domingo, 14 de julho de 2013

Vitamina B12

14 de julho de 2013

Havíamos acabado de nos casar. Morávamos em uma edícula alugada que cabia no orçamento de um jornalista que cursava a segunda faculdade e de uma jornalista que iniciava o mestrado. O orçamento era curto, os desafios imensos. Na medida do possível, ajudávamos financeiramente meus pais. Embora essa pequena ajuda tenha aliviado um pouco a situação deles, a conta do passado de carestia e lutas ainda chegaria de forma dramática. Faltara nutrição. A falta de nutrição é pior do que a falta de dinheiro. Não sentiram fome, mas havia fome oculta, a fome das células por algo mais do que massa, açúcar e gordura.

Meu pai, mais sábio, subia nas árvores e colhia o que encontrava – lichias, ameixas, jabuticabas, bananas. Faltava tanta coisa, e as árvores frutificavam, mas minha mãe e minha irmã mais nova não eram de comer frutas. Li que na Grécia, famílias da classe média empobrecida agora dão a seus filhos macarrão com molho. Enchem a barriga, mas o corpo das pequenas crianças se fragmenta em vida. Não há fome mais triste do que a fome oculta, a fome das células por nutrientes que atinge tanto pobres quanto ricos, uns por falta de dinheiro; outros, por falta de conhecimento.


Meu pai ligou em desespero. A situação havia melhorado um pouco, eu já havia levado minha mãe a consultas, mas algo em seu corpo não estava bem. A pele apresentava uma alergia disseminada, seu aspecto era de abatimento. A dermatologista havia sugerido que a medicássemos com cortisona. Para quê? Para combater sintomas ou a causa? Na época, sabia pouco dos efeitos danosos de drogas farmacêuticas, mas havia ouvido falar de uma amiga de minha mãe que tomara cortisona para um mal sem causa identificada. Depois de anos a fio de “tratamento”, teve um câncer. Parecia-me que a cortisona tinha algo a ver com aquele corpo debilitado, com a ruína daquele sistema imunológico. Era uma suspeita. Com base nela, não obedeci à médica.


Naquele domingo, meu pai ligou com a voz embargada. Minha mãe gemia, estava inconsciente. “Vem logo. Ela está morrendo.”


Fizemos a viagem, levamos minha mãe para o pronto-socorro. Lá, deram-lhe calmante e a liberaram. Ela morria. Ligamos para amigos para tentar uma internação em um hospital particular, mas ninguém nos ajudou. À noite, exausta, eu tive a completa convicção de que fora o tempo de carestia alimentar que a deixara daquela forma. Mesmo com a alimentação restabelecida, a doença era sequela. Lembrei-me do que a tradição judaica testamentária afirma: “o filho de Deus jamais mendigará o pão.” A pequena mulher que havia alimentado a tantos morria por causa da comida que faltara. Em prece solitária e desesperada, expressei meus sentimentos de contrariedade. Ela não poderia morrer porque faltara o pão, não por isso. Ninguém deveria morrer por isso, ninguém.


No dia seguinte, minha mãe foi submetida a um ultrassom do abdômen total e a uma ressonância magnética do cérebro. Se ela estava inconsciente, o mapa do cérebro certamente nos diria algo, foi o que pensei. O ultrassom mostrou dezenas de pedras na vesícula. Parecia que havia risco de superar, mas minha mãe não sentia dores, um sintoma comum nesses casos. A ressonância revelou pontos brancos no cérebro. Morte de neurônios que poderia estar sendo provocada por um derrame, mas não havia sintomas claros de um derrame. Ela precisava retirar a vesícula, mas não tínhamos a quantia que o médico pediu. No SUS, não havia vaga.


Liguei para minha orientadora de mestrado, embora nosso contato fosse recente. A sogra dela havia sido professora de Medicina em uma universidade pública. Estava aposentada. Será que poderia nos ajudar? Em dez minutos, minha orientadora retornou a ligação e disse para levarmos minha mãe ao pronto-socorro dessa universidade. Havia um médico a esperando. Fizemos isso, era noite. Na metade do dia seguinte, ela continuava em uma maca no corredor do hospital. Eu sabia que era uma urgência, mas os médicos não pensaram assim devido à ausência de dor. De acordo com a triagem deles, minha mãe poderia esperar mais um pouco. Fui à casa de minha orientadora, passamos na casa de sua sogra e, em meio à chuva, aquela senhora forte, com seus quase 90 anos, saiu com seu crachá em direção à universidade. “Operem essa mulher.”


Após a cirurgia, o jovem médico nos disse: “Havia apenas uma camada fina de pele. A vesícula estava quase supurando.” Por mais um pouco, a perderíamos. Ela saiu da cirurgia querendo se levantar, não sentia dor. Na internação, manifestava perda de memória, personalidade adversa. “Ela é uma pessoa calma, sensata. Há algo de errado”, disse ao médico. Mas ele não me escutou. “Ela não foi sempre assim?”, retrucou com descaso e assinou a alta. Em casa, ela teve surtos e depois perdeu a consciência. Nesse meio tempo, chegou o resultado de um exame de sangue que eu havia pedido por pedir. Uma senhora da igreja me dissera que conhecia alguém com os sintomas da minha mãe. A pessoa havia tido carência de vitamina B12. Na última hora, lembrei-me desse comentário e pedi o exame. O resultado do exame apontava que ela estava com carência de B12. Seria isso?


Voltamos à universidade pública. A médica viu o exame, examinou minha mãe e nos mandou para o pronto-socorro da universidade. Era carência de B12, mas a universidade tinha falta da injeção de cianocobalamina. Hospital universitário sem B12 é caso tão grave quanto um corpo sem B12. Fomos à farmácia, e a primeira dose foi aplicada. Em dois dias, minha mãe havia recuperado a consciência. Sim, em dois dias. Embora tenha ficado com alguma sequela nas pernas, como formigamento e dormência, ela está muito bem. Atualmente, toma injeção de B12 periodicamente.


Dormência, formigamento, sintomas na língua, dermatite e, nos casos mais graves, demência, incontinência urinária: são esses alguns dos sintomas de carência de vitamina B12. Quando falta a vitamina, os neurônios começam a morrer. Mas nem sempre a carência é bem percebida. Com a diminuição da vitamina pode haver perda quase imperceptível de memória, cansaço, certo formigamento nas mãos. A vitamina é essencial para a vida.


A busca por entender o que estava acontecendo com minha mãe, em meio a consultas médicas superficiais e a diagnósticos errôneos, manteve viva quem me trouxe ao mundo. Deu-me também vida uma vez mais. Se apenas tivéssemos aceitado o que diziam, se após aquele cirurgia tivéssemos concluído que tudo que precisava ser feito havia sido feito, nós a teríamos perdido. Também teria conhecido menos de mim mesma. Ao desvendar o que atacava seu corpo, pude me preparar para me socorrer. Anos depois, eu mesma apresentei uma deficiência de B12 preocupante, que foi corrigida a tempo. Eu conhecia minha mãe, conhecia a doença, conhecia a vitamina e pude reconhecer os sinais em meu corpo. Honra pai e mãe e seus dias se prolongarão, diz a sábia palavra bíblica. A palavra se confirma em mais um fôlego.


Fôlego a fôlego, outros conhecimentos surgiram. Essa experiência com minha mãe me ensinou várias coisas: a importância de saber ler os sinais, lutar pela vida, não se contentar com diagnósticos superficiais, não usar remédios que atenuam sintomas, valorizar a formação médica inteligente, fazer os exames necessários, admirar o saber médico especializado que oferece os diagnósticos corretos, suspeitar de quem não valoriza diagnósticos, admirar profundamente a bondade de duas mulheres não religiosas que estenderam a mão para uma desconhecida e salvaram a vida de sua mãe, expor a Deus as dúvidas e confiar nEle, indagar, indagar, indagar, olhar para o corpo, olhar para cima. Lições que me fizeram forte para iniciar a luta contra a endometriose, anos mais tarde. Luta que considero vencida.


Em minha história contra a endo, também tive de saber aprender a lidar com a questão da B12. Quando tive a carência de B12, tomei uma injeção intramuscular de cianocobalamina. Eu havia feito um exame para acompanhar os focos de endometriose antes da injeção. Um mês após a injeção, não me senti bem e resolvi refazer o exame para avaliar a endometriose. Os focos haviam aumentado consideravelmente. Para mim, a injeção aumentou os focos. Não há qualquer comprovação científica do que estou dizendo. Minha conclusão vem da observação de meu corpo. Mas nunca mais repus a vitamina B12 com injeção intramuscular. 


A vitamina B12 além de ser encontrada em alimentos cárneos e lácteos é produzida pelo próprio corpo, por bactérias presentes no intestino. A indústria também oferece alimentos enriquecidos com a vitamina, como o Neston, entre outros. A deficiência dessa vitamina está relacionada a vários fatores: gastrite atrófica (gastrite autoimune), alcoolismo, problemas na vesícula, alimentação vegana, uso de metformina (remédio para diabetes –
veja aqui), entre outros. Todas as pessoas, vegetarianos ou não, especialmente os mais idosos e os diabéticos, devem fazer o exame de sangue anualmente. Basta pedir ao seu médico um exame de sangue de “vitamina B12”. Se for particular, o valor é acessível.

