quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A gravidez



22 de agosto de 2013



Recebi a mensagem de Michele enviada para o texto Estou grávida. Este é o 100º texto deste blog, sobre a maior felicidade de nossa vida, o maior presente de Deus: nosso bebezinho, um querido menino. Querida amiga, você faz parte dessa história.


Querida amiga, desde a primeira vez que acessei o seu blog, eu imaginei que, cedo ou tarde, esse texto aconteceria. Era uma espécie de futuro-presente, ou melhor, de um resultado muito provável diante de tantas transformações. Não que esse resultado fosse obrigatório, afinal, como já disse o outro, viver não é preciso, apenas faria todo sentido se acontecesse. Como o fez. Um resultado que hoje fala alto ao coração, que nos toca. E tudo que nos toca, tudo que nos cala, nos faz pensar, repensar, recriar, recomeçar.

Sua gravidez não gera apenas a vida de um ser, gera a esperança, gera a crença em nós mesmas. De certa forma, nos diz: ei, você aí, o comando do corpo também é seu, não só seu, mas também seu. E não é pouco. Mas, como qualquer comandante, você vai ter que ser disciplinado, atencioso e, muitas vezes, rigoroso. Com você. Lembre-se de que em suas mãos - quando ainda se tem tempo ou possibilidade-, estão órgãos, tecidos, sistemas complexos, emoções que precisam entrar em harmonia, que precisam ser comandadas, ordenadas. A desordem nos põe à deriva no nosso próprio corpo. E isso nos enfraquece a alma, afinal, um corpo não saudável mexe com as nossas emoções, sentimentos mais profundos, questionamentos existenciais, além de, muitas vezes, empatar a nossa liberdade de ir e vir.


É verdade, existem males que escapam ao nosso toque, que nascem conosco e que têm um propósito que transcende o nosso entendimento, mas para uma grande parcela de males, existe a cura, o controle ou a prevenção. E tudo isso se torna particularmente especial quando assumimos esse controle da forma natural como você, minha amiga, teve a imensa coragem de assumir. Daí esse desfecho ser tão importante. Ele sinaliza que o comando, para muitas coisas, também está em nossas mãos, e o melhor, de uma forma natural.

Esse bebezinho abençoado é o grande milagre da vida, a resposta e o agradecimento de um corpo valorizado, entendido. Poderia ter sido uma resposta diferente? Claro que sim. E você sempre foi muito terna e digna neste sentido. Mesmo nos momentos em que a vinda do bebê era apenas um sentimento, você não se desesperou, não se maltratou, não dramatizou. Pelo contrário, você curtiu a sua vida, procurou salvar os seus órgãos e nos acalentou com a tranquilidade de quem aceitava numa boa o destino. Foi logo tratando de ser feliz com o que fosse possível. Só que o quase impossível resolveu ser possível, e como a boa anfitriã que você é, o destino a incumbiu de uma ilustríssima tarefa: receber o seu filho.

Amiga, parabéns! Pela dignidade, pela coragem, pelo amor, por tudo...

Obrigada!
Um beijo grande!

Michele.



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Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bianca


21 de agosto de 2013

Olá, me chamo Bianca. Achei maravilhoso o que escreveu, mas sou uma mulher cercada de pessoas e sozinha, entregue a meus problemas. Sou casada há 4 anos, tenho pais vivos e doentes, mãe com alzheimer e pai com problemas da idade. Irmãos com suas vidas sem tempo. Mas com Deus sempre comigo, minha companhia. Me sinto em um melodrama, mudança radical na minha vida. Sei que preciso disso, tenho endometriose profunda, ainda investigando. Diversos problemas, pessoas, que talvez o dinheiro ajudaria a resolver boa parte deles. A começar por uma terapia, academia, terminar meus estudos, meu marido com doenças sérias da obesidade, emagrecer e diversos outros problemas. Quero e preciso pensar em mim e ver seu texto me ajudou a ver uma luz no fim do túnel. São 04:04 da manhã e eu lendo sobre o assunto, desabafando, pensando no amanhã, por onde começar. Amanhã vou conversar com um cirurgião, já conversei com Ginecologista. Para mim, o maior desafio é a alimentação. Hoje tenho queda de cabelo, picos de sistema nervoso, e não posso perder meu emprego, preciso manter estes problemas em off, pois meu esposo é desempregado por causa da doença dele, e já tem uma idade de 47 anos, fora do mercado. Queria acabar minha faculdade para abrir uma papelaria, mas não consigo, financeiramente principalmente. Várias situações envolvem minha vida que me preocupam e a endometriose é mais uma... desabafos de uma simples mortal.

