quinta-feira, 22 de agosto de 2013

A gravidez



22 de agosto de 2013



Recebi a mensagem de Michele enviada para o texto Estou grávida. Este é o 100º texto deste blog, sobre a maior felicidade de nossa vida, o maior presente de Deus: nosso bebezinho, um querido menino. Querida amiga, você faz parte dessa história.


Querida amiga, desde a primeira vez que acessei o seu blog, eu imaginei que, cedo ou tarde, esse texto aconteceria. Era uma espécie de futuro-presente, ou melhor, de um resultado muito provável diante de tantas transformações. Não que esse resultado fosse obrigatório, afinal, como já disse o outro, viver não é preciso, apenas faria todo sentido se acontecesse. Como o fez. Um resultado que hoje fala alto ao coração, que nos toca. E tudo que nos toca, tudo que nos cala, nos faz pensar, repensar, recriar, recomeçar.

Sua gravidez não gera apenas a vida de um ser, gera a esperança, gera a crença em nós mesmas. De certa forma, nos diz: ei, você aí, o comando do corpo também é seu, não só seu, mas também seu. E não é pouco. Mas, como qualquer comandante, você vai ter que ser disciplinado, atencioso e, muitas vezes, rigoroso. Com você. Lembre-se de que em suas mãos - quando ainda se tem tempo ou possibilidade-, estão órgãos, tecidos, sistemas complexos, emoções que precisam entrar em harmonia, que precisam ser comandadas, ordenadas. A desordem nos põe à deriva no nosso próprio corpo. E isso nos enfraquece a alma, afinal, um corpo não saudável mexe com as nossas emoções, sentimentos mais profundos, questionamentos existenciais, além de, muitas vezes, empatar a nossa liberdade de ir e vir.


É verdade, existem males que escapam ao nosso toque, que nascem conosco e que têm um propósito que transcende o nosso entendimento, mas para uma grande parcela de males, existe a cura, o controle ou a prevenção. E tudo isso se torna particularmente especial quando assumimos esse controle da forma natural como você, minha amiga, teve a imensa coragem de assumir. Daí esse desfecho ser tão importante. Ele sinaliza que o comando, para muitas coisas, também está em nossas mãos, e o melhor, de uma forma natural.

Esse bebezinho abençoado é o grande milagre da vida, a resposta e o agradecimento de um corpo valorizado, entendido. Poderia ter sido uma resposta diferente? Claro que sim. E você sempre foi muito terna e digna neste sentido. Mesmo nos momentos em que a vinda do bebê era apenas um sentimento, você não se desesperou, não se maltratou, não dramatizou. Pelo contrário, você curtiu a sua vida, procurou salvar os seus órgãos e nos acalentou com a tranquilidade de quem aceitava numa boa o destino. Foi logo tratando de ser feliz com o que fosse possível. Só que o quase impossível resolveu ser possível, e como a boa anfitriã que você é, o destino a incumbiu de uma ilustríssima tarefa: receber o seu filho.

Amiga, parabéns! Pela dignidade, pela coragem, pelo amor, por tudo...

Obrigada!
Um beijo grande!

Michele.



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Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bianca


21 de agosto de 2013

Olá, me chamo Bianca. Achei maravilhoso o que escreveu, mas sou uma mulher cercada de pessoas e sozinha, entregue a meus problemas. Sou casada há 4 anos, tenho pais vivos e doentes, mãe com alzheimer e pai com problemas da idade. Irmãos com suas vidas sem tempo. Mas com Deus sempre comigo, minha companhia. Me sinto em um melodrama, mudança radical na minha vida. Sei que preciso disso, tenho endometriose profunda, ainda investigando. Diversos problemas, pessoas, que talvez o dinheiro ajudaria a resolver boa parte deles. A começar por uma terapia, academia, terminar meus estudos, meu marido com doenças sérias da obesidade, emagrecer e diversos outros problemas. Quero e preciso pensar em mim e ver seu texto me ajudou a ver uma luz no fim do túnel. São 04:04 da manhã e eu lendo sobre o assunto, desabafando, pensando no amanhã, por onde começar. Amanhã vou conversar com um cirurgião, já conversei com Ginecologista. Para mim, o maior desafio é a alimentação. Hoje tenho queda de cabelo, picos de sistema nervoso, e não posso perder meu emprego, preciso manter estes problemas em off, pois meu esposo é desempregado por causa da doença dele, e já tem uma idade de 47 anos, fora do mercado. Queria acabar minha faculdade para abrir uma papelaria, mas não consigo, financeiramente principalmente. Várias situações envolvem minha vida que me preocupam e a endometriose é mais uma... desabafos de uma simples mortal.

Olá, querida Bianca:

Ontem, antes de dormir, decidi dedicar o dia de hoje para responder os comentários enviados por e-mail e pelo blog. Hoje, encontrei sua mensagem que toca o coração porque reflete desafios que muitas de nós enfrentamos, muitos desafios que enfrentei e com os quais também me deparo ainda. Com suas palavras corajosas, eu olhei para mim, para minha história.

