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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O alimento-remédio



Em agosto, encarei no hospital uma comida sem sabor e com muito óleo para quem tinha acabado de ser operada. Depois, tomei uma decisão: alimentar-me melhor. Antes da endometriose se manifestar, comia sem me nutrir. Meu cardápio diário era constituído de açúcar, gordura, industrializados. Chegava a pensar, em meio à correria e refeições rápidas: que nutrição estou dando às minhas células? Caloria vazia.

A alimentação tem um impacto decisivo no organismo. O que comemos provoca doenças e também, felizmente, ajuda a manter ou restaurar a saúde. Desde agosto (e já estamos em dezembro/08), minha alimentação é outra. Ainda quero escrever sobre isso. Contar as mudanças que fiz, divulgar minhas receitas. Um cardápio delicioso e saudável. Mas hoje quero falar sobre a alegria de usar a alimentação como remédio.

Há um pouco mais de um mês, o resultado de um exame parasitológico apontou a presença de um protozoário. Fui a um médico de linha mais alternativa que me deu duas opções de tratamento: remédio convencional ou tratamento natural. O primeiro destrói o verme sem dar trabalho, basta tomar um comprimido. Mas ataca a flora intestinal, matando as bactérias benéficas ao organismo. Tenho endometriose no intestino. Essa não seria uma boa alternativa. O segundo dá mais trabalho, mas não apenas preserva a flora intestinal como fortalece a saúde. Optei pela via natural, mas por precaução pedi a receita do remédio.

Dieta eclética: alho, sementes de abóbora torradas e moídas, suco de couve, chá de hortelã, e fé. Refiz os exames. Hoje chegou o resultado. Não tenho mais nada. Isso significa, pessoalmente, uma pré-vitória dentro da batalha maior que estou enfrentando: vencer a endometriose. Se a alimentação me ajudou a vencer um mal menor, pode me ajudar a superar ou neutralizar a incurável endometriose. Ela é grande, temível, por enquanto invencível. Mas quero ter a alegria, como tive hoje, de descobrir em fevereiro que ela está sob controle. Estará.

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domingo, 23 de novembro de 2008

Exercícios físicos combatem a endometriose



Tenho 30 anos. Trabalho o dia todo na frente de um computador. Até descobrir a endometriose, os exercícios físicos eram esporádicos. Não gosto de academia. Prefiro ficar ao ar livre, praticando esportes menos repetitivos. Mas enfim, não estava levando a atividade física a sério.

Falta de exercício físico é algo sério. Quando o assunto é endometriose, o exercício é um dos mais importantes remédios para combatê-la. Mas nem todos sabem disso. Perguntei à médica que me operou qual é a causa da endometriose. Totalmente desinformada, ela respondeu: “Muito exercício físico.” Se isso é verdade, por que eu, que não praticava esportes, tinha acabado de sair de uma mesa de operação para retirar 15 cm de endometriose?

A revista “Saúde”, da Abril, desmente a médica. Na matéria “Bote a endometriose pra correr” (
http://saude.abril.com.br/edicoes/0298/corpo/conteudo_278746.shtml), a jornalista Adriana Toledo foi a campo e entrevistou gente que sabe do que está falando. Foram entrevistados cinco médicos ginecologistas de importantes centros de pesquisa. Já de início, o artigo afirma: “Se esse problema atormenta a sua vida, aposte na atividade física. Nós contamos de que forma a malhação alivia as cólicas e até faz regredir a endometriose.” Alivia as dores! Faz regredir a doença! Tanto combate quanto ajuda a evitá-la. Qual o segredo?

A prática de um exercício aeróbico estimula a hipófise que libera endorfinas e inibe a secreção do hormônio FSH. O FSH estimula a produção de estrogênio nos ovários. Menos FSH, menos estrogênio, menos endometriose. Portanto, a endorfina, que é vasodilatadora e analgésica, diminui o estrogênio no corpo e até mesmo faz regredir a endometriose, aliviando as dores. No artigo há uma animação on-line para entender melhor o assunto (
http://saude.abril.com.br/edicoes/0298/corpo/conteudo_288355.shtml).