Olá, querida Bianca:

Ontem, antes de dormir, decidi dedicar o dia de hoje para responder os comentários enviados por e-mail e pelo blog. Hoje, encontrei sua mensagem que toca o coração porque reflete desafios que muitas de nós enfrentamos, muitos desafios que enfrentei e com os quais também me deparo ainda. Com suas palavras corajosas, eu olhei para mim, para minha história.

Meus pais se casaram e se mudaram para uma cidade do interior paulista. Meu pai era empresário e tínhamos uma vida tranquila financeiramente. No final de minha adolescência, a situação mudou. Meu pai descobriu que estava sendo roubado pelo sócio, seu próprio irmão. Teve muitos problemas financeiros desencadeados também por essa grande decepção. Acabamos praticamente sem nada. Todos os caminhos pareciam fechados. Apesar de ter muitos parentes e amigos, eles desapareceram bem rápido. Ficamos sós. Mas uma porta se abriu para mim. Prestei vestibular, passei em uma faculdade pública em outro estado. Por razões financeiras e também pessoais, desisti da faculdade. Voltei pra casa e comecei a trabalhar.

A situação em casa era desesperadora. Meu pai chegou a sumir, sem dar notícias. Em um daqueles dias de espera, eu desci para o andar térreo de minha casa, e levei um livro devocional. Entre lágrimas, abri em uma história, era sobre um menino e sua mãe, Hagar e seu filho (Gênesis 21:8-21). O menino estava desesperado, sozinho com a mãe no deserto, sob o sol causticante, não havia água nem comida. Um anjo apareceu e disse que Deus cuidaria deles. Eu entendi que mesmo imersa naquele drama familiar, eu precisava subir as escadas e voltar. Estar com minha mãe e irmãs, ser forte, pois Deus estaria ao nosso lado. Meu pai retornou para casa depois que encontrou um homem na rodoviária que havia abandonado a família por desespero, sem deixar notícias. No ímpeto de ajudar o homem com conselhos, meu pai compreendeu seu próprio estado. Ele havia deixado o carro na Marginal Tietê e pegado um ônibus para uma cidade litorânea no Rio de Janeiro. Fez o caminho de volta e encontrou o carro no mesmo local, embaixo de um viaduto, depois de uma semana. Voltou para casa e nunca mais nos deixou.

Hoje, meu pai vende pães, bolos e salgados integrais que minha mãe faz, de porta em porta. São mais de dez anos de muitas lutas, mas ele se tornou um homem incrível, o homem que admiro. Ele sempre foi um bom pai. É a terceira geração de uma família religiosa e me educou na igreja. Quando começou a perder tudo, eu lhe disse confiante as palavras que ele mesmo havia me ensinado: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas?” Eu acreditava inteiramente nessas palavras. Meu pai ficou nervoso e respondeu que aquilo não se aplicava à vida. Mal podia acreditar no que estava ouvindo. Mas meu pai, em meio a tantos sofrimentos, foi se transformando. Algumas das pessoas com quem conviveu perderam o dinheiro e se entregaram à bebida e aos vícios. Outro homem, dono de um supermercado, recentemente, se suicidou, deixando dois filhos pequenos e a esposa. Estava sendo pressionado por agiotas e credores. Não aguentou a pressão. Meu pai, que chegou ao extremo de sua resistência emocional, continua percorrendo aquelas cidades turísticas, que um dia ajudou a enriquecer, com um sorriso no rosto, carregando seus pães na bicicleta vermelha, levando comida saudável, falando sobre saúde e contando a quem deseja ouvir sobre Quem lhe dá forças. Gosta do que faz.

Eu amo meu pai. Ele é um homem persistente, indignado com as injustiças, um grande admirador da natureza, um atleta com muito senso de humor, um homem de fé que atravessou o mar vermelho, um homem sem mágoas, um vendedor de pães sagrados. O homem mais rico do mundo. Volta e meia, meu pai pega uma carona com algum empresário conhecido do seu tempo e ouve os dramas de quem mantém o dinheiro, mas não tem paz. Um deles está com a doença conhecida como fogo selvagem (pênfigo), um filho internado por causa das drogas, e a família desfeita, em meio a traições e adultério. O dinheiro é necessário, mas não resolve as dores deste mundo.

