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segunda-feira, 19 de março de 2012

Endometriose e gastronomia

19 de março de 2012

Nesses primeiros meses do ano, muita coisa tem acontecido. Finalmente, depois de uma negociação longa, que ainda não está totalmente concretizada, compramos nossa casa-verde. Como escrevi no texto A terra prometida, estávamos em busca de um lugar que nos desse a possibilidade de ter mais saúde. Um lugar com área verde, árvores, casa aberta à luz do Sol, segurança, água disponível. Ainda não é o lugar que desejamos. Mas é a transição. Um bom começo para quem se enfurnou por muito tempo em apartamentos e lugares acinzentados.

Além dessa mudança, eu e meu marido aceitamos atuar como voluntários em um projeto social. Por isso, o tempo da escrita tem sido, em grande parte, substituído por essa experiência. Nesse projeto, conheci duas mulheres e uma adolescente com histórias de endometriose. A primeira tem mais de 40 anos e saiu do seu Estado para se tratar em um hospital público de referência. Com o olhar cansado, o corpo doente, ela contou que sonha em ter filhos. A segunda mulher tem dois filhos adultos. Depois da gravidez, desenvolveu a endometriose. Resolveu seu problema com um tratamento cirúrgico radical. No entanto, sofre com outros problemas de saúde. Chega a ficar com intestino preso por 11 dias. Para não se tornar dependente de remédios, não usa laxante. A terceira, uma adolescente sem condições financeiras que sonha em estudar desenho gráfico, me contou que foi ao médico do SUS para descobrir o motivo da menstruação excessiva, com intervalos cada vez menores. Perguntei se ela tem cólicas, respondeu que são fortíssimas. O médico não deu nenhum diagnóstico, por enquanto. Acho que há chances de ser endometriose.

Uma vez por semana, faço uma receita para o almoço comunitário. Não sou uma culinarista. Não tenho habilidade na cozinha. Mas para superar a endometriose, decidi aprender, copiar e inventar receitas, sabores, gastronomias. Constatei em meu organismo a importância estratégica da comida saudável para o combate eficiente à dor, diminuição dos focos de endometriose e qualidade de vida. Mas como convencer alguém que uma dor tão forte, uma doença grave podem ser combatidas, controladas e mesmo vencidas por algo tão simples quanto a comida? Talvez a melhor maneira de convencer que a comida cura é me colocar na cozinha, acreditando que é possível, timidamente e aos poucos, tornar-me chef, confeiteira, cozinheira, com a pretensão de conquistar o título de Chevalier da Gastronomia que nos reconstrói, para combater tanto sofrimento. Dividir o sabor. Convidar com cheiros e cores. Só então falar, em meio à sensação única da gastronomia dos sentidos, que aquela comida me salvou.

Faz pouco tempo que estou lá, aos pés de uma cadeia de lindas montanhas, entre pessoas que têm realidades completamente diferentes da minha e vivenciam outras culturas de sabor, mas que foram marcadas pela mesma doença e também por dores diversas. Sem que eu esperasse, ao considerar meu próprio tempo de transformação e convencimento, as mudanças surgem. As perguntas surgem. Às vezes, minha ansiedade em contar que há, sim, cura na transformação do estilo de vida, faz com que, por instantes, eu valorize demais a palavra. Então, me resigno. Contenho a fala. Contemplo o prazer da comida. Espero o tempo espontâneo das conversas, das trocas de saberes que todos têm. Enfrento a cozinha.

Ontem, a segunda mulher, a coordenadora do projeto social, me contou o resultado de uma mudança. Ela havia me perguntado como fazer o intestino “funcionar” (Penso que talvez ela tenha, sem saber, focos de endometriose no intestino). Contei que por ter endometriose no intestino, já sofri dores na evacuação, além de períodos de diarreia alternados com o intestino preso. Como se não bastasse isso, muitos fragmentos de comida saiam sem que estivessem completamente digeridos, o que obviamente prejudicava ainda mais meu estado nutricional. Mas agora meu intestino funciona dia a dia, satisfatoriamente. Às vezes, há alteração na consistência das fezes, mas os outros sintomas desapareceram. Sei que fiz muitas mudanças. Sei também que ela não conseguiria assimilar tudo naquele instante, ainda que sua atenção tivesse sido despertada para a necessidade de mudar. Mas entre as dicas, falei de um hábito diário muito simples e bastante eficaz:

Ao levantar pela manhã, tomo dois copos de água e um limão (Alguns detalhes: tomo um copo de água, o limão espremido e o segundo copo de água. Ela me disse que tomou um copo de água com o limão e o segundo copo de água). E faço minha caminhada antes do café da manhã (Profissionais da saúde recomendam que as pessoas tomem uma colher de mel antes da caminhada. Como não tenho problemas de fome ou fraqueza, raramente uso o mel, mas acho que é recomendável). Se não for caminhar, tome a água e o limão e espere, no mínimo, 30 minutos para comer. É importante não misturar líquidos na refeição para não atrapalhar a digestão. A caminhada ajuda muito a estimular o movimento do intestino. PS.: Como o limão é ácido na boca, ele ataca o esmalte dos dentes. Por isso, é recomendável tomá-lo com canudinho. Em pessoas mais sensíveis ou se consumido em excesso, o limão pode provocar aftas. Mas no estômago, o limão se torna alcalino. Por isso, traz benefícios que vão muito além do efeito de regular o intestino.