Alguns médicos dizem que a carência de B12 leva tempo para se manifestar. Nem sempre é assim, conforme tenho observado. Algumas pessoas não terão carência, mesmo fazendo parte do grupo de risco. Minha sogra, por exemplo, é vegetariana e usa metformina. Seus exames estão sempre normais. Outras apresentam a deficiência mesmo não fazendo parte do grupo de risco. A esposa do avô de meu marido, que tem 87 anos, come carne regularmente e não faz uso de remédios, apresentou a carência de vitaminas. Uma das sequelas tem sido dificuldade de andar e dores nas pernas, algo que minha mãe sente. A carência de B12 também predispõe o organismo a doenças neurológicas degenerativas, alterando a mobilidade e o comportamento. Nesses casos, é recomendável a reposição periódica. Não basta tomar uma ou duas doses de injeção. O problema é que boa parte dos médicos desconhece a importância da vitamina e a forma correta de reposição (
Veja aqui uma matéria excelente sobre a B12, com explicações e alertas da médica Sara Saad, da Unicamp). Por isso, é tão importante se informar e não aceitar o que chamam de “inevitáveis doenças da velhice”. 

Se você tem alguém idoso na família, não deixe de pedir os exames de B12 e vitamina D, principalmente. Muitas queixas que parecem ser “emocionais” ou de “fundo psicológico” são resultado de deficiências graves de vitaminas. Acredito que essa consciência evitaria muito sofrimento e mortes desnecessárias. Os mais velhos merecem a nossa mais completa atenção. Além de ser um ato de amor, o conhecimento das doenças que os acometem e dos recursos preventivos é uma proteção para nosso organismo também, pois somos sua continuidade genética e estamos susceptíveis às mesmas doenças.


Embora os quadros de deficiência sejam mais comuns nos mais velhos, os jovens devem estar atentos. Como escrevi, eu tive e deficiência e, regularmente, refaço os exames. Amigos jovens que mudaram a alimentação também tiveram uma rápida baixa na quantidade de vitamina. Para ter a quantidade aceitável, faço uso de ovos orgânicos de boa procedência. Alguns médicos vegetarianos defendem uma dieta ovolactovegetariana para prevenir a deficiência. Outros são inflexíveis contra os ovos e leite, indicando o uso de suplementos. Há ainda algumas pessoas que dizem ser inteiramente desnecessário repor a vitamina, pois o organismo a produziria na quantidade necessária. Esses estão errados em grande parte dos casos. Por algum motivo – talvez relacionado ao modo de produção de alimentos, à poluição ambiental, a fatores nutricionais, ao estilo de vida atual –, nosso organismo está perdendo a capacidade de produzir B12, mas continuamos precisando muito dela. Não deixe de fazer os exames, de ler sobre o assunto, de conhecer os sinais que o corpo envia. A vitamina B12 é uma das essências da vida. 


Por último, essa experiência marcante, que ajudou a definir meu caminho de luta e persistência para superação da endometriose, me deixou uma grande lição. Por uma única vitamina, minha mãe quase morreu. Por uma única vitamina, ela voltou a viver. As doenças aparentemente mais complexas podem ter – e na maioria das vezes têm – um caminho de cura muito simples. A médica Sara Saad, da Unicamp, descreve pacientes que foram submetidos até a transfusão de sangue e o que tinham era “apenas” carência de B12. O médico Cícero Coimbra, da Unifesp, fala de pacientes com esclerose múltipla, em cadeira de rodas, que foram tratados com vitamina D e agora estavam praticamente curados, andando, falando, vivendo. Nomes complexos de doenças acabam camuflando verdades médicas impressionantemente simples – a falta de nutrição faz adoecer, a nutrição cura. É assim com a endometriose também. Com a nutrição certa, com o estilo de vida correto, eu não precisei de remédios ou cirurgias. A doença “sem cura”, espalhada em aderências, está desaparecendo, centímetro a centímetro. Uma verdade médica simples que exige entrega total. 


PS.: A experiência com minha mãe fez com que eu iniciasse um blog sobre B12, mas acabei não o atualizando. Há muitas pesquisas, controvérsias, implicações que merecem ser reunidas, discutidas e conhecidas. Embora atualmente a importância da vitamina B12 seja mais amplamente conhecida, há muita pesquisa que precisa ser feita e, principalmente, muita divulgação de pesquisas e experiências a se fazer. Ainda pretendo retomar o blog.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

domingo, 30 de junho de 2013

Palavras de esperança



30 de junho de 2013

Tenho 30 anos e em 11/ 11/11 descobri que tinha endometriose.

Fiz um ultrassom específico demorado e ouvia o médico passando vários números em tom de voz baixo para a secretária, achei estranho. No final do exame, percebi que a secretaria tentou me agradar, tratou-me com um carinho diferente. Depois descobri o porquê.

Ao receber o laudo de duas páginas não me preocupei porque não entendi uma palavra. Ao levar o exame ao médico eu tive a consulta mais marcante da minha vida. Uma cirurgia de 8 horas ou mais, muito delicada, com retirada de parte do intestino, apêndice, seria necessária. O médico não pintou a pílula de dourado. Foi direto ao ponto.

Eu tremia o queixo, as pernas, quase desmaiei. Sou uma pessoa tranquila, controlada, não exagero nas reações. Na hora, senti que começava uma longa caminhada, mas, como sempre, não demonstrei.

Passei a noite em claro. Bem cedo sentei na internet e comecei a pesquisar. A primeira coisa que li foi “portadoras de endometriose”. Já tive uma má impressão, pois se você “porta” uma doença quer dizer que não há remédio ou cirurgia que cure. Como as pessoas portadoras de diabetes.

Num mar de informações, perdida, tentando filtrar conteúdos, suplicando por algum que me tocasse eu, enfim, achei o endometrioma.blogspot.com.br. É difícil falar sobre esse momento. Eu fui tocada de maneira tão inexplicável pelo conteúdo, pelo sentimento da editora do Blog que eu não sei mensurar.

Li todos os posts do Blog em um único dia. Sentia como se eu não tivesse mais doença. Saí para tomar sol, caminhei, amassei um dente de alho e comi com água e limão espremido.

Meu marido chegou em casa à noite e encontrou outra mulher. Amo meu marido, e esse amor se agiganta principalmente porque ele me ouve, presta atenção em mim, temos qualidade de tempo juntos, por mais que ele tenha mil problemas também. Ele doa seu tempo. Ele ouviu naquela noite eu falar do endometrioma.blogspot.com.br por um longo tempo.

E assim comecei minha jornada de reeducar meu paladar, perceber meu corpo, minhas dores, minhas tristezas, alegrias. Autoconhecimento que eu nunca tinha experimentado. Talvez seja uma característica comum das mulheres com endometriose a doação ao outro.

Um post muitíssimo interessante do blog é Mulheres em Pote de Vidro. De fato, ouvimos muito por aí que a tal da endometriose é a doença da mulher moderna, trabalhadora, multitarefas, estressada, pilar da casa, que não sabe dizer não (eu ouvi tudo isso de médicos muito renomados).

Isso significa o quê? A culpa é minha? A minha amiga que não se preocupa com a dor do outro, não se coloca no lugar de ninguém, só pensa em si mesma, não tem endometriose?


Quantas perguntas tolas para frases que não deveriam ser ditas. Mas eu disse tudo isso, porque eu raramente prestava atenção em mim, no meu corpo, nas minhas dores. Até ouvi outro médico me dizer que o meu “limiar de dor” era bastante alto. Mas mal ele sabia que o meu limiar de esperança também era bastante alto.



Talvez a minha preocupação com o problema do meu pai, da minha mãe, do meu marido, da minha irmã não me deixavam parar para notar a minha dor. Eu não percebia essa situação, apenas vivia no piloto automático.

O fato é que quis de todo o coração me aproximar da mulher por trás do blog. Eu mandei um e-mail a ela abrindo o meu coração e pedindo ajuda. Queria me contagiar com a sua força, ouvir suas histórias.

Foi assim que começou uma grande amizade. É incrível como um acontecimento ruim (a descoberta de uma doença) pode lhe trazer coisas incrivelmente boas.

Esses dias fiquei pensando: “imagine se a editora do blog tivesse tido a ideia de criar esse canal de comunicação, mas nunca tivesse tirado do papel. Quantas coisas nós idealizamos, mas não fazemos. O primeiro passo nunca é dado".

Esse foi um grande exemplo para mim. Faça. Escreva. O paradoxo é que a solidão do momento de escrever sozinha é logo compensada pela pulverização da ideia aos quatro ventos. Quantas brasileiras na Europa, na Ásia, na África, na América.

Assim como eu, depois de ser golpeada com a notícia quantas mulheres procuram ajuda na internet? Encontramos médicos se autopromovendo, blogs querendo atrair leitoras para ganhar anúncios, notícias trágicas.