Nesses anos todos, eu lutei para conquistar estabilidade financeira com o objetivo de “salvar” minha família. Quando voltei da faculdade, aprendi a manejar uma overlock barulhenta. Passava o dia costurando roupas para uma empresa, somava os centavos.

 Em um sábado, no final do culto, em uma igreja, um casal de idosos perguntou o que eu fazia. Contei a eles e, sem me conhecer, eles prometeram me ajudar a estudar. Por intermédio deles, ganhei uma bolsa de estudos em outra faculdade. Trabalhei como empregada doméstica, sem registro, para pagar a moradia e a comida na casa em que trabalhava. Nas férias, vendia livros de porta em porta. Depois de terminar a faculdade, me casei. No início do casamento, minha mãe adoeceu gravemente (Conto um pouco desse momento no texto Vitamina B12). Mas agora ela está bem.

Ingressei no mestrado e recebi uma bolsa de estudos. Com o dinheiro, ajudava meus pais. Não me formei no mestrado, pois fui indicada para o doutorado direto (minha dissertação foi transformada em uma tese de doutorado, com a concessão de uma nova bolsa de pesquisas). Tudo parecia incrível, depois de tantas lutas. Mas após iniciar o doutorado, a bolsa não chegou. Descobrimos que 80 alunos de toda a pós-graduação daquela universidade tinham perdido a bolsa devido a um entrave judicial da instituição com o governo. Se eu não recebesse a bolsa, teria que pagar os custos da pesquisa. Se tivesse que pagar, teria que abandonar o curso, pois não possuía qualquer condição de arcar com os valores cobrados. Como não tinha o diploma de mestrado, ficaria, depois de três anos de pesquisa, sem qualquer certificado. Orei e decidi assumir a vaga de representante discente. Reuni os demais representantes e, no final de cada reunião, nós cinco fazíamos uma oração. Foi assim até nas reuniões com a reitoria. Sempre fazíamos uma prece. Mas a situação parecia ficar cada vez pior. Muitos pesquisadores ridicularizavam o fato de aquela situação ser gerenciada também com orações. Oramos, fizemos requisições, acompanhamos a demanda judicial com intervenções, agíamos sem trégua junto à reitoria. Depois de dez meses e de um revés judicial, houve uma decisão judicial em Brasília que determinou o pagamento das bolsas, com valores retroativos.

Em meio àqueles momentos de tensão, um dos pesquisadores que dependia financeiramente do dinheiro para cuidar da família, me perguntou, após uma prece: “você acha que Deus escuta mesmo? Ele existe?” Anos mais tarde, esse mesmo pesquisador, me contatou por e-mail. Estava com câncer e precisava conversar. Hoje, ele superou o linfoma, após várias recaídas e dá aulas em uma faculdade pública na área de exatas. Há pouco espaço para Deus onde ele atua, mas ele sabe, como eu sei, como meu pai sabe, e muitas outras pessoas experimentaram: Deus existe sim e nos conhece pessoalmente. Se Deus existe, então por que há tanto sofrimento? Por que, muitas vezes, aquilo que desejamos não acontece? A Bíblia tem a resposta para essas questões. Eu acredito nessas respostas, eu as busco, e desejo vivenciá-las face aos desafios, mas sei que nem sempre estou pronta para compreendê-las diante dos desfechos adversos.

Há tanto para falar, tantos caminhos absolutamente fechados que encontrei, tantas orações que fiz, e a visível atuação de Cristo em situações diversas. Após essas lutas, descobri a endometriose profunda depois de um falso diagnóstico de câncer e uma cirurgia de urgência. Tive dores insuportáveis, emagrecimento, queda de cabelo... sintomas pelos quais muitas de nós passamos. Às vezes, a doença é consequência de uma vida de lutas e problemas que nos fazem esquecer de que precisamos olhar para o corpo, cuidar de nós mesmas.

