Arquivo do blog

sábado, 2 de outubro de 2010


O olhar endo

A chave para vencer a endometriose está no fortalecimento do sistema imunológico. Como podemos saber se essa afirmação é, de fato, correta? Pessoalmente, escolhi uma maneira de tirar a prova. Consiste em, diariamente, fortalecer meu sistema imunológico, minhas células de defesa – os linfócitos. Sim, funciona. Como disse, não tenho dores. A endo continua sob controle.

Mas a ciência não se contenta com o depoimento de uma mulher. Nem se baseia em conclusões apressadas. Para saber se algo cura ou não, se controla ou apenas simula controle, são necessários anos de estudo, na aplicação de metodologias diversificadas. De entrevistas à revisão de literatura, de testes laboratoriais a abordagens comparativas, a ciência busca, ou deveria buscar, o fato científico. No que diz respeito à endometriose, a ciência busca o fato científico – descobrir quais são as causas da doença para indicar, com precisão, os tratamentos –, tendo em vista o bem-estar da mulher. As causas da endometriose ainda são um mistério. Os médicos lidam com hipóteses.

Eu sou minha pesquisa. Ser meu próprio laboratório – meu corpo diante de meus experimentos –, me conduz a respostas interessantes. Leio sobre o funcionamento do organismo, sobre pesquisas; faço mudanças e tiro conclusões. Conhecer-se é a melhor de todas as medicinas. Precisamos ser confiantes nos avanços da ciência – confiança imprescindível de se ter! –, mas conhecer o próprio corpo é fundamental. Saber quem somos é mais do que dimensionar emoções, sentir alegrias, elevar uma prece ou prever aquilo que nos magoa.

A sabedoria da vida inclui o saber do físico, o olhar endo – prefixo grego que significa “dentro”. Devemos nos compreender fisicamente, entender a fisiologia, encantar-se com o funcionamento dos órgãos – essa delicada maquinaria com toques e razões divinas que nos compõe. Para ajudar nesse exercício do olhar atento à dinâmica fina e complexa que se desenrola ininterruptamente abaixo de nossa pele, são úteis e instrutivos os ensinamentos da medicina e da ciência.

Olhei para a ciência hoje. E encontrei algo interessante. Fiquei sabendo que a Associação de Endometriose (The Endometriosis Association), nos Estados Unidos (
http://www.endometriosisassn.org/index.html), descobriu um fato surpreendente. Quando tratavam as mulheres com candidíase (Candida albicans), os sintomas da endometriose também diminuíam significativamente. A candidíase é causada por fungos que provocam infecções na vagina (coceira, corrimento branco etc) e em outras partes do corpo, quando o sistema imunológico está debilitado. Ao buscar a fórmula para combater a candidíase no fortalecimento do sistema imune, a conclusão adicional a que se chegou foi simples: linfócitos fortes, endometriose fraca. O contrário também é verdadeiro.

A afirmação de que nossos defensores – os chamados “soldados” do corpo, os linfócitos –, quando fortalecidos e equilibrados, combatem a endometriose com eficiência não é bem uma novidade. Na década de 1980, uma escritora norte-americana chamada Laura Stevens, que também sofria com a endometriose e a candidíase, passou a noticiar essa importante descoberta da The Endometriosis Association, relatada acima. No próximo post vou falar mais sobre a candidíase, o sistema imunológico e a endometriose. A missão de Laura Stevens é a de todas nós: buscar e levar informações, numa rede ampla e efetiva. E nessa tessitura de saberes-endo, o olhar-se continua sendo uma das ligações mais essenciais na intrincada e irresistível rede da vida.

