo de violência. Durante todo o processo, ele forçou uma cesárea, a qual acabei sendo submetida. Para impor a cesárea, ele disse que meu bebê era grande demais para o parto normal e estava com 4 Kg (o bebê nasceu com um pouco menos de 3 Kg, o que o ultrassom já apontava); disse que os movimentos do bebê estavam reduzidos (sugeriu que ele não tinha forças para um parto normal. Fiquei arrasada antes do parto, pensando que meu bebê não estava bem, mas o ultrassom em uma clínica particular mostrou que era um bebê forte, e saudável, o que ficou comprovado após o nascimento); me deixou com contrações vários dias sem atendimento (foi viajar para praia); disse que eu não tinha dilatação suficiente (eu estava com dilatação, o que outra médica comprovou); furou a bolsa para evitar que o processo se estendesse; quando eu estava em trabalho de parto, com contrações de 1 em 1 min., falou que se eu insistisse, “o bebê não aguentaria”, pois seu coração já não estava batendo bem (apenas uma fala inconsequente e absurda, sem a fundamentação de qualquer exame médico. O bebê tem a saúde perfeita. Até hoje não teve sequer uma febre leve, gripe ou virose). Esse último argumento, feito em meio às fortes contrações que sentia, fez-me aceitar a cesárea.

No sábado das primeiras contrações, o médico não estava na cidade. Decidira passar o fim de semana na praia. Eu dizia, com medo, ao João: “Não nasça ainda, seu médico não está.” Repeti essa frase no domingo e na segunda, entre dores, quando as contrações intensas chegavam de 3 em 3 minutos, 2 em 2 minutos e, então, se tornaram seguidas. Sempre à noite. João encaixado, colo do útero fino, contrações regulares, dilatação de 4 cm, avançando rapidamente. Então, em meio às dores finais, na terça, insistimos que o médico viesse até o apartamento. Ele disse que seria cesárea. Após tanto abandono, aceitei a cesárea.

Outro médico aplicou a anestesia raquidiana, enquanto eu sentia contrações intensas. Durante o procedimento médico para realização da cesárea, uma artéria se rompeu e tive uma hemorragia, controlada a tempo. O médico que fez a anestesia ficou nervoso, disse ao obstetra que ele era o responsável, pois tinha me deixado em trabalho de parto por horas seguidas... Corri risco de morte.

Em alguns minutos, João nasceu, mas não pude tê-lo em meus braços. O mesmo médico que havia propagandeado um parto normal, humanizado, em ambiente hospitalar..., abandonou-me em um canto qualquer daquele hospital, separada de meu filho, numa noite chuvosa. Fomos separados em salas de recuperação diferentes. Fiquei sozinha, com o corpo paralisado pela anestesia, em uma maca jogada ao lado, sem qualquer assistência. João ficou só numa maca pequena sem o calor de sua mãe. Acabara de nascer e estava só. Após três horas, pude finalmente ter João nos braços.

Depois do parto, fomos obrigados a dar fórmula ao bebê. Ele nasceu bem, com toda vitalidade. Mas souberam que eu era “naturalista” (alguém nos rotulou e as enfermeiras repetiam o rótulo que eu mesma não defini para mim), e então deduziram que o bebê precisava de reforço. Resultado: ele não quis o peito. Amamentar se tornou um imenso desafio, do qual eu não desistiria jamais.

Fomos a uma consulta com uma pediatra da Unicamp. Ela disse que o médico que eu havia escolhido, realmente, no passado, havia realizado muitos partos humanizados, normais, na água..., mas que agora, transformara-se em “outra pessoa”. Desumanizou-se. A médica me disse: “Ele inventou que seu filho não tinha os batimentos cardíacos normais.” Esse médico, participa de programas de TV, vende um ideal na internet, em seu site, mas não vive esse ideal. Engana as mulheres, recebe seu dinheiro e, após promessas de um parto normal, faz, na maioria das vezes, cesárea, embora mantenha um site ilusório, com histórias que retratam um médico que ele, decididamente, não é, se é que realmente um dia foi.

A violência que implode nas ruas, expondo a falência de um país, está transbordando em pessoas, sejam próximas, da família, intelectualizadas, bem conceituadas, endinheiradas ou não. O amor está se esfriando de quase todos, e a iniquidade cresce como nunca antes. Meu filho nasceu em tempos de guerra. Caímos nas mãos do mundo, mas não fomos vencidos por ele.

O nascimento do bebê João é o acontecimento mais feliz de minha vida. Mas estou relatando as dificuldades pelas quais passei porque essa experiência tem a ver também com a experiência de milhares de mulheres, inclusive das que têm endometriose e procuram por um médico, um tratamento. Inúmeras vezes, se querem seguir um caminho alternativo, são desacreditadas, humilhadas e julgadas. São expostas a todo tipo de violência, entre cirurgias e consultas. Se seguem o tratamento padrão, por vezes, descobrem que não houve resultado. A saúde piorou, parece não haver saída. E o profissional médico que tanto insistira em uma direção acaba também se ausentando, se eximindo. Onde encontrar forças? Onde encontrar abrigo em meio a esse temporal avassalador? Qual é o caminho certo?