Tenho uma meta: não ser operada no próximo ano. Sem os exercícios, eu não vou conseguir. Procurei o que me dá prazer. Estou jogando tênis de mesa e basquete. Esportes de que gosto, com um detalhe que faz toda a diferença: faço dupla com o meu marido, amor da minha vida.

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sábado, 11 de outubro de 2008

Mulheres em pote de vidro




Quando descobri a endometriose, vi um pote. Sua grande tampa estava aberta. É um pote onde cabem milhões de unidades. Amplo, grande e construído por médicos. Um pote para conter gente. Um pote para colocar mulheres. Muitas mulheres. Uma brasileira em cada seis, totalizando milhões de mulheres com endometriose. Um pote de vidro, nada flexível, gélido, mas capaz de receber muitas outras mulheres. Embora cada mulher seja única, o pote não se importa. Na sua onipotência, o pote sentencia: são todas iguais. Seguindo as recomendações de saúde, o pote tem rótulo. Quais são os ingredientes que formam essa multidão de mulheres? De que é formada essa massa feminina vitimada pela endometriose? O pote responde.

Fui lançada dentro do pote, sem que me conhecessem. Nem sequer me consultaram. Nada sabem de mim. Mas estou no pote. E como todas as outras mulheres, fui rotulada. Na busca por informações sobre endometriose na Internet, encontrei estudos que falam do “perfil da mulher com a doença”. A mulher com endometriose é descrita em três artigos da seguinte maneira:

1. “Perfil psicológico e personalidade (mulheres magras, com aspecto enfermo, ansiosas e submetidas a ‘stress psíquico’, elevado coeficiente intelectual, perfeccionistas e egocêntricas).” Clínica e Centro de Pesquisa em Reprodução Humana Roger Abdelmassih (
www.abdelmassih.com.br/download/coletanea/01.pdf ).

2. “Perfil psicológico: mulher magra, estresse psíquico, elevado nível
cultural, perfeccionista e egocêntrica.”
Prefeitura do Município de São Paulo
Secretaria Municipal da Saúde
- Coordenação de Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde (CODEPPS) - Área Técnica de Saúde da Mulher (
www.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/secretarias/saude/mulher/0013/Prot_CA_125_2005.pdf).

3. “Alguns profissionais de saúde acreditam que existe um perfil psicológico característico das mulheres com endometriose. Ainda não foi desenvolvida uma pesquisa científica que comprove esse fato, mas alguns traços de personalidade são observados freqüentemente nessas mulheres. Alguns deles são: perfeccionismo – tudo tem que estar perfeito, sob controle e muito organizado; auto-exigência – se cobram demais, tudo tem que acontecer como o planejado e é difícil admitir as falhas, lidar com os próprios erros; capacidade de controle e comando – conseguem com facilidade organizar e estruturar tarefas, não enrolam em suas atividades diárias e podem até organizar a vida de pessoas em sua volta, assumindo problemas dos outros; sentem necessidade de manter o controle daquilo que poderá acontecer. Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose. Ainda precisamos de estudos científicos que determinem a força de associação dos fatores emocionais no desenvolvimento da endometriose e que permitam traçar um perfil psicológico característico dessas mulheres.” [grifos meu]. A importância do aspecto emocional no tratamento da endometriose. Ambulatório de Endometriose CAISM-Unicamp (
http://www.abend.org.br/corpoemente.htm).

No rótulo, uma lista extensa de traços de caráter. Os artigos, dos itens 1 e 2, são praticamente iguais, o que leva a concluir que um dos estudos apenas reproduziu a conclusão do outro. Já no último artigo, mesmo os autores admitindo que não há pesquisa científica sobre o perfil psicológico de mulheres com endometriose, eles optam pelo caminho do rótulo e rotulam livremente, irresponsavelmente. Afinal, admitem: “Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose.” Então, por que rotular? Cientificamente estão desautorizados. Os próprios autores se desautorizam ao tentarem se resguardar de conclusões precipitadas.