E eu encontro alguém tentando gritar para o mundo: “ei, existe uma saída. A saída está aí dentro de você. É sua vontade de mudar. Olhe para a natureza. A água, o sol, o mar, a terra, a respiração, o vento no rosto durante a caminhada”.

Alguém me ensinou que eu posso trocar o círculo vicioso da vida moderna com suas consequências pelo círculo virtuoso VIDA. A realidade é que a vida moderna com tantas informações, tecnologias e chamarizes em 3 D  nos cegam para a beleza das coisas simples. O pássaro perto da janela, as cores do pôr do sol, o cheiro da chuva.

Eu agradeço a Deus pelo blog e pela vida por trás do blog. Quisera eu imaginar que um dia eu iria agradecer a Deus por ser portadora de endometriose.

E muita dessa gratidão a Deus decorre do meu encontro com o blog. Ele me ajudou a dar outro enfoque à doença. Não combater os efeitos, mas buscar as causas. Por causa disso tudo, eu MUDEI. Mudei o meu olhar sobre o mundo, sobre o trabalho, sobre a família, sobre eu mesma.

Confesso que não é simples assim. Hábitos arraigados, vida agitada, trânsito, poluição. Gatilhos que te puxam como areia movediça.

Quem disse que seria fácil?

Nisso consiste a beleza da vida. O aprendizado constante. Avanços e retrocessos. Desfrutar as alegrias, chorar as tristezas. Receber o desprezo de uma amiga ao lado. Encontrar um ombro amigo numa terra nunca imaginada ("Em todo tempo ama o amigo e na angústia nasce o irmão” Prov. 17:17).

Hoje, especialmente, me senti inspirada a expor meus sentimentos. Alguns ficaram ainda recônditos, outros não consegui expressar. Que essas palavras sirvam para te alegrar e principalmente te inspirar a continuar. Exercitar o seu dom de escrever e nos tocar.

Uma coisa posso dizer com todo o coração: Enquanto houver vida, haverá esperança.

Com muito carinho


domingo, 23 de junho de 2013

Resposta aos Comentários


23 de junho de 2013



Fico muito feliz em saber que corre tudo bem com você. Continue com a sua poesia, sempre. Bjos. Postado por Jenni no texto Na sala de espera , em 1 de junho de 2013
Assisti a dois filmes nesta semana. Fazia tempo que não admirava a força da arte e da poesia para falar da essência da vida, para nos ajudar a enfrentar as durezas da vida. Assisti ao filme Crônicas de Nárnia, inspirado nos livros de C.S.Lewis. Parece apenas um filme infantil, com uma mensagem boba. Mas ele tem a maior de todas as verdades. Assisti também ao belíssimo Miss Potter. Em meio ao caos e a descrença, quanta poesia e delicadeza. Ela não teve filhos, mas quantas crianças essa mulher extraordinária acarinhou com a beleza da vida. Somos autoras de nosso pequeno livro e podemos, a despeito das dores, desenhá-lo com toques suaves e vivos. Obrigada pelas palavras Jenni, elas compõem o meu livro. Bjos.         

Descobri há pouco tempo ter a doença. Dia 28/05/2013 fiz a láparo e minha médica disse que o grau está bem avançado. Estou arrasada... Engravidar será só um sonho? Eu me pergunto... Que bom ter com quem dividir essa dor, que não é só física, mas principalmente emocional. Parabéns pelo blog! Postado por Gabriela no texto Na sala de espera, em 1 de junho de 2013
Olá, querida Gabriela. Recentemente, esses dias, precisei muito de palavras de força. Recebi as palavras mais lindas pelo e-mail. Não pude responder na hora, mas elas ficaram me fortalecendo, me ajudando, me amparando. Como você disse, precisamos dividir nossas dores. Nem sempre há um ombro amigo, mas sempre eu oro, converso com Deus como se conversa com um amigo. Gabriela, em 2008, eu também recebi a notícia de que minha endometriose estava alastrada, grau IV. Os médicos chegaram a me dar o diagnóstico de câncer, mas era endometriose profunda, infiltrativa. Hoje, passado quase cinco anos, estou sem dor, os focos diminuíram muito e minha saúde está renovada, tudo por meio da mudança de estilo de vida, sobre a qual eu conto neste blog. “Engravidar será só um sonho?”, você pergunta. Não é só um sonho. É possível, sim, engravidar naturalmente tendo endometriose. É possível que esse nosso mundo tomado de endometriose fique grávido de outro mundo, então a gravidez se torna uma possibilidade real. Em breve, escreverei sobre uma mulher que engravidou naturalmente, mesmo tendo sido aconselhada a fazer FIV ou desistir desse sonho. O que não podemos é desistir de nós mesmas e a fertilidade poderá vir na forma de uma saúde restaurada, mesmo sem filhos; com filhos naturais ou adotados, com uma nova vida ressignificada. Estou melhor agora do que antes. O caminho foi difícil, mas o que seria de mim se eu não tivesse dado ao meu próprio corpo a chance de se recuperar? Por mais difícil que pareça, a mudança de estilo de vida é um fardo leve, um jugo suave. Há cura. Escreva sempre. Com carinho,

Querida amiga! Que bom saber que você está bem e que está cada dia mais combatendo essa doença de forma, simples, natural, saudável e efetiva. Quem bom que encontrei você para abrir minha visão. Deus é bom! Tenho tido cada vez menos dores e creio que esse é o caminho correto e certeiro para a vencermos a endometriose. Às vezes, árduo, difícil mas que traz resultados. Lágrimas e choros fazem parte da vida, mas nos ensinam a sermos mais fortes. E ainda mais, nos fazem persistir e lutar para que um dia, ao invés de tristeza e dor, se tornem lágrimas de alegria! Um grande abraço com carinho. Postado por Gabriela no texto Na sala de espera, em 2 de junho de 2013
Olá, Gaby! Fico muito feliz em saber de suas conquistas por meio de um caminho “simples, natural, saudável e efetivo”. Você o descreve muito bem. Embora a endometriose pareça uma doença complexa e invencível, a cura para ela pode ser simples, natural, saudável e permanente. Que bom que Aquele em que cremos tem transformado nosso olhar e nos dado forças para trilhar um caminho de mudanças, pois mudar é uma tarefa árdua. Como conseguir alterar nossos hábitos apenas com a mais intensa autodisciplina? As dores diminuem, os focos diminuem, a endometriose desaparece, com a mudança de estilo de vida. Sim, é real. É maravilhoso saber que suas dores estão diminuindo a cada dia! Não deixe de acompanhar com exames para medir os focos, pelo menos a cada seis meses, agora no início. “Um dia, a terra será bela, e o mal não existirá”, fala a canção. Esse dia não está distante. Com muito carinho!

Minha querida cortadora de pedras,
Que muitas mulheres tenham a chance de ouvir suas palavras e a felicidade de seguir os seus ensinamentos, matemática que o corpo obedece e agradece com satisfação. Tenha uma ótima semana, minha amiga! Um abraço carinhoso. Postado por Michele no texto Na sala de espera, em 3 de junho de 2013
 Essa matemática vem de gênesis. No princípio, havia um jardim, onde se comia dele, daquilo que a terra dava, a partir do cultivo de um solo produtivo, com atividade física sem hora marcada, em meio ao sol, ao ar e água preservados, em uma interação confortadora. A vida era movimento. A matemática das origens. No final do livro Cândido, depois de tantas violências e planos e ambições e andanças por pensamentos e vivências, a terra em transe, Voltaire faz profundas reflexões sobre os desejos que temos, sobre o sentido da vida, e encerra, após meditar sobre o fim de tantos conquistadores e ambições, sobre um senhor que ele encontrou cultivando a terra junto de suas crianças: “Está certo, disse Pangloss, pois, quando o homem foi colocado no jardim do Éden, aí foi posto ut operaretur eum, para que trabalhasse, o que prova que o homem não foi feito para o repouso”[...] “Está bem dito, respondeu Cândido, mas é preciso cultivar nosso jardim.” Nos envolvemos em tantas astúcias, mas talvez, medita Voltaire, não deveríamos ter saído daquele jardim, lugar para onde Rousseau queria tanto voltar, numa espécie de restauração do paraíso dentro do não paraíso, impossibilidade que o enlouqueceu. É filosofia? É poesia? É fantasia de que se trata? Tem tantos outros significados? Para mim, é prova. Se é real, então funciona. Ao seguir a matemática das origens, não um relato, mas um acontecimento, constatei as mudanças no meu corpo pelos exames. Ainda que muito distante desse jardim perfeito, o corpo ainda responde à lógica do início, crendo ou não, aceitando a filosofia que sustenta essa escolha ou não. Incrível que responda à mudança de estilo de vida em meio a tanta destruição nessa reta final, mas responde. Não há árvore da vida aqui, nem alquimia da perenidade, nem a transparência total almejada por Rousseau, estamos fora do jardim porque escolhemos estar, mas podemos olhar para ele e entender, podemos acompanhar até as últimas linhas e descobrir que o corpo exige cultivo, o terreno onde se mora pode se tornar terra produtiva, os sonhos por conquistas são legítimos, a saúde não é fim em si mesma porque um dia iremos partir, mas há algo mais. Há, além da superfície, uma pedra de grande preço. A pedra que, por vezes, eu mesma rejeito. Ah, minha querida amiga abençoada, que eu me volte a esta pedra.  

