quinta-feira, 30 de maio de 2013

Na sala de espera


30 de maio de 2013

No oitavo andar, na sala 81, esperava para fazer um exame de 180 reais. Em mãos, tinha o resultado de outro exame: 1888. Não sou numeróloga, não consulto previsões, nem zodíaco, nem coisa parecida. O futuro a Deus pertence, e só. Na sala pequena de espera, que volta e meia era invadida por um cheiro de fumaça de cigarro, eu e meu marido tentávamos nos concentrar em algo que nos fizéssemos esquecer temporariamente aquela situação desconfortável e insalubre. Por isso, ríamos dos números. O exame estava marcado para as 10h30, mas fomos atendidos perto do 12h. Mais tarde, na consulta, o médico me perguntou quando eu havia sido operada: 8/8/2008. O dia do ∞. 

Conheci uma mulher ali naquela sala. Ela viajara muitos quilômetros para ser atendida em um centro de referência. Contou-me a sua história. Com 20 poucos anos, sentia dores insuportáveis. Sem diagnóstico, foi medicada com Lexotan. Após quase uma década de sofrimento, ouvindo os médicos lhe dizerem que sua dor era de “fundo psicológico”, ela conheceu uma associação sobre endometriose, começou a receber informativos e marcou uma consulta com um médico especialista em Campinas. Na primeira consulta, ele disse que suas dores que já duravam quase o mês todo eram provenientes da endometriose profunda.

Com o diagnóstico em mãos, os desafios só começaram. O médico lhe ofereceu uma cirurgia com equipe multidisciplinar. Para fazê-la, ela vendeu o carro. Após a cirurgia, pagou por um tratamento com injeções importadas durante seis meses. Após mais seis meses, a endometriose se alastrara novamente. As dores terríveis voltaram. Ela estava andando na rua, quando caiu. Um endometrioma (cisto de endometriose no ovário) se rompeu. Ela foi internada com urgência, operada em sua cidade mesmo.

Os olhos azuis daquela linda mulher de 48 anos carregam as dores dessa doença maligna. As cirurgias levaram seus ovários, útero, parte de outros órgãos, como intestino. Hoje, ela não tem mais as dores da endometriose. Fez reposição hormonal. Está com osteoporose, artrite e artrose.

Eu estava quase sendo chamada para o exame. Contei-lhe rapidamente como havia superado a dor, como os focos diminuíram com a mudança de estilo de vida. Contei-lhe sobre meu tratamento fitoterápico, sobre a importância da vitamina D, de tomar sol. Ela não tem mais endometriose, mas ainda há muito o que enfrentar. Gostaria que ela acreditasse, que tantas mulheres que estão sofrendo como ela sofreu, como eu sofri, soubessem que é possível vencer essa doença sem tratamentos hormonais agressivos e cirurgias caras.

Olhou-me com seus olhos azuis tristes e expressivos, disse-me que os médicos lhe falaram que a endometriose estava relacionada com seu estado emocional. Quando a medicina não cura, culpabiliza. Quantas vezes ouvi me falaram isso diante de uma doença sem respostas. Parece um jogo de caça às bruxas, um tabuleiro medieval, em pleno território da ciência. Se o tratamento não deu certo, a mente da mulher é a responsável. Se a doença é um mistério, a mente da mulher é a responsável. Se a dor é insuportável, a mente da mulher é quem a fabrica. Aquela mulher acreditava no que ainda teve que pagar para ouvir. Em uma das consultas que fui, uma médica me disse que mais de 90% das doenças começam na mente. Há tantas afirmações sem qualquer traço de reflexão.

É com a mente que desacreditamos daqueles que culpabilizam sem conhecer, culpabilizam para se proteger, mesmo que estejam cobertos de títulos e de intenções religiosas. É com a mente que decidimos procurar médicos que nos conduzam à cura, em parceria. Médicos que celebrem a liberdade. Se escuto e me calo, se escuto e internalizo, adoeço. A mente do outro toma conta da minha.

Chamaram-me para o exame. No pouco tempo que me restava, disse que todos temos nossos desafios emocionais, mas que se o corpo estiver fortalecido fisicamente, com a alimentação nutritiva e exercícios físicos, estaremos em melhores condições de vencer a doença, um meio ambiente contaminado, de rejeitar um conselho bem intencionado de gente que não reflete sobre o que lê, crê ou diz. Uma vida saudável nos ajuda a vencer a endometriose ou outra doença, ainda que chorando e se sentindo quebrada emocionalmente, como muitas vezes me senti e me sinto. Somos todos quebrados, nem por isso estamos sentenciados a uma vida de dores.

Ontem, fiz o melhor exame de minha vida. Tudo está bem, graças ao Pai. Ontem, eu vi a matemática da vida em mim. Feito oito sequencial, ela era mais do que o mapa que eu desenhei em sonhos, era o próprio Infinito. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Endometriose e crise financeira



17 de maio de 2013

A endometriose é uma grande crise que se abate contra o corpo, mas não apenas a saúde física é afetada. As ameaças da dor e da infertilidade nos colocam diante de uma crise com muitas implicações e desafios. O tratamento é caro. Os grandes especialistas custam fortunas.

Tenho dois planos de saúde. Mas os médicos que atendem por eles não foram capazes de reconhecer a doença no meu corpo, muito menos apontar as causas ou oferecer tratamentos. Sem diagnóstico, como se tratar? Sem conhecer a lei da saúde transgredida, como é possível encontrar a cura? Por um bom tempo, não houve doença, nem transgressão, muito menos cura. Por último, como ato derradeiro, fui diagnosticada erroneamente com câncer.

Eu precisava de um especialista, custasse o que custasse. Custou caro, mas tive o diagnóstico. Endometriose profunda, com focos espalhados na cavidade abdominal, focos no intestino, um novo endometrioma no ovário esquerdo. O olhar acurado dos médicos me custou, à época, uns 10 mil reais, entre exames e consultas particulares. Mas, finalmente, eu tinha a cartografia da doença que se espalhava dentro de mim. Contudo, saber que há algo errado e identificar esse erro é apenas o primeiro passo, um espelho do reverso. Eu precisava de tratamento, precisava de algo que ainda desconhecia.

Se não encontrei diagnóstico com os médicos do convênio, também não encontraria tratamento. Se encontrei diagnóstico com os médicos especialistas, com eles eu encontraria o caminho da cura? Após uma crise de dor aguda, que me fez desmaiar, eu liguei para o celular de meu médico. Ele me atendeu prontamente. Por telefone disse: “você vai ter que ser operada.” Pessoalmente, me falou da técnica e dos valores. Haveria uma equipe multidisciplinar, retirariam um segmento do intestino, havia o risco de eu ficar por algum tempo ou permanentemente colostomizada, com uma bolsinha externa para coletar as fezes. Perderia parte de um ou outro órgão. No hospital mais em conta, em que o médico aceitaria fazer a cirurgia junto com sua equipe, o custo seria de uns 30 mil reais. Hoje, esse valor está bem mais alto. Em meio às terríveis dores, perguntei: “se operar, estarei livre da doença?” Respondeu: “não podemos garantir isso.” Ninguém pode. Não há cirurgia curativa, os focos podem voltar. Esse profissional falou a verdade. Mas ainda que não houvesse cura, que alternativa eu tinha? A dor nos faz morrer em vida. Sob tortura, se há dinheiro, o dinheiro é de menos. Damos aos médicos tudo aquilo que temos, porque aquilo que somos está desvanecendo.