À época do diagnóstico, já estava morando nesta cidade em que resido agora, uma cidade sem quaisquer condições profissionais para mim. Comecei a trabalhar em uma empresa religiosa onde recebia um pouco mais de mil reais para dar conta do meu trabalho e de parte do trabalho de quem me chefiava, em um ambiente bastante hostil. Eu precisava muito do dinheiro, embora fosse pouco. Mas meu marido me incentivou a pedir demissão. Eu já não tinha condições físicas e emocionais de continuar. Um mês após a demissão, fui aceita para fazer uma pesquisa de pós-doutorado com financiamento – um contrato de trabalho temporário, mas que surgiu em boa hora, na hora exata.

Aos poucos, a endometriose foi sendo superada, como conto neste blog. Entendi que precisava cuidar de mim, me alimentar bem, fazer exercícios, mudar meu estilo de vida na medida do possível, para poder cuidar de quem amo. Precisava confiar que Deus está cuidando deles. Em minhas orações, expresso meus sentimentos, eu peço, eu agradeço. Sei que por meio da mudança de estilo de vida é possível sim vencer a endometriose, crendo ou não em Deus. Mas também sei que foi Ele quem me mostrou o caminho e me deu forças necessárias para prosseguir até aqui. Creio que Cristo me fez, me salvou e está no controle da história de cada um, caso permitam, e da história deste mundo. Há uma ciência da salvação. “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12).

Sobre meus pais, eu acreditava que o dinheiro resolveria muito de nossos desafios, mas aos poucos ainda estou aprendendo o que a Escritura diz sobre a ansiosa solicitude pela vida: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33). Meus pais são as pessoas mais felizes e queridas que conheço, mesmo depois dessa crise financeira que repercute em muitos aspectos. A fé não garante nenhuma riqueza, mas transforma totalmente a realidade. Hoje, meus pais são mais felizes do que antes. Sim, preocupo-me com a velhice deles. Estamos nos planejando para fazer o melhor. Quero estar preparada, quero dar a eles tudo que precisarem e, às vezes, ainda me angustio muito com o futuro. A confiança em Deus não anula de maneira alguma a necessidade de ações efetivas, pelo contrário. O verso diz “buscai a justiça de Deus”. A prática da justiça é a prática do bem, não uma vida de devoção mágica. É nEle que temos encontrado forças para ultrapassar desafios intransponíveis. Deus abre a visão, mostra as saídas, nos salva do desespero, mesmo quando o desfecho não é aquele que esperávamos. Ele nos ajuda a transformar o desejo de justiça em justiça efetiva, transforma a religião em uma ação real, interligada, movida pelo Amor que nos faz amar o outro enquanto amamos a nós mesmos.

Eu tinha alguns medos relacionados à gravidez, mas nunca fui tão feliz em minha vida. Contudo, continuo acreditando que nem a gravidez nem o dinheiro nem mesmo a superação das dores da endometriose, e muito menos títulos acadêmicos, são a garantia para uma vida sem dor. Não é o dinheiro que resolve. Não é um bebê que resolve. Não é uma profissão ou a adoção de uma criança – a expressão máxima do amor – que nos salva deste mundo. Neste mundo, teremos muitas aflições, aflições inúmeras, mas tende bom ânimo, diz Cristo. Há algo mais.

Ainda não venci o mundo, mas creio nAquele que venceu. Eu o reconheço em meus caminhos e quando olho pra trás percebo claramente que Ele me tirou, como diz Davi, de um “tremedal de lama”, do qual eu jamais sairia sozinha. Ele me tirou das madrugadas frias e me fez forte, ainda que a dor da doença estivesse presente e o dinheiro ainda faltasse. O grande desafio é olhar para o presente e para o futuro, e continuar confiando. Quantas vezes eu acordei de madrugada em meio às preocupações, e provavelmente terei muitas madrugadas insones pela frente... Mas não posso me esquecer dessas palavras que me têm conduzido: “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nEle, e Ele tudo fará” (Salmo 37:5).

Querida Bianca, você confia nEle e graças a Deus seus pais e sua família tem você na vida deles. Eu me reconheço em você – uma pessoa responsável pelos seus pais, esposa, a mulher que tem que batalhar muito na vida para conseguir o sustento de todos. Sei que há muitos outros desafios.

