22 de agosto de 2011
Navegar na internet pode nos levar a encontros surpreendentes. Inesperados. Ao procurar por outro assunto, vi um link no Google que chamou minha atenção: “Quixabeira contra câncer.” Encontrei uma história de encantos fortes. Encontrei-me com Maria Amélia, uma sertaneja articulada de 93 anos que enfrentou e venceu o câncer. Sua memória admirável, aliada à fala lúcida, é exemplo de superação. Não importa qual é a doença. Importam as lições que Maria Amélia, uma mulher inconformada, tirou de seus desafios. Sabedoria ímpar.
O ano era 1958. Havia perdido quatro crianças. Ela que carregara no ventre onze vidas agora puxava sozinha pela estrada de pó seco sete dos seus filhos. O marido acabara de morrer afogado em um açude. Onde a resistência se impunha também se multiplicavam dificuldades. Como se não bastassem as perdas recentes, em meio a desafios agigantados com seu calor agressivo, ela descobriu a doença, no útero. Compreendeu que não teria tréguas. Por isso, não deu tréguas na vida. Na capital, procurou um médico. Recebeu a sentença: viveria no máximo três meses. Voltou ao interior pernambucano, e procurou outro médico. Foi novamente encaminhada à Recife. Com memória prodigiosa, lembra o nome de cada médico, as idas e vindas, endereços, diagnósticos e tratamentos, indiferenças e cuidados recebidos. No leque de doutores, apenas um nome não foi revelado, a do médico que a dispensou para morrer. Maria Amélia rejeitou o destino traçado. Teimosamente, retraçou seu caminho.
Antes de partir para a capital para fazer o tratamento, Maria Amélia ouviu falar de um remédio crescido na caatinga, hoje ameaçado de extinção, a Quixabeira – planta usada para tratar doenças ginecológicas. Do ventre que saíra tantos filhos, agora exalava fedor doentio. Quem poderia sobreviver a isso? Maria Amélia fez mais do que meramente sobreviver.
Olhe: era uma doença triste, com dores insuportáveis, sangramentos. Eu colocava uma toalha entre as pernas e dali a meia hora essa toalha ficava completamente ensopada daquela secreção tipo salmoura. Eu fedia de ninguém aguentar. Eu era a pessoa que mais fedia nesse mundo, ninguém aguentava. Nada fedia mais do que eu! Com o uso da Quixabeira, essa secreção foi diminuindo e, quando eu cheguei ao hospital aqui no Recife, já era quase nada. Por isso que eu hoje digo que, além do tratamento na Clínica do Câncer, quem me curou foram a Quixabeira e a minha fé, a minha vontade de viver, minha necessidade de viver, pois eu tinha sete filhos pra criar.
A doença é triste, mas a mulher não. Quando chegou ao hospital, ficou na enfermaria, “com outras sete mulheres, todas com câncer, que viviam o tempo todo a chorar”. Na casa das sete mulheres, surgiu a Maria, mulher incomum, que não derramou lágrima. Intrigadas, as outras perguntavam: “’E a senhora não chora, não?’. Eu respondia: não, eu não vim aqui pra chorar, eu vim aqui procurar tratamento.”
Dona Maria Amélia explica, com detalhes, a forma como usou a Quixabeira. Mas sua história, além de demonstrar o poder da planta medicinal, é exemplo de busca arraigada por cura. Jamais se deixaria morrer, por isso procurou médicos, se submeteu aos exames, fez os tratamentos. Mas também não se deixou por completo nas mãos de outros, afastando de si a responsabilidade pela vida. Buscou ativamente a resposta para seu organismo. Pois a saúde não está patenteada, não tem dono único, não é privilégio de uma corporação.
Na história de Maria, há receita de vida longa ainda que no percurso do caminho tenha sido apedrejada pela doença, pela descrença de um médico, pelo lamento em coro das mulheres sem esperança e fé. A quase centenária tem irresistível vontade de viver. O repórter faz uma pergunta para nos dar o privilégio de ouvir a voz médica de Maria Amélia. “Da mesma forma que lhe ensinaram, a senhora chegou a recomendar o uso da Quixabeira a outras pessoas?” “Recomendei a muita gente. E, por muitos anos, nunca faltou Quixabeira lá em casa. Mas, hoje, parece que o povo não acredita muito nessas coisas, né?”
Quem ousa acreditar? As plantas medicinais trazem importantes respostas para a endometriose.
PS.: 1. Atualmente, a Universidade Federal de Pernambuco realiza pesquisas que comprovam as propriedades medicinais da Quixabeira.
2. Leia a interessante entrevista com Maria Amélia Batista Montenegro no site Pernambuco de A-Z.
3. Na sexta-feira (19/08/2011), o Diário Oficial da União publicou uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM). O conselho proíbe que os médicos veiculem informações publicamente “que causem intranquilidade à sociedade, mesmo que comprovadas cientificamente”. Também fica proibido “a apresentação, em público, de técnicas e métodos científicos que devem limitar-se ao ambiente médico”, além de diretrizes sobre a relação médico-imprensa. Lamento profundamente a mordaça a que os médicos estão submetidos. Espero que a sociedade reveja tais resoluções incompatíveis com as liberdades de uma sociedade da informação e da comunicação. Mas ao mesmo tempo, ao ler histórias como a de dona Amélia ou encontrar livre acesso a pesquisas científicas sobre o benefício de plantas medicinais, por exemplo, ou o malefício de tratamentos considerados seguros, comemoro imensamente a existência da internet. O caminho não é a censura, mas o investimento em campanhas e processos educativos para despertar e aprofundar nas pessoas a sua capacidade de avaliação, sempre aliada – mas não cegamente dependente – do saber médico. Que bom seria se tivéssemos uma resolução médica nesse sentido. Mas diante da resolução que temos, resta a certeza de que o CFM não tem poder de amordaçar a internet, nem a ciência e a divulgação científica, já que parece temer até mesmo o que é “comprovado cientificamente”. Para quem se interessou pela Quixabeira, há pesquisas científicas sobre os usos medicinais da planta no google acadêmico. Desejo a todos os leitores uma boa pesquisa e descobertas que celebrem a vida, aprofundem o desejo de autoconhecimento e de conhecimento científico, que nos levem à conquista da saúde e da liberdade. Pois, há mais coisas ameaçadas de extinção além da preciosa Quixabeira.



