
27 de outubro de 2011
Não sei seu nome, nem detalhes de sua história. Transformada em relato médico, eles a identificam como a “Paciente do sexo feminino com 45 anos de idade”. Uma mulher portadora de endometriose profunda, que era mãe de dois filhos e sofria com um histórico de dismenorreia intensa (cólica menstrual).
De acordo com os médicos pesquisadores, ela foi internada no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) após sentir dores abdominais durante duas semanas sem melhoras com o uso de analgésicos (Veja a pesquisa acadêmica com esse relato). Por meio do ultrassom transvaginal, constataram aumento do volume do útero (190 cm3). O CA-125, marcador tumoral também utilizado para compor o diagnóstico de endometriose, estava alto: superior a 200 U/mL. A hipótese diagnóstica foi adenomiose/endometriose pélvica. Os médicos a submeteram a uma histerectomia (retirada do útero) “para tratamento da dismenorreia”. O exame laboratorial não identificou endometriose no útero.
Após a cirurgia, voltou para casa. Mas retornou várias vezes ao hospital para ser atendida no Pronto Socorro. Estava emagrecendo. As dores abdominais não cessaram. Por meio de uma ressonância magnética do abdômen, encontraram uma massa de 6,0 x 5,0 x 3,0 cm no peritônio (uma membrana que envolve a camada abdominal). Era endometriose. Os médicos optaram por uma ooforectomia bilateral terapêutica. Foram retirados os dois ovários.
Sem útero e sem os ovários, era de se esperar, ao menos, o fim da dor. Mas as dores continuaram, acompanhadas de náuseas e vômitos. Havia mais focos de endometriose. Por meio do ultrassom, identificaram uma “massa cística”, próxima à aorta, ao tronco celíaco e aos vasos mesentéricos. A aorta é a artéria mais importante do sistema circulatório. O cisto encontrado estava no abdômen, próximo à aorta abdominal (aorta descendente). Ela foi subtemida a uma laparotomia. Retiraram parte do tumor. O exame revelou cisto “endometriótico com hemorragia”.
Um ano se passou. Ela foi submetida a uma nova tomografia computadorizada que revelou uma “lesão residual retroperitoneal”. Esse cisto no peritônio foi investigado por meio de uma punção. Os médicos acreditavam que era endometriose, mas não excluíram a possibilidade de outro diagnóstico, conforme relatam: “porém devido à presença de muita necrose no material, não se excluía a possibilidade de neoplasia epitelial bem diferenciada.” A neoplasia é um crescimento desordenado da célula que pode ser maligna ou benigna. Pelo que o paper relata, a paciente foi mantida sob tratamento para controle da dor. Mais um ano se passou até um novo exame. Vejam o relato:
Mantida sob tratamento clínico com controle parcial da dor e das náuseas. Exame de controle por RM [Ressonância Magnética], após um ano, mostrou aumento das dimensões da massa retroperitoneal, descrita como lesão expansiva complexa (...).
Desde a abordagem cirúrgica da massa no peritônico, quatro anos se passaram. Em meio a operações e remédios, ela emagreceu mais, a dor piorou. Até que foi encontrado um tumor de 15 cm em seu abdômen. Vejam o relato:
Após 4 anos da primeira abordagem cirúrgica da massa retroperitoneal, a paciente apresentava-se emagrecida (I.M.C. = 17) com piora da dor, apresentando náuseas, vômitos e inapetência. O exame físico evidenciou massa endurecida, em topografia de
epigástrio, aderida a planos profundos.
Os médicos fizeram uma tentativa de retirar o tumor. Na cirurgia, cortaram parte do estômago, do baço, do pâncreas. Devido às características do tumor, não puderam extraí-lo. Após 45 dias, essa mulher morreu, por choque séptico. Na autópsia, constataram o câncer: “adenocarcinoma caracterizado pela proliferação neoplásica de padrão glandular predominantemente endometrióide.” Para os médicos, a endometriose se transformara em câncer.
Essa história foi relatada em um trabalho acadêmico repleto de termos técnicos, aceito para publicação no dia 30 de maio deste ano. Apesar de sua objetividade científica, há muito sofrimento nesse relato. Escrevi este texto sob uma tensão crescente, tentando descrever os sintomas, os achados, os exames, os resultados, as idas e vindas dessa mulher, o olhar médico e sua interpretação. A mulher que não conheci sofreu muito. Viveu o calvário. Por que ler isso? Por que trazer à tona essa história? Por que escrever sobre dor extrema? Se precisamos de força, a encontraremos nesse desfecho? Ainda que seja incomparavelmente mais difícil saber dessa história do que conhecer histórias de dor marcadas pela superação, ainda sim, prefiro conhecer todas as implicações possíveis dessa doença, para não subestimá-la, para dizer: não a subestimem.
