quarta-feira, 20 de junho de 2012

Nas noites frias de inverno

20 de junho de 2012

Às vezes, é necessário não comer. Esforçar-se para deixar de lado. Mas só tira quem acrescenta. Um sabor agressivo não pode ser simplesmente eliminado. Ele vive em nós, vive na memória das papilas, vive reascendendo-se no cérebro, colado a lembranças delicadas, ainda que termine pesado e indigesto. Sabores doces e salgados não apenas definem receitas, são também emoções alimentares e eventos gustativos. Cheiros de açúcar. As memórias são geridas pelos acontecimentos sob o vinho da digestão, aromas, desenhos de comida. O alimento fermenta a vida. O corpo pede, a memória pede, as emoções suplicam e as melhores coisas que vivemos parecem estar ligadas ao que agora ouvimos dizer que não devemos comer.

Nenhum sabor pode ser eliminado. O sabor é aquilo que somos, além da maquinaria física. Retirar um prazer por decreto é aprisionar-se ao gosto insosso, celebrar a estética gastronômica triste em jantares austeros. Assusta.  

Sabores precisam ser trocados por outros, por ingredientes suaves, adocicados e fortes ligados e ligando-se a novas histórias, repletas de doces e salgados recém-colhidos. Assim como fez um amiga com endometriose. Contou-me que ao transformar sua alimentação, convidou os pais e sogros para jantar em casa. Ela reuniu os produtos orgânicos e fez uma sopa.

Minha querida amiga, a quem tanto admiro, peço licença a você para reproduzir suas palavras: “Trata-se de uma experiência que vai alcançando todos à nossa volta. Ontem à noite fiz uma sopa com todos os legumes e vegetais orgânicos que tinha em casa. Com muito alho, cebola e cheiro verde e pouco sal. Meus sogros e meus pais foram em casa comer e amaram. Eles se sentiram animados a comer mais saudável também. É muito gratificante tudo isso; é como uma corrente que vai se disseminando.”

Nada expressa melhor do que essas palavras.

O frio com sopa, memórias da culinária da estética alegre. Uma sopa sem tantos ingredientes – temperos prontos, tabletes, leite, parmesão, cremes industriais... –, com tantos outros, com muito a dizer em seus legumes e verduras orgânicas de cores variadas, temperos naturais, combustível de sonhos realizáveis. A transformação nutre a possibilidade até o ponto de lhe dar uma forma, um novo trajeto neuronal, redesenhando suavemente a trilha gastronômica da memória, re-ensinando as papilas, com criatividade e convicção. A sopa reúne a família, se faz comida-ensinamento, se fez cuidado, finaliza-se com leveza e ânimo. A sopa aquece a longevidade, agrega-se aos enredos, faz-se prazer e cura, enquanto passamos pelas noites frias de inverno rumo à estação seguinte.



Minha receita contra a endometriose, em linhas gerais:




Leia sobre o Pão da Vida

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Soja e endometriose


13 de junho


Antes de descobrir a endometriose, usei muita soja: grãos, tofú, lei em pó industrializado. Logo após a cirurgia de urgência, a qual fui submetida para retirar o endometrioma de quase 15 cm, quando perdi meu ovário direito, bebia muito leite em pó de soja (Marcas Soy), enriquecido com vitamina B12. Eu usava porque parecia uma oferta muito saudável, tamanho o marketing que a indústria alimentícia faz do produto. Na época, não me preocupava com minha alimentação. Não pensava que o alimento tivesse influência tão grande na minha saúde ou no surgimento de doenças. Usava a soja porque parecia ser uma oferta saudável e fácil. Nutrição instantânea.  

Mas eu mudei. Isso aconteceu, principalmente, quando percebi que não haveria respostas fáceis para a endometriose. Após passar por várias consultas com médicos de referência, aceitei que estou diante de uma doença enigmática, dolorida e cara. Apesar do preço das consultas particulares, não havia promessas certas de cura. Eu precisava encontrar um caminho que tratasse a causa da doença e não apenas seus sintomas. Embora possa ser necessário, cortar o tecido doente de endometriose não impede que ela continue crescendo. Eu precisava reequilibrar meu organismo.

A ciência, no entanto, diz que a causa da endometriose é indefinida. Os médicos lidam com hipóteses, mas o tratamento parece estar direcionado aos sintomas e a uma regulação artificial dos hormônios, além da eliminação de focos por diferentes técnicas cirúrgicas. Sem remédios, o corpo se desestrutura. Com remédios, ele avança, mas a que custo e por quanto tempo?