Acesse:
http://www.avidadejesus.blogspot.com
http://www.dezmandamentos.blogspot.com

sábado, 25 de setembro de 2010

À Daniela




Ao não me identificar, preservo minha privacidade, mas também deixo de ganhar muitas coisas, entre elas, diálogos. Não tenho nome, nem profissão, nem idade ou vida a mais, mesmo que insira algumas de minhas vivências no digital. Para alguns, sou apenas uma mulher com endometriose profunda. E deixo de conhecer pessoas, suas experiências, compartilhar vitórias e sair do monólogo. A interatividade se dá silenciosamente, sem que eu tenha muitas pistas dela.

Precisa ser assim, por causa de meu tempo e atividades. Mas depois de quase dois anos de blog, e atualizações vagarosas – em oposição direta à velocidade da vida –, recebi um comentário. O primeiro. De alguém que se chama Daniela. Li o comentário bem escrito, objetivo, com afetividade e expressando algo que não tinha certeza se eu estava realmente fazendo, apesar de ser um objetivo que espero cumprir – compartilhar otimismo. Para encerrar, ela fez uma pergunta e um pedido.

Daniela, peço desculpas por não atualizar o blog. Além da correria, não tinha a noção exata do alcance daquilo que escrevo. Seu e-mail me fez perceber que, sim, posso ajudar ao compartilhar experiências. A ausência de trocas acaba por desfazer essa dimensão. Você perguntou como está meu tratamento. Como registrei no blog, há pouco mais de dois anos, descobri a endometriose de uma maneira bastante traumática, ao receber um falso diagnóstico de câncer e ser submetida a uma cirurgia de urgência para retirada de meu ovário direito – uma cesárea sem filhos. Muita coisa mudou depois disso.

Para combater a endometriose mudei meu estilo de vida em muitos aspectos. Alterei hábitos alimentares, comecei a fazer exercícios físicos com mais frequência, fiz exames para detectar carências vitamínicas (algo muito importante para enfrentar a endo). E sei que há muito que mudar. É um processo, uma caminhada de ganhos e perdas. No ano passado, após constatar que o CA 125 II passou de 130 para menos de 30 U/ml, certamente decorrente da mudança de estilo de vida, tive uma recaída. Estava com problemas no trabalho, enfrentei um período de intenso stress, e, pela primeira vez, senti o que a maioria das mulheres com endometriose sente – uma dor muito forte. Dor incapacitante. Naquele momento de minha vida, além do stress, acabei me descuidando dos exercícios físicos e deixei de considerar a alimentação. Comi livremente, inclusive doces. Percebi, assim, que o estilo de vida e as emoções estão em correspondência direta com a dor. Mudei de emprego, desacelerei um pouco, me refiz física e emocionalmente. Nunca mais tive dor.

Agora estou com a endometriose sob controle. Não sinto dor alguma, embora tenha endometriose no intestino e outros focos que foram detectados em 2008. Também não tenho alterações intestinais. Meu único sintoma é o inchaço abdominal, que às vezes diminui, outras vezes aumenta, principalmente em função do ritmo de vida. Então, eu posso dizer com toda a certeza e a partir do que tenho lido e experimentado: sim, você pode controlar a endometriose com o estilo de vida. Isso é real, mas não é simples. Tem a ver com alimentação, nutrição, exercícios físicos diários para suar a camisa e eliminar toxinas, tomar sol (é preciso manter adequados os índices de vitamina D. Eu estava com carência dessa vitamina), controle das emoções.

Eu e meu marido estamos conversando sobre a decisão de ter um filho. Nunca tentamos. Será possível ter um filho? Independentemente de ser mãe ou não, também quero poder dizer: a endometriose não apenas está sob controle, mas regrediu. Acho isso possível. Também acho possível a gravidez. Mas, por enquanto, eu só posso falar: está sob controle e não tenho dor. É pouco, e também é muito. Sou grata.