Há tempos, li um artigo na BBC sobre o risco da endometriose se transformar em câncer (Veja). O artigo afirma que muitas mulheres poderiam não querer ouvir sobre isso. Quem deseja ouvir o pior? Mary Lou Ballweg, da Endometriosis Association, disse: “Há um perigo de médicos sentirem que as mulheres não querem saber sobre o risco de câncer. Mas o que é pior, sentir um pouco de medo e estar atenta para os sintomas ou morrer?” “As mulheres precisam procurar um especialista para garantir que elas estão recebendo a melhor ajuda possível”, afirma Ballweg. De acordo com a médica Joanna Owens, diretora do Cancer Research UK's: “pesquisas [...] sugerem que a endometriose pode aumentar o risco de câncer e são necessários mais estudos para explicar essa conexão. Nosso conselho para todas as mulheres é que conheçam seu corpo, contatem o seu médico imediatamente se detectar quaisquer mudanças e participem de triagem, quando convidadas.” (Veja)
Ao descrever o caso em um paper, enviado para publicação na revista Autopsy and Case Reports, da USP, os médicos pesquisadores mantêm uma linha investigativa central: a relação entre câncer e endometriose, com enfoque nas discussões sobre diagnóstico. “Estudos têm documentado a progressão da endometriose, como doença benigna, para o câncer”, afirmam os autores. Eles enumeram algumas questões centrais, com base na análise de outras pesquisas: 1. O mecanismo de transformação da endometriose para o câncer ainda é desconhecido; 2. Não existe um método unificado para o diagnóstico da transformação da endometriose em câncer. Nos trabalhos publicados esse método é variado; 3. A taxa de incidência de câncer de ovário é nove vezes maior em mulheres com endometrioma. Em mulheres acima dos 50 anos, é 13 vezes maior; 4. Muitas mulheres que desenvolveram câncer a partir de focos de endometriose fora do ovário estavam na menopausa e faziam reposição hormonal; 5. As neoplasias de ovário relacionadas à endometriose parecem apresentar um prognóstico mais favorável, com melhores taxas de sobrevida.
Quero destacar mais duas conclusões dos autores (Veja):
1. Por sua vez, a Ressonância Magnética (RM) é o método de imagem mais usado para
avaliação da endometriose pélvica profunda, podendo ter sensibilidade superior a 90% na capacidade de predição de lesões malignas.Nesses casos, as imagens sugestivas de acometimento neoplásico são a presença de massa unilateral cística com focos de hemorragia e nódulos murais com realce ao contraste.
2. A transformação carcinomatosa da endometriose é evento relativamente raro, pouco compreendido e de ainda difícil diagnóstico pelos métodos atuais. Não há até o momento orientação para seguimento ou rastreamento da transformação maligna nos focos de endometriose.
Quando li esse paper, me fiz várias perguntas. Primeiro, a qual tratamento medicamentoso essa mulher foi submetida? Já que retiraram o útero e os ovários, provavelmente ela não estava utilizando remédios para conter o avanço da endometriose. Mas seguia um tratamento medicamentoso, conforme relatam. Qual? Justamente devido às cirurgias, será que não estava fazendo reposição hormonal? Os médicos não dão informações sobre o tratamento farmacológico. Apenas mencionam o aumento de casos de câncer, a partir da endometriose, em situações em que a mulher faz reposição hormonal, embora não especifiquem o tipo de reposição.
Além disso, de acordo com os médicos a Ressonância Magnética é o melhor exame para diagnosticar a transformação de endometriose profunda em câncer. Nunca fiz ressonância. Nunca encontrei um médico que quisesse pedi-la. Provavelmente, os planos de saúde os induzem a isso. Mas, com esse paper em mãos, vou pedir que meu médico requisite o exame. Fica claro que a associação entre câncer e endometriose não é bem conhecida. Embora tais casos sejam raros – apenas uma pequena porcentagem de mulheres com endometriose desenvolve câncer –, precisamos estar atentas aos sinais, principalmente se nos enquadramos nos grupos de riscos citados: endometriose profunda, endometriose intestinal (meu médico faz pesquisas nessa área. Disse que o risco de malignização é muito maior no intestino do que no ovário), reposição hormonal, mulheres na menopausa ou acima dos 50 anos, obesidade, emagrecimento sem outra causa.
Esse artigo discute métodos diagnósticos. Parece importante para que a ciência avance. Mas a discussão central deve ser: como prevenir? Como impedir que a endometriose se transforme em câncer? Como evitar o medo e, ao mesmo tempo, tomar atitudes que nos protejam, nos fortaleçam (pois o medo apenas nos enfraquece)? Discutir as causas dessa transformação da doença é importante. Se as pesquisas médicas estão dizendo que reposição hormonal aumenta os riscos, devo fazê-la? O que mais aumentaria os riscos? No artigo publicado na BBC, a médica Anna-Sofia Melin, do Instituto Karolinska, na Suécia, afirma que a endometriose pode se transformar em câncer devido a defeitos no sistema imunológico das mulheres. Outra hipótese considerada por Melin é:
“Talvez o tratamento da endometriose possa influenciar o desenvolvimento do câncer. Nós não sabemos ainda.” (“Maybe the treatment of endometriosis can influence cancer development. We do not know yet.”) (Veja).
Essa é uma afirmação corajosa e incomum, partindo de uma médica. Será que o tipo de tratamento que estamos fazendo está fortalecendo ou debilitando nosso sistema imunológico? Se está fortalecendo, você deve estar se sentindo melhor, com o organismo mais forte. É preciso olhar para o corpo e reconhecer os sinais. É preciso procurar bons tratamentos, bons médicos e fazer os exames corretos. Tomar as decisões necessárias.
Apesar de muito triste, o relato dessa mulher anônima fala a todas nós. Serve de um alerta. Não deve nos levar ao desespero nem à tristeza. Como disse, o índice de mulheres com câncer desenvolvido a partir da endometriose é pequeno. Por isso, com a mudança de estilo de vida, com um tratamento eficaz, podemos superar essa doença, ter qualidade de vida, tornar nosso organismo ainda mais forte, de modo que além de controlar/superar a endometriose sejamos capazes de evitar outras doenças, por conta da atenção e cuidado que temos com nós mesmas. A endometriose pode ser também um caminho para nos fortalecer ainda mais. De fato, com as mudanças que fiz por causa da endometriose, estou muito melhor. Sentia dores fortes, não sinto mais. A endometriose é profunda, mas os focos diminuíram de tamanho. Há mais vida em mim do que antes. Paradoxalmente, endometriose pode também significar isso – buscar vida, em sua plenitude.Veja como superei a endometriose:
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Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.
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Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