Fechei a dor dentro de mim. Com esforço, pensei. Poderíamos com muita dificuldade pagar pela cirurgia, mas quando a endometriose voltasse, como eu pagaria pela segunda e terceira? Se eu não pagasse o preço, aquele médico, que me atendia tão prontamente ao celular e me recebia por umas duas horas nas consultas em seu consultório, não seria mais meu médico. Ele era meu na medida em que eu pagava o valor. E quando já houvesse dado tudo que tinha? Ainda que não cessasse de pagar, a cura não poderia ser comprada. Dinheiro nenhum no mundo compra a cura de uma doença sem cura.

Havia, contudo, certa esperança. O entra e sai em consultórios de especialistas, sempre ligados a técnicas de fertilização in vitro (FVI), deixava bem claro o que os médicos não ousavam dizer abertamente, mas sugeriam sempre, aqui e ali, às vezes de forma sufocantemente ostensiva: “engravidar cura a endometriose.” Sabemos que nem sempre isso acontece, sabemos que há quem engravide para se curar, há quem vende a gravidez com o argumento da cura. No meu caso, primeiro seria feita a cirurgia. Depois, a FIV, com preço de ouro. Como contestar o preço de um filho?

A mulher tem que estar bem de saúde para engravidar ou tem que engravidar para ficar bem?
 
A dor, como o vinho, queria calar a mente. A saída mais fácil, ainda seria difícil. Foi nesse momento que decidi mudar meu estilo de vida e tentar alterar as causas da doença. As dezenas de teorias sobre a causa da endometriose apenas podiam me dizer uma coisa: o organismo não está funcionando bem. Como fazê-lo funcionar com saúde? Nós somos o que comemos, bebemos e respiramos. A química do corpo não é mágica, segue uma lei, como tudo nessa vida, ainda que não acreditemos em leis e tenhamos espedaçados os mandamentos. Passei a estudar sobre como o corpo se nutre, como o exercício físico nutre o corpo, como estamos intimamente ligados ao sol, à água, ao ar que respiramos, à forma como respiramos. Procurei remédios fitoterápicos, para uma situação em que a dor, o emagrecimento e as doenças autoimunes me consumiam. Mudei minha relação com o trabalho e com as emoções. Eu orei a Deus.

Compreendemos que a escolha do mais simples nos ajudaria a priorizar o que realmente nos mostrava ser o mais importante. Decidimos não entrar em dívidas. Optei por trabalhar menos, ganhar menos, mas ganhar mais. Temos o que podemos pagar. A saúde física também depende da saúde financeira. Desacelerei e minhas ações valorizaram, ainda que esse lucro seja o valor do avesso. O organismo vai bem. Uma vida pautada pelo consumo consome a própria vida. 

Meu tratamento teve o custo da mudança. Esse custo é alto. Dizem que comprar alimentos saudáveis, como castanhas e frutas, encarece o orçamento. Mas o custo não é alto por causa disso, pois é possível ter uma vida saudável com criatividade acessível. Falo do custo de alterar uma vida inteira de hábitos e formas de pensar, de tradições e pressões familiares e sociais. Falo do nosso enraizamento. É como metástase social que faz duvidar, nos joga para o caminho de todos, obscurece a visão coletiva. O custo é alto, porque conhecer a lei lança a responsabilidade sobre nós e a paz vem como espada, mas o caminho é suave, a vida cresce e nasce. Não há nada mais belo.

Estou há cinco anos sem nenhuma cirurgia, sem o uso de remédios ou hormônios. Nunca mais tive um episódio de dor. Tive no passado, mas agora não tenho dor na relação sexual. Os focos de endometriose diminuíram (Veja as imagens de meus exames do ovário, em três etapas. Os links estão no texto Transformação). Tenho endometriose profunda, mas estou curada.

Quem acompanha o noticiário sabe que a crise financeira de 2008 prossegue. Na Europa, a situação está cada vez pior. Um dos grandes sustentáculos, a Alemanha, está sentindo fortemente a crise. O que dizer do Brasil cujo crescimento está baseado no endividamento das famílias? Nesse cenário, a endometriose se agiganta. Pensar a endometriose é também pensar as finanças, em todas as suas implicações. Optar por um ou outro tratamento, escolher um ou outro estilo de vida, é fazer escolhas que nos empobrecerão ou nos fortalecerão no que diz respeito às finanças pessoais, às células e ao sangue.

A economia do corpo não é assunto de menor importância.

A Colheita



17 de maio de 2013

Plantei proteína. Feijões de diferentes cores e sabores. Brotaram. Chegou o tempo da primeira colheita. Estou colhendo proteínas a conta-gotas. Hoje, vou cozinhá-las e misturá-las com a sopa de abóbora e quinoa. Nutriente vivo do solo da primeira colheita orgânica.


Estamos colhendo abacates de duas espécies de árvores plantadas há 20 anos pela antiga proprietária da chácara. Como um abacate médio ou pequeno (avocado) por dia, pois fornece ácido fólico e vitamina E, entre outros nutrientes essenciais para enfrentar a endometriose, engravidar ou manter a gravidez. Abacates não engordam.


Todos os dias tomo um ou dois copos de suco de laranjas ou poncãs colhidas das árvores daqui. Misturo com duas colheres de chia. Vitamina C, ácido fólico, além de todos os benefícios da chia, um super alimento.





sábado, 4 de maio de 2013

O livro da vida



4 de maio de 2013



Esses dias, eu tive um sonho. Estava folheando um livro encadernado com folhas brancas de papel coche. Era um livro com ilustrações do ovário, não de uma fisiologia convencional nem de imagens inertes e frias ultrassonografadas. De um lado, havia um tampão tão branco quanto a página. Um nada. Do outro, quatro hastes de uma planta com flores e pequenos frutos no topo. Eu apreciava a página das quatro hastes como se aprecia o livro da vida.


Não acredito em sentidos místicos de sonhos, nem sou tentada a buscar no oráculo on-line interpretações para símbolos diversos que me clarifiquem o amanhã. O futuro a Deus pertence, e só. Os sonhos são tão-somente a releitura do vivido com toques curiosos de um realismo fantástico que o subconsciente exibe, um cinema artesanal que nasce dentro de nós à luz da lua.

Pois à luz do dia, eu havia dirigido o olhar para aquilo que depois se fez filme à noite. Quase todos os dias de manhã, eu rego uma jardineira. Nela, plantei sementes de morango silvestre, mas nasceram várias plantinhas diferentes, e duas hastes verticalmente firmes e esguias que pareciam que se tornariam mudas de árvores. Quando alcançaram uns 15 cm, pararam de crescer, produziram flores doces e agora estão surgindo vagarosamente pequenos frutos, nos quais diariamente assisto encafifada e ansiosa à transformação. Em que se tornarão? Seriam, por acaso, pés de uma berinjela exótica que vi no catálogo, cuja semente é semelhante a dos morangos? Teria a fornecedora agrícola se confundido com as sementes? Aquilo que você semear, colherá, mas eu não sei o que semeei, nem sei se um dia haverá colheita. Eram essas hastes que vi no ovário no livro.

