quinta-feira, 30 de maio de 2013

Na sala de espera


30 de maio de 2013

No oitavo andar, na sala 81, esperava para fazer um exame de 180 reais. Em mãos, tinha o resultado de outro exame: 1888. Não sou numeróloga, não consulto previsões, nem zodíaco, nem coisa parecida. O futuro a Deus pertence, e só. Na sala pequena de espera, que volta e meia era invadida por um cheiro de fumaça de cigarro, eu e meu marido tentávamos nos concentrar em algo que nos fizéssemos esquecer temporariamente aquela situação desconfortável e insalubre. Por isso, ríamos dos números. O exame estava marcado para as 10h30, mas fomos atendidos perto do 12h. Mais tarde, na consulta, o médico me perguntou quando eu havia sido operada: 8/8/2008. O dia do ∞. 

Conheci uma mulher ali naquela sala. Ela viajara muitos quilômetros para ser atendida em um centro de referência. Contou-me a sua história. Com 20 poucos anos, sentia dores insuportáveis. Sem diagnóstico, foi medicada com Lexotan. Após quase uma década de sofrimento, ouvindo os médicos lhe dizerem que sua dor era de “fundo psicológico”, ela conheceu uma associação sobre endometriose, começou a receber informativos e marcou uma consulta com um médico especialista em Campinas. Na primeira consulta, ele disse que suas dores que já duravam quase o mês todo eram provenientes da endometriose profunda.

Com o diagnóstico em mãos, os desafios só começaram. O médico lhe ofereceu uma cirurgia com equipe multidisciplinar. Para fazê-la, ela vendeu o carro. Após a cirurgia, pagou por um tratamento com injeções importadas durante seis meses. Após mais seis meses, a endometriose se alastrara novamente. As dores terríveis voltaram. Ela estava andando na rua, quando caiu. Um endometrioma (cisto de endometriose no ovário) se rompeu. Ela foi internada com urgência, operada em sua cidade mesmo.

Os olhos azuis daquela linda mulher de 48 anos carregam as dores dessa doença maligna. As cirurgias levaram seus ovários, útero, parte de outros órgãos, como intestino. Hoje, ela não tem mais as dores da endometriose. Fez reposição hormonal. Está com osteoporose, artrite e artrose.

Eu estava quase sendo chamada para o exame. Contei-lhe rapidamente como havia superado a dor, como os focos diminuíram com a mudança de estilo de vida. Contei-lhe sobre meu tratamento fitoterápico, sobre a importância da vitamina D, de tomar sol. Ela não tem mais endometriose, mas ainda há muito o que enfrentar. Gostaria que ela acreditasse, que tantas mulheres que estão sofrendo como ela sofreu, como eu sofri, soubessem que é possível vencer essa doença sem tratamentos hormonais agressivos e cirurgias caras.

Olhou-me com seus olhos azuis tristes e expressivos, disse-me que os médicos lhe falaram que a endometriose estava relacionada com seu estado emocional. Quando a medicina não cura, culpabiliza. Quantas vezes ouvi me falaram isso diante de uma doença sem respostas. Parece um jogo de caça às bruxas, um tabuleiro medieval, em pleno território da ciência. Se o tratamento não deu certo, a mente da mulher é a responsável. Se a doença é um mistério, a mente da mulher é a responsável. Se a dor é insuportável, a mente da mulher é quem a fabrica. Aquela mulher acreditava no que ainda teve que pagar para ouvir. Em uma das consultas que fui, uma médica me disse que mais de 90% das doenças começam na mente. Há tantas afirmações sem qualquer traço de reflexão.

É com a mente que desacreditamos daqueles que culpabilizam sem conhecer, culpabilizam para se proteger, mesmo que estejam cobertos de títulos e de intenções religiosas. É com a mente que decidimos procurar médicos que nos conduzam à cura, em parceria. Médicos que celebrem a liberdade. Se escuto e me calo, se escuto e internalizo, adoeço. A mente do outro toma conta da minha.

Chamaram-me para o exame. No pouco tempo que me restava, disse que todos temos nossos desafios emocionais, mas que se o corpo estiver fortalecido fisicamente, com a alimentação nutritiva e exercícios físicos, estaremos em melhores condições de vencer a doença, um meio ambiente contaminado, de rejeitar um conselho bem intencionado de gente que não reflete sobre o que lê, crê ou diz. Uma vida saudável nos ajuda a vencer a endometriose ou outra doença, ainda que chorando e se sentindo quebrada emocionalmente, como muitas vezes me senti e me sinto. Somos todos quebrados, nem por isso estamos sentenciados a uma vida de dores.

