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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Além da saúde


25 de dezembro de 2013

O corpo é falível. Modifica-se, envelhece, adoece, fragiliza-se, limita-nos.

Um filósofo escreveu, nesta semana, para um jornal de grande circulação que rimos dos antepassados que criam no sobrenatural. Mas, certamente, diz ele, nossos descendentes rirão de nós, de nosso ceticismo ou crença disfarçada de ceticismo depositada em projetos humanistas nos quais a força e a capacidade de se autoconstruir residem em nós, apenas em nós, seres ávidos por “saúde...”. Sociedade aficionada pelos valores democráticos, idólatra da saúde, do corpo. O corpo no centro, como o Sol.

Esses nossos descendentes, diz o filósofo, daqui uns mil anos, crerão em Deus; mas o deus dos descendentes do filósofo, a imagem de divindade que mora nele, é aquele que permitiu a ópera indigesta do mal. Deus mal. Com tanto sofrimento e dor, desconcertos, como não pensar assim? Quando a dor se aloja nos nervos, contorcendo a carne, e a carne de nossa carne, ou esfacela milhares de ideais e escancara-se na brutalidade das ruas e de homens, em mim mesma, eu descreio. Sem o conhecimento da história da redenção, não há história. É Natal, mas o filósofo não menciona a Cristo. Sem mencioná-Lo, coloca-se à mercê do “triste maestro”. Sem Cristo, não há como entender.

Tolstói e Dostoiévski, em Ressurreição e Crime e Castigo, reconstroem o corpo de seus personagens alquebrados e doentes durante um trajeto que culmina no aparecimento de Cristo, a quem não se menciona, a quem não se recebe, sobre o qual o silêncio constantemente se rompe. Se esses personagens possuíam ou não uma doença física, como era o caso de Ivan Illicth, atormentado pela possibilidade da morte iminente que, por fim, como ocorre com todos nós, o leva, não sabemos; mas eles deparam com a cura de um mal maior. Enxergam e escrevem a cruz, o corpo entregue à cruz, o próprio corpo deposto na cruz. O corpo no centro de um madeiro, mortificado sendo vivificado. Esses personagens e seus autores há muito morreram; pelo tempo em que vivemos, foram mortos, mas a palavra nos revisita.

Não adoro o corpo, eu o entrego; não perco o corpo, ele me é entregue. Ressurreição.

Ocorrem pequenas ressurreições quando a saúde volta, a dor é superada, a circulação é límpida, a doença não mais aflige, o corpo gera vida. Mas o que importa ressurgir temporariamente? “Triste maestrina” sou de mim mesma, saúde triste, ainda que saúde por algum tempo. Estamos fadados ao salário. “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 6:23).

A exaltação do corpo, central como é, faz-se com a ingestão do Verbo. Só a carne e o vinho resgatam o corpo. 




PS.: Escrevi o texto Endometriose, religião e espiritualidade. Considero esse o texto mais importante que eu escrevi sobre meu tratamento para superação da endometriose, pois conto como defini meu caminho de saúde, quais as fontes determinantes de pesquisa e informações necessárias para fazer minhas escolhas e tomar minhas decisões. 

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