Como de costume, no mesmo dia, antes de regar as moringas, os ramos de feijões, vagens e ervilhas, as duas pequenas árvores de cereja que plantei e a jardineira, li as primeiras notícias do dia. Leio Folha de S.Paulo (FSP) invariavelmente, depois outros jornais. É um hábito antigo. Era o jornal que meu pai trazia para casa diariamente, foi a escola onde aprendi a ler antes da escola. Nesse dia, na compactada editoria de saúde, havia uma notícia sobre a resposta da indústria farmacêutica à desistência precoce de mulheres de métodos para engravidar devido ao incômodo e à dor desencadeados pelas sete injeções em horários programados. A nova droga propagandeada substitui as sete injeções por uma dose única que promete aumentar, talvez garantir, a adesão ao tratamento. Ao ler o texto, comecei a pensar no ovário.

A FIV utiliza, em regra geral, indutores de ovulação, entre outras drogas. Pode-se usar, em comprimidos, apenas indutores. O indutor de ovulação obriga, não induz, o ovário a ovular (ou ovocitar). A droga obriga, mas não induz, o ovário a liberar mais de um óvulo (ou ovócito) por vez. Com mais óvulos à disposição, aumenta-se a chance de que um ou mais espermatozoides atinjam seu objetivo. Matematicamente, os indutores aumentam a probabilidade de gravidez. Com a dose única, carregada das sete injeções, o efeito promete ser concentrado, potencializado, instantâneo, com mãos de ferro, pois o tempo urge, por isso é preciso vencê-lo antes que nos vença. Óvulos liberados no ritmo em que as plantas levam para crescer, florescer e frutificar não são óvulos viáveis. A sinfonia precisa ser substituída por tambores. É preciso apressar a colheita, numa euforia oposta ao que o texto judaico diz sobre a seiva e o seu tempo.

Indutor não induz, obriga. Não há como o ovário pular do livro e escrever outra história, ele está preso na tela. Ele está dentro do enredo que escrevemos ou aceitamos que outros escrevam. A torrente de hormônios dita o ritmo de trabalho. Ele trabalha, ele se exaure. Da exaustão colocada sobre ele, imposta por uma ou sete picadas, pode surgir um filho, pode não surgir, podem surgir outras coisas. O tempo violado deixa suas marcas.

A atriz da Globo Christiana Guinle se submeteu a sete FIVs em menos de dois anos. O excesso de hormônios a levou à beira da morte. "Na hora, você quer tanto ser mãe, que nem se dá conta de que está morrendo por causa do excesso de hormônios. Eu não queria desistir, queria ser forte, queria ser mãe, e meu médico me incentivava, dizia que era normal", revelou a atriz (Veja aqui). "As pessoas têm que tomar muito cuidado. Sei que não fui a única que passei por isso e sofri muito, quase morri de fato, após tantas tentativas sucessivas. Não há organismo que aguente. Meus triglicerídios chegaram a 1850 e meu fígado aumentou 10 centímetros. Me sinto uma vitoriosa por estar voltando [...]. Fiquei mal quando pensei que talvez não pudesse voltar...", revela (Veja aqui).

Indutor induz obrigando, mas não produz. É um mercantilismo biológico, em que o mais importante não é produzir, mas comercializar. E o comércio invade o templo que somos. A droga nos comercializa diminuindo mais rapidamente, a cada tentativa, a reserva de óvulos. A natureza os libera delicadamente, a droga esgota com intrepidez, cuja velocidade furiosa tem consequências que já foram documentadas o suficiente pela própria ciência para nos alertar e nos fazer tremer. A notícia da FSP "Nova droga reduz injeções para fertilização" traz o depoimento de um médico sobre a nova injeção de dose única: "O ginecologista Eduardo Motta, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), faz ponderação semelhante. 'Precisamos ter cuidado. Se houver uma hiperresposta do ovário, não será possível revertê-la porque a medicação estará agindo por seis ou sete dias'", diz ele (Veja aqui). O que isso significa? O médico se refere ao risco de a mulher apresentar Síndrome de Hiperestimulação Ovariana, uma efeito colateral do indutor potencialmente grave que causa, entre outros sintomas, nos casos mais intensos, hemorragias intracranianas, derrames, hemorragia no pericárdio, insuficiência renal. Nesses casos, a mulher precisa ser hospitalizada na UTI. Cerca de 20 a 25% das mulheres submetidas a técnicas de reprodução assistida apresentam as formas mais leves da síndrome, que podem incluir distensão abdominal, náuseas, vômitos, aumento do ovário (Veja aqui). Qual será a estatística envolvida com a nova droga? O que o médico está querendo dizer quando falou que "não será possível" reverter esse efeito perigoso de hiperestimulação? O que acontecerá com a mulher? 


No Google Academics você pode encontrar pesquisas sobre a FIV e indutores. A bula do indutor Clomid, por exemplo, nos informa que os efeitos colaterais podem incluir neoplasia, aumento do ovário, hiperestimulação ovariana, entre outros efeitos. Sobre a endometriose, a bula afirma: "CLOMID não deve ser administrado na presença de cistos ovarianos (incluindo endometriose ovárica), pois pode produzir aumento adicional do tamanho dos mesmos" (Leia a bula
). Não é raro encontrar mulheres que foram diagnosticadas com endometriose após usar indutores, mas que são levadas a crer que já tinham endometriose antes. Será? Se tinham, qual é precisamente a interação entre a droga e a endometriose? Sabemos que além da ovulação, a droga pode também induzir a velocidade de propagação da endo. Por quanto tempo a droga continua ressoando no organismo após o seu uso?


Se eu tivesse sido alfabetizada no livro da vida antes, talvez teria cuidado melhor do meu ovário direito que perdi, teria respeitado meu corpo, meu ovário esquerdo que resiste e está melhor agora. Mas não sabia ler meu organismo, nem apreciar sua beleza, nem respeitar suas leis. Não sabia ou desaprendi. Aquele ovário era quase um órgão vestigial, se é que órgãos vestigiais existem. Não conheci o tempo da sua visitação. Ele me constituía, mas era como se eu não fosse ele. Não me exercitava, comia o que não alimenta o corpo, engolia as drogas lícitas para não conceber, não cuidava das minhas emoções, não valorizava o poder curativo do sol, da água, do ar, não acreditava que algo recebido de graça pudesse ser determinante. A graça não me tocava. No mundo mercantilizado, quem valoriza o que é de graça? Em uma realidade altamente midiática e imagética, quem acredita no que não vê, ainda que se leve por dentro ou que o tenha gerado? Anônimos não existem. Quando recebi o diagnóstico de câncer que se demonstrou ser uma endometriose profunda, não pensei sequer um segundo em manter o ovário e retirar o cisto de 15 cm. "Tira." O desaparecimento não incomodou, mal foi notado, eu o extirpara antes, a incisão cirúrgica fez o que eu já havia feito. E ainda perguntei à médica: "Você acha que seria prudente tirar o segundo ovário também"? Eles eram o problema, mas era exatamente o contrário: eu os havia perdido muito antes deles se perderem. Eu não aprendera a amar, como a mim mesma, o outro que me constituiu. O outro sou eu. Não me amava e me desconhecia. 


