segunda-feira, 28 de março de 2011

Remédio de Liláceas

28 de março de 2011
Para diminuir os focos de endometriose, também utilizo cebola e alho. Ambos pertencem à família das liláceas. O nome é delicado como nome de flor, o tempero é irresistível, mas o remédio de liláceas exige estômago e convicção.


Se há milhares de anos a gastronomia tempera com liláceas picantes, aos poucos a medicina tem reconhecido, além do valor nutricional dessa família de plantas, seu grande valor medicinal. Cebola e alho também são remédios. Temperos de cura. Receitas simples e fortes contra a endometriose.


Cientista de Milão, do Instituto Farmacológico Mario Negri, publicaram uma pesquisa afirmando que o consumo de sete ou mais porções de 80 gramas de cebola e alho por semana reduz significativamente o risco de desenvolver câncer de vários tipos, como câncer no intestino, mama e ovário. Mesmo quem consome menos cebola por semana (três cebolas), reduz em 56% a chance de ter câncer no ovário. Uma cebola por dia reduziu em 88% o risco de câncer na boca.


Além de anticancerígena, a cebola diminui o colesterol, reduz os riscos de infarto, ajuda a regular a pressão arterial, combate fungos, bactérias, é um poderoso antigripal, é anti-inflamatória, antiúlcera, combate a candidíase, é utilizada para reduzir os níveis do diabetes e usada no tratamento do lúpus. A cebola possui, em geral, cálcio, fósforo, magnésio, ferro, potássio, zinco, cobre, manganês, vitaminas do complexo B (B1 e B2) e vitamina C. Apresenta flavonóides e quercetina, entre outros componentes. Muitas dessas propriedades e nutrientes estão presentes no alho.


Sempre fui de afastar os pedaços de cebola do meu prato. Agora, com a finalidade medicamentosa, tomo suco de cebola com melão ou maçã (o melão é indicado para a saúde dos ovários). Já me acostumei. Também faço uso do alho. Para fazer efeito, é preciso usá-los crus, pois o cozimento elimina suas propriedades medicinais. São anti-inflamatórios, imunoestimulantes, anticâncer e, por isso, alho e cebola são antidores e antiendometriose.


Contra a endometriose, faço uso do suco de liláceas – palavra que reúne muitas espécies além da cebola e do alho com um incrível poder preventivo e curativo. Nas liláceas, há plantas com gliconutrientes.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Endometriose e fitoterapia




22/03/2011

Na semana passada, o jornal Folha de S. Paulo publicou um notícia muito interessante sobre tratamento fitoterápico para endometriose com a planta medicinal unha-de-gato. Fiz uso do chá por um bom tempo. Dois copos de chá de unha-de-gato de manhã, e dois copos à tarde de chá de uxi-amarelo. Cheguei a entrar em contato com um médico que utiliza com sucesso o composto para combater miomas. Mas ele me disse que não obtinha os mesmos resultados com a endometriose, e por isso receitava hormônios. Ainda assim, fiz a opção pelos chás.

No período em que utilizei os chás, os focos ficaram estabilizados. Mas após quase um ano de uso, eu já não conseguia tomá-los. Sentia-me terrivelmente mal. Assim, decidi procurar outras formas de tratamento. Agora, com o uso de gliconutrientes, que também são imunoestimulantes, a endometriose não só estabilizou como diminuiu significativamente. A lesões regrediram, diminuiram. A matéria da FSP fala sobre o uso de unha-de-gato em cápsulas. Achei os resultados bastante promissores. De fato, a unha-de-gato em cápsula é uma boa opção. Segue a matéria:


Fitoterápico melhora os sintomas da endometriose Em estudo controlado, remédio à base de "unha-de-gato" reduziu dor e lesões Agora, pesquisadores investigam a ação da planta e as doses ideais para tratar a doença, que causa infertilidade CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO Um fitoterápico à base de uma planta conhecida como "unha-de-gato" tem melhorado os sintomas da endometriose, doença que causa infertilidade feminina e dor nos períodos menstruais. Intrigados com o grande número de pacientes que tomam o remédio por conta própria e relatam melhora, pesquisadores começaram a testá-lo cientificamente.Os resultados do primeiro estudo controlado, feito pelas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do Maranhão (Ufma), em ratas, mostraram que a unha-de-gato conseguiu reduzir em 60% as lesões causadas pela endometriose.
Na doença, o tecido que reveste o útero (endométrio) sai fora dele e atinge outros órgãos da pelve, como intestinos e bexiga. Estima-se que 6 milhões de brasileiras sofram da doença.Agora, na fase clínica do estudo, o fitoterápico será dado a mulheres e comparado com placebo ou medicamentos hormonais usados no tratamento tradicional da doença. A hipótese é que a planta possua propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras (que melhoram o sistema imunológico). Antes mesmo dos resultados do estudo clínico, a unha-de-gato tem sido prescrita a pacientes da Unifesp que já usaram, sem sucesso, drogas hormonais ou para aquelas que não podem usar esse tipo de medicamento.
"Os relatos de melhora dos sintomas, principalmente da dor, surpreendem. Eu dei para a minha mulher tomar. Ela tem endometriose e a medicação hormonal não estava funcionando", diz Eduardo Schor, coordenador do ambulatório de endometriose e dor pélvica da Unifesp e um dos autores do estudo.Segundo ele, a unha-de-gato parece diminuir o processo inflamatório causado pela endometriose na região pélvica. Os pesquisadores ainda não sabem se a planta pode ser usada para ajudar mulheres com dificuldade para engravidar."Não não se sabe, por exemplo, se ela altera a espessura de endométrio ou dos mecanismos de ovulação", explica Schor.Também ainda deverá ser definida a dose ideal do fitoterápico para cada paciente.
No comércio, existem cápsulas de 150 mg, feitas a partir da casca da planta. O ginecologista Carlos Alberto Petta, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que, do ponto de vista conceitual, a unha-de-gato pode melhorar a dor de qualquer processo inflamatório."O problema é que, em se tratando de dor, o efeito placebo é muito grande. O ato de escutar essa mulher também melhora a dor."Para ele, só será possível dizer que a unha-de-gato funciona depois de testá-la em mais estudos.TERAPIA GÊNICA Uma outra linha de pesquisa desenvolvida na Unifesp aponta que há mutações genéticas envolvidas na endometriose. Uma delas, chamada de P27, foi descoberta pela equipe de Schor.A presença dessa mutação aumenta duas vezes as chances de a mulher ter a doença. "O P27 faz com que as células fiquem mais "nervosas" e proliferem mais do que o normal", diz Schor.
A partir dessas descobertas, o grupo trabalha no desenvolvimento de instrumentos de terapia gênica para tratar a endometriose."O uso de adenovírus [vírus modificados] carregando genes que restabelecem a normalidade genética já foi testado em cultura de células de endometriose e os resultados foram promissores", conta Schor.



Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.



                                          https://www.instagram.com/endometriose_tem_cura/

terça-feira, 15 de março de 2011

Exame para detecção de endometriose profunda



15/03/2011



Oi. Qual exame vc fez para constatar endometriose no intestino? Pela ultrassom abdominal dá pra saber? Obrigada pela atenção. Renata.
Por Anônimo em Vitória possível em 14/03/11

Renata, o exame é o ultrassom transvaginal com Doppler colorido para detecção de endometriose profunda. Não é o ultrassom transvaginal normal nem o abdominal. Um das diferenças, é que você deve fazer um preparo intestinal. No dia anterior ao exame, deve tomar laxante (recomendam Dulcolax). O almoço e a janta devem ser leves. Sem laticínios e gorduras. No dia do exame, pode até comer uma refeição leve. Eu prefiro ficar em jejum. Na clínica, é feita uma espécie de lavagem intestinal final.

Outra diferença importante: o médico deve ter especialização em detecção de endometriose profunda. Procurei na internet nomes de médicos especializados e encontrei esses que atendem no Estado de São Paulo: Maurício de Souza Arruda, Márcia Martos Amâncio Camargo, Manoel O. Gonçalves, Hélio Sebastião Amâncio Camargo Jr., Sandra Regina Campos Teixeira e Leandro Accardo de Mattos.