Fui jogada no grande vidro. Não é o vidro da ciência e dos estudos sérios, pois jamais emitiriam opinião sem fundamentações documentadas, balizadas pelos seus pares, academicamente comprovadas. Estou exposta no vidro, rotulada e espremida em meio a milhares de mulheres que, além da dor e da infertilidade, precisam, agora, conviver com rótulos opinativos. É fato que as emoções estão em relação direta com o organismo. Saber controlá-las é essencial para vencer qualquer doença, seja doença que atinja homens ou mulheres. Contudo, visões precipitadas não libertam as mulheres de suas possíveis ansiedades, mas as aprisionam, as comprimem em pote rotulado.

Cada mulher é única. Agradeço pelo “elevado coeficiente intelectual”, rotulado no primeiro artigo, mas dispenso esse e outros rótulos. Proponho não apenas a retirada do rótulo único do pote, mas a quebra definitiva do único e soberbo pote de vidro. Rótulos cuidadosos, cientificamente pesquisados, amigavelmente descobertos – se é que rótulos são realmente imprescindíveis –, colocados em cada vidro com sua história de vida, apontam para uma direção mais saudável.

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sábado, 4 de outubro de 2008

A consulta – II




Há duas semanas, fiz o ultrassom. Resultado: endometriose atrás do útero, que alcançou o intestino, comprometendo-o “mediamente” – palavras do médico. Também tenho um nódulo de dois centímetros no reto. O CA 125 II deu 80 u/ml. Os resultados dos demais exames, já mencionados, estão normais. O ultrassom foi bem detalhado e durou quase uma hora. O especialista, que já examinou milhares de mulheres com endometriose, soube distinguir os focos, precisar sua extensão. E deu explicações interessantes. A endometriose se parecesse com uma cicatriz.

Num exame que fiz há dois anos, um ultrassom transvaginal, o médico monossílabo abriu a boca apenas para fazer uma pergunta intrigante, após olhar fixamente para a imagem de meu ovário: “você já fez alguma cirurgia?” Não, não havia feito. Fiquei preocupada. Ele viu a cicatriz, mas não soube dar a interpretação. Era a endometriose crescendo lentamente. Caso esse médico tivesse pesquisado mais, caso se interessasse realmente pela profissão, eu, agora, não estaria com uma cicatriz de uma cesariana sem filhos. Foi esse mesmo médico, um bruto silencioso, que em agosto sugeriu que eu estava com câncer após finalmente ver um cisto de 14 cm em mim. Viu o cisto, mas, para não variar, errou na sentença.

Agora, o meu médico, em que confio e vejo nitidamente amor pela profissão, sugeriu que não devo ir para cirurgia que serviria para remover parte do intestino comprometido. Concordei. Em fevereiro de 2009, vou repetir os exames. A endometriose não é um câncer, mas se comporta como se fosse. Não mata, mas avança pelo organismo provocando incômodos, intervenções cirúrgicas, dores. Durante o exame, o médico revelou que já encontrou endometriose no diafragma, no sistema nervoso... Brincou: “a endometriose é a irmã do câncer.” Mas não se assustem, é possível controlá-la, e acredito: é possível vencê-la. A gravidade da doença não deve atemorizar, precisa provocar mudanças. Tomei a decisão. Novo hábito alimentar, mais exercícios, reestrutura emocional. Tem sido ótimo. Aos poucos quero contar o que tenho feito. Em fevereiro, quero dizer: “está controlada!” E quem sabe, contrariando estatísticas científicas, revelar: “está controlada e também diminuiu!”

sábado, 20 de setembro de 2008

Mulheres famosas e a endometriose




Estatísticas são frias. Sei que há milhões de mulheres com endometriose, mas me sentia a única. Sentimento contra-indicado. A doença, por si só, já tem seu peso cultural, social. Por que você, exatamente você, ficou doente? De que modo minha identidade é modificada pela descoberta de um tumor benigno (o endometrioma é um tumor, ainda que benigno)?

