27 de agosto de 2012
Depois de dirigir cortando a cerração matinal, descobri que
a manhã de quinta-feira fora alterada à revelia. Desmarcaram uma reunião e não
me avisaram previamente. De imediato, pensei em trazer o compromisso da tarde
para a manhã, e do outro dia para aquele dia. O bom senso me mandava aproveitar
bem o tempo. O senso de vida me moveu em outra direção. Como saí cedo de casa,
não tinha caminhado. Já que a reunião seria num edifício localizado em meio a
um jardim centenário, por que não caminhar?
Caminharei por 30 minutos apenas, pensei. Nunca tinha feito
aquele trajeto a pé, embora de carro já o tenha admirado inúmeras vezes. Mas a
distância, as cores são outras. Passo a passo, os detalhes se revelam. Depois
de quase 20 minutos de caminhada, percebi que precisava registrar aquele
momento. Mas isso me custaria mais alguns minutos para voltar, pegar a máquina
fotográfica no carro e caminhar novamente até aquele ponto. Quanto tempo eu
perderia? Quanto eu perderia se não desafiasse a pressão do tempo?
Com a máquina em mãos, refiz o trajeto. A árvore que parecia
ter folhas coloridas estava carregada de exóticas flores vermelhas ligadas
diretamente ao tronco. Embaixo, tapete de pétalas desmanchadas, recém-caídas,
recém-vivas. Mais adiante uma planta semelhante a um pé de milho, cujas folhas
verde água mescladas davam-me a impressão de estar diante de um pé de milho
ornamental. Sorri. Que planta engraçada seria essa ao lado dos arranha-céus
botânicos?
Contornei o trajeto principal, sentindo o Sol que aquecia a
vegetação diversificada. Encontrei muitos bancos vazios. Diferentemente da
minha reunião, outras não haviam sido desmarcadas. As pessoas estavam
confinadas aos prédios. Como em um lugar tão lindo pode haver tão poucos para
olhar? Tantos bancos vazios? Um pesquisador dali me contou que enfrentou 12
anos de depressão profunda. Melhorou depois que mudou a alimentação, passou a
usar plantas medicinais, fazer refeições completas e praticar exercícios
físicos. Mas naquele momento, ele estava muito estressado, afobado pelas
responsabilidades, rouco de tanto falar, cansado de tanto correr. Contou-me que
uma colega dele, que também atuava em pesquisas junto à natureza, tinha acabado
de descobrir um câncer. A doença surgira após uma fase de intenso desgaste
profissional.
Não basta estar em meio à natureza, é preciso parar e
apreciá-la. Não basta mudar o rumo profissional, é preciso redimensionar o
lugar que ocupamos. A grama mais verde não é apenas a mais distante, pode ser
também o chão sob nossos pés. A paisagem muda se o olhar se transforma. Passei
do lado de uma árvore esguia, cercada por suas iguais. Por anos, o que via era
um tronco. No passeio a pé, com o contraste do forte azul, vi o tronco na sua
cor. Amarelo vívido. Parei e fiquei olhando. Eu parecia o botânico italiano que
fez uma expedição a Ubatuba e chorou diante de uma cachoeira na Mata Atlântica,
tamanha a beleza que o remetia a Deus. Eu fotografava a imagem quando um senhor
idoso, que fazia sua caminhada matinal, me perguntou que parte da árvore
deveria pegar para fazer uma muda. Trocamos algumas palavras de admiração pela
árvore, em uma interação ignorante. Não sabíamos nada sobre a espécie nem um
sobre o outro, mas havíamos nos ligado pela reverência à criação.
Tratávamos-nos ali, por instantes.
Tratávamos nossa saúde, por tantos motivos. Cientificamente,
há comprovação de que nosso contato visual com a natureza produz efeitos
positivos mensuráveis no organismo. Além disso, o contato com espaços verdes
aumenta a proteção dos riscos de mortalidade (MITCHELL, Richard; ASTELL-BURT,
Thomas; RICHARDSON, Elizabeth A. A comparison of green space indicators for
epidemiological research. Disponível em: http://jech.bmj.com/content/65/10/853). As
árvores estão relacionadas com menor incidência de asmas, segundo pesquisa
feita na Universidade Columbia e publicada no jornal New York Times (MONT,
Helena. Why Trees Matter. Disponível em:
http://www.nytimes.com/2012/04/12/opinion/why-trees-matter.html). Pesquisa da
faculdade de Medicina da Universidade de Indiana e da Universidade de
Washington relaciona a área verde de vegetação com menores índices de
obesidade em crianças (Neighborhood greenness has long-term positive impact on
kids’ health. Disponível em: http://newsinfo.iu.edu/web/page/normal/9197.html).
Essas pesquisas são relatadas também no artigo Verde é Saúde.
Certamente, tamanha a criatividade da Ciência, também devem existir estudos que indicam a relação entre saúde,
natureza e comunidade. A natureza nos traz a necessidade de interagir. Ela
transforma, arrebata, nos une.
Após um pouco mais de uma hora, havia encerrado a caminhada.
Então, trouxe para aquele restante de manhã, os afazeres da tarde, com alegria.
Precisava parar sem me separar de meus objetivos. Precisava
abrir mão do domínio do tempo. Precisava voltar a escrever no blog. Como ficar
sem essa cura? Como me afastar de algo que me proporciona tantos aprendizados e
me faz tão feliz? A caminhada me fez lembrar de Alessandra. Ela me escreveu e
contou sobre o diagnóstico de endometriose profunda. O médico havia recomendado
a FIV, além de um tratamento hormonal agressivo para a doença. Falei sobre
minha opinião. Há tempos, venho construindo, pouco a pouco, meus argumentos
sobre a fertilização com base em pesquisas científicas, experiências de outras
mulheres. Foi para a Alessandra, para quem falei sobre isso pela primeira vez,
diante de suas importantes indagações. Há sete dias, quase nove meses após a
primeira troca de e-mails, ela escreveu:
Olá querida.
Tenho ótimas notícias.
Recebi meu milagre de Deus.
Estou grávida!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! de 5
semanas e 4 dias!
Indo contra a todos os médicos que diziam que eu não
engravidaria naturalmente, somente se fizesse a FIV, estou grávida. Não fiz
nenhum tipo de tratamento, nem remédios, nem hormônios, nada mesmo! Só parei de
pensar nisso rsrsrs.
Deus operou esse milagre em mim.
Não perca sua fé, nunca, na hora certa de Deus ele te
abençoará.
Fique com Deus!
Bjss
Alessandra
Não conheço Alessandra, nem ela me conhece. Não sei detalhes
sobre sua história e luta pessoal. Mas a impressão que tenho dessa mulher
forte, persistente e sensível é que, em certo momento nesse trajeto difícil e
desgastante para superação da endometriose, ela estabeleceu uma relação com a
vida marcada pela tranquilidade, tivesse o resultado que fosse. Ela não estava
mais aprisionada a desfechos obrigatórios. Iniciou sua caminhada, confiando-se
a um encontro de paz, acontecesse o que acontecesse.
Independentemente de um desejo realizado ou não, de estarmos
no melhor emprego ou não, de sermos amadas e compreendidas ou não, de
caminharmos entre as árvores mais lindas ou não, essa libertação é a melhor
conquista que gestamos ou é gestada em nós. Se existe tempo para todas as
coisas, a paz é o tempo certo. O tempo é a escolha.
Alessandra, parabéns pelo seu querido bebê. Que notícia
maravilhosa.
Que sua caminhada seja sempre linda.
PS.: Vou responder aos comentários até a próxima semana. Obrigada
pelas mensagens.