Ontem, fiz o melhor exame de minha vida. Tudo está bem, graças ao Pai. Ontem, eu vi a matemática da vida em mim. Feito oito sequencial, ela era mais do que o mapa que eu desenhei em sonhos, era o próprio Infinito. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Endometriose e crise financeira



17 de maio de 2013

A endometriose é uma grande crise que se abate contra o corpo, mas não apenas a saúde física é afetada. As ameaças da dor e da infertilidade nos colocam diante de uma crise com muitas implicações e desafios. O tratamento é caro. Os grandes especialistas custam fortunas.

Tenho dois planos de saúde. Mas os médicos que atendem por eles não foram capazes de reconhecer a doença no meu corpo, muito menos apontar as causas ou oferecer tratamentos. Sem diagnóstico, como se tratar? Sem conhecer a lei da saúde transgredida, como é possível encontrar a cura? Por um bom tempo, não houve doença, nem transgressão, muito menos cura. Por último, como ato derradeiro, fui diagnosticada erroneamente com câncer.

Eu precisava de um especialista, custasse o que custasse. Custou caro, mas tive o diagnóstico. Endometriose profunda, com focos espalhados na cavidade abdominal, focos no intestino, um novo endometrioma no ovário esquerdo. O olhar acurado dos médicos me custou, à época, uns 10 mil reais, entre exames e consultas particulares. Mas, finalmente, eu tinha a cartografia da doença que se espalhava dentro de mim. Contudo, saber que há algo errado e identificar esse erro é apenas o primeiro passo, um espelho do reverso. Eu precisava de tratamento, precisava de algo que ainda desconhecia.

Se não encontrei diagnóstico com os médicos do convênio, também não encontraria tratamento. Se encontrei diagnóstico com os médicos especialistas, com eles eu encontraria o caminho da cura? Após uma crise de dor aguda, que me fez desmaiar, eu liguei para o celular de meu médico. Ele me atendeu prontamente. Por telefone disse: “você vai ter que ser operada.” Pessoalmente, me falou da técnica e dos valores. Haveria uma equipe multidisciplinar, retirariam um segmento do intestino, havia o risco de eu ficar por algum tempo ou permanentemente colostomizada, com uma bolsinha externa para coletar as fezes. Perderia parte de um ou outro órgão. No hospital mais em conta, em que o médico aceitaria fazer a cirurgia junto com sua equipe, o custo seria de uns 30 mil reais. Hoje, esse valor está bem mais alto. Em meio às terríveis dores, perguntei: “se operar, estarei livre da doença?” Respondeu: “não podemos garantir isso.” Ninguém pode. Não há cirurgia curativa, os focos podem voltar. Esse profissional falou a verdade. Mas ainda que não houvesse cura, que alternativa eu tinha? A dor nos faz morrer em vida. Sob tortura, se há dinheiro, o dinheiro é de menos. Damos aos médicos tudo aquilo que temos, porque aquilo que somos está desvanecendo.

Fechei a dor dentro de mim. Com esforço, pensei. Poderíamos com muita dificuldade pagar pela cirurgia, mas quando a endometriose voltasse, como eu pagaria pela segunda e terceira? Se eu não pagasse o preço, aquele médico, que me atendia tão prontamente ao celular e me recebia por umas duas horas nas consultas em seu consultório, não seria mais meu médico. Ele era meu na medida em que eu pagava o valor. E quando já houvesse dado tudo que tinha? Ainda que não cessasse de pagar, a cura não poderia ser comprada. Dinheiro nenhum no mundo compra a cura de uma doença sem cura.

Havia, contudo, certa esperança. O entra e sai em consultórios de especialistas, sempre ligados a técnicas de fertilização in vitro (FVI), deixava bem claro o que os médicos não ousavam dizer abertamente, mas sugeriam sempre, aqui e ali, às vezes de forma sufocantemente ostensiva: “engravidar cura a endometriose.” Sabemos que nem sempre isso acontece, sabemos que há quem engravide para se curar, há quem vende a gravidez com o argumento da cura. No meu caso, primeiro seria feita a cirurgia. Depois, a FIV, com preço de ouro. Como contestar o preço de um filho?

