sexta-feira, 2 de abril de 2021

A Quem Temerei?

 2 de abril de 2021

Edição em inglês

Um longo inverno se abateu sobre nós. Estamos no segundo ano de uma guerra jamais experimentada pela nossa geração que repercute nas finanças, na família, no corpo. A morte de queridos, de sonhos, de realidades alcança a quase todos, somando-se a problemas antigos, tais como doenças e luta pela sobrevivência. O mundo que temos agora faz sentir saudades do mundo que desapareceu. Já não somos os mesmos.   

No transcorrer de duas guerras mundiais, seguidas por um governo comunista, o mundo de Mara se desfez, entre vários acontecimentos –  morte, perseguição, confiscação de bens, nascimento e educação dos filhos, novo casamento, novos desafios. Com descrições minuciosas que permitem observar atentos os cenários ora bucólicos, ora bélicos, de um país desconhecido e longínquo – a Sérvia na primeira metade do século 20 –, o livro “A Quem Temerei” nos fortalece para o enfrentamento de nossos próprios invernos seja aqui no Brasil ou em outro país, seja para este tempo ou qualquer época. Mara é todas nós – mulheres diferentes de um mundo só –  ou tudo que cada uma de nós pode ser ao estender as mãos na mesma direção para qual a mulher sérvia de olhos azuis olha. Para onde Mara está olhando? Para quem Mara estende as mãos?

Embora narrado em cenários de guerras, o livro é belo, capta a atenção do começo ao fim, e me fez sorrir em muitos momentos. Há uma leveza inexplicável naquela narrativa séria, penso, ao me dar conta de quanto o enredo me marcou. Quem conta a incrível história de Mara, é Ann Vitorovich, escritora premiada, nascida e criada em Nova York. O livro é envolvente, forte, verdadeiro, terapêutico – suas páginas compartilham generosamente, com narrativa primorosa, um segredo. Como vencer os medos, sem negar a realidade, e triunfar pacificamente em um mundo em guerra?

Eu queria ser Mara ou Ann, porque tanto a mulher biografada quanto sua biógrafa – as duas compartilham o mesmo sobrenome Vitorovich – têm uma característica marcante: força de luta. São mulheres delicadas, inteligentes, altruístas e, sobretudo, destemidas. Quando a mensagem é urgente, elas não temem em recebê-la ainda que a vida esteja sob ameaça. Mas ao receberem a mensagem, em vez de perderem a vida, elas recebem vida – por amor de Mim, quem perdê-la, achá-la-á (Mateus 16:25). A partir daí, o exército de estrelas que descende delas, seja por meio de laços de sangue ou pelos leitores, é a prova de que a maior riqueza de uma mulher está na sua capacidade de escolher o caminho certo, munida de coragem que não vem dela mesma. Que caminho é esse? É transcultural, é atemporal.

Mara Vitorovich pode ser eu; ela pode ser você.

A leitura do livro poderá elucidar o caminho mais do que qualquer outra explicação adicional, pois despertou meus sentidos mais do que minhas razões. Moveu minha alma para um lugar seguro, um refúgio em pedra, sustentando-me em tempos difíceis, a exemplo do que uma boa amiga pode fazer pela outra. Há livros mais chegados que irmãos. E poderá fazer isso por você também, por isso escrevo sobre minhas impressões acerca dessa obra belíssima e verdadeira.

Deixo com vocês o lema de Mara: “Sve ce proci a Gospod ce doci” (Tudo passará, e o Senhor virá”). Reproduzo a seguir um episódio pelo qual Mara passou, ao lado de suas crianças, quando soldados nazistas chegaram para destruir as casas de Glusci, a vila rural onde morava.

“Lá fora, o rumor aumentava, como de um trovão que precede uma tempestade. O fragor de rodas rangia na rua cascalhenta. Motores roncavam sem silenciadores, para aumentar o barulho e lançar terror no coração. No entanto, Mara não estava com medo. Seus filhos confiavam nela. Ela possuía coragem por todos eles. Ela continuou a orar [...]. Logo o terrível ruído chegou mais perto e abafou suas vozes, de modo que eles não conseguiam se ouvir acima do estrondo. As grossas paredes de tijolos da casa começaram a tremer. As portas chacoalhavam em suas dobradiças. As janelas corrediças e venezianas trepidavam num ritmo nervoso. Quando o nível do barulho indicou a chegada do primeiro blindado, Mara puxou os filhos para o chão e se deitou ao lado deles. Eles estenderam o corpo tão rente ao chão quanto possível, com o rosto para baixo, os braços juntos a cabeça e as mãos fechadas sobre os ouvidos para abafar o ruído ensurdecedor. Por um momento, ela estremeceu. O barulho foi terrível. Então, uma calma a inundou quando ela se lembrou das promessas bíblicas.” (VITOROVICH, Ann A Quem Temerei. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016. P. 120-121.).  

Talvez, Glusci seja aqui, neste momento triste, e a resistência de Mara nos faz lembrar que há algo maior e mais seguro ao alcance de todas nós.  

 



Edição em português.




2 comentários:

  1. Obrigada por estas palavras, Henrianne. Em dias de tanto medo, elas nos ajudam a olhar na direção certa: sempre para cima.

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    1. São palavras do livro gasto de Mara.

      "Ela [Mara] voltou com um livro preto de aparência gasta, com pedaços de papel aparecendo dentre suas páginas marcadas com dobras.
      "-- Um rei escreveu estas palavras - continuou ela folheando as páginas como se não tivesse havido interrupção (...)". A Quem Temerei. p. 137.

      Obrigada por falar.

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