Olá gostaria de Saber se alguém já realizou o USG doppler com preparo do intestino na clínica Pacaembu em São Paulo com Dr. João Frederico. Postado por Anônimo no texto Exame para detecção de endometriose profunda em 3 de junho de 2013
Eu não o conheço. Se alguma leitora o conhece, peço que envie um e-mail . Na escolha de um médico é sempre importante saber se ele tem de fato a formação específica para fazer o exame de endometriose profunda. Ele tem que ter feito um treinamento com médicos credenciados. É muito importante que o exame seja feito por profissionais treinados para que o diagnóstico seja confiável.

Há mais de quinze anos, convivo com desequilíbrios hormonais fortes, que me causam problemas como ovários policísticos e endometriose. Os tratamentos foram inúmeros ao longo de todo esse tempo, incluindo videolaparoscopia e cauterizacao/remocao de tecidos, porém sem resultados definitivos e duradouros. Por acaso, comecei a fazer uma dieta de baixo teor de carboidratos, apenas com o objetivo de perder alguns poucos quilinhos. Incrível foi perceber que, conforme meu organismo se adaptava à minha nova alimentação, meus hormônios foram se regularizando naturalmente! Dessa maneira, descobri que possuo uma condição de resistência à insulina, que uma vez normalizada pelo baixo consumo de carboidratos, fez com que minhas dores, causadas pela endometriose e cistos ovarianos, praticamente desaparecessem, pois meus hormonios que eram super desregulados, com alta producao de estrogeno, cortisol e androgenicos, ficaram super regulados pela primeira vez em minha vida! E sem medicacao! Para que eu continue com os efeitos positivos causados pela dieta Low Carb em minha saúde, a restrição aos carboidratos deverá ser permanente. Só que chega uma hora em que fica muito difícil ter criatividade para inovar no cardápio e se segurar para não cair na tentação dos doces. Esse é o principal objetivo desse site: disponibilizar receitas fáceis, saborosas, criativas, testadas e adaptadas por mim, sempre de acordo com o estilo de vida LowCarbing. Postado por LowCarbing LifeStyle no texto Dieta antiestrogênica 
Agradeço o envio de seu relato de superação. Uma dieta com menos carboidratos é realmente importante. Eu não eliminei os carboidratos, mas diminuí o consumo. Parabéns pelo seu projeto e pela sua persistência em adquirir novos hábitos. A resistência à insulina, o desequilíbrio hormonal e as doenças de forma geral podem ser combatidos com uma nova alimentação, que considere não só retirar ingredientes, mas principalmente incluir novos sabores e nutrientes.  Não é um caminho meramente restritivo, mas uma ampliação das possibilidades gastronômicas, sem deixar de lado o sabor. Uma nova saúde inclui exercícios físicos, atividade, luz solar, a respiração, o descanso, as interações sociais, compartilhamento. Assim, não precisaremos recorrer aos hormônios sintéticos para simular uma tentativa de restauração provisória. Obrigada por compartilhar seus ideais. Um grande abraço,

Adorei seu blog. Eu tenho endometriose há 2 anos e já retirei o útero e as trompas e continuo com dores mas depois de ver seus relatos e ideias fiquei mas fortalecida e motivada a mudar meus hábitos e procurar viver sem dores muito obrigada você é ótima muita saúde e paz pra você... Postado por Janinne no texto Dieta antiestrogênica
Olá, querida Janine! Adorei suas palavras também, sua motivação. Que você fique cada vez mais fortalecida para mudar os seus hábitos e alcançar a saúde sem dores, porque eu posso lhe dizer: é possível sim. É um caminho de descobertas, renúncias, novidades naturais deliciosas, desafios, mas é, sobretudo, um caminho de liberdade e cura. Depois do que passei, de todas as dores e falta de esperança, agora me sinto normal, sem a doença me definindo. Isso é maravilhoso! Busque informações, busque forças em Deus, pois a mudança de hábitos mexe com a gente, mas vale a pena. É a melhor escolha. Você vai vencer essas dores e terá muita saúde e paz.

Nossa! Como me identifiquei com seu texto... Maravilha!!! Gostaria muito de poder não somente pensar assim, mas, também, agir desta forma!! Isso caiu como uma luva para um ponta pé inicial, quem sabe? Um estímulo talvez... uma esperança maior... Obrigada!! Postado por Charlene Almeida no texto Endometriose e crise financeira em 10 de junho de 2013
Olá, querida Charlene. Seu e-mail tem tanta alegria, motivação, força! Ele me faz bem. Você é uma pessoa alegre e, especialmente em dias como hoje, gelados e acinzentados pelo inverno, é um prazer ler suas palavras! Minha amiga, siga esse caminho, pois eu posso lhe dizer com toda certeza, eu sarei. Emociono-me em dizer: eu sarei. Vale a pena. Conte comigo para o que precisar. Carinho,

Querida amiga! Há muitos dias queria lhe escrever... Seu texto nos faz parar e refletir. Dizemos que o estilo de vida saudável e uma boa alimentação custa caro. Mas quanto gastamos com analgésicos e anti-inflamatórios para amenizar as dores causadas pela endo? Quanto gastamos com medicamentos para "reduzir" ou "estabilizar" a endometriose, que além de serem caros causam diversos efeitos colaterais? Quanto gastamos na compra de medicamentos para combater esse efeitos colaterais? Quanto gastamos com consultas, exames e médicos especialistas que não atendem convênios e com cirurgias que não resolvem o problema? Sem falar no que podemos ou poderíamos gastar com tratamentos para fertilidade e FIVs... Se colocarmos na ponta do lápis, a alimentação saudável é muito mais econômica e nos proporciona qualidade de vida. Nos proporciona saúde e vida. No mesmo dia em que li seu texto, meu marido colocou em um filme/ documentário chamado Food Matters (segue o link: http://www.foodmatters.tv), onde especialistas falam sobre a extrema importância de se alimentar saudavelmente. Doenças como o câncer têm sido tratadas de forma natural e com a ingestão do que eles chamam de super alimentos e super dosagem de vitaminas. Os resultados tem sido excelentes! Vale muito a pensa assistir o documentário. Uma frase que uma das médicas disse me chamou a atenção: "Nosso próprio corpo é a fonte da nossa cura." E isso é real. O corpo humano é a mais perfeita máquina criada pelo Grande Arquiteto, o Grande Deus. Ele nos fez saudáveis e nos deu as ferramentas para nos mantermos assim e vivermos bem. Basta querermos. É uma escolha. Não é uma escolha fácil e nem o caminho fácil de trilhar. Não é fácil abrir mão de tantas delicias e praticidade que nos é exposta a cada prateleira, em cada freezer, em cada vitrine de padarias e docerias... É uma escolha árdua, porém prazerosa, pois surte resultados, é efetiva. Viver com muito menos dor é incrível! Ainda sinto um pouco e tenho que recorrer a medicamentos, mas sei que isso tudo é reflexo daquilo que como ou deixo de comer, daquilo que eu faço ou deixo de fazer... mas nada se compara ao que eu sentia antes. E isso não tem preço! Agora posso afirmar que a frase tão conhecida "você é aquilo que você come" é verdadeira. Faz sentido pra mim e pra minha vida. Desejo continuar aprendendo e seguindo o caminho estreito (rsrs), pois é ele que me levará onde quero chegar. Um grande beijo com carinho. Postado por Gabriela no texto Endometriose e crise financeira em 21 de junho de 2013
Querida Gabriela, como você diz, é real! As mudanças são efetivas e relativamente rápidas. “Relativamente” porque há um caminho a percorrer. Precisamos considerar que o corpo, por muito tempo, pode ter ficado exposto a remédios, hormônios, efeitos colaterais de FIVs e indutores, cirurgias e maus hábitos. Sempre me recordo de uma pesquisa sobre os efeitos colaterais de um antibiótico. Leva, por exemplo, dois anos para a flora intestinal se recompor. Nossa flora intestinal é super importante para imunidade, além de produzir vitaminas essenciais, como B12, entre outras. O que dizer dos efeitos das drogas receitadas para endometriose? O organismo tem de aprender a funcionar sozinho de novo, sem sintéticos. Onde encontrar a força para vencer a doença e seguir em frente? Novos hábitos. Alimentação, exercícios, sol, água pura, refeições em horários corretos, para dar descanso ao sistema digestório, não ingestão de líquido com a comida, respiração correta, novas emoções. Às vezes, é necessário a ajuda de um fitoterápico, como foi meu caso. Confiança. Esse processo de mudança requer convicção. Se o encararmos como um acessório, como um detalhe a mais para ajudar a tecnologia médica avançada, pode não dar certo. Essa decisão é séria. Encaro como um tratamento médico, acompanhado por exames médicos. A primeira coisa que superei foi a dor, mas os focos ainda cresciam um pouco. Não se pode viver com o focos avançando, então fui aperfeiçoando o tratamento, até que os focos estabilizaram. Depois, começaram a diminuir. Se de um mês ao outro, os focos não cresceram, mantiveram o tamanho, mesmo menstruando, isso já é incrível. Mas se eles diminuem, isso é realmente fantástico. Não podemos desanimar se os resultados não aparecerem tão rápido, precisamos revisar os hábitos, buscar mais informações, corrigir trajetórias, acreditar que precisamos fazer nossa parte. A cura não é mágica, a mudança de estilo de vida não é uma versão hippie ou exotérica da pílula farmacêutica, a fé precisa ser racional. No meu último exame, feito no dia 29 de maio, o endometrioma que estava com mais de 6 cm está ainda menor. As novas medidas são: 2.9 x 2.2 x 3.3. Então, é real. E também é muito econômico. Economiza dinheiro e economiza o corpo. Como é maravilhoso viver sem revoluções hormonais danosas. Viver normalmente. Uma mulher com endometriose profunda, que já enfrentou dores aterrorizantes, pode viver normalmente? Sim, eu vivo. Doces? Frituras? Inatividade?... Leite moça com chocolate em pó?... Tudo parece muito pequeno diante da liberdade de viver.