A mulher tem que estar bem de saúde para engravidar ou tem que engravidar para ficar bem?
 
A dor, como o vinho, queria calar a mente. A saída mais fácil, ainda seria difícil. Foi nesse momento que decidi mudar meu estilo de vida e tentar alterar as causas da doença. As dezenas de teorias sobre a causa da endometriose apenas podiam me dizer uma coisa: o organismo não está funcionando bem. Como fazê-lo funcionar com saúde? Nós somos o que comemos, bebemos e respiramos. A química do corpo não é mágica, segue uma lei, como tudo nessa vida, ainda que não acreditemos em leis e tenhamos espedaçados os mandamentos. Passei a estudar sobre como o corpo se nutre, como o exercício físico nutre o corpo, como estamos intimamente ligados ao sol, à água, ao ar que respiramos, à forma como respiramos. Procurei remédios fitoterápicos, para uma situação em que a dor, o emagrecimento e as doenças autoimunes me consumiam. Mudei minha relação com o trabalho e com as emoções. Eu orei a Deus.

Compreendemos que a escolha do mais simples nos ajudaria a priorizar o que realmente nos mostrava ser o mais importante. Decidimos não entrar em dívidas. Optei por trabalhar menos, ganhar menos, mas ganhar mais. Temos o que podemos pagar. A saúde física também depende da saúde financeira. Desacelerei e minhas ações valorizaram, ainda que esse lucro seja o valor do avesso. O organismo vai bem. Uma vida pautada pelo consumo consome a própria vida. 

Meu tratamento teve o custo da mudança. Esse custo é alto. Dizem que comprar alimentos saudáveis, como castanhas e frutas, encarece o orçamento. Mas o custo não é alto por causa disso, pois é possível ter uma vida saudável com criatividade acessível. Falo do custo de alterar uma vida inteira de hábitos e formas de pensar, de tradições e pressões familiares e sociais. Falo do nosso enraizamento. É como metástase social que faz duvidar, nos joga para o caminho de todos, obscurece a visão coletiva. O custo é alto, porque conhecer a lei lança a responsabilidade sobre nós e a paz vem como espada, mas o caminho é suave, a vida cresce e nasce. Não há nada mais belo.

Estou há cinco anos sem nenhuma cirurgia, sem o uso de remédios ou hormônios. Nunca mais tive um episódio de dor. Tive no passado, mas agora não tenho dor na relação sexual. Os focos de endometriose diminuíram (Veja as imagens de meus exames do ovário, em três etapas. Os links estão no texto Transformação). Tenho endometriose profunda, mas estou curada.

Quem acompanha o noticiário sabe que a crise financeira de 2008 prossegue. Na Europa, a situação está cada vez pior. Um dos grandes sustentáculos, a Alemanha, está sentindo fortemente a crise. O que dizer do Brasil cujo crescimento está baseado no endividamento das famílias? Nesse cenário, a endometriose se agiganta. Pensar a endometriose é também pensar as finanças, em todas as suas implicações. Optar por um ou outro tratamento, escolher um ou outro estilo de vida, é fazer escolhas que nos empobrecerão ou nos fortalecerão no que diz respeito às finanças pessoais, às células e ao sangue.

A economia do corpo não é assunto de menor importância.

A Colheita



17 de maio de 2013

Plantei proteína. Feijões de diferentes cores e sabores. Brotaram. Chegou o tempo da primeira colheita. Estou colhendo proteínas a conta-gotas. Hoje, vou cozinhá-las e misturá-las com a sopa de abóbora e quinoa. Nutriente vivo do solo da primeira colheita orgânica.


Estamos colhendo abacates de duas espécies de árvores plantadas há 20 anos pela antiga proprietária da chácara. Como um abacate médio ou pequeno (avocado) por dia, pois fornece ácido fólico e vitamina E, entre outros nutrientes essenciais para enfrentar a endometriose, engravidar ou manter a gravidez. Abacates não engordam.