Somos livres para impor aquilo que quisermos ao nosso corpo, a única coisa que defendo é que todas as mulheres, todos os candidatos a pais, tenham o direito de conhecer as implicações do exercício dessa liberdade. Cientes dos riscos, conhecedoras do nosso corpo, seremos donas em potencial do nosso destino, nunca jamais as donas por completo. A vida é mais do que a exatidão matemática, ela está acima de números e valores, desconhece a sede de poder. A vida é sagrada. A vida não está em nós. Se queremos que ela surja de uma forma ou outra, temos todo o direito de escolher, ainda que a escolha possa resultar em desfechos sem escolhas, mas que essa decisão seja tomada com o conhecimento dos prós e contras descritos pelas pesquisas científicas da área médica, descritos pela história viva de mulheres que nos cercam, ouçamo-las. 

Sinto pelas mulheres que, sem informações suficientes, sem serem levadas a olhar de outra forma, tiraram o que lhes era caro – seus órgãos – por acreditarem, como eu acreditei, que eles as faziam adoecer, quando talvez estivesse ocorrendo exatamente o contrário, quando poderiam recuperá-los, recuperando-se. Essa mulher fui eu. Esses dias eu recebi pelo blog um comentário que dizia que eu não precisaria ter tirado meu ovário direito, poderia ter tentado outras formas de preservá-lo, um médico especialista também havia me dito isso. Senti uma dor pulsando fortemente e lamentei pelo que foi feito, pelo que fiz. Publiquei o que ela me disse. Essa leitora tem razão, havia outros caminhos, um deles eu descobri agora com a mudança de estilo de vida. Mas que aquele comentário chegue a muitas outras mulheres e as ajudem a tempo. Sinto pelas que fizeram FVI sem serem informadas suficientemente dos efeitos colaterais. Sinto por Guinle. Sinto por nós. 



Não acho que a FVI ou a indução artificial da gestação sejam proibitivas por razões religiosas. A decisão de seguir por esse caminho é legítima e pode resultar sim em crianças muito amadas, ainda que as implicações ultrapassem a questão da saúde em si e entre em um campo ético bastante controverso, basta considerar as atrocidades cometidas pelo "Dr." Roger Abdelmassih (Veja).

Eu decidi não usar indutores, nem fazer FIV, mas que a todas as mulheres que decidam seguir por outro caminho sejam disponibilizadas as informações necessárias para tomar sua decisão, pois a ciência ainda não nos ensinou como recuperar a página em branco. Que esse método seja oferecido gratuitamente às mulheres que não podem pagar por ele e que todas elas tenham o direito de escolher se querem fazê-lo ou não, depois de terem sido bem informadas. Que o resultado desse método na prática dos consultórios, principalmente na prática médica de centros de saúde públicos ou de consultórios de médicos ligados à pesquisa pública, seja amplamente conhecido estatisticamente, incluindo a investigação dos efeitos colaterais indicados na bula. Que as evidências clínicas e científicas sejam publicizadas e tenhamos acesso integral a elas. Que essa indústria lucrativa seja energicamente fiscalizada pelos órgãos competentes. Que a vida valha mais do que o dinheiro. Que histórias como a da atriz Christiana Guinle sejam conhecidas nos consultórios e compartilhadas pelos próprios médicos com sua pacientes. Que os médicos que sugerem não tentar uma FIV, depois de uma avaliação cuidadosa da saúde da mulher, sejam respeitados, ainda que se discordem deles. Que as meninas na infância sejam ensinadas, no espelho em que começam a se reconhecer, a amar aquilo que veem e o que não podem ver, mas lhes dá a vida.


Que a nossa concepção do livro da vida inclua as páginas de uma fertilidade em estado de imensidão. O resultado poderá ser um filho gerado em nós, um filho que trouxemos para ser nosso, um projeto em prol do outro que nos estimule a continuar a viver não apenas porque nascemos e aqui estamos, mas a viver em estado de graça, ajudando a ilustrar com verdade e delicadeza o livro de nosso semelhante, mesmo que a figueira não dê seu fruto, a vide não floresça. A vida ainda é bela, como uma floresta de coníferas. Ela se refaz.







domingo, 21 de abril de 2013

Cálice de vinho


21 de abril de 2013

O consumo de álcool tem relação com a endometriose. No texto Dieta Antiestrogênica, o autor menciona que o álcool aumenta o estrógeno no corpo. Mais álcool, mais estrógeno, mais endometriose. A via não é única. A bebida alcoólica debilita o organismo de outras formas.  Mas o que dizer de um cálice de vinho diário?  

O álcool me assusta desde a infância. Minha avó ficou viúva cedo, e a ausência do marido, diziam, a fez adoecer do mal que rondava a família. A aposentadoria do marido, funcionário público, e seu emprego de enfermeira-chefe lhe davam condições financeiras suficientes para viajar, conhecer lugares e pessoas. Mas imperceptivelmente, no decorrer dos anos, ela adoecia. Irmãos, sobrinhos, primos sucumbiram à bebida. Beberam até morrer e morreram de cirrose, choque decorrente da ingestão de bebida alcoólica com remédios, carência crônica de vitamina B12, suicídio alcoólico, etc. Um bebeu porque havia lutado na Segunda Guerra e queria fugir dos demônios alojados na memória. Outro, dizia-se, se desgostara com a mesmice da atividade no cartório e fora traído pela mulher. A irmã de minha avó morava em frente à praia e bebia apreciando o mar. Morreu trancafiada em um hospital. Com 13 anos, em um dia marcante pra mim, minha avó morreu também. Estava aposentada, era considerada a rainha da alegria nas viagens em grupo, mas confidenciava a poucos que sofria de profunda solidão. Em um domingo, já bêbada, com apenas 63 anos, tomou seus remédios. Não resistiu.

Minha mãe foi a primeira da família a dizer não ao álcool. “Nenhuma gota de álcool”, diz a pequena mulher que conhece a violência dessas chamas. Ela se tornou cristã de uma maneira diferente. Liberdade. Minha tia, há alguns anos, caiu na sina da família e começou a beber. Parou recentemente, após o neto receber alta da UTI. A mãe bebera e fumara a gravidez inteira, o bebê nasceu fraquinho, teve de ser internado. A avó fez voto por ele, diz agora que não volta a beber. Mas meus primos, engenheiros bem colocados no mercado, bebem. Estão a alguns passos do alcoolismo fatal. A bebida é uma cultura, um legado de sangue. Escolhi o legado de minha mãe.

A história de alcoolismo na família se deu da porta pra dentro. Sem violência, sem alarde. Quando bêbados, poderiam estampar as propagandas de cerveja. Eram leves. A história só vinha à tona quando se tornava incontrolável e o fim estava próximo. E sempre, a despeito da falsa alegação do controle, o álcool fez de todos eles pessoas destituídas. O jugo era pesado, o vinho os sepultou. Histórias semelhantes estão por toda parte, muitas entre paredes. Recentemente, uma professora de universidade pública me contou que a mãe era alcoólatra.  Morreu por causa do vício. Quando morei em Curitiba, conheci uma jovem pesquisadora da área de Farmácia na Universidade Federal do Paraná. Ela fez seu mestrado sobre tratamento farmacológico para alcoólatras. O pai, um rico fazendeiro paranaense, bebia. Mais tarde ela me contou que seus conhecimentos adquiridos no mestrado não foram suficientes para ajudar seu pai, mas ela descobrira a novidade de vida. Após anos de desespero, a família viu acontecer o improvável: o pai deixou de beber, reconhecera a Cristo.