Se você souber de outros médicos, não deixe de me falar. Podemos publicar uma lista com nome de médicos com esse treinamento específico que atuem também em outros estados. Antes de descorir esse exame, eu passava por exames de ultrassom anuais. Nunca detectaram nada. Por isso, procure médicos especializados, treinados. Faça uma pesquisa de médicos e preços, pois os planos de saúde, em geral, não cobrem esse procedimento. O preço desse procedimento pode variar bastante, indo de 400 a quase mil reais. Podemos publicar uma lista, inclusive, com informações sobre preços e locais.

Esse exame também é oferecido em hospitais públicos como da Universidade de São Paulo (USP) e da Unesp de Botucatu. Se alguma leitora deste blog já fez o exame em um hospital público, mande-nos um e-mail para compartilhar sua experiência.

Sobre o exame de endometriose profunda, leia também o texto deste blog: A luta de Marli.
Seguem links com informações sobre o exame:

http://www.istoe.com.br/reportagens/2679_A+INIMIGA+SILENCIOSA+DA+FERTILIDADE

http://www.gineco.com.br/endometriose/diagnostico-endometriose.html

http://files.bvs.br/upload/S/0100-7254/2010/v38n7/a1525.pdf



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quarta-feira, 9 de março de 2011

Sem culpa


9 de março de 2011

O mundo é hiperestrogênico. Estrógeno provoca endometriose. Por isso, não quero carregar a culpa pela doença. Nem por meio da culpa, buscar a saúde. Rejeitar a culpa não é negar mudanças. Mudar é, sobretudo, decidir que a vida pode ser leve e feliz. Que a alimentação natural é fonte de prazer. “Tu não deves” passa a ser: “eu quero, porque quero. E ponto.” É um bater o pé para selar amizade – a autoamizade.

No último exame, pensei: fiz mudanças, mas também falhei tanto. Não amei as pessoas como deveria, não segui o conselho de Renato Russo – é preciso amar as pessoas... Quero o nome mais bonito pra mim, mas jamais será um nome santo. É preciso amar a si mesmo, como se não houvesse o amanhã – sem o peso do futuro, sem o peso do passado. Somos reais e falhos. Mas como é difícil aceitar isso.

Na sala de espera, fazia promessas: perdoar mais, amar mais, relevar mais. As horas foram passando. O médico das imagens atrasou, simplesmente, quase três horas. Normalmente, demora uma hora para começar a ultrassonografar meu abdômen. Naquele dia, teve uma urgência. Precisou atender a uma mulher com dor, devido à torção no ovário. Teve dificuldades em deslocar o sangue velho e preso sem que se perdesse o órgão ou espalhasse as células endometriais. Explicou-me depois.

A última hora de espera foi na maca, na penumbra, entre máquinas de alta tecnologia. Ali, reconheci que errei: não amei como se ama em Monte Castelo, de Russo – o roqueiro genial que buscou no capítulo 13 de I Coríntios, livro da Bíblia, a letra de sua música. Ainda que eu falasse a língua de homens e anjos, sem amor, eu nada seria... Sofri com a indiferença da minha família. E não perdoei por algum tempo. Ressenti-me com o sucesso profissional de uma amiga, porque lamentei por desejos meus não realizados... Ali, na sala do exame, disse-me, na retrospectiva de seis meses, que pesavam na consciência: errei, erros, não perdoei...

Sem internet ou revista em mãos, na posição de espera, esticada na maca, ainda não perdoava, ainda errava. A culpa é pesada, ela dói, arraiga-se e espalha-se, prejudicando-nos. Aos poucos, como diálogo em prece, no tempo de silêncio, repensei outras coisas... Primeiro, é preciso amar a mim mesma. Se errei, devo me amar. Se amo, não há culpas, nem me culpo, nem há culpados. O fogo da consciência pode estar presente, mas ele não arde. A ferida dói, no reconhecimento do erro, mas não se sente. A dor tem que desatinar sem doer. Depois da face agredida, é expor a outra ao perdão, sem estapiar-se, protegendo-me de mim mesma, para ser possível me proteger do mundo e também recebê-lo sem receios. Para ser possível estar só e inserida na multidão. Para protestar pelo erro, num contentamento descontente. Ressurgir como em Ressurreição, de Tolstói – o livro, de todos os livros, que me atravessou, intensamente.

Fechei os olhos, e sorri. Estava em paz. Pouco depois chegou o médico transtornado com a urgência que teve de atender. Pela primeira vez, eu pensava em me amar primeiro, sem o peso da autocrítica habitual. “Amar como a mim mesma”, Ele disse. O resultado do exame foi maravilhoso, pelos motivos que já contei no texto anterior. A endometriose diminuiu!

Mudar a vida – hábitos, alimentação, emoções – por causa da endometriose, mas mudar com prazer, para celebrar a vida pela vida, não movidos por culpa. Como disse Russo, é um estar-se preso por vontade. Nessa prisão libertadora da vida reescrita e musicalizada, com amor.

domingo, 6 de março de 2011

Vitória possível



Fiz o exame tão esperado. Depois de mudanças no meu estilo de vida, refiz o ultrassom para detecção da endometriose profunda. Havia dois focos preocupantes: um endometrioma com mais de 90 m3 de volume no ovário restante e um foco no intestino, com comprometimento da serosa ou invasão da submucosa. No primeiro caso, o aumento do endometioma significaria um risco considerável para o meu ovário esquerdo, já que há mais de dois anos perdi o direito, por causa da endometriose. Sobre a endometriose intestinal, o médico foi claro: eu precisaria passar por uma cirurgia para remoção de um segmento do intestino. O alto custo da cirurgia – à época, 30 mil reais – e os detalhes do procedimento cirúrgico me causaram angústia. Não tenho sintomas, não tenho dor, mas o médico alertou para o risco maior de cancerização em focos de endometriose intestinal se comparado à endometriose em outros órgãos (Há um artigo que fala sobre isso: “Endometriose intestinal: doença benigna? Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ramb/v55n5/29.pdf. O título é um tanto sugestivo. Embora haja mais casos, em números gerais, de cancerização de focos de endometriose no ovário; a chance de um foco de endometriose no intestino se malignizar é muito maior).

Pouco se fala sobre a transformação maligna da endometriose. Creio que essa seja uma preocupação dos médicos pesquisadores, principalmente. No entanto, como já disse, isso não deve ser motivo de ansiedade. O acesso a essa informação precisa se revestir de outro significado: mudança do estilo de vida. Para mim, confesso: foi um balde de água fria. Senti medo, ansiedade, preocupação. Mas passado o susto inicial, decidi buscar mudanças. O resultado chegou nesse exame.

O foco de endometriose intestinal tinha em torno de 2 cm de profundidade. Em termos médicos, destacava-se um espessamento da serosa que se estendia por aproximadamente 2 cm logo abaixo da lesão de retossigmóide. Agora, o foco de endometriose não está mais invadindo a submucosa. Isso é uma ótima notícia. Significa que, caso a cirurgia fosse feita hoje, no máximo seria retirado o foco superficial e não mais um segmento do intestino. Quanto ao ovário, o volume do endometrioma diminui de mais de 90 m3 para 49 m3. Em medidas, no total, perdi quase 7 cm de endometriose, tendo em vista a diminuição de focos na região retrocervical (o maior media 2,4 cm e agora mede milímetros).

Sim, é a alimentação, são os exercícios físicos. É a busca do controle das emoções e o cultivo da fé, a confiança em Deus. Mas a fé não é algo místico, mágico, inculto. A fé precisa ter forte base racional, em respeito às leis da natureza, em conexão à verdadeira ciência. Tenho lido livros de medicina, artigos científicos, relatos que comprovam, estatisticamente, os benefícios da mudança do estilo de vida. Qualquer um que buscar essas mudanças, tendo fé ou não, vai sentir melhoras significativas. Foram mais de dois anos de luta, e agora essa notícia maravilhosa!