Todos os dias tomo um ou dois copos de suco de laranjas ou poncãs colhidas das árvores daqui. Misturo com duas colheres de chia. Vitamina C, ácido fólico, além de todos os benefícios da chia, um super alimento.





sábado, 4 de maio de 2013

O livro da vida



4 de maio de 2013



Esses dias, eu tive um sonho. Estava folheando um livro encadernado com folhas brancas de papel coche. Era um livro com ilustrações do ovário, não de uma fisiologia convencional nem de imagens inertes e frias ultrassonografadas. De um lado, havia um tampão tão branco quanto a página. Um nada. Do outro, quatro hastes de uma planta com flores e pequenos frutos no topo. Eu apreciava a página das quatro hastes como se aprecia o livro da vida.


Não acredito em sentidos místicos de sonhos, nem sou tentada a buscar no oráculo on-line interpretações para símbolos diversos que me clarifiquem o amanhã. O futuro a Deus pertence, e só. Os sonhos são tão-somente a releitura do vivido com toques curiosos de um realismo fantástico que o subconsciente exibe, um cinema artesanal que nasce dentro de nós à luz da lua.

Pois à luz do dia, eu havia dirigido o olhar para aquilo que depois se fez filme à noite. Quase todos os dias de manhã, eu rego uma jardineira. Nela, plantei sementes de morango silvestre, mas nasceram várias plantinhas diferentes, e duas hastes verticalmente firmes e esguias que pareciam que se tornariam mudas de árvores. Quando alcançaram uns 15 cm, pararam de crescer, produziram flores doces e agora estão surgindo vagarosamente pequenos frutos, nos quais diariamente assisto encafifada e ansiosa à transformação. Em que se tornarão? Seriam, por acaso, pés de uma berinjela exótica que vi no catálogo, cuja semente é semelhante a dos morangos? Teria a fornecedora agrícola se confundido com as sementes? Aquilo que você semear, colherá, mas eu não sei o que semeei, nem sei se um dia haverá colheita. Eram essas hastes que vi no ovário no livro.

Como de costume, no mesmo dia, antes de regar as moringas, os ramos de feijões, vagens e ervilhas, as duas pequenas árvores de cereja que plantei e a jardineira, li as primeiras notícias do dia. Leio Folha de S.Paulo (FSP) invariavelmente, depois outros jornais. É um hábito antigo. Era o jornal que meu pai trazia para casa diariamente, foi a escola onde aprendi a ler antes da escola. Nesse dia, na compactada editoria de saúde, havia uma notícia sobre a resposta da indústria farmacêutica à desistência precoce de mulheres de métodos para engravidar devido ao incômodo e à dor desencadeados pelas sete injeções em horários programados. A nova droga propagandeada substitui as sete injeções por uma dose única que promete aumentar, talvez garantir, a adesão ao tratamento. Ao ler o texto, comecei a pensar no ovário.

A FIV utiliza, em regra geral, indutores de ovulação, entre outras drogas. Pode-se usar, em comprimidos, apenas indutores. O indutor de ovulação obriga, não induz, o ovário a ovular (ou ovocitar). A droga obriga, mas não induz, o ovário a liberar mais de um óvulo (ou ovócito) por vez. Com mais óvulos à disposição, aumenta-se a chance de que um ou mais espermatozoides atinjam seu objetivo. Matematicamente, os indutores aumentam a probabilidade de gravidez. Com a dose única, carregada das sete injeções, o efeito promete ser concentrado, potencializado, instantâneo, com mãos de ferro, pois o tempo urge, por isso é preciso vencê-lo antes que nos vença. Óvulos liberados no ritmo em que as plantas levam para crescer, florescer e frutificar não são óvulos viáveis. A sinfonia precisa ser substituída por tambores. É preciso apressar a colheita, numa euforia oposta ao que o texto judaico diz sobre a seiva e o seu tempo.

Indutor não induz, obriga. Não há como o ovário pular do livro e escrever outra história, ele está preso na tela. Ele está dentro do enredo que escrevemos ou aceitamos que outros escrevam. A torrente de hormônios dita o ritmo de trabalho. Ele trabalha, ele se exaure. Da exaustão colocada sobre ele, imposta por uma ou sete picadas, pode surgir um filho, pode não surgir, podem surgir outras coisas. O tempo violado deixa suas marcas.