Gaby, suas palavras nos ajudam, são estímulo e força. E isso “não tem preço!”.


PS.: Os vídeos do excelente documentário Food Matters estão no meu blog.  Fiz um pequeno comentário. Para quem deseja assistir, o link é: http://endometrioma.blogspot.com.br/2012/02/food-matters-endometriose-e-nutricao.html

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Na sala de espera


30 de maio de 2013

No oitavo andar, na sala 81, esperava para fazer um exame de 180 reais. Em mãos, tinha o resultado de outro exame: 1888. Não sou numeróloga, não consulto previsões, nem zodíaco, nem coisa parecida. O futuro a Deus pertence, e só. Na sala pequena de espera, que volta e meia era invadida por um cheiro de fumaça de cigarro, eu e meu marido tentávamos nos concentrar em algo que nos fizéssemos esquecer temporariamente aquela situação desconfortável e insalubre. Por isso, ríamos dos números. O exame estava marcado para as 10h30, mas fomos atendidos perto do 12h. Mais tarde, na consulta, o médico me perguntou quando eu havia sido operada: 8/8/2008. O dia do ∞. 

Conheci uma mulher ali naquela sala. Ela viajara muitos quilômetros para ser atendida em um centro de referência. Contou-me a sua história. Com 20 poucos anos, sentia dores insuportáveis. Sem diagnóstico, foi medicada com Lexotan. Após quase uma década de sofrimento, ouvindo os médicos lhe dizerem que sua dor era de “fundo psicológico”, ela conheceu uma associação sobre endometriose, começou a receber informativos e marcou uma consulta com um médico especialista em Campinas. Na primeira consulta, ele disse que suas dores que já duravam quase o mês todo eram provenientes da endometriose profunda.

Com o diagnóstico em mãos, os desafios só começaram. O médico lhe ofereceu uma cirurgia com equipe multidisciplinar. Para fazê-la, ela vendeu o carro. Após a cirurgia, pagou por um tratamento com injeções importadas durante seis meses. Após mais seis meses, a endometriose se alastrara novamente. As dores terríveis voltaram. Ela estava andando na rua, quando caiu. Um endometrioma (cisto de endometriose no ovário) se rompeu. Ela foi internada com urgência, operada em sua cidade mesmo.

Os olhos azuis daquela linda mulher de 48 anos carregam as dores dessa doença maligna. As cirurgias levaram seus ovários, útero, parte de outros órgãos, como intestino. Hoje, ela não tem mais as dores da endometriose. Fez reposição hormonal. Está com osteoporose, artrite e artrose.

Eu estava quase sendo chamada para o exame. Contei-lhe rapidamente como havia superado a dor, como os focos diminuíram com a mudança de estilo de vida. Contei-lhe sobre meu tratamento fitoterápico, sobre a importância da vitamina D, de tomar sol. Ela não tem mais endometriose, mas ainda há muito o que enfrentar. Gostaria que ela acreditasse, que tantas mulheres que estão sofrendo como ela sofreu, como eu sofri, soubessem que é possível vencer essa doença sem tratamentos hormonais agressivos e cirurgias caras.

Olhou-me com seus olhos azuis tristes e expressivos, disse-me que os médicos lhe falaram que a endometriose estava relacionada com seu estado emocional. Quando a medicina não cura, culpabiliza. Quantas vezes ouvi me falaram isso diante de uma doença sem respostas. Parece um jogo de caça às bruxas, um tabuleiro medieval, em pleno território da ciência. Se o tratamento não deu certo, a mente da mulher é a responsável. Se a doença é um mistério, a mente da mulher é a responsável. Se a dor é insuportável, a mente da mulher é quem a fabrica. Aquela mulher acreditava no que ainda teve que pagar para ouvir. Em uma das consultas que fui, uma médica me disse que mais de 90% das doenças começam na mente. Há tantas afirmações sem qualquer traço de reflexão.

É com a mente que desacreditamos daqueles que culpabilizam sem conhecer, culpabilizam para se proteger, mesmo que estejam cobertos de títulos e de intenções religiosas. É com a mente que decidimos procurar médicos que nos conduzam à cura, em parceria. Médicos que celebrem a liberdade. Se escuto e me calo, se escuto e internalizo, adoeço. A mente do outro toma conta da minha.

Chamaram-me para o exame. No pouco tempo que me restava, disse que todos temos nossos desafios emocionais, mas que se o corpo estiver fortalecido fisicamente, com a alimentação nutritiva e exercícios físicos, estaremos em melhores condições de vencer a doença, um meio ambiente contaminado, de rejeitar um conselho bem intencionado de gente que não reflete sobre o que lê, crê ou diz. Uma vida saudável nos ajuda a vencer a endometriose ou outra doença, ainda que chorando e se sentindo quebrada emocionalmente, como muitas vezes me senti e me sinto. Somos todos quebrados, nem por isso estamos sentenciados a uma vida de dores.

Ontem, fiz o melhor exame de minha vida. Tudo está bem, graças ao Pai. Ontem, eu vi a matemática da vida em mim. Feito oito sequencial, ela era mais do que o mapa que eu desenhei em sonhos, era o próprio Infinito. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Endometriose e crise financeira



17 de maio de 2013

A endometriose é uma grande crise que se abate contra o corpo, mas não apenas a saúde física é afetada. As ameaças da dor e da infertilidade nos colocam diante de uma crise com muitas implicações e desafios. O tratamento é caro. Os grandes especialistas custam fortunas.

Tenho dois planos de saúde. Mas os médicos que atendem por eles não foram capazes de reconhecer a doença no meu corpo, muito menos apontar as causas ou oferecer tratamentos. Sem diagnóstico, como se tratar? Sem conhecer a lei da saúde transgredida, como é possível encontrar a cura? Por um bom tempo, não houve doença, nem transgressão, muito menos cura. Por último, como ato derradeiro, fui diagnosticada erroneamente com câncer.

Eu precisava de um especialista, custasse o que custasse. Custou caro, mas tive o diagnóstico. Endometriose profunda, com focos espalhados na cavidade abdominal, focos no intestino, um novo endometrioma no ovário esquerdo. O olhar acurado dos médicos me custou, à época, uns 10 mil reais, entre exames e consultas particulares. Mas, finalmente, eu tinha a cartografia da doença que se espalhava dentro de mim. Contudo, saber que há algo errado e identificar esse erro é apenas o primeiro passo, um espelho do reverso. Eu precisava de tratamento, precisava de algo que ainda desconhecia.

Se não encontrei diagnóstico com os médicos do convênio, também não encontraria tratamento. Se encontrei diagnóstico com os médicos especialistas, com eles eu encontraria o caminho da cura? Após uma crise de dor aguda, que me fez desmaiar, eu liguei para o celular de meu médico. Ele me atendeu prontamente. Por telefone disse: “você vai ter que ser operada.” Pessoalmente, me falou da técnica e dos valores. Haveria uma equipe multidisciplinar, retirariam um segmento do intestino, havia o risco de eu ficar por algum tempo ou permanentemente colostomizada, com uma bolsinha externa para coletar as fezes. Perderia parte de um ou outro órgão. No hospital mais em conta, em que o médico aceitaria fazer a cirurgia junto com sua equipe, o custo seria de uns 30 mil reais. Hoje, esse valor está bem mais alto. Em meio às terríveis dores, perguntei: “se operar, estarei livre da doença?” Respondeu: “não podemos garantir isso.” Ninguém pode. Não há cirurgia curativa, os focos podem voltar. Esse profissional falou a verdade. Mas ainda que não houvesse cura, que alternativa eu tinha? A dor nos faz morrer em vida. Sob tortura, se há dinheiro, o dinheiro é de menos. Damos aos médicos tudo aquilo que temos, porque aquilo que somos está desvanecendo.