Sobre a alimentação, algo fez muita diferença: os gliconutrientes. Li a história do neurocirurgião norte-americano Ben Carson, um médico cristão, premiado internacionalmente por revolucionar a medicina em sua especialidade. Atualmente, ele é diretor do Departamento de Neurocirugia Pediátrica do Hospital Johns Hopkins (Há um filme muito bem produzido sobre sua história, com Cuba Gooding Jr.: “Mãos Talentosas.” Pode ser encontrado em locadoras). No livro “Take the Risk”, ainda não publicado no Brasil, Ben Carson conta que enfrentou, e venceu, o câncer por duas vezes. Além dos tratamentos usuais, ele fez uso de gliconutrientes. Disse que em uma semana de uso, os sintomas do câncer na próstata haviam desaparecido. O livro não é um compêndio médico sobre gliconutrientes, mas a reunião de relatos incríveis sobre um médico pouco conhecido no Brasil que tem uma história de vida extraordinária (Assistam ao filme! Leiam o livro: http://www.amazon.com/Take-Risk-Learning-Identify-Acceptable/dp/0310259738). A partir dessa leitura, pesquisei muito sobre gliconutrientes. Eles estão presentes em vários alimentos. Fiz uso deles, e a melhora foi incrível.

Neste sábado, dia 5 de março de 2011, depois de dois anos e sete meses de pesquisas, mudanças e confiança em Deus, posso dizer: tenho endometriose profunda, não tenho dor e a endometriose diminuiu consideravelmente. Nesse caso, estar curada depende, a cada momento, de vigilância constante. Não existe pílula mágica, o caminho é difícil, mas o resultado compensa: sim, a cura da endometriose é possível. Acredite.

PS.: Embora se autointitule Diário da Endometriose, esse blog não é atualizado com frequência. Mas vou colocar detalhes de como tem sido minha alimentação e meu estilo de vida. Não será com a atualização que gostaria, e por isso peço desculpas a quem lê. Mas farei o possível.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Uma mulher de 34 anos, como eu



Escrevi que a médica Jan Caravaglia nos convida a amar a vida. Pode parecer um conselho a la Poliana, afinal de contas, ela recebeu dois diagnósticos de câncer, mas não era câncer. Com os ovários doentes, tentou engravidar por anos seguidos. Demorou oito anos, mas conseguiu. O primeiro casamento não deu certo e terminou em divórcio, mas ela se casou novamente, formou outra família. Sua profissão é um tanto assustadora para a maioria das pessoas, mas ela é uma médica conceituada, escritora, profissional bem remunerada. E se teve endometriose, venceu e realizou sonhos. Assim, parece fácil dizer: ame a vida, seja grato, compartilhe as boas coisas, sorria, busque a paz.

Não, o mundo não é maravilhoso. Para alguns, ele parece ser mais fácil do que para outros. Mas sua imprevisibilidade faz com que todos nós, de alguma forma, tenhamos a porta da vida arrombada com dor, sequência de dores, pelo que é triste. Acontece sempre com intensidades variáveis e desfechos diferenciados – um continuum. Aconteceu comigo, e é difícil manter o verbo no passado quando se tem endometriose. A endometriose é para muitas mulheres um continuum. Adere aos dias, espalhando-se por anos, comprometendo sonhos, reeditando o corpo num total insolúvel quando órgãos, colando-se entre si, perdem-se na capacidade de resistência. Aderências redefinindo os traços internos – os órgãos juntam-se, funcionam em meio a focos de sangue, os órgãos falham e, às vezes, se fazem ausentes.

Como aceitar o lócus de sangue, ainda tão deficientemente entendido pela medicina, que incontrolavelmente luta por territórios – o território que somos nós, cada peça viva e interna que nos compõe e deveria nos pertencer, sem concessões? Chorar pelos nossos órgãos é legítimo, mas não é tudo que nos resta. Pode-se lutar, ainda, junto deles e vencer. Sim, acredito. E agora, além de crer, eu sei. Igualmente, pode-se também reviver após perder alguns deles ou todos eles que nos dariam filhos.

A você, minha querida, de 34 anos, como eu, a minha tristeza por aquilo que se perdeu na batalha dolorida contra a endometriose. Sinto muito. Li a mensagem que me enviou, e sua dor faz parte de mim também. Você escreveu:

Fiz uma salpingo-ooforectomia bilateral, devido à endometriose severa, em 8/2/11. Tinha dor incapacitante, vários endometriomas, meus ovários estavam completamente comprometidos. Estou tendo problemas de aceitação, pois sou nuligesta e tenho apenas 34 anos...

Se ler esse texto, saiba que você está nas minhas orações, coloque-me nas suas também. Sou apenas uma mulher de 34 anos, nuligesta, que há dois anos perdeu o ovário direito, mas mantém um deles, ainda que unido a um endometrioma contra o qual tenho lutado. Não somos iguais na dor. No plano humano, não há igualdade na dor.

Gostaria de lhe dedicar uma flor em forma de música. Está no site da musicista Ana Caram: http://www.anacaram.com.br/. Clique em Discografia, depois no segundo álbum, o CD Pura Luz. Encontre a música 10, ouça. Ele está com você.


PS.: Escrevi sobre a relação entre reposição hormonal e câncer – texto para o qual você enviou sua mensagem. Não precisa ser assim. Há um caminho para vencer essa associação. Recomendo a leitura do livro de David Servan-Chreiber, “Anticâncer” (Editora Fontanar, 2008). É mais do que um livro sobre câncer, é um livro para a vida, escrito por um rapaz que aos 30 anos venceu um câncer no cérebro e, após quase uma década, a despeito de tudo que se perdeu, venceu um segundo câncer. Muitas perdas, mas um desfecho transformador.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Leitura de férias: ela teve endometriose?



Estamos no litoral, eu e meu marido. Na metade dos dez dias de férias. Do quarto do hotel, vejo o mar. Toda a extensão da orla. São 5h horas da manhã e o Sol já brilha, mas ainda há luzes nas casas e hotéis que circundam a via costeira.

Para fugir do Sol forte, temos nos refugiado nos shoppings. Mais precisamente nas livrarias. Enfurnados entre livros, numa megastore, com algumas poltronas dispersas, poderíamos estar em qualquer lugar, em São Paulo ou no Nordeste. Mas com livro em mãos, as férias se deslocam de maneira imprevista. Não há paredes, nem lugar fixo. O livro é contrafluxo para o não-lugar, para o não-cotidiano, para as férias sem destino único.

Encontrei dois livros, escritos por dois médicos. O primeiro, apesar do título apelativo – “Como não morrer” –, contém lições impressionantes da morte para a preservação da vida. Para quem lida bem com cenas médicas – e isso inclui alguns termos técnicos da necropsia, além das cores e cheiros impregnados a essa atividade médica que ameaçam pular do papel para o imaginário do leitor –, esse livro vale à pena, do começo ao fim. Sua autora, a médica Jan Caravaglia, dirige um serviço de Medicina Legal nos Estados Unidos.

Apesar dos pesares – a necropsia ou autópsia é um tema pesado –, na escrita há delicadeza, respeito, inteligência e informações estratégicas. Ao descrever mortes e seus enigmas, Caravaglia faz um alerta central: muitos morrem por causas evitáveis. Em cada capítulo há relatos de vidas que se perderam – um rapaz, uma moça, um menino de dez anos, uma mãe de dois filhos, um mulher sozinha.... De maneira temática e interessante, ela enumera e comenta com estatísticas, dicas e informações-chave, as principais causas de mortes que podem, na maioria das vezes, ser evitadas: cigarro, obesidade, depressão, álcool, irresponsabilidades no trânsito, erros médicos, drogas. Ao falar sobre erros médicos, ressalta a importância da medicina – não tenha medo dos médicos, faça consultas e exames periódicos. Mas dá dicas de como escolher o seu médico, quais os cuidados que se deve ter ao fazer uma cirurgia, como escolher um hospital etc.

Por exemplo, ela informa: depois de um procedimento cirúrgico, seja ele qual for, o paciente está sujeito à pneumonia. Por isso, deve fazer exercícios respiratórios específicos. Há, inclusive, um aparelho indicado: o espirômetro. Após ter sido submetida a uma cirurgia de urgência para a retirada de meu ovário direito, devido à endometriose, tive início de pneumonia. Foi um mês de muito sofrimento e limitações. O antibiótico não fazia efeito. Foi pior do que a cirurgia em si. Mas nem antes, nem depois, um médico me disse sobre a importância de exercícios respiratórios. Se limitaram a aconselhar vagamente que eu caminhasse um pouco para ativar a circulação.