A atriz da Globo Christiana Guinle se submeteu a sete FIVs em menos de dois anos. O excesso de hormônios a levou à beira da morte. "Na hora, você quer tanto ser mãe, que nem se dá conta de que está morrendo por causa do excesso de hormônios. Eu não queria desistir, queria ser forte, queria ser mãe, e meu médico me incentivava, dizia que era normal", revelou a atriz (Veja aqui). "As pessoas têm que tomar muito cuidado. Sei que não fui a única que passei por isso e sofri muito, quase morri de fato, após tantas tentativas sucessivas. Não há organismo que aguente. Meus triglicerídios chegaram a 1850 e meu fígado aumentou 10 centímetros. Me sinto uma vitoriosa por estar voltando [...]. Fiquei mal quando pensei que talvez não pudesse voltar...", revela (Veja aqui).

Indutor induz obrigando, mas não produz. É um mercantilismo biológico, em que o mais importante não é produzir, mas comercializar. E o comércio invade o templo que somos. A droga nos comercializa diminuindo mais rapidamente, a cada tentativa, a reserva de óvulos. A natureza os libera delicadamente, a droga esgota com intrepidez, cuja velocidade furiosa tem consequências que já foram documentadas o suficiente pela própria ciência para nos alertar e nos fazer tremer. A notícia da FSP "Nova droga reduz injeções para fertilização" traz o depoimento de um médico sobre a nova injeção de dose única: "O ginecologista Eduardo Motta, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), faz ponderação semelhante. 'Precisamos ter cuidado. Se houver uma hiperresposta do ovário, não será possível revertê-la porque a medicação estará agindo por seis ou sete dias'", diz ele (Veja aqui). O que isso significa? O médico se refere ao risco de a mulher apresentar Síndrome de Hiperestimulação Ovariana, uma efeito colateral do indutor potencialmente grave que causa, entre outros sintomas, nos casos mais intensos, hemorragias intracranianas, derrames, hemorragia no pericárdio, insuficiência renal. Nesses casos, a mulher precisa ser hospitalizada na UTI. Cerca de 20 a 25% das mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida apresentam as formas mais leves da síndrome, que podem incluir distensão abdominal, náuseas, vômitos, aumento do ovário (Veja aqui). Qual será a estatística envolvida com a nova droga? O que o médico está querendo dizer quando falou que "não será possível" reverter esse efeito perigoso de hiperestimulação? O que acontecerá com a mulher? 


No Google Academics você pode encontrar pesquisas sobre a FIV e indutores. A bula do indutor Clomid, por exemplo, nos informa que os efeitos colaterais podem incluir neoplasia, aumento do ovário, hiperestimulação ovariana, entre outros efeitos. Sobre a endometriose, a bula afirma: "CLOMID não deve ser administrado na presença de cistos ovarianos (incluindo endometriose ovárica), pois pode produzir aumento adicional do tamanho dos mesmos" (Leia a bula
). Não é raro encontrar mulheres que foram diagnosticadas com endometriose após usar indutores, mas que são levadas a crer que já tinham endometriose antes. Será? Se tinham, qual é precisamente a interação entre a droga e a endometriose? Sabemos que além da ovulação, a droga pode também induzir a velocidade de propagação da endo. Por quanto tempo a droga continua ressoando no organismo após o seu uso?


Se eu tivesse sido alfabetizada no livro da vida antes, talvez teria cuidado melhor do meu ovário direito que perdi, teria respeitado meu corpo, meu ovário esquerdo que resiste e está melhor agora. Mas não sabia ler meu organismo, nem apreciar sua beleza, nem respeitar suas leis. Não sabia ou desaprendi. Aquele ovário era quase um órgão vestigial, se é que órgãos vestigiais existem. Não conheci o tempo da sua visitação. Ele me constituía, mas era como se eu não fosse ele. Não me exercitava, comia o que não alimenta o corpo, engolia as drogas lícitas para não conceber, não cuidava das minhas emoções, não valorizava o poder curativo do sol, da água, do ar, não acreditava que algo recebido de graça pudesse ser determinante. A graça não me tocava. No mundo mercantilizado, quem valoriza o que é de graça? Em uma realidade altamente midiática e imagética, quem acredita no que não vê, ainda que se leve por dentro ou que o tenha gerado? Anônimos não existem. Quando recebi o diagnóstico de câncer que se demonstrou ser uma endometriose profunda, não pensei sequer um segundo em manter o ovário e retirar o cisto de 15 cm. "Tira." O desaparecimento não incomodou, mal foi notado, eu o extirpara antes, a incisão cirúrgica fez o que eu já havia feito. E ainda perguntei à médica: "Você acha que seria prudente tirar o segundo ovário também"? Eles eram o problema, mas era exatamente o contrário: eu os havia perdido muito antes deles se perderem. Eu não aprendera a amar, como a mim mesma, o outro que me constituiu. O outro sou eu. Não me amava e me desconhecia. 