Não é fácil se responsabilizar pela própria saúde. No meu tratamento contra a endometriose, eu tenho conseguido. Nenhuma palavra tem sido capaz de me desanimar e me fazer desistir desse caminho. Não tenho medo de dizer “não” aos hormônios e cirurgias (em determinados casos, a cirurgia pode ser necessária) e “sim” a uma mudança completa de estilo de vida, sem vacilar, sem titubear, sem abrir exceções. Não me deixo intimidar quando um profissional médico fala contra a alimentação natural ou recursos fitoterápicos ou contra a fé, desacreditando por completo ou parcialmente a opção de mudança de estilo de vida. Por isso, os resultados positivos vieram. Venci a endometriose. Continuarei neste caminho.

Mas no meu momento extremo, em dor excruciante, no momento do parto, eu não consegui seguir o caminho certo. Eu orei e Deus me deu a certeza de que o menino nasceria de parto normal. Mas eu não confiei nEle. Achei que ter superado a endometriose e ter engravidado naturalmente já era tudo que eu podia esperar. Racionalizei. O bebê estava nascendo de parto normal, eu tinha contrações, sentia ele nascendo, mas recuei. A palavra de um médico desumanizado e violento prevaleceu. Como eu poderia saber que seria seguro ir em frente, insistir no parto normal, se o médico colocara, de modo irresponsável e inverídico, o argumento de que meu filho não aguentaria? Eu sabia apenas por meio da oração.

Por que eu deveria confiar em uma oração? Confiar em versos bíblicos? Confiar em Deus? Tive o bebê à meia-noite. O médico havia acabado de chegar da praia. Queria descansar...
Por causa das circunstâncias do parto, meu leite demorou para descer. Iniciou-se uma luta enorme para amamentar. Também tive de superar as dores físicas e psicológicas de múltiplas violências obstétricas. Violências que não conseguiria descrever aqui. Nesse processo, a amamentação foi bastante prejudicada. Esse obstetra que fez a cesárea chegou a dizer, após o parto, que “leite é sangue” e que “meu sangue não produziria leite...” Insanidade. Alguém como ele deveria ser afastado do exercício da Medicina, no mínimo.

Já no segundo mês após o parto, passei a produzir mais de 800 ml de leite por dia, em meio a muita luta. Produzir leite e amamentar, tanto quanto superar a endometriose, é uma ciência. Em atitude de oração, encontramos o caminho. Deus tem me dado forças, pois a dor foi indescritível.

João, meu filho amado, mama agora exclusivamente no peito, sem qualquer outro leite como complemento. Continua saudável, forte, assim como no momento do nascimento. Até agora, não teve sequer uma cólica ou resfriado. Ele não teve nenhuma doença comum aos bebês ou qualquer indisposição.

O nascimento de João se enquadra dentro de um contexto maior, sobre o qual é necessário refletir. Estamos nos desumanizando. Relações familiares, profissionais, médico-paciente etc., estão se fragmentando, carregando-se de violências. Não há diferença entre o que o médico fez para mim e o que tem acontecido em crimes bárbaros relatados pelos jornais.

Tanto no processo de nascer quanto no enfrentamento de uma doença, deparamo-nos com situações que minam a resistência. Eu não vejo saída a não ser manter-se firme para que o amor não se esfrie de nosso próprio coração. Manter-se confiante na existência e atuação de Deus para que Sua voz não se apague de nosso coração. Ouvir a voz do Pai não é um privilégio que damos a Ele, mas uma conquista que eu preciso priorizar em minha vida.

Perdi um momento que era meu. O parto normal implica em várias questões. Pesquisas indicam que a gravidez não é a cura para a endometriose, mas o parto normal poderia ser. O parto normal define, em grande parcela, a saúde do bebê, além de beneficiar a mãe. O parto normal é um presente de Deus para a mãe e o bebê que, em vez de serem separados imediatamente após se conhecerem, ficam juntos. O bebê, ao chegar ao mundo, vai para os braços de quem mais o ama. Eu e João ficamos sós naquela noite chuvosa. Ele chegou ao mundo e não teve sequer os meus braços acariciando-o, dizendo a ele o quanto era amado.

Mas é preciso enfrentar as perdas. Não está sendo fácil ainda, mas preciso fazer isso pelo João. Preciso ressignificar. Para amamentar, eu precisava ser forte, mas estava tão frágil. Na minha fragilidade, Deus me fortaleceu. Cada lágrima, cada choro incontido, toda dor, Ele transformou, continua transformando. Minha força está NEle.

Cheguei ao sexto mês de vida do João com a amamentação exclusiva. É um bebê saudável e querido! Amamentar foi para mim o renascimento de João. Hoje, João está com 11 meses, logo fará um ano. Meu leite continua sendo seu alimento, sua vida.





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