sábado, 25 de setembro de 2010

À Daniela




Ao não me identificar, preservo minha privacidade, mas também deixo de ganhar muitas coisas, entre elas, diálogos. Não tenho nome, nem profissão, nem idade ou vida a mais, mesmo que insira algumas de minhas vivências no digital. Para alguns, sou apenas uma mulher com endometriose profunda. E deixo de conhecer pessoas, suas experiências, compartilhar vitórias e sair do monólogo. A interatividade se dá silenciosamente, sem que eu tenha muitas pistas dela.

Precisa ser assim, por causa de meu tempo e atividades. Mas depois de quase dois anos de blog, e atualizações vagarosas – em oposição direta à velocidade da vida –, recebi um comentário. O primeiro. De alguém que se chama Daniela. Li o comentário bem escrito, objetivo, com afetividade e expressando algo que não tinha certeza se eu estava realmente fazendo, apesar de ser um objetivo que espero cumprir – compartilhar otimismo. Para encerrar, ela fez uma pergunta e um pedido.

Daniela, peço desculpas por não atualizar o blog. Além da correria, não tinha a noção exata do alcance daquilo que escrevo. Seu e-mail me fez perceber que, sim, posso ajudar ao compartilhar experiências. A ausência de trocas acaba por desfazer essa dimensão. Você perguntou como está meu tratamento. Como registrei no blog, há pouco mais de dois anos, descobri a endometriose de uma maneira bastante traumática, ao receber um falso diagnóstico de câncer e ser submetida a uma cirurgia de urgência para retirada de meu ovário direito – uma cesárea sem filhos. Muita coisa mudou depois disso.

Para combater a endometriose mudei meu estilo de vida em muitos aspectos. Alterei hábitos alimentares, comecei a fazer exercícios físicos com mais frequência, fiz exames para detectar carências vitamínicas (algo muito importante para enfrentar a endo). E sei que há muito que mudar. É um processo, uma caminhada de ganhos e perdas. No ano passado, após constatar que o CA 125 II passou de 130 para menos de 30 U/ml, certamente decorrente da mudança de estilo de vida, tive uma recaída. Estava com problemas no trabalho, enfrentei um período de intenso stress, e, pela primeira vez, senti o que a maioria das mulheres com endometriose sente – uma dor muito forte. Dor incapacitante. Naquele momento de minha vida, além do stress, acabei me descuidando dos exercícios físicos e deixei de considerar a alimentação. Comi livremente, inclusive doces. Percebi, assim, que o estilo de vida e as emoções estão em correspondência direta com a dor. Mudei de emprego, desacelerei um pouco, me refiz física e emocionalmente. Nunca mais tive dor.

Agora estou com a endometriose sob controle. Não sinto dor alguma, embora tenha endometriose no intestino e outros focos que foram detectados em 2008. Também não tenho alterações intestinais. Meu único sintoma é o inchaço abdominal, que às vezes diminui, outras vezes aumenta, principalmente em função do ritmo de vida. Então, eu posso dizer com toda a certeza e a partir do que tenho lido e experimentado: sim, você pode controlar a endometriose com o estilo de vida. Isso é real, mas não é simples. Tem a ver com alimentação, nutrição, exercícios físicos diários para suar a camisa e eliminar toxinas, tomar sol (é preciso manter adequados os índices de vitamina D. Eu estava com carência dessa vitamina), controle das emoções.

Eu e meu marido estamos conversando sobre a decisão de ter um filho. Nunca tentamos. Será possível ter um filho? Independentemente de ser mãe ou não, também quero poder dizer: a endometriose não apenas está sob controle, mas regrediu. Acho isso possível. Também acho possível a gravidez. Mas, por enquanto, eu só posso falar: está sob controle e não tenho dor. É pouco, e também é muito. Sou grata.

Daniela, obrigada por escrever. Quero compartilhar de maneira mais detalhada o que tenho feito. Vou tentar atualizar o blog com mais frequência. Boa sorte para você, para todas nós.