Decidi mudar meu estilo de vida. Entre as mudanças que fiz, retirei a soja de minha alimentação, mesmo contrariando a recomendação de alguns médicos. Concluí que se ela fosse tão boa assim para o meu organismo, a endometriose não deveria ter avançado tanto, pois eu usava soja diariamente. Após retirar a soja e fazer muitas outras mudanças, os focos de endometriose diminuíram. Apenas tirar a soja não fará os focos diminuírem, mas colocá-la na alimentação poderá fazer os focos de endometriose crescerem. A soja não é a única vilã responsável pelo crescimento dos focos, nem tê-la tirado do cardápio é a razão pela qual os focos diminuíram, mas pela minha experiência, acredito que ela tem um papel importante no avanço da endometriose e de outras doenças. Alguns cientistas também acham a mesma coisa, conforme indicam as pesquisas a seguir:

1.         NOEL, Jean-Christophe et al. Ureteral mullerian carcinosarcoma (mixed mullerian tumor) associated with endometriosis occurring in a patient with a concentrated soy isoflavones supplementation. 
O artigo relata o caso de uma mulher de 75 anos, com endometriose. A endometriose se transformou em câncer, após o uso de suplementação de soja concentrada. A transformação maligna dos focos foi associada ao uso da soja, nas condições apontadas.

2.         CHANDRAREDDY, Ashadeep et al. Adverse effects of phytoestrogens on reproductive health: a report of three cases. 
Sangramento uterino anormal com patologia endometrial em três mulheres foi relacionado a uma alta ingestão de produtos de soja. A primeira mulher tinha sangramento pós-menopausa com pólipo uterino, endométrio proliferativo e um mioma. A segunda mulher apresentou dismenorréia severa, sangramento uterino anormal, endometriose sem responder ao tratamento. A terceira mulher com dismenorréia severa, sangramento uterino anormal, endometriose e miomas uterinos com infertilidade secundária. Todas as três mulheres melhoraram após a retirada da soja da dieta.

3.         MENDES, J.J. Amaral. The endocrine disrupters: a major medical challenge (2002). In: Food and Chemical Toxicology.
O artigo fala sobre os desreguladores endócrinos (DE) que são responsáveis por efeitos patológicos no sistema reprodutor masculino e feminino, função da tireóide, sistema nervoso central e fertilidade. Entre esses DÊS, está a soja, apontada como um alimento que aumenta o estrógeno no organismo.

4.         ALLRED, Clinton D. et al. Soy diets containing varying amounts of genistein stimulate growth of estrogen-dependent (MCF-7) tumors in a dose-dependent manner. Disponível em: http://cancerres.aacrjournals.org/content/61/13/5045.full
A pesquisa considera os pontos controversos, mostrando efeitos positivos e negativos do uso da soja. Contudo, alerta para os riscos da utilização de soja por mulheres com câncer.

5.         MODARESI, Mehrdad et al. Effect of soybean on male reproductive physiology in mice. Disponível em: http://www.ipcbee.com/vol3/5-L014.pdf
Embora realizada em uma instituição de pesquisa sem representatividade, a pesquisa traz resultados desfavoráveis sobre o uso da soja pelos homens, com impactos negativos no seu sistema reprodutivo.

6. HSIEH, Ching-Yi et al. Estrogenic effects of genistein on the growth of estrogen receptor-positive human breast cancer (MCF-7) cells in vitro and in vivo. Disponível em: http://cancerres.aacrjournals.org/content/58/17/3833.full.pdf
Muito interessante. Fala da associação da genisteína (encontrada na soja) com o câncer.

7. RIMOLDI, Guillermo et al. Effects of chronic genistein treatment in mammary gland, uterus, and vagina. Disponível em: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2174401/

A maioria das pesquisas sobre o assunto defende o uso da soja, inclusive para o tratamento da endometriose. Mas há algumas pesquisas que apontam para os riscos relacionados também ao câncer (como sabemos, a endometriose é muito semelhante ao câncer). Ao ler as pesquisas mais recentes, tenho me convencido dos riscos da soja. Um de seus efeitos é elevar os níveis de estrógeno no corpo (O estrógeno alto aumenta a endometriose). Uma hipótese: talvez esses riscos tenham a ver com a soja transgênica e/ou produtos industrializados, e não com o uso moderado de grãos orgânicos, que pode ser saudável para mulheres que fazem reposição hormonal e não têm endometriose, por exemplo.

Sem dúvida, são necessárias mais pesquisas, com a discussão sobre os resultados de diferentes investigações acadêmicas sobre o assunto, para avaliar os possíveis benefícios e riscos envolvidos com o uso desses produtos, mesmo entre as pessoas consideradas saudáveis. De qualquer forma, eu não utilizo mais leite de soja em pó, suplementos que levam soja, creme de leite de soja, leite condensado de soja etc. Pode agradar o paladar, ser doce, semelhante aos produtos com leite, cada vez mais similares às guloseimas do mercado, destaque de matérias jornalísticas, acima de qualquer suspeita, embalados pelo marketing da vida saudável e pela promessa promocional de um corpo com saúde, mas esses produtos industrializados à base de soja não me fizeram bem.

A alimentação correta transforma o organismo. A alimentação errada traz doenças. Para uma parcela de cientistas, a soja não é tão inocente quanto parece ser.


PS.: Na produção de soja transgênica, estão utilizando o herbicida 2,4-D, um dos componentes do agente laranja, além do glifosato, por exemplo. Produtos químicos altamente prejudiciais à saúde.

Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.