O livro oferece dicas valiosas que, em geral, não são passadas pelos médicos. E, por fim, deixa lições de otimismo: ame a vida, seja grato, compartilhe as boas coisas, sorria, busque a paz. As dicas se revestem de importância maior devido a história pessoal da médica. Por duas vezes, ela recebeu um falso diagnóstico de câncer. Em uma delas, estava com os dois ovários aumentados. O médico suspeitou de câncer. Ela teve de ser submetida a uma cirurgia. Era causa benigna. Para completar, ela não conseguia ficar grávida. Mas após oito anos, teve seu filho.

Caravaglia não fala qual é a doença que acometeu seus ovários. Provavelmente, se falasse, só isso daria uma história que muitas de nós conhecemos. Meu marido disse que pela descrição que ela faz, o problema era endometriose. Se era, ela venceu a doença. Com certeza, sua personalidade e modo de encarar a vida fizeram toda a diferença.

Esse livro nos faz o convite para uma vida melhor por meio de um caminho estranho. Nele, a morte é chave de redenção.

Acesse:
http://www.avidadejesus.blogspot.com
http://www.dezmandamentos.blogspot.com

domingo, 30 de janeiro de 2011

Sol e endometriose




Na próxima semana, farei uma viagem de férias com meu marido. Vamos curtir a praia. Como trabalhamos em escritório o ano todo, estamos bem animados com a viagem. Pretendemos acordar cedo para acompanhar com os pés nas águas o nascer do Sol. Sim, seja bem-vindo o Sol. Acredite, ele pode revolucionar seu organismo. A luz solar também pode ajudar a combater a endometriose.

Até o ano passado, eu não desconfiava dessa relação. Mas as coisas começaram a mudar a partir de uma consulta com um médico pesquisador. O ginecologista fez um pedido de exame diferente. Além da dosagem de CA125 e de outros exames habituais, solicitou a dosagem de vitamina D – “a vitamina do Sol”. Quando o resultado chegou, uma surpresa: eu estava com carência da vitamina. Índice baixo: 15 ng/ml.

Além de estar relacionada com a endometriose, a carência de vitamina D tem relação com doenças autoimunes, artrite, esclerose múltipla, câncer, infertilidade, ovários policísticos, alterações hormonais, enxaqueca, fibromialgia, depressão, doenças na tireóide, psoríase, lúpus, diabetes do tipo 1, Alzheimer e osteoporose. Apesar da lista extensa, a associação entre hipovitaminose e doenças graves não é comum. Mas felizmente há médicos atentos a isso. O médico Cícero Galli Coimbra, professor livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apresenta a vitamina D como uma solução para doenças autoimunitárias e neurodegenerativas.

O engenheiro ambiental, Marco Palma, chegou ao consultório do Dr. Cícero com paralisia facial, formigamento de membros e alteração da sensibilidade do abdômen. O diagnóstico: esclerose múltipla. Apesar de ser surfista e jovem, ele estava com carência de vitamina D. Há pessoas que mesmo se expondo ao Sol apresentam a deficiência da vitamina. Após ser tratado com a dose correta da vitamina, Marco venceu a esclerose múltipla. Em outros pacientes, as doenças autoimunes também regrediram. Se há uma solução tão simples para uma doença complexa, por que poucos sabem disso? Para o Dr. Cícero, “a falta de informação sobre o assunto começa pelo ambiente acadêmico e culmina na pressão mercadológica que a indústria farmacêutica exerce sobre a sociedade” (Leia o artigo, vale à pena: http://www.medicando.com.br/destaques-medicando/imprimir.php?id_conteudo=224).

Para enfrentar a endometriose, não deixe de dosar sua vitamina D. Se estiver com carência, procure fazer a reposição corretamente. A endometriose é considerada por pesquisadores uma doença autoimune. Além disso, mulheres com endometriose podem apresentar, com o tempo, outras doenças autoimunes correlacionadas, como lúpus, artrite, tireoidites (Em outro post, quero contar minha experiência sobre isso). Por isso, é preciso estar alerta. O uso da vitamina D exerce papel fundamental para evitar esse quadro. De acordo com o médico Alexandre Feldman, para fazer o exame correto, solicite ao seu médico um pedido de dosagem de 25-hidróxi-vitamina D no sangue (Leia o artigo de Feldman em:
http://www.enxaqueca.com.br/blog/?p=85).

Tenho me exposto ao Sol pelo menos 20 minutos todos os dias antes das 9h, conforme recomendação médica. O Dr. Cícero recomenda no mínimo dez minutos diariamente com 90% do corpo exposto sem filtro solar. O Sol esse grande vilão (no horário inadequado) é, sim, uma força necessária para a vida. E na luta contra a endometriose, um aliado importante e indispensável.


Acesse:
http://www.avidadejesus.blogspot.com

sábado, 2 de outubro de 2010


O olhar endo

A chave para vencer a endometriose está no fortalecimento do sistema imunológico. Como podemos saber se essa afirmação é, de fato, correta? Pessoalmente, escolhi uma maneira de tirar a prova. Consiste em, diariamente, fortalecer meu sistema imunológico, minhas células de defesa – os linfócitos. Sim, funciona. Como disse, não tenho dores. A endo continua sob controle.

Mas a ciência não se contenta com o depoimento de uma mulher. Nem se baseia em conclusões apressadas. Para saber se algo cura ou não, se controla ou apenas simula controle, são necessários anos de estudo, na aplicação de metodologias diversificadas. De entrevistas à revisão de literatura, de testes laboratoriais a abordagens comparativas, a ciência busca, ou deveria buscar, o fato científico. No que diz respeito à endometriose, a ciência busca o fato científico – descobrir quais são as causas da doença para indicar, com precisão, os tratamentos –, tendo em vista o bem-estar da mulher. As causas da endometriose ainda são um mistério. Os médicos lidam com hipóteses.

Eu sou minha pesquisa. Ser meu próprio laboratório – meu corpo diante de meus experimentos –, me conduz a respostas interessantes. Leio sobre o funcionamento do organismo, sobre pesquisas; faço mudanças e tiro conclusões. Conhecer-se é a melhor de todas as medicinas. Precisamos ser confiantes nos avanços da ciência – confiança imprescindível de se ter! –, mas conhecer o próprio corpo é fundamental. Saber quem somos é mais do que dimensionar emoções, sentir alegrias, elevar uma prece ou prever aquilo que nos magoa.

A sabedoria da vida inclui o saber do físico, o olhar endo – prefixo grego que significa “dentro”. Devemos nos compreender fisicamente, entender a fisiologia, encantar-se com o funcionamento dos órgãos – essa delicada maquinaria com toques e razões divinas que nos compõe. Para ajudar nesse exercício do olhar atento à dinâmica fina e complexa que se desenrola ininterruptamente abaixo de nossa pele, são úteis e instrutivos os ensinamentos da medicina e da ciência.

Olhei para a ciência hoje. E encontrei algo interessante. Fiquei sabendo que a Associação de Endometriose (The Endometriosis Association), nos Estados Unidos (
http://www.endometriosisassn.org/index.html), descobriu um fato surpreendente. Quando tratavam as mulheres com candidíase (Candida albicans), os sintomas da endometriose também diminuíam significativamente. A candidíase é causada por fungos que provocam infecções na vagina (coceira, corrimento branco etc) e em outras partes do corpo, quando o sistema imunológico está debilitado. Ao buscar a fórmula para combater a candidíase no fortalecimento do sistema imune, a conclusão adicional a que se chegou foi simples: linfócitos fortes, endometriose fraca. O contrário também é verdadeiro.

A afirmação de que nossos defensores – os chamados “soldados” do corpo, os linfócitos –, quando fortalecidos e equilibrados, combatem a endometriose com eficiência não é bem uma novidade. Na década de 1980, uma escritora norte-americana chamada Laura Stevens, que também sofria com a endometriose e a candidíase, passou a noticiar essa importante descoberta da The Endometriosis Association, relatada acima. No próximo post vou falar mais sobre a candidíase, o sistema imunológico e a endometriose. A missão de Laura Stevens é a de todas nós: buscar e levar informações, numa rede ampla e efetiva. E nessa tessitura de saberes-endo, o olhar-se continua sendo uma das ligações mais essenciais na intrincada e irresistível rede da vida.