Daniela, obrigada por escrever. Quero compartilhar de maneira mais detalhada o que tenho feito. Vou tentar atualizar o blog com mais frequência. Boa sorte para você, para todas nós.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ela superou a endometriose




Para quem ainda tem dúvidas sobre o poder da alimentação saudável e dos exercícios no controle e superação da endometriose, veja a experiência relatada no artigo “Entre os exames e os pacientes”, publicado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) (http://www.fm.usp.br/tutores/bom/bompt10.php):

“A Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), segundo seu presidente, o cirurgião Guido Corrêa de Araújo, procura atualmente conscientizar professores e alunos das escolas médicas a voltarem a realizar uma medicina mais humana, que valoriza o contato do médico com o paciente. Afinal, como diz Atta, ‘o principal meio de diagnóstico é a entrevista com o paciente, que pode fornecer mais respostas do que qualquer exame laboratorial e, além disso, vai dizer ao médico quais exames ele deve pedir’.

Foi o que percebeu a artista plástica Mônica Cristina Pereira de Souza, 47, em 1998. Desde os 18 anos, quando identificou uma endometriose (doença na membrana que reveste o útero), ela já havia passado por diversos médicos, retirado o ovário direito, parte do esquerdo, passou por internação na UTI, fez dezenas de exames, mas continuava sofrendo com hemorragias constantes.

Há quase seis anos, depois de quase 30 anos sem resolver o problema, ela resolveu procurar um novo profissional. Na primeira consulta, Mônica levou todos os exames que havia feito. ‘Não quero ver nada disso’, disse o médico, que passou duas horas com ela, fazendo perguntas e respondendo a outras.

‘Só depois de ter vasculhado a minha vida, ele quis ver os exames. Desde então, não tenho nada. E o que o médico me receitou? Nada que outros não poderiam: dieta equilibrada e exercícios físicos. Aprendi que nem sempre a objetividade da ciência resolve os nossos problemas’, acredita.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Caminhos da superação


No texto “Açúcar e endometriose”, falei de David Servan-Schreiber. Ele teve câncer com 31 anos. Venceu a doença. Anos depois, o câncer voltou. Foi quando a Veja o entrevistou. O médico falou da importância da alimentação para a sobrevivência e do potencial agressivo da alimentação errada para o crescimento do câncer.

Hoje, ao telefone, ao explicar para minha mãe que tenho endometriose no intestino, ela comentou sobre David Servan-Schreiber. Eu falava de uma pesquisa, de números. De um total de 1.600 mulheres com endometriose, apenas 85 foram diagnosticada com endometriose no intestino. E que embora a estatística da malignização seja baixa; no que se refere à endometriose no intestino, as constatações científicas não são animadoras. Então, minha mãe falou do médico.

Servan-Schreiber venceu o câncer novamente. Ele revela o segredo. Acreditar na Medicina, que salva vidas, e fortalecer o organismo com novos hábitos, novo jeito de ser e de pensar. Em entrevista ao Globo Repórter, em relação ao açúcar e à gordura, o médico alerta: “agem como fermento para as células cancerosas. Justamente aqueles alimentos que são tão saborosos, tão difíceis de resistir. [...] As sobremesas, por exemplo, devem ser substituídas por frutas.” Não há nada, absolutamente nada, de bom no açúcar. É caloria vazia, e perigosa – açúcar é alimento de câncer.

O médico fala também algo tão necessário, que preciso aprender e reaprender:

“O que ele recomenda é que cada um fortaleça o seu corpo para estimular a sua capacidade de resistir à doença. É uma luta diária, que deve fazer parte da nossa rotina. É uma mudança que passa também pela maneira de ver a vida. Fortalecer as relações de amizade, os laços de família. Não guardar ressentimentos. Se livrar da tristeza, do medo, da solidão. Fazer exercícios diariamente.”

Para quem deseja assistir ao vídeo, este é o link:
http://www.youtube.com/watch?v=Ng4_0v1j8Iw

Para ler a reportagem, o link é:
http://g1.globo.com/globoreporter/0,,MUL1176207-16619,00-OS+SEGREDOS+DE+SAUDE+DOS+VINHOS+DA+BORGONHA.html

domingo, 17 de janeiro de 2010

Endometriose, câncer e reposição hormonal




Acesse neste blog: Qual é o melhor remédio para endometriose?