Fechei a dor dentro de mim. Com esforço, pensei. Poderíamos com muita dificuldade pagar pela cirurgia, mas quando a endometriose voltasse, como eu pagaria pela segunda e terceira? Se eu não pagasse o preço, aquele médico, que me atendia tão prontamente ao celular e me recebia por umas duas horas nas consultas em seu consultório, não seria mais meu médico. Ele era meu na medida em que eu pagava o valor. E quando já houvesse dado tudo que tinha? Ainda que não cessasse de pagar, a cura não poderia ser comprada. Dinheiro nenhum no mundo compra a cura de uma doença sem cura.

Havia, contudo, certa esperança. O entra e sai em consultórios de especialistas, sempre ligados a técnicas de fertilização in vitro (FVI), deixava bem claro o que os médicos não ousavam dizer abertamente, mas sugeriam sempre, aqui e ali, às vezes de forma sufocantemente ostensiva: “engravidar cura a endometriose.” Sabemos que nem sempre isso acontece, sabemos que há quem engravide para se curar, há quem vende a gravidez com o argumento da cura. No meu caso, primeiro seria feita a cirurgia. Depois, a FIV, com preço de ouro. Como contestar o preço de um filho?

A mulher tem que estar bem de saúde para engravidar ou tem que engravidar para ficar bem?
 
A dor, como o vinho, queria calar a mente. A saída mais fácil, ainda seria difícil. Foi nesse momento que decidi mudar meu estilo de vida e tentar alterar as causas da doença. As dezenas de teorias sobre a causa da endometriose apenas podiam me dizer uma coisa: o organismo não está funcionando bem. Como fazê-lo funcionar com saúde? Nós somos o que comemos, bebemos e respiramos. A química do corpo não é mágica, segue uma lei, como tudo nessa vida, ainda que não acreditemos em leis e tenhamos espedaçados os mandamentos. Passei a estudar sobre como o corpo se nutre, como o exercício físico nutre o corpo, como estamos intimamente ligados ao sol, à água, ao ar que respiramos, à forma como respiramos. Procurei remédios fitoterápicos, para uma situação em que a dor, o emagrecimento e as doenças autoimunes me consumiam. Mudei minha relação com o trabalho e com as emoções. Eu orei a Deus.

Compreendemos que a escolha do mais simples nos ajudaria a priorizar o que realmente nos mostrava ser o mais importante. Decidimos não entrar em dívidas. Optei por trabalhar menos, ganhar menos, mas ganhar mais. Temos o que podemos pagar. A saúde física também depende da saúde financeira. Desacelerei e minhas ações valorizaram, ainda que esse lucro seja o valor do avesso. O organismo vai bem. Uma vida pautada pelo consumo consome a própria vida. 

Meu tratamento teve o custo da mudança. Esse custo é alto. Dizem que comprar alimentos saudáveis, como castanhas e frutas, encarece o orçamento. Mas o custo não é alto por causa disso, pois é possível ter uma vida saudável com criatividade acessível. Falo do custo de alterar uma vida inteira de hábitos e formas de pensar, de tradições e pressões familiares e sociais. Falo do nosso enraizamento. É como metástase social que faz duvidar, nos joga para o caminho de todos, obscurece a visão coletiva. O custo é alto, porque conhecer a lei lança a responsabilidade sobre nós e a paz vem como espada, mas o caminho é suave, a vida cresce e nasce. Não há nada mais belo.

Estou há cinco anos sem nenhuma cirurgia, sem o uso de remédios ou hormônios. Nunca mais tive um episódio de dor. Tive no passado, mas agora não tenho dor na relação sexual. Os focos de endometriose diminuíram (Veja as imagens de meus exames do ovário, em três etapas. Os links estão no texto Transformação). Tenho endometriose profunda, mas estou curada.

Quem acompanha o noticiário sabe que a crise financeira de 2008 prossegue. Na Europa, a situação está cada vez pior. Um dos grandes sustentáculos, a Alemanha, está sentindo fortemente a crise. O que dizer do Brasil cujo crescimento está baseado no endividamento das famílias? Nesse cenário, a endometriose se agiganta. Pensar a endometriose é também pensar as finanças, em todas as suas implicações. Optar por um ou outro tratamento, escolher um ou outro estilo de vida, é fazer escolhas que nos empobrecerão ou nos fortalecerão no que diz respeito às finanças pessoais, às células e ao sangue.

A economia do corpo não é assunto de menor importância.

A Colheita



17 de maio de 2013

Plantei proteína. Feijões de diferentes cores e sabores. Brotaram. Chegou o tempo da primeira colheita. Estou colhendo proteínas a conta-gotas. Hoje, vou cozinhá-las e misturá-las com a sopa de abóbora e quinoa. Nutriente vivo do solo da primeira colheita orgânica.


Estamos colhendo abacates de duas espécies de árvores plantadas há 20 anos pela antiga proprietária da chácara. Como um abacate médio ou pequeno (avocado) por dia, pois fornece ácido fólico e vitamina E, entre outros nutrientes essenciais para enfrentar a endometriose, engravidar ou manter a gravidez. Abacates não engordam.


Todos os dias tomo um ou dois copos de suco de laranjas ou poncãs colhidas das árvores daqui. Misturo com duas colheres de chia. Vitamina C, ácido fólico, além de todos os benefícios da chia, um super alimento.





sábado, 4 de maio de 2013

O livro da vida



4 de maio de 2013



Esses dias, eu tive um sonho. Estava folheando um livro encadernado com folhas brancas de papel coche. Era um livro com ilustrações do ovário, não de uma fisiologia convencional nem de imagens inertes e frias ultrassonografadas. De um lado, havia um tampão tão branco quanto a página. Um nada. Do outro, quatro hastes de uma planta com flores e pequenos frutos no topo. Eu apreciava a página das quatro hastes como se aprecia o livro da vida.


Não acredito em sentidos místicos de sonhos, nem sou tentada a buscar no oráculo on-line interpretações para símbolos diversos que me clarifiquem o amanhã. O futuro a Deus pertence, e só. Os sonhos são tão-somente a releitura do vivido com toques curiosos de um realismo fantástico que o subconsciente exibe, um cinema artesanal que nasce dentro de nós à luz da lua.

Pois à luz do dia, eu havia dirigido o olhar para aquilo que depois se fez filme à noite. Quase todos os dias de manhã, eu rego uma jardineira. Nela, plantei sementes de morango silvestre, mas nasceram várias plantinhas diferentes, e duas hastes verticalmente firmes e esguias que pareciam que se tornariam mudas de árvores. Quando alcançaram uns 15 cm, pararam de crescer, produziram flores doces e agora estão surgindo vagarosamente pequenos frutos, nos quais diariamente assisto encafifada e ansiosa à transformação. Em que se tornarão? Seriam, por acaso, pés de uma berinjela exótica que vi no catálogo, cuja semente é semelhante a dos morangos? Teria a fornecedora agrícola se confundido com as sementes? Aquilo que você semear, colherá, mas eu não sei o que semeei, nem sei se um dia haverá colheita. Eram essas hastes que vi no ovário no livro.

Como de costume, no mesmo dia, antes de regar as moringas, os ramos de feijões, vagens e ervilhas, as duas pequenas árvores de cereja que plantei e a jardineira, li as primeiras notícias do dia. Leio Folha de S.Paulo (FSP) invariavelmente, depois outros jornais. É um hábito antigo. Era o jornal que meu pai trazia para casa diariamente, foi a escola onde aprendi a ler antes da escola. Nesse dia, na compactada editoria de saúde, havia uma notícia sobre a resposta da indústria farmacêutica à desistência precoce de mulheres de métodos para engravidar devido ao incômodo e à dor desencadeados pelas sete injeções em horários programados. A nova droga propagandeada substitui as sete injeções por uma dose única que promete aumentar, talvez garantir, a adesão ao tratamento. Ao ler o texto, comecei a pensar no ovário.

A FIV utiliza, em regra geral, indutores de ovulação, entre outras drogas. Pode-se usar, em comprimidos, apenas indutores. O indutor de ovulação obriga, não induz, o ovário a ovular (ou ovocitar). A droga obriga, mas não induz, o ovário a liberar mais de um óvulo (ou ovócito) por vez. Com mais óvulos à disposição, aumenta-se a chance de que um ou mais espermatozoides atinjam seu objetivo. Matematicamente, os indutores aumentam a probabilidade de gravidez. Com a dose única, carregada das sete injeções, o efeito promete ser concentrado, potencializado, instantâneo, com mãos de ferro, pois o tempo urge, por isso é preciso vencê-lo antes que nos vença. Óvulos liberados no ritmo em que as plantas levam para crescer, florescer e frutificar não são óvulos viáveis. A sinfonia precisa ser substituída por tambores. É preciso apressar a colheita, numa euforia oposta ao que o texto judaico diz sobre a seiva e o seu tempo.

Indutor não induz, obriga. Não há como o ovário pular do livro e escrever outra história, ele está preso na tela. Ele está dentro do enredo que escrevemos ou aceitamos que outros escrevam. A torrente de hormônios dita o ritmo de trabalho. Ele trabalha, ele se exaure. Da exaustão colocada sobre ele, imposta por uma ou sete picadas, pode surgir um filho, pode não surgir, podem surgir outras coisas. O tempo violado deixa suas marcas.