Acesse:
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sábado, 25 de setembro de 2010

À Daniela




Ao não me identificar, preservo minha privacidade, mas também deixo de ganhar muitas coisas, entre elas, diálogos. Não tenho nome, nem profissão, nem idade ou vida a mais, mesmo que insira algumas de minhas vivências no digital. Para alguns, sou apenas uma mulher com endometriose profunda. E deixo de conhecer pessoas, suas experiências, compartilhar vitórias e sair do monólogo. A interatividade se dá silenciosamente, sem que eu tenha muitas pistas dela.

Precisa ser assim, por causa de meu tempo e atividades. Mas depois de quase dois anos de blog, e atualizações vagarosas – em oposição direta à velocidade da vida –, recebi um comentário. O primeiro. De alguém que se chama Daniela. Li o comentário bem escrito, objetivo, com afetividade e expressando algo que não tinha certeza se eu estava realmente fazendo, apesar de ser um objetivo que espero cumprir – compartilhar otimismo. Para encerrar, ela fez uma pergunta e um pedido.

Daniela, peço desculpas por não atualizar o blog. Além da correria, não tinha a noção exata do alcance daquilo que escrevo. Seu e-mail me fez perceber que, sim, posso ajudar ao compartilhar experiências. A ausência de trocas acaba por desfazer essa dimensão. Você perguntou como está meu tratamento. Como registrei no blog, há pouco mais de dois anos, descobri a endometriose de uma maneira bastante traumática, ao receber um falso diagnóstico de câncer e ser submetida a uma cirurgia de urgência para retirada de meu ovário direito – uma cesárea sem filhos. Muita coisa mudou depois disso.

Para combater a endometriose mudei meu estilo de vida em muitos aspectos. Alterei hábitos alimentares, comecei a fazer exercícios físicos com mais frequência, fiz exames para detectar carências vitamínicas (algo muito importante para enfrentar a endo). E sei que há muito que mudar. É um processo, uma caminhada de ganhos e perdas. No ano passado, após constatar que o CA 125 II passou de 130 para menos de 30 U/ml, certamente decorrente da mudança de estilo de vida, tive uma recaída. Estava com problemas no trabalho, enfrentei um período de intenso stress, e, pela primeira vez, senti o que a maioria das mulheres com endometriose sente – uma dor muito forte. Dor incapacitante. Naquele momento de minha vida, além do stress, acabei me descuidando dos exercícios físicos e deixei de considerar a alimentação. Comi livremente, inclusive doces. Percebi, assim, que o estilo de vida e as emoções estão em correspondência direta com a dor. Mudei de emprego, desacelerei um pouco, me refiz física e emocionalmente. Nunca mais tive dor.

Agora estou com a endometriose sob controle. Não sinto dor alguma, embora tenha endometriose no intestino e outros focos que foram detectados em 2008. Também não tenho alterações intestinais. Meu único sintoma é o inchaço abdominal, que às vezes diminui, outras vezes aumenta, principalmente em função do ritmo de vida. Então, eu posso dizer com toda a certeza e a partir do que tenho lido e experimentado: sim, você pode controlar a endometriose com o estilo de vida. Isso é real, mas não é simples. Tem a ver com alimentação, nutrição, exercícios físicos diários para suar a camisa e eliminar toxinas, tomar sol (é preciso manter adequados os índices de vitamina D. Eu estava com carência dessa vitamina), controle das emoções.

Eu e meu marido estamos conversando sobre a decisão de ter um filho. Nunca tentamos. Será possível ter um filho? Independentemente de ser mãe ou não, também quero poder dizer: a endometriose não apenas está sob controle, mas regrediu. Acho isso possível. Também acho possível a gravidez. Mas, por enquanto, eu só posso falar: está sob controle e não tenho dor. É pouco, e também é muito. Sou grata.

Daniela, obrigada por escrever. Quero compartilhar de maneira mais detalhada o que tenho feito. Vou tentar atualizar o blog com mais frequência. Boa sorte para você, para todas nós.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Ela superou a endometriose




Para quem ainda tem dúvidas sobre o poder da alimentação saudável e dos exercícios no controle e superação da endometriose, veja a experiência relatada no artigo “Entre os exames e os pacientes”, publicado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) (http://www.fm.usp.br/tutores/bom/bompt10.php):

“A Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), segundo seu presidente, o cirurgião Guido Corrêa de Araújo, procura atualmente conscientizar professores e alunos das escolas médicas a voltarem a realizar uma medicina mais humana, que valoriza o contato do médico com o paciente. Afinal, como diz Atta, ‘o principal meio de diagnóstico é a entrevista com o paciente, que pode fornecer mais respostas do que qualquer exame laboratorial e, além disso, vai dizer ao médico quais exames ele deve pedir’.

Foi o que percebeu a artista plástica Mônica Cristina Pereira de Souza, 47, em 1998. Desde os 18 anos, quando identificou uma endometriose (doença na membrana que reveste o útero), ela já havia passado por diversos médicos, retirado o ovário direito, parte do esquerdo, passou por internação na UTI, fez dezenas de exames, mas continuava sofrendo com hemorragias constantes.

Há quase seis anos, depois de quase 30 anos sem resolver o problema, ela resolveu procurar um novo profissional. Na primeira consulta, Mônica levou todos os exames que havia feito. ‘Não quero ver nada disso’, disse o médico, que passou duas horas com ela, fazendo perguntas e respondendo a outras.

‘Só depois de ter vasculhado a minha vida, ele quis ver os exames. Desde então, não tenho nada. E o que o médico me receitou? Nada que outros não poderiam: dieta equilibrada e exercícios físicos. Aprendi que nem sempre a objetividade da ciência resolve os nossos problemas’, acredita.”

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Caminhos da superação


No texto “Açúcar e endometriose”, falei de David Servan-Schreiber. Ele teve câncer com 31 anos. Venceu a doença. Anos depois, o câncer voltou. Foi quando a Veja o entrevistou. O médico falou da importância da alimentação para a sobrevivência e do potencial agressivo da alimentação errada para o crescimento do câncer.

Hoje, ao telefone, ao explicar para minha mãe que tenho endometriose no intestino, ela comentou sobre David Servan-Schreiber. Eu falava de uma pesquisa, de números. De um total de 1.600 mulheres com endometriose, apenas 85 foram diagnosticada com endometriose no intestino. E que embora a estatística da malignização seja baixa; no que se refere à endometriose no intestino, as constatações científicas não são animadoras. Então, minha mãe falou do médico.

Servan-Schreiber venceu o câncer novamente. Ele revela o segredo. Acreditar na Medicina, que salva vidas, e fortalecer o organismo com novos hábitos, novo jeito de ser e de pensar. Em entrevista ao Globo Repórter, em relação ao açúcar e à gordura, o médico alerta: “agem como fermento para as células cancerosas. Justamente aqueles alimentos que são tão saborosos, tão difíceis de resistir. [...] As sobremesas, por exemplo, devem ser substituídas por frutas.” Não há nada, absolutamente nada, de bom no açúcar. É caloria vazia, e perigosa – açúcar é alimento de câncer.

O médico fala também algo tão necessário, que preciso aprender e reaprender:

“O que ele recomenda é que cada um fortaleça o seu corpo para estimular a sua capacidade de resistir à doença. É uma luta diária, que deve fazer parte da nossa rotina. É uma mudança que passa também pela maneira de ver a vida. Fortalecer as relações de amizade, os laços de família. Não guardar ressentimentos. Se livrar da tristeza, do medo, da solidão. Fazer exercícios diariamente.”

Para quem deseja assistir ao vídeo, este é o link:
http://www.youtube.com/watch?v=Ng4_0v1j8Iw

Para ler a reportagem, o link é:
http://g1.globo.com/globoreporter/0,,MUL1176207-16619,00-OS+SEGREDOS+DE+SAUDE+DOS+VINHOS+DA+BORGONHA.html

domingo, 17 de janeiro de 2010

Endometriose, câncer e reposição hormonal




Acesse neste blog: Qual é o melhor remédio para endometriose?

A endometriose é considerada uma doença benigna. Sim, ela é benigna, na maioria das vezes. Mas existe uma porcentagem de casos em que há transformação maligna. Isso significa que a endometriose pode, sim, se transformar em câncer.