Nunca presenciei nenhum ato de violência por causa do álcool. Na família, o álcool atingiu os mais velhos, depois de anos de ingestão diária em contexto social. Eram bêbados sociais que se desintegraram. Carregavam no peito a desesperança que dinheiro algum resolve. Só agora, com meus primos, é que os pequenos meninos têm a desgraça de ver os pais embebedados. Ainda que bebam e riam, é muito triste. A ladeira vai se tornando íngreme e sinuosa, serpenteando-se.

Na última semana, mais uma vez foi noticiado que o consumo de álcool entre mulheres tem aumentado. No ano passado, fizeram uma pesquisa com mulheres paulistanas. As com maior grau de instrução bebem mais para “aliviar as pressões” diante das cobranças sociais e dos múltiplos papéis que precisamos desempenhar. Bebem para esquecer, diferentemente dos homens com maior grau de instrução que geralmente reconhecem, segundo a pesquisa, os riscos da ingestão alcoólica. Do ponto de vista bioquímico, a mulher está em desvantagem em relação ao homem. A bebida no corpo feminino é mais agressiva, pois a atuação enzimática do organismo é mais lenta, tornando-a mais vulnerável aos efeitos do álcool (Pesquisa publicada na revista Clinics).

Qual a relação entre álcool e endometriose?

Mulheres que têm endometriose tendem a consumir mais álcool (Vejas as pesquisas: 1 e 2), o álcool também está relacionado à infertilidade (Veja). De acordo, com pesquisa citada por cientistas brasileiros o consumo de álcool e a baixa atividade física estão entre as causas de endometriose (Veja).

Embora haja pesquisadores e profissionais médicos que não deem importância para a relação entre álcool e endometriose, pesquisas científicas apontam que problemas ginecológicos se manifestam, principalmente, em mulheres que consomem álcool. De acordo com pesquisadores da Universidade de Medicina de New Jersey, “gynecological problems of endometriosis may be a major medical correlative of alcoholism in women” (Veja).

Apesar do resultado dos estudos citados acima, é comum que a mídia divulgue outras pesquisas que apontam como positivo a ingestão diária de álcool, desde que em baixas doses. Segundo o médico Dráuzio Varella, o consumo moderado de álcool é benéfico para o coração, “mas nenhum outro efeito benéfico do álcool para a saúde foi demonstrado até hoje” (Veja). O álcool ajudaria a evitar ataques cardíacos porque aumenta o colesterol bom (HDL) e deixa o sangue menos coagulável.

Sabendo que qualquer dose de álcool aumenta o estrogênio no corpo, como obter os propagados benefícios do vinho, por exemplo? A substância benéfica está na uva – o resveratrol, os polifenóis – e não no álcool. Os polifenóis, substâncias anti-câncer, antienvelhecimento, que combatem doenças cardiovasculares, são encontrados no vinho porque estão contidos naturalmente na uva, não no álcool. Embora haja alguma controvérsia sobre uma diferença mínima de um suposto benefício isolado com o efeito do etanol contra a oxidação de princípios ativos da uva no vinho, outras pesquisas apontam que o potencial antioxidante do suco de uva é igual ou superior ao do vinho, principalmente se for vinho branco (Veja pesquisas que comparam o suco de uva ao vinho: 1, 2 e 3). Por isso, se desejamos evitar os riscos que o álcool nos expõe, podemos substituir o vinho por uva ou suco de uvas, sem o risco de aumentar o estrogênio no organismo. Se queremos combater o LDL e aumentar o HDL, podemos ingerir nozes, abacate e outros alimentos que não incluem no pacote os riscos à saúde e nos beneficiam com múltiplos nutrientes. Se desejamos evitar os coágulos, podemos fazer uso do alho, levedo de cerveja, limão, cebola, entre outros alimentos, igualmente ricos em vitaminas e princípios medicinais ativos. Antes de fazer a mudança de estilo de vida, eu estava com o colesterol alto. Há cinco anos, tudo está normal.

Apesar de aumentar o estrogênio, que outra objeção haveria para o hábito de beber moderadamente ou tomar um cálice de vinho por dia?  Apenas pequenas doses podem desencadear um desejo químico por álcool. A história de minha família é para mim a maior evidência. O vício em álcool está ligado à dopamina, o hormônio do prazer. O álcool libera dopamina. A novidade, de acordo com pesquisas científicas, é que apenas a degustação do álcool, um leve sabor de cerveja na boca, é suficiente para liberar a dopamina. Em pessoas que não bebem, mas têm um histórico familiar de bebida, a liberação de dopamina com a mera degustação do álcool é quatro vezes maior. A liberação de dopamina provocada pelo álcool não nos condicionada necessariamente ao vício, mas nos predispõe ao vício. De acordo com a revista Time, o lema dos Alcoólatras Anônimos agora tem comprovação científica: “É com o primeiro drink que você se torna um bêbado.” (Veja aqui).

Ainda que minha história familiar seja triste, eu tenha conhecido histórias trágicas entre círculos fechados, histórias de liberdade entre os que escolheram a abstinência ou venceram o vício, as pesquisas me convençam a ponto de não haver em minha vida lugar para goles ocasionais, o que considero decisivo para rejeitar o álcool é a importância da consciência. Não quero escapar da realidade, ainda que ela seja muito difícil por vezes. Não quero amortecer minha mente nem a conta-gotas. Eu vivo uma esperança. O ópio em líquido não redimensiona minha história, nem lhe dá saúde, tira minha saúde, desencadeia tantas mortes violentas no mundo, mata aos poucos a consciência de muitos, enriquece uma indústria ávida pela cultura da bebida, é metáfora do mal que cega, fez se perder a quem amei, não me ajuda a encontrar outros trajetos. Digo não ao álcool não porque ele está relacionado à endometriose ou à infertilidade, mas porque quando ele funciona, eu me subtraio e deixo só a quem me espera, bebo porque sou livre e me torno menos livre, calo-me, mas as dores não me deixam.

Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

Nozes



Mudamos. A paisagem é linda. Jamais imaginei encontrar noz-pecã em árvores gigantescas e poder colhê-la. A vida mudou. 


As nogueiras continuam produzindo, mas quase ninguém se importa. É preciso ter bico de maritaca para apreciá-las. Temos colhido muitas nozes. 



Leia meu texto “Cálice de vinho”.









Nossa colheita de domingo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Ela atravessou os rios da tragédia. O que essa história me ensina?