Hoje, li sobre mulheres com endometriose. A revista Veja revelou o drama da jornalista Ana Paula Padrão na sua luta contra a infertilidade provocada pela endometriose (
http://veja.abril.com.br/vejasp/170805/perfil.html).
Malu Mader também enfrentou a doença (entrevistada por Rosane Queiroz para a revista Marie Claire, de fevereiro de 2002). Para quem deseja engravidar, uma boa notícia: ela conseguiu - teve dois filhos. Dizem também que Marilyn Monroe sofria com a endometriose. Usava drogas para fugir das dores. Morreu de overdose.

Outra mulher histórica chama a atenção. Sofrendo de um fluxo de sangue durante anos, ela pagou aos médicos tudo que possuía. Provavelmente estava abatida, com anemia. Talvez enfrentasse dores incapacitantes. Quem sabe acalentava o desejo de ter um filho. A história não conta o nome da mulher nem revela sua doença. Mas registra o drama: “Ela havia gastado com os médicos tudo o que tinha, mas ninguém havia conseguido curá-la” (Lucas 8: 43). Vivendo nos primeiros anos da era cristã, ela sofria com os preconceitos de uma sociedade machista, que rotulava de “impuras” as mulheres em seu período menstrual. Além das dores físicas, a mulher da história carregava pesos emocionais insuportáveis – o fluxo contínuo de sangue a tornava irremediavelmente impura. Sofria intensa rejeição.

A endometriose faz isso com as mulheres. Provoca dores, embora algumas não sintam. Acarreta rejeição, embora haja maridos compreensivos. Causa problemas sociais, devido à dor que interfere no desempenho profissional e oscilações hormonais que desencadeiam quadros depressivos. Impõe rótulos. Atualmente, para enfrentar a endometriose, a medicina oferece diferentes tratamentos; a psicologia, alívio emocional; a tecnologia, canais de comunicação. Não há respostas definitivas, mas há lenitivos eficientes. Há quase dois mil anos, não restavam muitas opções. Hoje, a maioria das mulheres brasileiras, sem dinheiro para consultas e remédios, vive o mesmo drama. Falta-lhes o básico: conhecimento.

Mas àquela mulher da história chegou uma notícia animadora. As esperanças reviveram. Com ousadia, decidiu investigar. Empurrada por uma multidão de pessoas, ela reuniu forças, enfrentou a depressão, esqueceu as dores e estendeu o braço, tocando-o. Achava que se, ao menos, tocasse aquele homem estaria salva. Mulher de fé. “Quem foi que me tocou?”, perguntou Jesus. Muitos o tocavam, o buscavam aleatoriamente, sem compromisso, como acontece hoje, mas ele reconheceu a diferença daquele toque. Acolheu o toque da fé, sua seriedade. Identificou um profundo desejo de mudança, reconstrução total da vida. A mulher deu um passo à frente, contou seus sofrimentos e revelou: o fluxo doentio de sangue cessou quando estendeu a mão ao Médico dos médicos. “Minha filha”, disse Jesus carinhosamente, “você sarou porque teve fé! Vá em paz!” (Lucas 8: 50).

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Conheça meu novo blog: Beith LehemA Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.



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Sites sobre endometriose



http://www.abend.org.br - Mantido pela Associação Brasileira de Endometriose (Abend), fundada por Eleuze Mendonça, em 1993. A seção "Você e a endo: histórias reais" oferece relato de pacientes. Embora o design do site não facilite a navegação, seu ponto forte é justamente a interação entre mulheres com endometriose. Outra seção importante é sobre os direitos dos pacientes.

http://www.endometriose.net - Fácil de navegar e com uma seção especial para responder a dúvidas das pacientes. São mais de 40 tópicos sobre a endometriose discutidos cientificamente com abrangência e didatismo.

http://uk.geocities.com/apiadmbr/cartaendo.htm - Publicação on-line do relato de Aiune Sampaio, que tem endometriose.

http://www.endometriose.org.br - Ligado à Abend, oferece sugestões de sites e artigos, tais como:

Portal da Endometriose
http://www.portaldeendometriose.com.br (Portal da Endometriose, no Rio de Janeiro. Coordenado por Dr. Claudio Crispi e Dr. Marco Aurelio)

SOBENGE - Sociedade Brasileira de Endoscopia Ginecológica e Endometriose
http://www.sobenge.com.br (1ª Sociedade Brasileira voltada especifivamente para a Endoscopia Ginecológica)

Endo - Informações Básicas
http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?178
page=paciente/artigo/det_artigo.php&cod_pri=1&cod_sec=14&co
http://www.endogin.com.br/conteudo/endometriose.html
http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u898.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u899.shtml
http://www.gineco.com.br/endometr.htm
http://www.santalucia.com.br/ginecologia/endo.htm
http://www.saudevidaonline.com.br/artigo24.htm
http://www.saudevidaonline.com.br/artigo103.htm
http://saude.terra.com.br/interna/0,,OI174041-EI1712,00.html
http://www2.uol.com.br/assuntodemulher/endometriose.htm
http://www.saudeplena.com.br/noticias/index_html?opcao=04-1107-endometriose

Artigos mais completos
http://www.unifesp.br/dcir/urologia/uronline/ed0400/endo.htm
Endometriose e depressão:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302002000300033&lng=pt&nrm=iso
Endometriose na bexiga:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302000000400026&lng=pt&nrm=iso
Entrevista com o médico Mauricio Abrão no site de Dráuzio Varella:
http://www.drauziovarella.com.br/entrevistas/endometriose.asp
Texto adaptado do médico John Lee:
http://planeta.terra.com.br/saude/novatrh/endomet.html

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A consulta



Ontem, fui à consulta. Assim mesmo, “a consulta”. Depois de idas e vindas, erros e ausência de informações, diagnósticos precipitados e um agir médico incapaz de detectar as falhas em meu corpo, procurei um especialista em endometriose. A consulta durou quase duas horas. Fiz muitas perguntas e imediatamente após as respostas, ouvia a mais rara de todas as frases dentro de um consultório médico: “mais alguma dúvida?”

Compartilho alguma das preciosas informações que recebi: 1. Não importa o tamanho do cisto endometrial, o correto é laparoscopia e não cesariana (tinha um cisto de 14 cm que poderia ter sido retirado por laparoscopia); 2. Se o endometrioma romper na cirurgia não há problema algum; 3. Dizem que o diagnóstico preciso só ocorre com a cirurgia laparoscópica, mas médicos brasileiros estão desenvolvendo uma avançada técnica de diagnóstico por imagem. Desta forma, antes de operar, o médico tem certeza do que se trata; 4. Com o toque, o médico especialista pode reconhecer a presença de endometriose vaginal ou intestinal; 5. A principal hipótese para a endometriose é a menstruação retrógrada (o sangue volta para o corpo da mulher). O sistema imunológico deveria ter a capacidade de expulsar o endométrio do corpo, mas ocorre uma falha. Por isso, a endometriose pode ser considerada uma doença auto-imune (quando o próprio organismo se agride), embora não se tenha ainda essa comprovação.

Há informações mais gerais, outras mais específicas. Enumerei apenas algumas questões que me traziam preocupação. O médico requisitou os seguintes exames: hemograma completo, tiroxina livre (T4 L), hormônio luteinizante (LH), fator anti-nuclear (FAN), anti-TPO (anticorpos), cardiolipina IgA (anticorpos a), prolactina, TSH (Hormônio tireoestimulante), FSH (hormônio folículo estimulante), Estradiol (E2), CA 125 II, Anti-tiroglobulina, cardiolipina IgM. (anticorpos a), anticorpo anti-ENA (Sm). E também um ultrassom transvaginal (com Doppler colorido) e um ultrassom do abdômen total. Pesquisas sugerem que a endometriose está associada a doenças na tireóide, por isso ele pediu os exames TSH, FSH, T4. Já o CA 125, um marcador tumoral, é um clássico da endometriose. Deve ser medido geralmente no segundo dia de menstruação.