De acordo com pesquisadores japoneses, em um estudo intitulado Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon, a transformação maligna da endometriose ocorre em cerca de 1% dos casos, na maioria das vezes no ovário (78,7%). Já 5% dos casos estão relacionados à endometriose intestinal. Se a estatísticas estão corretas, a transformação maligna é remota. Entre 100 pacientes com endometriose, ocorre câncer em uma. No artigo, está escrito “ocorre câncer”. E não, “pode ocorrer”. Parece que necessariamente 1% das mulheres são atingidas. Veja a frase em inglês: “Malignant transformation of endometriosis occurs in 0.7–1% of patients with endometriosis, with 78.7% of the cases occurring in the ovary” (grifo meu). Em mil pacientes, dez terão câncer.

Provavelmente, pela estatística acima, oito terão no ovário e uma tem a probabilidade de ter no intestino. Cálculos matemáticos óbvios. Os autores chegam a conclusão dos 1% com base em outro estudo conduzido em 1990 por Heaps e Nieberg (Heaps JM, Nieberg RK, Berek JS. Malignant neoplasms arising in endometriosis. Obstet Gynecol 1990;75:1023–8). Portanto, a estatística do 1% é de 1990. Esse índice se mantém? Talvez sim. Além da dor, da infertilidade, do inchaço abdominal e outros sintomas, por que adicionar mais uma preocupação? A pior de todas as preocupações? A palavra câncer é assustadora. Não li relatos que oferecem detalhes sobre o câncer proveniente da endometriose. Não sei como avança, qual é o prognóstico. De qualquer forma, simples não é. Não podemos deixar de considerar a seriedade da doença e suas implicações, sem perder o compromisso com o otimismo.

Escrevo sobre esse tema para alertar sobre uma informação que considerei muito relevante. Nas mulheres em que a endometriose se transformou em câncer havia relação direta com reposição hormonal. Veja o que a pesquisa diz: Hyperestrogenism has been implicated as a risk factor for the development of cancer from endometriosis. The patient had been receiving high-dose unopposed estrogens for 14 years after a total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy [...]It is important to recognize the possibility of tumors arising from endometriosis when evaluating intestinal […]even in the patient who has previously undergone total abdominal hysterectomy and bilateral salpingo-oophorectomy, particularly if the patient has a history of endometriosis and has received hormone replacement therapy. (Tradução: "O hiperestrogenismo tem sido relacionado como um fator de risco para o desenvolvimento do câncer da endometriose. A paciente havia recebido alta dose de estrógenos durante 14 anos após uma histerectomia total abdominal e salpingo-ooforectomia bilateral [...]. É importante reconhecer a possibilidade de tumores resultantes da endometriose intestinal [...] mesmo em pacientes que já se submeteram a histerectomia total e salpingo-ooforectomia bilateral, particularmente se o paciente tem uma história de endometriose e tem recebido a terapia de reposição hormonal."

Estatisticamente, a possibilidade de ter câncer é mínima. Mas como o artigo diz é importante ver a relação entre transformação maligna da endometriose e reposição hormonal. Esse artigo não é único. Há outras pesquisas que apontam para essa relação. Para quem deseja conversar com seu médico sobre o assunto, aqui está o link do artigo: http://jjco.oxfordjournals.org/cgi/reprint/35/3/154.pdf (Endometrioid Adenocarcinoma Arising from Endometriosis of the Mesenterium of the Sigmoid Colon). Glossário: Hiperestrogenismo: excesso de estrógeno, que pode ser provocado por reposição hormonal. Histerectomia: cirurgia para retirada do útero. Ooforectomia: retirada do ovário.



sábado, 24 de outubro de 2009

Açúcar e endometriose


Estive afastada por um bom tempo do blog. A vida está corrida. Por isso, deixei o blog, e também a trilha da vida saudável. Em agosto, depois de quase um ano sem comer açúcar, comi novamente. E muito. Resultado: pela primeira vez, senti dores horríveis no primeiro dia de menstruação. Jamais tive dor. Em setembro, após melhorar um pouco meu estilo de vida, não tive dor alguma.

Parei de comer açúcar novamente. Nada de chocolate ou sobremesas. Em setembro, a revista Veja publicou uma matéria sobre os perigos do açúcar, associando-o ao câncer (
Edição 2131 / 23 de setembro de 2009). O açúcar é um dos principais alimentos do câncer. Eu sabia há muito tempo disso. Li livros de Ellen G. White, uma escritora norte-americana que no século 19 e início do século 20 escreveu contra o açúcar, entre uma variedade de temas (Conselhos sobre Regime Alimentar. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira). Mas saber é uma coisa. Praticar é outra.

Hoje, li um artigo que associa a endometriose ao açúcar. Na ausência do açúcar, é possível vencer a endometriose. Na ausência do açúcar, pode nascer um filho. Em 31 de março de 2005, o jornal FSP publicou no caderno Equilíbrio a história de Márcia do Carmo Flores, 32, portadora de uma endometriose grave. Ao longo de oito anos, ela tentou vários tratamentos com altas dosagens de hormônios, cirurgias, inseminação artificial e fertilização in vitro. Queria ter um filho. Mas nada funcionava. Até que um médico suspendeu todos os medicamentos e deu orientações nutricionais, e de estilo de vida.

Márcia conta: “Eu nunca tinha feito nada disso e estava com ‘os dois pés atrás’. Ele cortou o açúcar e a gordura, receitou arroz integral, iogurte natural e coalhada” (
Para assinantes). Em seis meses, ficou grávida. Em minha experiência de quase um ano sem açúcar, posso dizer: não senti dor alguma. Em um mês de muito açúcar, tive uma crise de dor que até aquele momento jamais havia sentido.

O psiquiatra francês David Servan-Schreiber, professor da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que foi curado de um câncer mas não mudou seu estilo de vida, afirmou após o diagnóstico de um segundo câncer:

“A alimentação é um elemento-chave na luta contra o câncer – o mais essencial deles, na minha opinião. Pode-se atribuir à dieta a razão principal para a expansão da doença. Nos últimos cinqüenta anos, houve três mudanças muito significativas em nossa alimentação: o aumento do consumo de açúcar refinado, a utilização de produtos químicos na fabricação dos alimentos, como corantes e conservantes, e a mudança do padrão alimentar de animais como vacas e frangos. O consumo de açúcar refinado, que em 1830 era de 5 quilos por pessoa, no ano 2000 chegou a inacreditáveis 70 quilos per capita. Atualmente, os ovos têm vinte vezes mais ômega-6 do que nos anos 70. Em excesso, esse tipo de gordura, usado na ração das aves, facilita o acúmulo exagerado de células adiposas” (http://veja.abril.com.br/160708/p_143.shtml).

Sei que a endometriose não é câncer, mas há semelhanças. É um tumor benigno que também se alimenta de açúcar. O que é mais fácil: tomar hormônios ou largar o açúcar? Foi muito difícil parar de comer chocolates. Minha alimentação era a base de doces. Mas convicta de que o açúcar representa um risco enorme à saúde, tomei minha decisão. Posso afirmar com toda certeza, estou melhor.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Os oito remédios




No dia 30 de dezembro de 2008 chegou o resultado do exame para medir o CA 125 II. Antes da cirurgia, eu estava com mais de 130 U/mL. Após a cirurgia, caiu para 80 U/mL – ainda muito alto. Decidi fazer uma reforma completa nos meus hábitos, na minha vida, como já disse. O primeiro resultado dessa mudança chegou agora: 29 U/ml para o CA 125 II, cujo valor de referência é até 32 U/mL. Ainda está alto, mas dentro do valor máximo. Como fiquei feliz!

Tenho dúvidas, que vou expor ao médico na próxima consulta. Pergunto-me: isso significa que a endometriose está menos agressiva? Li em um artigo científico que mulheres com endometriose podem ter o CA 125 baixo. Ele não é um exame definitivo. É comum que esteja acima de 100 U/mL, em casos mais avançados. E, no meu caso, como deu muito alto e foi baixando gradativamente, creio que esse último valor indique que a endometriose, se não retrocedeu, ao menos não avançou. Ótima notícia, que confirmarei em fevereiro ou março quando devo fazer um novo exame de ultrassom.

Estou, de fato, me sentindo melhor. Não tenho dores, a barriga tem inchado menos, embora ainda apresente inchaço. Creio que o motivo para estar melhor foi minha decisão de mudança. Que mudança? Qual é o segredo? Pensei em repartir meu segredo quando, de fato, fizer o ultrassom e tiver a confirmação de que não houve avanço da endometriose. Mas o que tenho feito já está me ajudando tanto que desejo contar.