Hoje de manhã, depois que li sua mensagem, fui ler a Bíblia, como de costume. Li Daniel 10, um livro muito lido e estudado por Isaac Newton, o pai da ciência, embora muitas historiografias da ciência deixem de mencionar que Newton pesquisou mais sobre o livro hebraico de Daniel e suas implicações para o futuro da humanidade do que sobre Física (Isaac Newton é autor do livro “As profecias de Daniel e o Apocalipse”). Nesse capítulo, Daniel faz uma oração, uma súplica. Ele se apresenta a Deus, repetindo a expressão: “coro de vergonha.” Eu coro de vergonha diante das falhas que há em mim. Sou como você disse, uma simples mortal, que se desesperou e ainda se desespera muitas vezes, que falha, que teme, mas que insiste em orar – a Comunicação, minha ligação com a palavra, com o verbo. Em resposta à oração de Daniel, um anjo é enviado e responde inicialmente: “és muito amado.”

Bianca, você é muito amada por Deus. Ele lhe dará forças e lhe mostrará os meios para vencer os desafios, ainda que se mostrem intransponíveis. Ele lhe dará forças para realizar seus sonhos, ter novos sonhos, forças e meios para cuidar de seus queridos.


Com carinho,


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domingo, 11 de agosto de 2013

A orquestra


11 de agosto de 2013

Fomos ouvir uma orquestra jovem em uma igreja. A música instrumental do repertório religioso atraiu crianças para os primeiros bancos, impressionou alguns e pareceu não exercer efeito em muitos. Havia muitos bancos vazios, pessoas conversavam e circulavam pelos corredores. A música existe quando existe o outro. Uma menina, de uns quatro ou cinco anos, inesperadamente pulou do banco e acariciou por alguns instantes o braço da violonista durante a apresentação. Mais do que ouvi-la, a criança completamente entregue ao momento se apropriou da música com seus dedinhos ávidos, seu sorriso de fascínio.    

No final da apresentação, na porta da igreja, uma mulher me deu os parabéns pela gravidez e perguntou quando eu terei o bebê. Minha barriga está grande para quatro meses. Após esse contato inicial, ela me contou que tem dois filhos, uma moça de 21 anos e um menino de 10. Falou que o nascimento do menino foi um milagre, pois ela tinha acabado de fazer um tratamento quimioterápico e engravidou. Descobriu a gestação com cinco meses. Os médicos lhe disseram que o bebê não seria saudável, que provavelmente teria déficits cognitivos. Ela me mostrou o lindo garoto e contou que ele é o primeiro da classe e, recentemente, foi aprovado em um teste concorrido para um conservatório musical de referência. História de milagres e superação em meio à dor que persiste nela. 

Depois de ouvi-la, disse que eu também não esperava engravidar e que a gestação contrariou as estatísticas médicas. Eu tinha apenas 3% de chances. Quando mencionei a endometriose, ela falou que tem a doença. Por causa dela, levou quase dez anos para engravidar da menina, que hoje sofre com endometriose profunda e tem cólicas insuportáveis. Por causa dessa doença, essa mãe teve de fazer cirurgias, limpeza dos focos, tomar injeções de hormônios... A via sacra de um mal que ainda sangra após décadas. No final desse tratamento medicamentoso e cirúrgico contra a endometriose, ela descobriu um câncer agressivo. Hoje, superado o câncer, continua heroicamente lutando contra a endometriose. Ainda há cicatrizes e dores.

Contei rapidamente sobre meu diagnóstico, tratamento e resultados: endometriose profunda com indicação de cirurgia para retirada de segmento intestinal, dores com desmaios, mudança de alimentação, prática de exercícios físicos, sol, fitoterapia, um conjunto de hábitos saudáveis, o não uso de remédios agressivos, de anticoncepcionais, a regressão efetivas dos focos, o fim da dor, uma vida normal... o último resultado ela via em mim. Ela ouviu e se despediu.

No passado, em um templo, no princípio era o som. Aquela ordem firme, os ruídos, o silêncio produziram sons que só as crianças ouviram. O som se fez músicas nelas, que efusivamente cantaram em alta voz infantil (Escrevi A canção das crianças no blog). A sensibilidade das crianças lhes garante sua entrada no céu, ainda na terra. Depois, ouviu-se uma voz do alto que ecoa agora (João 12: 28-30). Alguns escutaram um barulho, outros percebem letras soltas, sem sentido, com sentido distante e confuso para se crer, um deus morto.   