16 de abril de 2013
 
“No verão de 1990, Barbara Bradfield, mulher de 48 anos de Burbank, Califórnia, descobriu uma massa no seio e um caroço debaixo do braço. Uma biópsia confirmou o que ela já suspeitava: um câncer de mama se espalhara pelos nódulos linfáticos. Foi tratada com mastectomia bilateral, seguida de quase sete meses de quimioterapia. ‘Quando acabei de fazer tudo isso’, ela disse, ‘senti que tinha atravessado um rio de tragédia.’
Havia muitos rios para atravessar: a vida de Bradfield foi atingida por outra incomensurável tragédia. No inverno de 1991, dirigindo por uma estrada não muito longe de casa, a sua filha grávida, de 23 anos, morreu em um terrível acidente. Poucos meses depois, enquanto assistia, entorpecida, a uma leitura da Bíblia certa manhã, Bradfield encostou os dedos no pescoço. Uma nova massa, do tamanho de uma uva, tinha aparecido pouco acima de clavícula. Seu câncer de mama reincidira e se espalhara em metástase – prenúncio quase certo de morte.
O oncologista de Bradfield em Burbank propôs mais quimioterapia, mas ela recusou. Em vez disso, ingressou num programa alternativo de terapia herbácea, comprou um espremedor de hortaliças e planejou uma viagem para o México. Quando o oncologista lhe perguntou se podia mandar amostras do câncer de mama ao laboratório de Slamon na UCLA para ouvir uma segunda opinião, ela, embora relutante, concordou. Um médico fazendo testes com amostras de seu tumor a distância não poderia afetá-la.
Uma tarde de verão de 1991, Bradfield recebeu um telefonema de Slamon. Ele se apresentou como pesquisador que tinha analisado suas lâminas de microscópios. [...] Disse-lhe que estava começando um estudo clínico [...] e que ela seria a candidata ideal para a nova droga. Bradfield recusou-se. ‘Eu estava no fim da estrada’, ela disse, ‘e já aceitará o que parecia inevitável.’ [...]
Na manhã seguinte, bem cedo, Slamon voltou a telefonar. [...] “Sobreviventes olham para trás e veem presságios, mensagens que não perceberam”, escreveu Joan Ddion. Para Bradifield, o segundo telefonema de Salmon foi um presságio que ela não deixou de perceber [...]
Quinze mulheres, incluindo Bradfield, inscreveram-se no estudo de Slamon na UCLA em 1992. [...] A droga foi administrada durante nove semanas, em combinação com cisplatina, agente padrão de quiomioterapia usada para matar células de câncer de mama, ambas intravenosamente. Por conveniência, Slamon planejara tratar todas as mulheres no mesmo dia e na mesma sala. [...] No fim da tarde, depois de todos os testes, as mulheres iam cada uma para o seu lado. Bradifield ia para casa rezar. Outra mulher se enchia de martínis.
O nódulo no pescoço de Bradfield – único tumor do grupo que podia ser fisicamente tocado, medido e observado – tornou-se a bússola do estudo. [...] Duas semanas depois da primeira dose do anticorpo, quando o grupo passou em fila por Bradfield, tocando-lhe o nódulo, a mudança era incontestável. Seu tumor tinha amaciado e encolhido visivelmente. [...]
Nem todas tiveram a sorte de Bradfield. Certa noite, exausta e nauseada, uma jovem com câncer metastático reincidente foi incapaz de reter o líquido necessário para hidratar o corpo [...] Morreu de insuficiência renal na semana seguinte.
A extraordinária resposta de Bradfiel continuou. Quando as tomografias foram repetidas, no segundo mês do estudo, o tumor do pescoço tinha praticamente desaparecido, e as metástases do pulmão também tinham diminuído de número e tamanho. A resposta em muitas das outras treze mulheres foram mais ambíguas. [...]
Barbara Bradfield concluiu as dezoito semanas de tratamento em 1993. Ela ainda está viva. É uma mulher grisalha, de olhos azuis-acinzentados cristalinos, que mora na pequena cidade de Puyallup, perto de Seattle, faz caminhadas nos bosques vizinhos e comanda grupos de discussão em sua igreja. Lembra-se vividamente dos dias que passou na clínica de Los Angeles – a sala dos fundos meio iluminada, onde as enfermeiras dosavam as drogas, o toque estranhamento íntimo das outras mulheres que apalpavam seu nódulo do pescoço. E de Slamon, é claro. [...] a animação e energia de sua voz passam pela linha telefônica como uma corrente elétrica. Ela me arguiu a respeito de minha pesquisa. Agradeci-lhe pelo tempo cedido e ela, por sua vez, desculpou-se pela distração. ‘Volte para o trabalho’, disse, rindo. ‘Há gente esperando por descobertas.’” p.488-491.
História narrada no livro premiado em 2011 com o prêmio Pulitzer “O imperador de todos os males – Uma biografia do câncer ” (Companhia das Letras), escrito por Siddhartha Mukherjee, formado em Stanford, Harvard e pesquisador na Universidade de Columbia.

domingo, 31 de março de 2013

Mulheres vegetarianas realmente estão protegidas da endometriose?