Em apenas uma semana de mudanças, ela foi ao banheiro 3 vezes em 7 dias (antes era 1 vez em 11 dias). Além disso, estava convicta de que se fizer mais mudanças, poderá resolver seu problema. Tenho certeza de que sim. Tenho certeza de que se ela tivesse feito a caminhada os resultados seriam ainda mais extraordinários. Mas o convencimento tem seu tempo, assim como foi comigo. Ela sabe da importância do acompanhamento médico – e tem feito consultas e exames regulares –, mas ao experimentar os temperos descobriu também uma receita azeda capaz de reativar com leveza. Para mudar, é preciso querer. Para mudar, é preciso receber o amargo. Para mudar, é preciso saber e sabor.

Ela também me disse: “você fala com brilho nos olhos.” Sim, os olhos felizes daquela mulher com suas descobertas de liberdade, feito a gastronomia, convencem os sentidos, reafirmam a certeza do caminho, reanimam e encantam, como a flor branca em terra fértil – um convite à vida delicada e forte, delicada e fértil, em solo nutrido.

PS.: Certa vez, folheei um livro na casa de minha tia, com o título “Lugar de médico é na cozinha”, escrito pelo médico Alberto Peribanez Gonzalez. Não li o livro, mas concordo com o título! Também entrei no site do médico nutrólogo Eric Slywitch, com quem não me consultei. Há fotos de uma horta na parte de fora do consultório e do médico em uma aula de culinária saudável. Ele sabe que ali está o princípio vital da saúde. Mas quem está disposto a ir para a cozinha?

Minha receita contra a endometriose, em linhas gerais:

Um caminho, entre tantos


Gramáticas da endometriose



Leia o texto: Ele se importa com seus problemas


























Meu marido fez esta foto ao conhecermos um lugar de beleza impressionante.

2 comentários:

  1. Olá, estou comentando porque quero saber um pouco mais sobre endometriose. Fiz laparoscopia e tratamento hormonal no final do ano passado e, como meus demais exames não apresentavam problemas (ovulação, hormônios, etc)o médico me disse que o ideal seria que eu engravidasse logo. Mas já estou na segunda menstruação e não engravidei, estou com o maior medão de voltar, se é que não voltou. Comecei uma atividade física esse mês... estou meio perdida, sabe? Bjs

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    1. Oi, Grace:

      Agradeço seu comentário!

      Ainda é cedo. Engravidar, mesmo em condições normais, pode demorar mesmo. As chances de uma mulher ficar grávida giram em torno de 20 a 25% no mês. Com a endometriose, essa chance apenas diminui. A esposa do primo de meu marido tentou engravidar por mais de um ano. A saúde dela estava normal. Mas, ainda assim, ela resolveu fazer mudanças na alimentação e estilo de vida. Depois de dois meses de mudanças, engravidou naturalmente. A bebê vai nascer em julho!

      Como disse, eu mudei meu estilo de vida (Conto resumidamente essas mudanças nos dois textos que indico no final desse artigo: “Um caminho, entre tantos” e “Gramáticas da endometriose”). Não tenho mais dor, a endometriose diminuiu e minha saúde está ótima. Mas ainda não tentei engravidar. Embora não tenha uma experiência particular sobre isso, acredito que essa mudança é muito importante, sim, para uma mulher engravidar. É muito importante nutrir o corpo (com a comida correta) e limpar o corpo (o exercício limpa as células e promove o equilíbrio do organismo. Por isso, faça um plano de persistir com o exercício, todos os dias. É um dos principais remédios), além de buscar uma vida mais calma, com paz. Na FSP, uma reportagem fala da experiência de uma mulher que conseguiu engravidar após fazer mudanças no estilo de vida. A reportagem diz o seguinte:

      “[...] Foi o que aconteceu com a química Márcia do Carmo Flores, 32, que tinha uma endometriose grave. Ao longo de oito anos, ela tentou vários tratamentos: tomou altas dosagens de hormônios e fez três cirurgias, inseminação artificial e fertilização in vitro. Quando começou o tratamento com Pereira, no início de 2004, todos os medicamentos foram abolidos e ela passou a se tratar apenas com acupuntura, terapia ortomolecular e orientação nutricional. ‘Quando comecei a sentir enjôos, achei que fosse problema de estômago. Vários médicos pelos quais passei disseram que eu não tinha a menor chance de engravidar’, conta ela, que espera pelo nascimento de Matheus, programado para junho. Acostumada a passar por várias intervenções agressivas que traziam ‘um monte de efeitos colaterais’, ela desconfiou quando o ginecologista prescreveu apenas uma nova dieta, duas sessões semanais de acupuntura e algumas vitaminas. ‘Eu nunca tinha feito nada disso e estava com os dois pés atrás. Ele cortou o açúcar e a gordura, receitou arroz integral, iogurte natural e coalhada’, relata ela, que ainda segue a dieta para não ganhar peso. Seu marido, que tinha problemas leves na produção de espermatozóides, também teve que mudar hábitos alimentares e tomar vitaminas. Em seis meses, veio o resultado positivo.” http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq3103200509.htm

      O corpo precisa de nutrição. Além do acompanhamento médico, a nutrição é um ponto vital. Nossa capacidade de mudar, de descobrir informações é realmente gradativa. Por isso, temos que ter paciência, desenvolver paciência. Mas tenha certeza: o corpo responde rapidamente às mudanças feitas. Mudar não é fácil, mas irá transformar sua vida de várias maneiras positivas! Sei que também não é fácil obter informações para fazer essa mudança. Mas não desista. Estamos juntas nessa caminhada. Não tenha medo, é possível superar, controlar, vencer a endometriose. Você vai conseguir!

      Com carinho,

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