Meus pais se casaram e se mudaram para uma cidade do interior paulista. Meu pai era empresário e tínhamos uma vida tranquila financeiramente. No final de minha adolescência, a situação mudou. Meu pai descobriu que estava sendo roubado pelo sócio, seu próprio irmão. Teve muitos problemas financeiros desencadeados também por essa grande decepção. Acabamos praticamente sem nada. Todos os caminhos pareciam fechados. Apesar de ter muitos parentes e amigos, eles desapareceram bem rápido. Ficamos sós. Mas uma porta se abriu para mim. Prestei vestibular, passei em uma faculdade pública em outro estado. Por razões financeiras e também pessoais, desisti da faculdade. Voltei pra casa e comecei a trabalhar.

A situação em casa era desesperadora. Meu pai chegou a sumir, sem dar notícias. Em um daqueles dias de espera, eu desci para o andar térreo de minha casa, e levei um livro devocional. Entre lágrimas, abri em uma história, era sobre um menino e sua mãe, Hagar e seu filho (Gênesis 21:8-21). O menino estava desesperado, sozinho com a mãe no deserto, sob o sol causticante, não havia água nem comida. Um anjo apareceu e disse que Deus cuidaria deles. Eu entendi que mesmo imersa naquele drama familiar, eu precisava subir as escadas e voltar. Estar com minha mãe e irmãs, ser forte, pois Deus estaria ao nosso lado. Meu pai retornou para casa depois que encontrou um homem na rodoviária que havia abandonado a família por desespero, sem deixar notícias. No ímpeto de ajudar o homem com conselhos, meu pai compreendeu seu próprio estado. Ele havia deixado o carro na Marginal Tietê e pegado um ônibus para uma cidade litorânea no Rio de Janeiro. Fez o caminho de volta e encontrou o carro no mesmo local, embaixo de um viaduto, depois de uma semana. Voltou para casa e nunca mais nos deixou.

Hoje, meu pai vende pães, bolos e salgados integrais que minha mãe faz, de porta em porta. São mais de dez anos de muitas lutas, mas ele se tornou um homem incrível, o homem que admiro. Ele sempre foi um bom pai. É a terceira geração de uma família religiosa e me educou na igreja. Quando começou a perder tudo, eu lhe disse confiante as palavras que ele mesmo havia me ensinado: “Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas?” Eu acreditava inteiramente nessas palavras. Meu pai ficou nervoso e respondeu que aquilo não se aplicava à vida. Mal podia acreditar no que estava ouvindo. Mas meu pai, em meio a tantos sofrimentos, foi se transformando. Algumas das pessoas com quem conviveu perderam o dinheiro e se entregaram à bebida e aos vícios. Outro homem, dono de um supermercado, recentemente, se suicidou, deixando dois filhos pequenos e a esposa. Estava sendo pressionado por agiotas e credores. Não aguentou a pressão. Meu pai, que chegou ao extremo de sua resistência emocional, continua percorrendo aquelas cidades turísticas, que um dia ajudou a enriquecer, com um sorriso no rosto, carregando seus pães na bicicleta vermelha, levando comida saudável, falando sobre saúde e contando a quem deseja ouvir sobre Quem lhe dá forças. Gosta do que faz.

Eu amo meu pai. Ele é um homem persistente, indignado com as injustiças, um grande admirador da natureza, um atleta com muito senso de humor, um homem de fé que atravessou o mar vermelho, um homem sem mágoas, um vendedor de pães sagrados. O homem mais rico do mundo. Volta e meia, meu pai pega uma carona com algum empresário conhecido do seu tempo e ouve os dramas de quem mantém o dinheiro, mas não tem paz. Um deles está com a doença conhecida como fogo selvagem (pênfigo), um filho internado por causa das drogas, e a família desfeita, em meio a traições e adultério. O dinheiro é necessário, mas não resolve as dores deste mundo.

Nesses anos todos, eu lutei para conquistar estabilidade financeira com o objetivo de “salvar” minha família. Quando voltei da faculdade, aprendi a manejar uma overlock barulhenta. Passava o dia costurando roupas para uma empresa, somava os centavos.

 Em um sábado, no final do culto, em uma igreja, um casal de idosos perguntou o que eu fazia. Contei a eles e, sem me conhecer, eles prometeram me ajudar a estudar. Por intermédio deles, ganhei uma bolsa de estudos em outra faculdade. Trabalhei como empregada doméstica, sem registro, para pagar a moradia e a comida na casa em que trabalhava. Nas férias, vendia livros de porta em porta. Depois de terminar a faculdade, me casei. No início do casamento, minha mãe adoeceu gravemente (Conto um pouco desse momento no texto Vitamina B12). Mas agora ela está bem.