A endometriose é considerada uma doença benigna. Sim, ela é benigna, na maioria das vezes. Mas existe uma porcentagem de casos em que há transformação maligna. Isso significa que a endometriose pode, sim, se transformar em câncer.

De acordo com pesquisadores japoneses, em um estudo intitulado Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon, a transformação maligna da endometriose ocorre em cerca de 1% dos casos, na maioria das vezes no ovário (78,7%). Já 5% dos casos estão relacionados à endometriose intestinal. Se a estatísticas estão corretas, a transformação maligna é remota. Entre 100 pacientes com endometriose, ocorre câncer em uma. No artigo, está escrito “ocorre câncer”. E não, “pode ocorrer”. Parece que necessariamente 1% das mulheres são atingidas. Veja a frase em inglês: “Malignant transformation of endometriosis occurs in 0.7–1% of patients with endometriosis, with 78.7% of the cases occurring in the ovary” (grifo meu). Em mil pacientes, dez terão câncer.

Provavelmente, pela estatística acima, oito terão no ovário e uma tem a probabilidade de ter no intestino. Cálculos matemáticos óbvios. Os autores chegam a conclusão dos 1% com base em outro estudo conduzido em 1990 por Heaps e Nieberg (Heaps JM, Nieberg RK, Berek JS. Malignant neoplasms arising in endometriosis. Obstet Gynecol 1990;75:1023–8). Portanto, a estatística do 1% é de 1990. Esse índice se mantém? Talvez sim. Além da dor, da infertilidade, do inchaço abdominal e outros sintomas, por que adicionar mais uma preocupação? A pior de todas as preocupações? A palavra câncer é assustadora. Não li relatos que oferecem detalhes sobre o câncer proveniente da endometriose. Não sei como avança, qual é o prognóstico. De qualquer forma, simples não é. Não podemos deixar de considerar a seriedade da doença e suas implicações, sem perder o compromisso com o otimismo.

Escrevo sobre esse tema para alertar sobre uma informação que considerei muito relevante. Nas mulheres em que a endometriose se transformou em câncer havia relação direta com reposição hormonal. Veja o que a pesquisa diz: Hyperestrogenism has been implicated as a risk factor for the development of cancer from endometriosis. The patient had been receiving high-dose unopposed estrogens for 14 years after a total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy [...]It is important to recognize the possibility of tumors arising from endometriosis when evaluating intestinal […]even in the patient who has previously undergone total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy, particularly if the patient has a history of endometriosis and has received hormone replacement therapy. (Tradução: "O hiperestrogenismo tem sido relacionado como um fator de risco para o desenvolvimento do câncer da endometriose. A paciente havia recebido alta dose de estrógenos durante 14 anos após uma histerectomia total abdominal e salpingo-ooforectomia bilateral [...]. É importante reconhecer a possibilidade de tumores resultantes da endometriose intestinal [...] mesmo em pacientes que já se submeteram a histerectomia total e salpingo-ooforectomia bilateral, particularmente se o paciente tem uma história de endometriose e tem recebido a terapia de reposição hormonal."

Estatisticamente, a possibilidade de ter câncer é mínima. Mas como o artigo diz é importante ver a relação entre transformação maligna da endometriose e reposição hormonal. Esse artigo não é único. Há outras pesquisas que apontam para essa relação. Para quem deseja conversar com seu médico sobre o assunto, aqui está o link do artigo: http://jjco.oxfordjournals.org/cgi/reprint/35/3/154.pdf (Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon). Glossário: Hiperestrogenismo: excesso de estrógeno, que pode ser provocado por reposição hormonal. Histerectomia: cirurgia para retirada do útero. Ooforectomia: retirada do ovário.