Anoitecera, o vento frio sacudia as árvores próximas, eu queria dizer que é possível, disse, mas foi apenas um som nessa via sacra de audições reais e imaginárias. 

   


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sábado, 3 de agosto de 2013

Estou grávida

3 de agosto de 2013

Estou grávida. Em 2008, recebi o falso diagnóstico de câncer, mas era endometriose profunda, infiltrativa, grau IV. Após uma ooforectomia de urgência, perdi meu ovário direito, que estava com um endometrioma de 15 cm. Posteriormente, fui diagnosticada com aderências, focos espalhados pela cavidade abdominal, endometriose no intestino, no ovário esquerdo (endometrioma), na parede do útero (adenomiose), na região septo retocervical, entre outros locais. À época, também fui diagnosticada com marcadores de autoimunidade reagentes (dois padrões reagentes de FAN-Fator antinuclear), CA-125 alto e vitamina D muito baixa. Tive crises de dores que me fizeram desmaiar.

Primeiro, superei a dor. Depois, os focos pararam de crescer. Então, começaram a diminuir. Agora, estou grávida, com 36 anos.

Estou na 18ª semana da gestação, no quarto mês. Tive muitos enjoos, vomitei bastante, minha pressão baixou, mas o bebezinho está muito bem. A cada exame, uma boa notícia.

Há cinco anos, em 8/8/2008, fui operada; em setembro do mesmo ano, iniciei este blog anônimo. Esta é a 97ª postagem. Foi a maneira que encontrei de dizer a mim mesma que superaria essa doença. Consultei-me com médicos especialistas que me indicaram, primeiramente, o uso de medicamentos hormonais e depois a cirurgia para retirada de focos e de um segmento do intestino, já que eu tinha dores na evacuação e estava visivelmente com a saúde comprometida. Um médico de referência me disse que o risco de cancerização de focos de endometriose no intestino é muito alto, por isso ele recomendava que eu fizesse a cirurgia. Além de muito cara (30 mil reais, valor que seria cobrado na época por uma equipe multidisciplinar liderada por um grande especialista), a cirurgia implicava na possibilidade de colostomia provisória ou permanente (bolsa externa para coleta de fezes), além dos riscos inerentes a um procedimento cirúrgico de grande porte. Nessas idas e vindas a consultas, também me ofereceram por inúmeras vezes a fertilização in vitro (FVI), muitas vezes, como forma de vencer a endometriose. Com a saúde debilitada, emagrecida, desfalecida, eu jamais cogitei essa possibilidade.

Mesmo com esse arsenal, os médicos com muita honestidade me disseram que não havia garantia de que eu não necessitasse novamente de novas intervenções cirúrgicas. “Não há cura, há controle”, diziam. A partir dessa informação e da leitura de experiência de dezenas de mulheres que compartilham sua história na internet, decidi não fazer a cirurgia nem usar hormônios ou qualquer outro medicamento. Conversei com meu marido, e tomei a decisão de mudar meu estilo de vida. Se algo estava muito errado, mais errado que a própria doença, era a forma como eu vivia, minha alimentação, meu sedentarismo, minha alienação em relação aos hábitos saudáveis.

Há cinco anos comecei, timidamente, a mudança no estilo de vida, com enfoque basicamente em dez áreas: alimentação, exercícios físicos, água pura, respiração, eliminação de produtos estimulantes, sol, fitoterapia, interação social (o blog também é meu remédio), emoções e confiança em Deus. Esses itens têm vários desdobramentos e implicações, que procurei entender por meio de leituras de livros (fundamentalmente, li os escritos de Ellen White), pesquisas científicas, consultas médicas, trocas de experiências. O principal dos dez aspectos citados é o que enumerei por último – confiança em Deus e em Seu Filho, Cristo. Por mim mesma, com a minha força de vontade apenas, eu não teria conseguido. Mas penso que esse caminho de mudanças é para todos, para os que têm fé em Deus, para os que não a têm. Se mudarmos nosso estilo de vida, o corpo responderá positivamente. É ciência, a mais perfeita ciência. Ciência que, em minha história, é marcada por Ele, Aquele que aplainou as subidas impossíveis, apontou o caminho e aliviou o peso da madeira sobre meus ombros.