Por último, quero deixar um conselho do médico: “busque informações, mas sem ansiedade, nervosismo.” É preciso saber controlar emoções, sem se entregar ao medo. Creio ser esse um dos fatores mais determinantes para enfrentar a doença. Está quase certo que tenho endometriose vaginal. Os exames de imagem confirmarão se tenho endometriose profunda. Descrevi o caminho do diagnóstico. Agora, sigo em frente no caminho da cura.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Um novo caminho


Hoje, faz um mês que fui operada. Milhões de mulheres brasileiras têm endometriose. Muitas já descobriram, outras vão receber a notícia. Devido ao desconhecimento dos médicos e das pacientes sobre o assunto, a maioria das mulheres ficará sabendo quando a doença estiver em estágio avançado, como aconteceu comigo. Mas ainda assim não há motivos para desespero. Nem tristeza. Nem desânimo.

Faço parte de um novo grupo que talvez seja também o seu. Não estamos sozinhas. Cerca de 10% a 15% da população feminina enfrenta a doença. Não estamos sozinhas apenas pela quantidade de mulheres que vivem esse drama. Deus conhece a história de cada pessoa individualmente. Não é por acaso que estou aqui, que você agora está lendo meu blog, que a vida tomou um rumo inesperado. Vivo agora em uma nova fase. Renasci há um mês para experiências que desconheço. A despeito dos enigmas - e eles são muitos -, desejo aprender as lições necessárias. Lições emocionais, espirituais e físicas.

No livro Crepúsculo dos ídolos está escrito: "O que não me mata me torna mais forte" (Nietzsche, 1995, p. 46). A mesma idéia encontramos no Ecce homo (Nietzsche, 1995a, p. 25). Já a Bíblia diz que devemos temer aquilo que mata a alma e não o corpo. Diz também que o coração alegre dá formosura ao corpo. A endometriose não precisa nos tornar fracas. Pode, sim, se você quiser - e eu, particularmente, quero muito - torná-la forte. É sobre isso que desejo escrever. Sobre como e onde encontrarei a força necessária para proseguir com qualidade de vida, em estado de felicidade.

A descoberta


Setembro de 2008

No dia 6 de agosto de 2008, recebi o resultado de um exame de ultrassonografia. Foi aterrador. Antes do exame, havia passado por três consultas ginecológicas. Meu abdômen estava visivelmente inchado. O primeiro médico disse que era gordura. Peso 50kg e tenho 1,60 de altura. Procurei outro médico. Quando comprimiu levemente minha barriga, do lado direito, reclamei de dor. Em resposta, ouvi: "não brinca, isso não foi nada." Fui em busca de uma outra consulta. A suspeita do terceiro médico, após toque e exames incômodos, foi de algo errado com os rins. Disse que meu útero e ovários estavam normais. Pediu um exame de ultrassom da parte urinária e do abdômen total, incluindo parte ginecológica. No dia 6 de agosto, li no resultado do ultrassom quase uma sentença: "Principal hipótese - neoplasia no ovário direito." Em outras palavras: câncer.

Faço parte de uma minoria que tem plano de saúde. Fui imediatamente para o hospital da seguradora. Uma tarde inteira de exames. À noite, após um dia exaustivo, pensava: creio em Deus e no seu amor, apesar de tudo. Eu acreditava que era câncer, mas não senti revolta. Senti tristeza. O ultrassom tinha apontado dois cistos no fígado. Concluí: é metástase. Junto de meu marido, fiz uma prece.
No dia seguinte, outro resultado: "Principal hipótese - endometriose." Existia um cisto de 14 cm no meu ovário direito. A médica concluiu: é um endometrioma (cisto da endometriose) de grande dimensão. No mesmo dia, passei por um cirurgia para a retirada do ovário direito. Não foi laparoscopia - cirurgia indicada para endometriose - , mas uma cesariana. Ainda assim o cisto rompeu. Se tivesse rompido antes, poderia ter morrido. O resultado do CA 125 - marcador tumoral - foi superior a 130. A biópsia confirmou a endometriose.