A atriz da Globo Christiana Guinle se submeteu a sete FIVs em menos de dois anos. O excesso de hormônios a levou à beira da morte. "Na hora, você quer tanto ser mãe, que nem se dá conta de que está morrendo por causa do excesso de hormônios. Eu não queria desistir, queria ser forte, queria ser mãe, e meu médico me incentivava, dizia que era normal", revelou a atriz (Veja aqui). "As pessoas têm que tomar muito cuidado. Sei que não fui a única que passei por isso e sofri muito, quase morri de fato, após tantas tentativas sucessivas. Não há organismo que aguente. Meus triglicerídios chegaram a 1850 e meu fígado aumentou 10 centímetros. Me sinto uma vitoriosa por estar voltando [...]. Fiquei mal quando pensei que talvez não pudesse voltar...", revela (Veja aqui).

Indutor induz obrigando, mas não produz. É um mercantilismo biológico, em que o mais importante não é produzir, mas comercializar. E o comércio invade o templo que somos. A droga nos comercializa diminuindo mais rapidamente, a cada tentativa, a reserva de óvulos. A natureza os libera delicadamente, a droga esgota com intrepidez, cuja velocidade furiosa tem consequências que já foram documentadas o suficiente pela própria ciência para nos alertar e nos fazer tremer. A notícia da FSP "Nova droga reduz injeções para fertilização" traz o depoimento de um médico sobre a nova injeção de dose única: "O ginecologista Eduardo Motta, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), faz ponderação semelhante. 'Precisamos ter cuidado. Se houver uma hiperresposta do ovário, não será possível revertê-la porque a medicação estará agindo por seis ou sete dias'", diz ele (Veja aqui). O que isso significa? O médico se refere ao risco de a mulher apresentar Síndrome de Hiperestimulação Ovariana, uma efeito colateral do indutor potencialmente grave que causa, entre outros sintomas, nos casos mais intensos, hemorragias intracranianas, derrames, hemorragia no pericárdio, insuficiência renal. Nesses casos, a mulher precisa ser hospitalizada na UTI. Cerca de 20 a 25% das mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida apresentam as formas mais leves da síndrome, que podem incluir distensão abdominal, náuseas, vômitos, aumento do ovário (Veja aqui). Qual será a estatística envolvida com a nova droga? O que o médico está querendo dizer quando falou que "não será possível" reverter esse efeito perigoso de hiperestimulação? O que acontecerá com a mulher? 


No Google Academics você pode encontrar pesquisas sobre a FIV e indutores. A bula do indutor Clomid, por exemplo, nos informa que os efeitos colaterais podem incluir neoplasia, aumento do ovário, hiperestimulação ovariana, entre outros efeitos. Sobre a endometriose, a bula afirma: "CLOMID não deve ser administrado na presença de cistos ovarianos (incluindo endometriose ovárica), pois pode produzir aumento adicional do tamanho dos mesmos" (Leia a bula
). Não é raro encontrar mulheres que foram diagnosticadas com endometriose após usar indutores, mas que são levadas a crer que já tinham endometriose antes. Será? Se tinham, qual é precisamente a interação entre a droga e a endometriose? Sabemos que além da ovulação, a droga pode também induzir a velocidade de propagação da endo. Por quanto tempo a droga continua ressoando no organismo após o seu uso?


Se eu tivesse sido alfabetizada no livro da vida antes, talvez teria cuidado melhor do meu ovário direito que perdi, teria respeitado meu corpo, meu ovário esquerdo que resiste e está melhor agora. Mas não sabia ler meu organismo, nem apreciar sua beleza, nem respeitar suas leis. Não sabia ou desaprendi. Aquele ovário era quase um órgão vestigial, se é que órgãos vestigiais existem. Não conheci o tempo da sua visitação. Ele me constituía, mas era como se eu não fosse ele. Não me exercitava, comia o que não alimenta o corpo, engolia as drogas lícitas para não conceber, não cuidava das minhas emoções, não valorizava o poder curativo do sol, da água, do ar, não acreditava que algo recebido de graça pudesse ser determinante. A graça não me tocava. No mundo mercantilizado, quem valoriza o que é de graça? Em uma realidade altamente midiática e imagética, quem acredita no que não vê, ainda que se leve por dentro ou que o tenha gerado? Anônimos não existem. Quando recebi o diagnóstico de câncer que se demonstrou ser uma endometriose profunda, não pensei sequer um segundo em manter o ovário e retirar o cisto de 15 cm. "Tira." O desaparecimento não incomodou, mal foi notado, eu o extirpara antes, a incisão cirúrgica fez o que eu já havia feito. E ainda perguntei à médica: "Você acha que seria prudente tirar o segundo ovário também"? Eles eram o problema, mas era exatamente o contrário: eu os havia perdido muito antes deles se perderem. Eu não aprendera a amar, como a mim mesma, o outro que me constituiu. O outro sou eu. Não me amava e me desconhecia. 


Somos livres para impor aquilo que quisermos ao nosso corpo, a única coisa que defendo é que todas as mulheres, todos os candidatos a pais, tenham o direito de conhecer as implicações do exercício dessa liberdade. Cientes dos riscos, conhecedoras do nosso corpo, seremos donas em potencial do nosso destino, nunca jamais as donas por completo. A vida é mais do que a exatidão matemática, ela está acima de números e valores, desconhece a sede de poder. A vida é sagrada. A vida não está em nós. Se queremos que ela surja de uma forma ou outra, temos todo o direito de escolher, ainda que a escolha possa resultar em desfechos sem escolhas, mas que essa decisão seja tomada com o conhecimento dos prós e contras descritos pelas pesquisas científicas da área médica, descritos pela história viva de mulheres que nos cercam, ouçamo-las. 

Sinto pelas mulheres que, sem informações suficientes, sem serem levadas a olhar de outra forma, tiraram o que lhes era caro – seus órgãos – por acreditarem, como eu acreditei, que eles as faziam adoecer, quando talvez estivesse ocorrendo exatamente o contrário, quando poderiam recuperá-los, recuperando-se. Essa mulher fui eu. Esses dias eu recebi pelo blog um comentário que dizia que eu não precisaria ter tirado meu ovário direito, poderia ter tentado outras formas de preservá-lo, um médico especialista também havia me dito isso. Senti uma dor pulsando fortemente e lamentei pelo que foi feito, pelo que fiz. Publiquei o que ela me disse. Essa leitora tem razão, havia outros caminhos, um deles eu descobri agora com a mudança de estilo de vida. Mas que aquele comentário chegue a muitas outras mulheres e as ajudem a tempo. Sinto pelas que fizeram FVI sem serem informadas suficientemente dos efeitos colaterais. Sinto por Guinle. Sinto por nós. 



Não acho que a FVI ou a indução artificial da gestação sejam proibitivas por razões religiosas. A decisão de seguir por esse caminho é legítima e pode resultar sim em crianças muito amadas, ainda que as implicações ultrapassem a questão da saúde em si e entre em um campo ético bastante controverso, basta considerar as atrocidades cometidas pelo "Dr." Roger Abdelmassih (Veja).

Eu decidi não usar indutores, nem fazer FIV, mas que a todas as mulheres que decidam seguir por outro caminho sejam disponibilizadas as informações necessárias para tomar sua decisão, pois a ciência ainda não nos ensinou como recuperar a página em branco. Que esse método seja oferecido gratuitamente às mulheres que não podem pagar por ele e que todas elas tenham o direito de escolher se querem fazê-lo ou não, depois de terem sido bem informadas. Que o resultado desse método na prática dos consultórios, principalmente na prática médica de centros de saúde públicos ou de consultórios de médicos ligados à pesquisa pública, seja amplamente conhecido estatisticamente, incluindo a investigação dos efeitos colaterais indicados na bula. Que as evidências clínicas e científicas sejam publicizadas e tenhamos acesso integral a elas. Que essa indústria lucrativa seja energicamente fiscalizada pelos órgãos competentes. Que a vida valha mais do que o dinheiro. Que histórias como a da atriz Christiana Guinle sejam conhecidas nos consultórios e compartilhadas pelos próprios médicos com sua pacientes. Que os médicos que sugerem não tentar uma FIV, depois de uma avaliação cuidadosa da saúde da mulher, sejam respeitados, ainda que se discordem deles. Que as meninas na infância sejam ensinadas, no espelho em que começam a se reconhecer, a amar aquilo que veem e o que não podem ver, mas lhes dá a vida.


Que a nossa concepção do livro da vida inclua as páginas de uma fertilidade em estado de imensidão. O resultado poderá ser um filho gerado em nós, um filho que trouxemos para ser nosso, um projeto em prol do outro que nos estimule a continuar a viver não apenas porque nascemos e aqui estamos, mas a viver em estado de graça, ajudando a ilustrar com verdade e delicadeza o livro de nosso semelhante, mesmo que a figueira não dê seu fruto, a vide não floresça. A vida ainda é bela, como uma floresta de coníferas. Ela se refaz.







domingo, 21 de abril de 2013

Cálice de vinho


21 de abril de 2013

O consumo de álcool tem relação com a endometriose. No texto Dieta Antiestrogênica, o autor menciona que o álcool aumenta o estrógeno no corpo. Mais álcool, mais estrógeno, mais endometriose. A via não é única. A bebida alcoólica debilita o organismo de outras formas.  Mas o que dizer de um cálice de vinho diário?  