Depois de muitos altos e baixos, erros e ajustes, em 2011, os exames constataram que os focos de endometriose diminuíram consideravelmente. Como acompanhei todo o tratamento por meio de exames médicos, eu estava disposta a aceitar a cirurgia caso essas mudanças não resultassem em manutenção do tamanho ou diminuição dos focos, a meta que defini. Mas os focos diminuíram significativamente, o FAN baixou (de 320 para 80), o CA-125 baixou (de 150 para 30), a vitamina D aumentou (de 14 para 38), a vida voltou. Tenho relatado essa experiência no blog.

Antes da grande surpresa, já me considerava curada, pois meu conceito de cura é controle que controla, pois o tratamento é eficaz e permanente. Os dez aspectos de mudança que mencionei não formam uma pílula que se toma por alguns meses, não é um regime provisório e flexível, não é um acessório encarado sem seriedade e entrega, um pedido por milagre, é um tratar-se seriamente que se estende pelo tempo da vida, o continuum saudável. A cada exame, recebia no decorrer dos meses a boa notícia de que os focos diminuíam. No ovário, por exemplo, o endometrioma estava com mais de 6 cm. Hoje, tem menos de 3 cm. No intestino, e por toda parte, os focos diminuíram. Os exames atestam.

Então, a vida surgiu. Eu não estava tentando engravidar agora. A médica havia falado que minhas chances eram remotas. No ano passado, tentamos engravidar, mas tivemos decepções. Meu marido e eu havíamos decidido não fazer qualquer tratamento hormonal para engravidar, pois eles podem inclusive provocar ou agravar a endometriose, entre outros efeitos indesejáveis e implicações diversas (Veja este artigo que escrevi O livro da vida). Decidimos que iríamos adotar uma criança, ainda pensamos nessa possibilidade para o futuro. Mas embora minha alimentação já estivesse minimamente corrigida, decidimos que faríamos novas tentativas de engravidar no início do próximo ano para que eu tivesse tempo suficiente para corrigir melhor meu estado nutricional, com outras fontes saudáveis de nutrientes e vitaminas.

No dia 21 de abril, no entanto, senti algo diferente. Tive certeza de que estava ovulando. Nunca fui de ler sobre sinais de ovulação ou tentar detectar meus dias férteis. Havia apenas feito poucas leituras superficiais sobre o assunto. O dia estava ensolarado e meu marido trabalhava no jardim, podando a árvore de jambolão que ameaçava eclipsar a luz do sol que entra pela janela do nosso quarto. O dia estava lindo, um domingo azul. Eu o chamei, disse o que sentia, nos aconchegamos. Não tentamos outra vez. Naquele dia de sol, eu fiquei grávida.

Neste sábado azul, quero dizer que estou grávida naturalmente. Tenho endometriose profunda, os focos diminuíram, superei a dor, engravidei. A vida voltou, a vida surgiu, estou à espera da vida que nasce. Orem por nós.

Não posso mais guardar isso para mim, eu não tenho mais dúvida alguma do que essas mudanças fizeram pela minha vida. Moro no Estado de São Paulo e me coloco à disposição para contar pessoalmente minha história, mostrar meus exames e compartilhar o que recebi de graça, pela graça de um Amigo.


PS.: 1. Agradeço imensamente as mulheres anônimas que entraram neste blog e me enviaram palavras de força e carinho, mesmo tendo que suportar a própria dor. Agradeço especialmente a quatro amigas que me dão força, alegria, fé e me transmitem o amor de Cristo – Daniella, Débora, Iranete e Michele, minhas amigas queridas. O que teria sido de mim sem as suas palavras, sem as suas ações? Em muitos momentos de cansaço, dor e fragilidade, vocês me salvaram de mim mesma.


PS.: 2. Além desses dez aspectos, há mais um que devo informar. Durante esses cinco anos, eu não utilizei qualquer medicamento, nem para combater a dor, nem para tratar a endometriose por métodos hormonais. Menstruei por todo esse tempo, pois há mais de cinco anos eu parei de usar o anticoncepcional, por motivos que já escrevi neste blog (Veja o texto que escrevi: Anticocepcional e endometriose). Para combater uma gripe, por exemplo, eu fiz uso de meios naturais, como alho e cebola, entre outros recursos que não apresentam os efeitos colaterais dos remédios.

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