Após a cirurgia, adotei oito remédios. São eles: alimentação saudável, exercício físico, água, luz do sol, ar puro, descanso, eliminação de substâncias nocivas e confiança em Deus. Quero, aos poucos, falar sobre cada item, mas vou comentá-los minimamente agora. Resumindo: 1. Estou comendo frutas, legumes, castanhas, pão integral etc; 2. Tenho feito exercícios físicos ao ar livre, para respirar melhor e me expor mais ao sol, nos horários adequados; 3. Tenho dormido no mínimo oito horas por noite e descansado uma vez por semana, aos sábados; 4. Optei por não fumar, não beber álcool ou usar outros tipos de drogas. E o mais importante: tenho me aproximado de Deus e decidido ser feliz.

Após cinco meses da cirurgia, sinto-me melhor. Bem melhor.

PS.: Sobre esses oito remédios, li um livro editado em 1996, que deve ter edições mais recentes: Saúde – Novo Estilo de Vida (A melhor maneira de fortalecer o organismo e livrar-se das doenças), da autoria do médico Sang Lee, publicado pela editora Casa Publicadora Brasileira. É uma obra revolucionária, embora apresente soluções simples. Tem feito a diferença em minha vida. Esse livro faz parte de um projeto da revista Vida e Saúde, que é publicada desde a década de 1930 e muitos já a conhecem.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O alimento-remédio



Em agosto, encarei no hospital uma comida sem sabor e com muito óleo para quem tinha acabado de ser operada. Depois, tomei uma decisão: alimentar-me melhor. Antes da endometriose se manifestar, comia sem me nutrir. Meu cardápio diário era constituído de açúcar, gordura, industrializados. Chegava a pensar, em meio à correria e refeições rápidas: que nutrição estou dando às minhas células? Caloria vazia.

A alimentação tem um impacto decisivo no organismo. O que comemos provoca doenças e também, felizmente, ajuda a manter ou restaurar a saúde. Desde agosto (e já estamos em dezembro/08), minha alimentação é outra. Ainda quero escrever sobre isso. Contar as mudanças que fiz, divulgar minhas receitas. Um cardápio delicioso e saudável. Mas hoje quero falar sobre a alegria de usar a alimentação como remédio.

Há um pouco mais de um mês, o resultado de um exame parasitológico apontou a presença de um protozoário. Fui a um médico de linha mais alternativa que me deu duas opções de tratamento: remédio convencional ou tratamento natural. O primeiro destrói o verme sem dar trabalho, basta tomar um comprimido. Mas ataca a flora intestinal, matando as bactérias benéficas ao organismo. Tenho endometriose no intestino. Essa não seria uma boa alternativa. O segundo dá mais trabalho, mas não apenas preserva a flora intestinal como fortalece a saúde. Optei pela via natural, mas por precaução pedi a receita do remédio.

Dieta eclética: alho, sementes de abóbora torradas e moídas, suco de couve, chá de hortelã, e fé. Refiz os exames. Hoje chegou o resultado. Não tenho mais nada. Isso significa, pessoalmente, uma pré-vitória dentro da batalha maior que estou enfrentando: vencer a endometriose. Se a alimentação me ajudou a vencer um mal menor, pode me ajudar a superar ou neutralizar a incurável endometriose. Ela é grande, temível, por enquanto invencível. Mas quero ter a alegria, como tive hoje, de descobrir em fevereiro que ela está sob controle. Estará.

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domingo, 23 de novembro de 2008

Exercícios físicos combatem a endometriose



Tenho 30 anos. Trabalho o dia todo na frente de um computador. Até descobrir a endometriose, os exercícios físicos eram esporádicos. Não gosto de academia. Prefiro ficar ao ar livre, praticando esportes menos repetitivos. Mas enfim, não estava levando a atividade física a sério.

Falta de exercício físico é algo sério. Quando o assunto é endometriose, o exercício é um dos mais importantes remédios para combatê-la. Mas nem todos sabem disso. Perguntei à médica que me operou qual é a causa da endometriose. Totalmente desinformada, ela respondeu: “Muito exercício físico.” Se isso é verdade, por que eu, que não praticava esportes, tinha acabado de sair de uma mesa de operação para retirar 15 cm de endometriose?

A revista “Saúde”, da Abril, desmente a médica. Na matéria “Bote a endometriose pra correr” (
http://saude.abril.com.br/edicoes/0298/corpo/conteudo_278746.shtml), a jornalista Adriana Toledo foi a campo e entrevistou gente que sabe do que está falando. Foram entrevistados cinco médicos ginecologistas de importantes centros de pesquisa. Já de início, o artigo afirma: “Se esse problema atormenta a sua vida, aposte na atividade física. Nós contamos de que forma a malhação alivia as cólicas e até faz regredir a endometriose.” Alivia as dores! Faz regredir a doença! Tanto combate quanto ajuda a evitá-la. Qual o segredo?

A prática de um exercício aeróbico estimula a hipófise que libera endorfinas e inibe a secreção do hormônio FSH. O FSH estimula a produção de estrogênio nos ovários. Menos FSH, menos estrogênio, menos endometriose. Portanto, a endorfina, que é vasodilatadora e analgésica, diminui o estrogênio no corpo e até mesmo faz regredir a endometriose, aliviando as dores. No artigo há uma animação on-line para entender melhor o assunto (
http://saude.abril.com.br/edicoes/0298/corpo/conteudo_288355.shtml).

Tenho uma meta: não ser operada no próximo ano. Sem os exercícios, eu não vou conseguir. Procurei o que me dá prazer. Estou jogando tênis de mesa e basquete. Esportes de que gosto, com um detalhe que faz toda a diferença: faço dupla com o meu marido, amor da minha vida.

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sábado, 11 de outubro de 2008

Mulheres em pote de vidro




Quando descobri a endometriose, vi um pote. Sua grande tampa estava aberta. É um pote onde cabem milhões de unidades. Amplo, grande e construído por médicos. Um pote para conter gente. Um pote para colocar mulheres. Muitas mulheres. Uma brasileira em cada seis, totalizando milhões de mulheres com endometriose. Um pote de vidro, nada flexível, gélido, mas capaz de receber muitas outras mulheres. Embora cada mulher seja única, o pote não se importa. Na sua onipotência, o pote sentencia: são todas iguais. Seguindo as recomendações de saúde, o pote tem rótulo. Quais são os ingredientes que formam essa multidão de mulheres? De que é formada essa massa feminina vitimada pela endometriose? O pote responde.

Fui lançada dentro do pote, sem que me conhecessem. Nem sequer me consultaram. Nada sabem de mim. Mas estou no pote. E como todas as outras mulheres, fui rotulada. Na busca por informações sobre endometriose na Internet, encontrei estudos que falam do “perfil da mulher com a doença”. A mulher com endometriose é descrita em três artigos da seguinte maneira:

1. “Perfil psicológico e personalidade (mulheres magras, com aspecto enfermo, ansiosas e submetidas a ‘stress psíquico’, elevado coeficiente intelectual, perfeccionistas e egocêntricas).” Clínica e Centro de Pesquisa em Reprodução Humana Roger Abdelmassih (
www.abdelmassih.com.br/download/coletanea/01.pdf ).

2. “Perfil psicológico: mulher magra, estresse psíquico, elevado nível
cultural, perfeccionista e egocêntrica.”
Prefeitura do Município de São Paulo
Secretaria Municipal da Saúde
- Coordenação de Desenvolvimento de Programas e Políticas de Saúde (CODEPPS) - Área Técnica de Saúde da Mulher (
www.prefeitura.sp.gov.br/arquivos/secretarias/saude/mulher/0013/Prot_CA_125_2005.pdf).

3. “Alguns profissionais de saúde acreditam que existe um perfil psicológico característico das mulheres com endometriose. Ainda não foi desenvolvida uma pesquisa científica que comprove esse fato, mas alguns traços de personalidade são observados freqüentemente nessas mulheres. Alguns deles são: perfeccionismo – tudo tem que estar perfeito, sob controle e muito organizado; auto-exigência – se cobram demais, tudo tem que acontecer como o planejado e é difícil admitir as falhas, lidar com os próprios erros; capacidade de controle e comando – conseguem com facilidade organizar e estruturar tarefas, não enrolam em suas atividades diárias e podem até organizar a vida de pessoas em sua volta, assumindo problemas dos outros; sentem necessidade de manter o controle daquilo que poderá acontecer. Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose. Ainda precisamos de estudos científicos que determinem a força de associação dos fatores emocionais no desenvolvimento da endometriose e que permitam traçar um perfil psicológico característico dessas mulheres.” [grifos meu]. A importância do aspecto emocional no tratamento da endometriose. Ambulatório de Endometriose CAISM-Unicamp (
http://www.abend.org.br/corpoemente.htm).

