30 de maio
de 2013
No oitavo
andar, na sala 81, esperava para fazer um exame de 180 reais. Em mãos, tinha o
resultado de outro exame: 1888. Não sou numeróloga, não consulto previsões, nem
zodíaco, nem coisa parecida. O futuro a Deus pertence, e só. Na sala pequena de
espera, que volta e meia era invadida por um cheiro de fumaça de cigarro, eu e
meu marido tentávamos nos concentrar em algo que nos fizéssemos esquecer
temporariamente aquela situação desconfortável e insalubre. Por isso, ríamos
dos números. O exame estava marcado para as 10h30, mas fomos atendidos perto do
12h. Mais tarde, na consulta, o médico me perguntou quando eu havia sido
operada: 8/8/2008. O dia do ∞.
Conheci uma
mulher ali naquela sala. Ela viajara muitos quilômetros para ser atendida em um
centro de referência. Contou-me a sua história. Com 20 poucos anos, sentia
dores insuportáveis. Sem diagnóstico, foi medicada com Lexotan. Após quase uma
década de sofrimento, ouvindo os médicos lhe dizerem que sua dor era de “fundo
psicológico”, ela conheceu uma associação sobre endometriose, começou a receber
informativos e marcou uma consulta com um médico especialista em Campinas. Na
primeira consulta, ele disse que suas dores que já duravam quase o mês todo
eram provenientes da endometriose profunda.
Com o
diagnóstico em mãos, os desafios só começaram. O médico lhe ofereceu uma
cirurgia com equipe multidisciplinar. Para fazê-la, ela vendeu o carro. Após a
cirurgia, pagou por um tratamento com injeções importadas durante seis meses.
Após mais seis meses, a endometriose se alastrara novamente. As dores terríveis
voltaram. Ela estava andando na rua, quando caiu. Um endometrioma (cisto de
endometriose no ovário) se rompeu. Ela foi internada com urgência, operada em
sua cidade mesmo.
Os olhos
azuis daquela linda mulher de 48 anos carregam as dores dessa doença maligna. As
cirurgias levaram seus ovários, útero, parte de outros órgãos, como intestino.
Hoje, ela não tem mais as dores da endometriose. Fez reposição hormonal. Está
com osteoporose, artrite e artrose.
Eu estava
quase sendo chamada para o exame. Contei-lhe rapidamente como havia superado a
dor, como os focos diminuíram com a mudança de estilo de vida. Contei-lhe sobre
meu tratamento fitoterápico, sobre a importância da vitamina D, de tomar sol.
Ela não tem mais endometriose, mas ainda há muito o que enfrentar. Gostaria que
ela acreditasse, que tantas mulheres que estão sofrendo como ela sofreu, como
eu sofri, soubessem que é possível vencer essa doença sem tratamentos hormonais
agressivos e cirurgias caras.
Olhou-me com
seus olhos azuis tristes e expressivos, disse-me que os médicos lhe falaram que
a endometriose estava relacionada com seu estado emocional. Quando a medicina
não cura, culpabiliza. Quantas vezes ouvi me falaram isso diante de uma doença
sem respostas. Parece um jogo de caça às bruxas, um tabuleiro medieval, em
pleno território da ciência. Se o tratamento não deu certo, a mente da mulher é
a responsável. Se a doença é um mistério, a mente da mulher é a responsável. Se
a dor é insuportável, a mente da mulher é quem a fabrica. Aquela mulher acreditava
no que ainda teve que pagar para ouvir. Em uma das consultas que fui, uma
médica me disse que mais de 90% das doenças começam na mente. Há tantas
afirmações sem qualquer traço de reflexão.
É com a
mente que desacreditamos daqueles que culpabilizam sem conhecer, culpabilizam
para se proteger, mesmo que estejam cobertos de títulos e de intenções
religiosas. É com a mente que decidimos procurar médicos que nos conduzam à
cura, em parceria. Médicos que celebrem a liberdade. Se escuto e me calo, se
escuto e internalizo, adoeço. A mente do outro toma conta da minha.
Chamaram-me
para o exame. No pouco tempo que me restava, disse que todos temos nossos
desafios emocionais, mas que se o corpo estiver fortalecido fisicamente, com a
alimentação nutritiva e exercícios físicos, estaremos em melhores condições de
vencer a doença, um meio ambiente contaminado, de rejeitar um conselho bem
intencionado de gente que não reflete sobre o que lê, crê ou diz. Uma vida saudável nos ajuda a vencer a
endometriose ou outra doença, ainda que chorando e se sentindo quebrada emocionalmente,
como muitas vezes me senti e me sinto. Somos todos quebrados, nem por isso estamos
sentenciados a uma vida de dores.
Ontem, fiz o
melhor exame de minha vida. Tudo está bem, graças ao Pai. Ontem, eu vi a
matemática da vida em mim. Feito oito sequencial, ela era mais do que o mapa
que eu desenhei em sonhos, era o próprio Infinito.