31/03/2013
Sei que existem casos que fogem às pesquisas. Talvez meu caso seja um, pois tive endometriose profunda no intestino e ovários, fiz a cirurgia e foram removidos todos os focos de endometriose. Dois anos depois, descobri que a doença havia voltado no intestino, ovários e terminações nervosas que vão para perna. Sou vegetariana, tenho uma alimentação a base de frutas, legumes, verduras e muita fibra e todos os médicos dizem que não posso ser submetida a mais nenhuma cirurgia, pois seria muito arriscado. Anônima.
 Obrigada por escrever. Sua mensagem é muito importante. Desde a infância, eu me considerava vegetariana na maior parte do tempo, mas ocasionalmente deixava de ser, e comia carne. Ainda hoje, às vezes, como peixe, embora esteja realmente pensado em não mais comer. Quando descobri a endometriose, decidi levar mais a sério meu regime vegetariano, mas os focos não diminuíam. A cada exame, estavam um pouco maiores. Eu comia um pouco de frutas, legumes, não comia carne. O que havia de errado?
Cheguei a um ponto crucial: ou aceitava a cirurgia (para retirada do segmento do intestino e limpeza do ovário) ou a endo tomaria conta. Sim, porque sem tratamento, a endo se espalha e se aprofunda, mesmo que não provoque dores. Ela pode agir silenciosamente também. Sabemos que com tratamento médico isso muitas vezes ocorre, por isso a medicina diz que não há cura para a doença, apenas controle. Por vezes, o controle custa caro, causa efeitos colaterais indesejáveis ou simplesmente não controla. Eu teria que seguir por esse caminho mesmo?
Um médico disse: endo é como grama, corta e cresce, às vezes, cresce tão rápido quanto se corta. Minha primeira cirurgia, para a retirada de um endometrioma de 15 cm, foi necessária. Mas a endo continuou crescendo. Quantas cirurgias mais seriam necessárias para vencê-la? Será que se eu pagasse os 30 mil da época (que hoje deve estar beirando os 100 mil), finalmente compraria minha cura? Mas a cura não pode ser vendida, pois quem vende o tratamento diz, com razão, que cura não tem. Não tem no SUS, mas não teria com a equipe médica de multiespecialistas doutorados em endo? E se eu fosse operada pelos médicos certos? E seu pagasse o preço? Com razão e sinceridade, mesmo os especialistas dizem: não tem cura. Tem controle? Mas o que está controlado não está curado? Se tem controle então tem cura, mas se não tem cura, pode-se falar em controle?
Diante desse dilema que envolvia minha vida e minhas dores, eu orei. Pedi a Deus. Eu e meu marido lemos vários livros, repensamos, decidimos fazer mais uma tentativa. Eu era vegetariana, mas meu conceito de vegetarianismo estava errado. Não adianta tirar a carne se comemos açúcar, gordura e carboidratos em excesso. Se tiramos a carne, sentimos mais fome, o que nos leva a precisar do açúcar e das massas. O mais importante não é o que tiramos, embora comprovadamente a carne vermelha e suína estejam relacionadas a casos de endo (Veja esta pesquisa), mas é o que acrescentamos à alimentação. Ellen White, escritora que admiro, diz que se a dieta vegetariana é à base de massas e açúcar, melhor seria comer carne.
Não adianta nem mesmo banir o açúcar branco para sempre se não há nutrição. Por que tirar o açúcar branco? Uma das razões é que para o açúcar ser digerido o organismo retira cálcio dos ossos. O açúcar branco não tem nutriente e rouba o que temos. Mas apenas tirar o açúcar não resolve.
O ponto é: precisamos de nutrição, de nutrientes. Eles são os nossos remédios. No texto anterior, eu falo da noz-pecã que tem o aminoácido tirosina, um dos responsáveis pela produção do hormônio tiroxina na tireoide, tão importante para o funcionamento do corpo. Esse é apenas um exemplo do quanto o nutriente nos constitui. Se ele falta, adoecemos. Devido ao modo de produção industrial do alimento, geralmente o que compramos embalado atrativamente tem tanto nutriente quanto um papel, não importa se é uma lata de milho verde.
Como nos nutrir? Comer legumes, frutas, cereais, vitaminas A, B, C, D, E, aminoácidos... encontrados em alimentos, não em suplementos. Adianta ser vegano, não tomar leite, e ficar sem cálcio? Por isso, se alguém não tem certeza que está ingerindo a quantidade certa de cálcio em sua dieta vegana, será que não é melhor tomar leite, mesmo que não seja o orgânico? Um suco com duas folhas de couve pode fornecer no máximo de 5 a 10% de cálcio de que precisamos diariamente. E o resto, de onde vem? Se não há cálcio no corpo, adianta tomar Sol para ter vitamina D? Se a dieta tem cálcio suficiente, mas eu não tomo Sol, como vou sintetizar esse cálcio?
Adianta ser vegetariano e usar soja, castanhas e pão em excesso, além de adoçante na sobremesa? O vegetarianismo hoje está colado à moda da soja e do glúten, além do excesso de castanhas concentradas em receitas vistosas, que podem fazer muito mal para a mulher com endometriose. Eu era uma vegetariana a base de pão e soja.
Além disso, para não comer errado, muitas vezes deixei de me alimentar bem. Almoçar é sempre melhor que lanchar. Se você pode comer arroz, feijão e peixe em vez de um lanche de queijo, melhor a primeira opção. Precisamos fazer o melhor possível, e o melhor possível pode ser comer carne. Não recomendo que comamos carne, eu não como. Eu prefiro obter informações e avaliar os alimentos que suprem adequadamente a proteína, as vitaminas do complexo B (principalmente a vitamina B12), os nutrientes que preciso para não sentir falta da carne. Se faltar nutriente, a falta não será emocional, mas física. O corpo pede por comida. Mas se no lugar da carne lhe damos pão com queijo, ele não rejeita, mas adoece. Se for para ficar sem a nutrição adequada, melhor é comer carne, mas buscando as alternativas mais saudáveis.
Além de incorporar nutrientes, eu passei a fazer exercícios físicos diários. A comer em intervalos de 5 a 6 horas, tomar água pura (não sucos ou refrigerantes), respirar mais profundamente para oxigenar o corpo, cuidar melhor das emoções, buscar interações sociais que fortaleçam minhas escolhas, diminuir o ritmo do trabalho, dormir as horas certas, comer bem de manhã e jantar uma refeição leve, buscar a Deus em minha vida. Para mim, o último aspecto não é o último item, mas meu início. No entanto, com fé ou sem fé, celebrando ou não o real sentido da Páscoa, o corpo responde positivamente diante das mudanças que o favorecem.
Mais importante do que ser vegetariano ou vegano é adotar um estilo de vida natural possível. O problema é quando os significados sucumbem diante dos rótulos ou os nomes subvertem as ações. Alguém pode ser vegetariano e estar desnutrido. Pode ser vegetariano, e estar usando remédios que provocam efeitos colaterais indesejáveis e de longa duração, mesmo quando se deixa de tomá-los (Veja este texto). Pode ser vegetariano e estar estressado e sobrecarregado com as emoções. Além disso, pode ter um estilo de vida mais natural possível, mas não tem como evitar um mundo em que a contaminação ambiental atingiu índices incontroláveis. Mesmo os legumes e frutas, quando repletos de pesticidas e venenos de toda espécie, estão cada vez mais pobres em nutrientes. Mas como dizia o médico David Servan-Scheiber, melhor comer vegetais convencionais do que não comê-los. Não ficamos doentes por nós mesmas, pelo que fazemos com nosso corpo apenas, mas pelo que é externo também, por ação daquilo que não temos condições plenas de controlar. O meio ambiente está estrogênico, isso provoca endometriose e outras doenças. Mas para enfrentar as agressões externas, temos a opção de fortalecer nosso sistema imunológico.
Podemos ser vegetarianos, comer os alimentos certos, mas submetê-los a tanto cozimento e invenções culinárias que boa parte dos nutrientes não resistem. A regra é ser simples. Descomplicar. Cozinhar arroz integral, com lentilha ou feijões, acrescentar o tempero cru depois, legumes e ovos orgânicos. Reinventar as papilas gustativas. Apresentar a elas os frutos da terra, os sabores como eles são. E ter paciência, até que o simples se faça essencial, com gosto. Sem tempero pronto, sem depender do tempero com gastronomia de formas, ainda que pretensamente natural.
As mudanças de estilo de vida são suficientes para deter a endometriose na maioria das mulheres, como foi o caso de Jennifer (Veja aqui). Mas no meu caso, assim como no seu caso, eu estava muito mal. Magra, com dores terríveis, abatida, desfalecida, com a endometriose aprofundada. A doença já tinha ido longe demais. Melhor é prevenir, é curar o que está leve, mas o que fazer com uma doença que se enraíza por todos os lados? Só quem tem endometriose sabe do que estou falando. Procurei fazer todas essas mudanças, mudei minha própria forma de ser vegetariana, mas precisava de algo que suprisse mais rapidamente os nutrientes que faltavam, de alimentos que combatessem com força a inflamação instaurada no corpo. Foi nesse contexto que modifiquei meu estilo de vida e utilizei a fitoterapia: uma planta muito nutritiva da qual falarei em breve, além do alho e da cebola crus. A endometriose parou de crescer, os focos começaram a diminuir. Ela está sob controle, embora esteja aqui. Se há controle, há cura. Mas a cura da qual falo é tão perene quanto eu mesma permito que ela seja.
Minha querida amiga, em seu caso específico, feche os ouvidos ao que os médicos lhe disseram, desacredite e creia. Sim, é possível controlar a endometriose, mesmo em casos como o seu, mesmo em casos semelhantes ao meu. Não desista.
Escreva-me, se precisar.
Diante da alegria da libertação, da Páscoa que se deu em minha vida, eu não poderia deixar de falar. Estamos juntas.
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Noz de outono

31/03/2013
Anteontem, na caminhada, tivemos uma feliz surpresa: encontrei uma noz no chão. Pelo condomínio, há enormes árvores de nogueira, mas tinham nos falado que elas não frutificam mais, que a noz-pecã não se desenvolve, deixando a casca oca. Isso é verdade para boa parte das nogueiras, por motivo que desconheço, mas encontramos quatro grandes árvores carregadas de nozes e maritacas. Onde há maritacas fazendo a festa, há nogueiras produzindo. O som estrondoso nos leva à proteína em cápsula viva. Fui até os galhos mais baixos de uma árvore e colhi nozes do pé. A páscoa de sexta teve nozes recém-colhidas.
A noz-pecã tem, entre tantos nutrientes, o aminoácido tirosina. A tirosina é matéria-prima para a produção de tiroglobulina que, por sua vez, produz tiroxina, o hormônio da tireoide. A tireoide regula todo o funcionamento do corpo, seu metabolismo, os carboidratos, gorduras e proteínas, a dança complexa e bela dos hormônios, relacionando-se com a saúde reprodutiva. Ao pedir exames para avaliar minha tireoide, um médico especialista me explicou que há indícios de relação entre a endometriose e a glândula (Veja este estudo).
 