No rótulo, uma lista extensa de traços de caráter. Os artigos, dos itens 1 e 2, são praticamente iguais, o que leva a concluir que um dos estudos apenas reproduziu a conclusão do outro. Já no último artigo, mesmo os autores admitindo que não há pesquisa científica sobre o perfil psicológico de mulheres com endometriose, eles optam pelo caminho do rótulo e rotulam livremente, irresponsavelmente. Afinal, admitem: “Essas são algumas das características observadas que não necessariamente estão presentes em todas as portadoras de endometriose e que não podemos afirmar que estão correlacionadas com o desenvolvimento da doença, pois existem muitas mulheres com traços semelhantes que não têm endometriose.” Então, por que rotular? Cientificamente estão desautorizados. Os próprios autores se desautorizam ao tentarem se resguardar de conclusões precipitadas.

Fui jogada no grande vidro. Não é o vidro da ciência e dos estudos sérios, pois jamais emitiriam opinião sem fundamentações documentadas, balizadas pelos seus pares, academicamente comprovadas. Estou exposta no vidro, rotulada e espremida em meio a milhares de mulheres que, além da dor e da infertilidade, precisam, agora, conviver com rótulos opinativos. É fato que as emoções estão em relação direta com o organismo. Saber controlá-las é essencial para vencer qualquer doença, seja doença que atinja homens ou mulheres. Contudo, visões precipitadas não libertam as mulheres de suas possíveis ansiedades, mas as aprisionam, as comprimem em pote rotulado.

Cada mulher é única. Agradeço pelo “elevado coeficiente intelectual”, rotulado no primeiro artigo, mas dispenso esse e outros rótulos. Proponho não apenas a retirada do rótulo único do pote, mas a quebra definitiva do único e soberbo pote de vidro. Rótulos cuidadosos, cientificamente pesquisados, amigavelmente descobertos – se é que rótulos são realmente imprescindíveis –, colocados em cada vidro com sua história de vida, apontam para uma direção mais saudável.

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sábado, 4 de outubro de 2008

A consulta – II




Há duas semanas, fiz o ultrassom. Resultado: endometriose atrás do útero, que alcançou o intestino, comprometendo-o “mediamente” – palavras do médico. Também tenho um nódulo de dois centímetros no reto. O CA 125 II deu 80 u/ml. Os resultados dos demais exames, já mencionados, estão normais. O ultrassom foi bem detalhado e durou quase uma hora. O especialista, que já examinou milhares de mulheres com endometriose, soube distinguir os focos, precisar sua extensão. E deu explicações interessantes. A endometriose se parecesse com uma cicatriz.

Num exame que fiz há dois anos, um ultrassom transvaginal, o médico monossílabo abriu a boca apenas para fazer uma pergunta intrigante, após olhar fixamente para a imagem de meu ovário: “você já fez alguma cirurgia?” Não, não havia feito. Fiquei preocupada. Ele viu a cicatriz, mas não soube dar a interpretação. Era a endometriose crescendo lentamente. Caso esse médico tivesse pesquisado mais, caso se interessasse realmente pela profissão, eu, agora, não estaria com uma cicatriz de uma cesariana sem filhos. Foi esse mesmo médico, um bruto silencioso, que em agosto sugeriu que eu estava com câncer após finalmente ver um cisto de 14 cm em mim. Viu o cisto, mas, para não variar, errou na sentença.

Agora, o meu médico, em que confio e vejo nitidamente amor pela profissão, sugeriu que não devo ir para cirurgia que serviria para remover parte do intestino comprometido. Concordei. Em fevereiro de 2009, vou repetir os exames. A endometriose não é um câncer, mas se comporta como se fosse. Não mata, mas avança pelo organismo provocando incômodos, intervenções cirúrgicas, dores. Durante o exame, o médico revelou que já encontrou endometriose no diafragma, no sistema nervoso... Brincou: “a endometriose é a irmã do câncer.” Mas não se assustem, é possível controlá-la, e acredito: é possível vencê-la. A gravidade da doença não deve atemorizar, precisa provocar mudanças. Tomei a decisão. Novo hábito alimentar, mais exercícios, reestrutura emocional. Tem sido ótimo. Aos poucos quero contar o que tenho feito. Em fevereiro, quero dizer: “está controlada!” E quem sabe, contrariando estatísticas científicas, revelar: “está controlada e também diminuiu!”

sábado, 20 de setembro de 2008

Mulheres famosas e a endometriose




Estatísticas são frias. Sei que há milhões de mulheres com endometriose, mas me sentia a única. Sentimento contra-indicado. A doença, por si só, já tem seu peso cultural, social. Por que você, exatamente você, ficou doente? De que modo minha identidade é modificada pela descoberta de um tumor benigno (o endometrioma é um tumor, ainda que benigno)?

Hoje, li sobre mulheres com endometriose. A revista Veja revelou o drama da jornalista Ana Paula Padrão na sua luta contra a infertilidade provocada pela endometriose (
http://veja.abril.com.br/vejasp/170805/perfil.html).
Malu Mader também enfrentou a doença (entrevistada por Rosane Queiroz para a revista Marie Claire, de fevereiro de 2002). Para quem deseja engravidar, uma boa notícia: ela conseguiu - teve dois filhos. Dizem também que Marilyn Monroe sofria com a endometriose. Usava drogas para fugir das dores. Morreu de overdose.

Outra mulher histórica chama a atenção. Sofrendo de um fluxo de sangue durante anos, ela pagou aos médicos tudo que possuía. Provavelmente estava abatida, com anemia. Talvez enfrentasse dores incapacitantes. Quem sabe acalentava o desejo de ter um filho. A história não conta o nome da mulher nem revela sua doença. Mas registra o drama: “Ela havia gastado com os médicos tudo o que tinha, mas ninguém havia conseguido curá-la” (Lucas 8: 43). Vivendo nos primeiros anos da era cristã, ela sofria com os preconceitos de uma sociedade machista, que rotulava de “impuras” as mulheres em seu período menstrual. Além das dores físicas, a mulher da história carregava pesos emocionais insuportáveis – o fluxo contínuo de sangue a tornava irremediavelmente impura. Sofria intensa rejeição.

A endometriose faz isso com as mulheres. Provoca dores, embora algumas não sintam. Acarreta rejeição, embora haja maridos compreensivos. Causa problemas sociais, devido à dor que interfere no desempenho profissional e oscilações hormonais que desencadeiam quadros depressivos. Impõe rótulos. Atualmente, para enfrentar a endometriose, a medicina oferece diferentes tratamentos; a psicologia, alívio emocional; a tecnologia, canais de comunicação. Não há respostas definitivas, mas há lenitivos eficientes. Há quase dois mil anos, não restavam muitas opções. Hoje, a maioria das mulheres brasileiras, sem dinheiro para consultas e remédios, vive o mesmo drama. Falta-lhes o básico: conhecimento.

Mas àquela mulher da história chegou uma notícia animadora. As esperanças reviveram. Com ousadia, decidiu investigar. Empurrada por uma multidão de pessoas, ela reuniu forças, enfrentou a depressão, esqueceu as dores e estendeu o braço, tocando-o. Achava que se, ao menos, tocasse aquele homem estaria salva. Mulher de fé. “Quem foi que me tocou?”, perguntou Jesus. Muitos o tocavam, o buscavam aleatoriamente, sem compromisso, como acontece hoje, mas ele reconheceu a diferença daquele toque. Acolheu o toque da fé, sua seriedade. Identificou um profundo desejo de mudança, reconstrução total da vida. A mulher deu um passo à frente, contou seus sofrimentos e revelou: o fluxo doentio de sangue cessou quando estendeu a mão ao Médico dos médicos. “Minha filha”, disse Jesus carinhosamente, “você sarou porque teve fé! Vá em paz!” (Lucas 8: 50).

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