O álcool me assusta desde a infância. Minha avó ficou viúva cedo, e a ausência do marido, diziam, a fez adoecer do mal que rondava a família. A aposentadoria do marido, funcionário público, e seu emprego de enfermeira-chefe lhe davam condições financeiras suficientes para viajar, conhecer lugares e pessoas. Mas imperceptivelmente, no decorrer dos anos, ela adoecia. Irmãos, sobrinhos, primos sucumbiram à bebida. Beberam até morrer e morreram de cirrose, choque decorrente da ingestão de bebida alcoólica com remédios, carência crônica de vitamina B12, suicídio alcoólico, etc. Um bebeu porque havia lutado na Segunda Guerra e queria fugir dos demônios alojados na memória. Outro, dizia-se, se desgostara com a mesmice da atividade no cartório e fora traído pela mulher. A irmã de minha avó morava em frente à praia e bebia apreciando o mar. Morreu trancafiada em um hospital. Com 13 anos, em um dia marcante pra mim, minha avó morreu também. Estava aposentada, era considerada a rainha da alegria nas viagens em grupo, mas confidenciava a poucos que sofria de profunda solidão. Em um domingo, já bêbada, com apenas 63 anos, tomou seus remédios. Não resistiu.

Minha mãe foi a primeira da família a dizer não ao álcool. “Nenhuma gota de álcool”, diz a pequena mulher que conhece a violência dessas chamas. Ela se tornou cristã de uma maneira diferente. Liberdade. Minha tia, há alguns anos, caiu na sina da família e começou a beber. Parou recentemente, após o neto receber alta da UTI. A mãe bebera e fumara a gravidez inteira, o bebê nasceu fraquinho, teve de ser internado. A avó fez voto por ele, diz agora que não volta a beber. Mas meus primos, engenheiros bem colocados no mercado, bebem. Estão a alguns passos do alcoolismo fatal. A bebida é uma cultura, um legado de sangue. Escolhi o legado de minha mãe.

A história de alcoolismo na família se deu da porta pra dentro. Sem violência, sem alarde. Quando bêbados, poderiam estampar as propagandas de cerveja. Eram leves. A história só vinha à tona quando se tornava incontrolável e o fim estava próximo. E sempre, a despeito da falsa alegação do controle, o álcool fez de todos eles pessoas destituídas. O jugo era pesado, o vinho os sepultou. Histórias semelhantes estão por toda parte, muitas entre paredes. Recentemente, uma professora de universidade pública me contou que a mãe era alcoólatra.  Morreu por causa do vício. Quando morei em Curitiba, conheci uma jovem pesquisadora da área de Farmácia na Universidade Federal do Paraná. Ela fez seu mestrado sobre tratamento farmacológico para alcoólatras. O pai, um rico fazendeiro paranaense, bebia. Mais tarde ela me contou que seus conhecimentos adquiridos no mestrado não foram suficientes para ajudar seu pai, mas ela descobrira a novidade de vida. Após anos de desespero, a família viu acontecer o improvável: o pai deixou de beber, reconhecera a Cristo.

Nunca presenciei nenhum ato de violência por causa do álcool. Na família, o álcool atingiu os mais velhos, depois de anos de ingestão diária em contexto social. Eram bêbados sociais que se desintegraram. Carregavam no peito a desesperança que dinheiro algum resolve. Só agora, com meus primos, é que os pequenos meninos têm a desgraça de ver os pais embebedados. Ainda que bebam e riam, é muito triste. A ladeira vai se tornando íngreme e sinuosa, serpenteando-se.

Na última semana, mais uma vez foi noticiado que o consumo de álcool entre mulheres tem aumentado. No ano passado, fizeram uma pesquisa com mulheres paulistanas. As com maior grau de instrução bebem mais para “aliviar as pressões” diante das cobranças sociais e dos múltiplos papéis que precisamos desempenhar. Bebem para esquecer, diferentemente dos homens com maior grau de instrução que geralmente reconhecem, segundo a pesquisa, os riscos da ingestão alcoólica. Do ponto de vista bioquímico, a mulher está em desvantagem em relação ao homem. A bebida no corpo feminino é mais agressiva, pois a atuação enzimática do organismo é mais lenta, tornando-a mais vulnerável aos efeitos do álcool (Pesquisa publicada na revista Clinics).

Qual a relação entre álcool e endometriose?

Mulheres que têm endometriose tendem a consumir mais álcool (Vejas as pesquisas: 1 e 2), o álcool também está relacionado à infertilidade (Veja). De acordo, com pesquisa citada por cientistas brasileiros o consumo de álcool e a baixa atividade física estão entre as causas de endometriose (Veja).

Embora haja pesquisadores e profissionais médicos que não deem importância para a relação entre álcool e endometriose, pesquisas científicas apontam que problemas ginecológicos se manifestam, principalmente, em mulheres que consomem álcool. De acordo com pesquisadores da Universidade de Medicina de New Jersey, “gynecological problems of endometriosis may be a major medical correlative of alcoholism in women” (Veja).

Apesar do resultado dos estudos citados acima, é comum que a mídia divulgue outras pesquisas que apontam como positivo a ingestão diária de álcool, desde que em baixas doses. Segundo o médico Dráuzio Varella, o consumo moderado de álcool é benéfico para o coração, “mas nenhum outro efeito benéfico do álcool para a saúde foi demonstrado até hoje” (Veja). O álcool ajudaria a evitar ataques cardíacos porque aumenta o colesterol bom (HDL) e deixa o sangue menos coagulável.

Sabendo que qualquer dose de álcool aumenta o estrogênio no corpo, como obter os propagados benefícios do vinho, por exemplo? A substância benéfica está na uva – o resveratrol, os polifenóis – e não no álcool. Os polifenóis, substâncias anti-câncer, antienvelhecimento, que combatem doenças cardiovasculares, são encontrados no vinho porque estão contidos naturalmente na uva, não no álcool. Embora haja alguma controvérsia sobre uma diferença mínima de um suposto benefício isolado com o efeito do etanol contra a oxidação de princípios ativos da uva no vinho, outras pesquisas apontam que o potencial antioxidante do suco de uva é igual ou superior ao do vinho, principalmente se for vinho branco (Veja pesquisas que comparam o suco de uva ao vinho: 1, 2 e 3). Por isso, se desejamos evitar os riscos que o álcool nos expõe, podemos substituir o vinho por uva ou suco de uvas, sem o risco de aumentar o estrogênio no organismo. Se queremos combater o LDL e aumentar o HDL, podemos ingerir nozes, abacate e outros alimentos que não incluem no pacote os riscos à saúde e nos beneficiam com múltiplos nutrientes. Se desejamos evitar os coágulos, podemos fazer uso do alho, levedo de cerveja, limão, cebola, entre outros alimentos, igualmente ricos em vitaminas e princípios medicinais ativos. Antes de fazer a mudança de estilo de vida, eu estava com o colesterol alto. Há cinco anos, tudo está normal.

Apesar de aumentar o estrogênio, que outra objeção haveria para o hábito de beber moderadamente ou tomar um cálice de vinho por dia?  Apenas pequenas doses podem desencadear um desejo químico por álcool. A história de minha família é para mim a maior evidência. O vício em álcool está ligado à dopamina, o hormônio do prazer. O álcool libera dopamina. A novidade, de acordo com pesquisas científicas, é que apenas a degustação do álcool, um leve sabor de cerveja na boca, é suficiente para liberar a dopamina. Em pessoas que não bebem, mas têm um histórico familiar de bebida, a liberação de dopamina com a mera degustação do álcool é quatro vezes maior. A liberação de dopamina provocada pelo álcool não nos condicionada necessariamente ao vício, mas nos predispõe ao vício. De acordo com a revista Time, o lema dos Alcoólatras Anônimos agora tem comprovação científica: “É com o primeiro drink que você se torna um bêbado.” (Veja aqui).

Ainda que minha história familiar seja triste, eu tenha conhecido histórias trágicas entre círculos fechados, histórias de liberdade entre os que escolheram a abstinência ou venceram o vício, as pesquisas me convençam a ponto de não haver em minha vida lugar para goles ocasionais, o que considero decisivo para rejeitar o álcool é a importância da consciência. Não quero escapar da realidade, ainda que ela seja muito difícil por vezes. Não quero amortecer minha mente nem a conta-gotas. Eu vivo uma esperança. O ópio em líquido não redimensiona minha história, nem lhe dá saúde, tira minha saúde, desencadeia tantas mortes violentas no mundo, mata aos poucos a consciência de muitos, enriquece uma indústria ávida pela cultura da bebida, é metáfora do mal que cega, fez se perder a quem amei, não me ajuda a encontrar outros trajetos. Digo não ao álcool não porque ele está relacionado à endometriose ou à infertilidade, mas porque quando ele funciona, eu me subtraio e deixo só a quem me espera, bebo porque sou livre e me torno menos livre, calo-me, mas as dores não me deixam.

Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.