A essência da pequena noz saborosa atrai o bando de aves com seu canto selvagem, acaricia meus desejos por sabores, une-se à glândula regente no comando da orquestra que levamos por dentro. Que as nozes continuem caindo vivas do céu, como dádivas, após o alvoroço guloso das pequenas e nervosas aves verdes.

 





 

domingo, 24 de março de 2013

A saúde e o mar


24 de março de 2013

As conchas do mar nos ensinam sobre nossa saúde.
Cheguei da praia ontem e liguei para meus pais para saber como estão. Ao telefone, praia pra cá, praia pra lá, minha mãe contou que uma amiga disse que viajaria para o litoral. Brincando, minha mãe pediu: “Me traz uma conchinha.” A amiga levou a sério o pedido, mas não encontrou conchas. Perguntou ao dono do bar o que estava acontecendo. Ele disse que não era época de conchas como se conchas dessem em galhos. Abriu a gaveta, vasculhou as moedas e tirou uma conchinha antiga. Deu-a à mulher como se estivesse se desculpando pela infertilidade do mar. Para quem ensinou as três meninas a admirar as mais impressionantes formas e cores que cobriam o caminho da areia, a concha única da gaveta do bar assustou. “Onde estão as conchas do mar?”, perguntou minha mãe.
Não as encontrei. Há 30 anos, eu caminhava naquelas areias ao lado do caminho das conchas. O mar era tanto a água quanto seus brinquedos de cálcio multicoloridos. Agora, nem infância, nem brinquedos, nem meus pais puderam ir, nem as conchas estavam lá, a praia é ausência. Todas as coisas passaram e o mar que eu conhecia não mais existe. Dizem que o calcário oceânico é retirado para ser usado em ração animal e para ser usado no agronegócio no combate à acidez do solo. A casa dos moluscos virou moeda de pinga.
A ausência das conchas diz muito do tempo em que estamos vivendo. Na praia mesmo, compramos uma edição especial da National Geographic sobre a Água (abril, 2011). De acordo com a revista, o sumiço das conchas também está relacionado à acidificação da água do mar. Embora alcalina, a água do mar está 30% mais ácida. Se o mar fica ácido, diminui a quantidade de cálcio nas águas. Sem cálcio, os animais marinhos não podem secretar seu esqueleto. É como se o mar perdesse a sua viga, seu esqueleto móvel, sua proteção e sustentação. Uma espécie de osteoporose marinha, a insustentabilidade do ambiente oceânico. Uma grave doença ambiental. Na p.77, há um gráfico intitulado: “Como se dissolvem conchas e ossos.” Caramujos, cracas, ouriços-do-mar, corais estão em risco. Depois de 30 anos, as águas da infância se tornaram um caldo ácido que dissolve até as conchas mais fortes (Leia mais sobre a acidificação dos oceanos neste relatório da Unesco).
Assim, como as águas do mar, para funcionar bem, nosso organismo precisa ter um meio interno alcalino. Quanto mais acidificado, maior a probabilidade de doenças. Assim como não dá para combater a acidez do oceano apenas jogando litros e litros de uma substância alcalina nas águas do mar, também não dá para resolver a acidez no organismo tomando remédio. É preciso investigar as causas da contaminação ambiental ou da doença no corpo. A acidificação do mar tem sido provocada pela emissão de C02 (o dióxido de carbono atmosférico reage com íons de hidrogênio que aumentam a acidez da água). E o que tem causado a acidificação do organismo?
Gorduras, frituras, industrializados com conservantes, açúcares, inatividade física, emoções estressantes, substâncias farmacológicas agressivas, falta de sono, poluição ambiental.
Como evitar a acidificação do organismo?
Mudança de estilo de vida. Conscientização. Para o açúcar branco ser digerido, o organismo retira o cálcio dos ossos. Quando usamos açúcar branco, estamos nos descalcificando.  Como nos curar? Tomando comprimidos de cálcio? Combatendo a acidez por meio de pílulas? É como jogar comprimidos em alto-mar na esperança de ter as conchas de volta.
Meu caminho tem sido combater as causas da doença por meio de um estilo de vida mais natural. Tenho a opção de continuar comendo açúcar e para minimizar seus efeitos nos ossos usar suplementos de cálcio ou posso escolher parar de comer açúcar, reeducar meu paladar, encontrar novos sabores e transformar meu olhar sobre o mundo. Somos livres, mas há liberdades aprisionantes. Quais escolhas estamos fazendo?
Não é tirando apenas o açúcar que vou resolver a endometriose ou a osteoporose. Assim, como não é apenas usando uma pílula que vou me curar das doenças. É uma mudança integral. Não é apenas deixando de usar calcário em rações para porcos que vamos resolver a questão dos oceanos. Em macroescala, não vejo soluções. Mas em microescala, no que diz respeito ao nosso corpo, embora ele sofra as agressões de um mundo em rápida transformação, é possível mudar. Eu mudei, a endometriose diminuiu, não tenho dores, estou bem. Ainda tenho focos no ovário e intestino, mas a cada exame estão menores. Despoluir o corpo é um processo gradativo. Lento, mas possível. Desafiador, mas gratificante. Não se despolui, poluindo mais.
 
Comer na praia – Embora minha intenção fosse levar meus congelados à praia, pois alugamos um apartamento, eu não consegui fazer isso. Também não queria cozinhar. Em Natal, ficamos na Ponta Negra, e almoçamos em um restaurante fantástico, o Green´s. Os donos tiravam dinheiro do bolso para mantê-lo. O mundo desconhece os sabores que curam.
Em Ubatuba, nessa última viagem, encontramos uma opção interessante, o Integrale. Os pães são deliciosos, feitos de farinha integral, sem ovos, leite ou conservantes. Há pães sem glúten, de variados sabores. O pão de oliva, com sabor de azeite e quantidade generosa de azeitonas, é delicioso. Os patês, incríveis. O patê de berinjela defumada servido antes do almoço com pão mediterrâneo, uma tentação. No almoço, há lentilhas, feijão branco, feijões diferentes... peixes locais (estou evitando peixe, mas às vezes ainda como), bolinho de quinoa, salada com vegetais orgânicos... Os lanches são deliciosos. Pães de ervas e azeitonas. Não recomendo os doces, pois são com açúcar. Só estranhei um pouco a comida devido à quantidade de condimentos, pois há pimenta em algumas receitas, e não uso pimenta. O preço é justo. Como é maravilhoso encontrar um lugar em que se faz um negócio com amor, onde a comida é servida em meio a um jardim pequeno, mas que abriga até avelós. Em Sorocaba, por exemplo, tinha um restaurante com lanchonete que cobrava preços abusivos por uma quantidade mínima de comida natural. O fruto mal amadureceu, e acabou de falir. Por que os “empresários orgânicos” fazem questão de tornar inacessível o valor de seus produtos? O Integrale prova que é possível cobrar o preço justo pela comida saudável, que é possível ir para a praia e comer bem. As férias foram curtas para experimentar tudo o que oferecem.