Somos livres para impor aquilo que quisermos ao nosso corpo, a única coisa que defendo é que todas as mulheres, todos os candidatos a pais, tenham o direito de conhecer as implicações do exercício dessa liberdade. Cientes dos riscos, conhecedoras do nosso corpo, seremos donas em potencial do nosso destino, nunca jamais as donas por completo. A vida é mais do que a exatidão matemática, ela está acima de números e valores, desconhece a sede de poder. A vida é sagrada. A vida não está em nós. Se queremos que ela surja de uma forma ou outra, temos todo o direito de escolher, ainda que a escolha possa resultar em desfechos sem escolhas, mas que essa decisão seja tomada com o conhecimento dos prós e contras descritos pelas pesquisas científicas da área médica, descritos pela história viva de mulheres que nos cercam, ouçamo-las. 

Sinto pelas mulheres que, sem informações suficientes, sem serem levadas a olhar de outra forma, tiraram o que lhes era caro – seus órgãos – por acreditarem, como eu acreditei, que eles as faziam adoecer, quando talvez estivesse ocorrendo exatamente o contrário, quando poderiam recuperá-los, recuperando-se. Essa mulher fui eu. Esses dias eu recebi pelo blog um comentário que dizia que eu não precisaria ter tirado meu ovário direito, poderia ter tentado outras formas de preservá-lo, um médico especialista também havia me dito isso. Senti uma dor pulsando fortemente e lamentei pelo que foi feito, pelo que fiz. Publiquei o que ela me disse. Essa leitora tem razão, havia outros caminhos, um deles eu descobri agora com a mudança de estilo de vida. Mas que aquele comentário chegue a muitas outras mulheres e as ajudem a tempo. Sinto pelas que fizeram FVI sem serem informadas suficientemente dos efeitos colaterais. Sinto por Guinle. Sinto por nós. 



Não acho que a FVI ou a indução artificial da gestação sejam proibitivas por razões religiosas. A decisão de seguir por esse caminho é legítima e pode resultar sim em crianças muito amadas, ainda que as implicações ultrapassem a questão da saúde em si e entre em um campo ético bastante controverso, basta considerar as atrocidades cometidas pelo "Dr." Roger Abdelmassih (Veja).

Eu decidi não usar indutores, nem fazer FIV, mas que a todas as mulheres que decidam seguir por outro caminho sejam disponibilizadas as informações necessárias para tomar sua decisão, pois a ciência ainda não nos ensinou como recuperar a página em branco. Que esse método seja oferecido gratuitamente às mulheres que não podem pagar por ele e que todas elas tenham o direito de escolher se querem fazê-lo ou não, depois de terem sido bem informadas. Que o resultado desse método na prática dos consultórios, principalmente na prática médica de centros de saúde públicos ou de consultórios de médicos ligados à pesquisa pública, seja amplamente conhecido estatisticamente, incluindo a investigação dos efeitos colaterais indicados na bula. Que as evidências clínicas e científicas sejam publicizadas e tenhamos acesso integral a elas. Que essa indústria lucrativa seja energicamente fiscalizada pelos órgãos competentes. Que a vida valha mais do que o dinheiro. Que histórias como a da atriz Christiana Guinle sejam conhecidas nos consultórios e compartilhadas pelos próprios médicos com sua pacientes. Que os médicos que sugerem não tentar uma FIV, depois de uma avaliação cuidadosa da saúde da mulher, sejam respeitados, ainda que se discordem deles. Que as meninas na infância sejam ensinadas, no espelho em que começam a se reconhecer, a amar aquilo que veem e o que não podem ver, mas lhes dá a vida.


Que a nossa concepção do livro da vida inclua as páginas de uma fertilidade em estado de imensidão. O resultado poderá ser um filho gerado em nós, um filho que trouxemos para ser nosso, um projeto em prol do outro que nos estimule a continuar a viver não apenas porque nascemos e aqui estamos, mas a viver em estado de graça, ajudando a ilustrar com verdade e delicadeza o livro de nosso semelhante, mesmo que a figueira não dê seu fruto, a vide não floresça. A vida ainda é bela, como uma floresta de coníferas. Ela se refaz.