Ingressei no mestrado e recebi uma bolsa de estudos. Com o dinheiro, ajudava meus pais. Não me formei no mestrado, pois fui indicada para o doutorado direto (minha dissertação foi transformada em uma tese de doutorado, com a concessão de uma nova bolsa de pesquisas). Tudo parecia incrível, depois de tantas lutas. Mas após iniciar o doutorado, a bolsa não chegou. Descobrimos que 80 alunos de toda a pós-graduação daquela universidade tinham perdido a bolsa devido a um entrave judicial da instituição com o governo. Se eu não recebesse a bolsa, teria que pagar os custos da pesquisa. Se tivesse que pagar, teria que abandonar o curso, pois não possuía qualquer condição de arcar com os valores cobrados. Como não tinha o diploma de mestrado, ficaria, depois de três anos de pesquisa, sem qualquer certificado. Orei e decidi assumir a vaga de representante discente. Reuni os demais representantes e, no final de cada reunião, nós cinco fazíamos uma oração. Foi assim até nas reuniões com a reitoria. Sempre fazíamos uma prece. Mas a situação parecia ficar cada vez pior. Muitos pesquisadores ridicularizavam o fato de aquela situação ser gerenciada também com orações. Oramos, fizemos requisições, acompanhamos a demanda judicial com intervenções, agíamos sem trégua junto à reitoria. Depois de dez meses e de um revés judicial, houve uma decisão judicial em Brasília que determinou o pagamento das bolsas, com valores retroativos.

Em meio àqueles momentos de tensão, um dos pesquisadores que dependia financeiramente do dinheiro para cuidar da família, me perguntou, após uma prece: “você acha que Deus escuta mesmo? Ele existe?” Anos mais tarde, esse mesmo pesquisador, me contatou por e-mail. Estava com câncer e precisava conversar. Hoje, ele superou o linfoma, após várias recaídas e dá aulas em uma faculdade pública na área de exatas. Há pouco espaço para Deus onde ele atua, mas ele sabe, como eu sei, como meu pai sabe, e muitas outras pessoas experimentaram: Deus existe sim e nos conhece pessoalmente. Se Deus existe, então por que há tanto sofrimento? Por que, muitas vezes, aquilo que desejamos não acontece? A Bíblia tem a resposta para essas questões. Eu acredito nessas respostas, eu as busco, e desejo vivenciá-las face aos desafios, mas sei que nem sempre estou pronta para compreendê-las diante dos desfechos adversos.

Há tanto para falar, tantos caminhos absolutamente fechados que encontrei, tantas orações que fiz, e a visível atuação de Cristo em situações diversas. Após essas lutas, descobri a endometriose profunda depois de um falso diagnóstico de câncer e uma cirurgia de urgência. Tive dores insuportáveis, emagrecimento, queda de cabelo... sintomas pelos quais muitas de nós passamos. Às vezes, a doença é consequência de uma vida de lutas e problemas que nos fazem esquecer de que precisamos olhar para o corpo, cuidar de nós mesmas.

À época do diagnóstico, já estava morando nesta cidade em que resido agora, uma cidade sem quaisquer condições profissionais para mim. Comecei a trabalhar em uma empresa religiosa onde recebia um pouco mais de mil reais para dar conta do meu trabalho e de parte do trabalho de quem me chefiava, em um ambiente bastante hostil. Eu precisava muito do dinheiro, embora fosse pouco. Mas meu marido me incentivou a pedir demissão. Eu já não tinha condições físicas e emocionais de continuar. Um mês após a demissão, fui aceita para fazer uma pesquisa de pós-doutorado com financiamento – um contrato de trabalho temporário, mas que surgiu em boa hora, na hora exata.

Aos poucos, a endometriose foi sendo superada, como conto neste blog. Entendi que precisava cuidar de mim, me alimentar bem, fazer exercícios, mudar meu estilo de vida na medida do possível, para poder cuidar de quem amo. Precisava confiar que Deus está cuidando deles. Em minhas orações, expresso meus sentimentos, eu peço, eu agradeço. Sei que por meio da mudança de estilo de vida é possível sim vencer a endometriose, crendo ou não em Deus. Mas também sei que foi Ele quem me mostrou o caminho e me deu forças necessárias para prosseguir até aqui. Creio que Cristo me fez, me salvou e está no controle da história de cada um, caso permitam, e da história deste mundo. Há uma ciência da salvação. “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12).

Sobre meus pais, eu acreditava que o dinheiro resolveria muito de nossos desafios, mas aos poucos ainda estou aprendendo o que a Escritura diz sobre a ansiosa solicitude pela vida: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o Seu reino e a Sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus 6:33). Meus pais são as pessoas mais felizes e queridas que conheço, mesmo depois dessa crise financeira que repercute em muitos aspectos. A fé não garante nenhuma riqueza, mas transforma totalmente a realidade. Hoje, meus pais são mais felizes do que antes. Sim, preocupo-me com a velhice deles. Estamos nos planejando para fazer o melhor. Quero estar preparada, quero dar a eles tudo que precisarem e, às vezes, ainda me angustio muito com o futuro. A confiança em Deus não anula de maneira alguma a necessidade de ações efetivas, pelo contrário. O verso diz “buscai a justiça de Deus”. A prática da justiça é a prática do bem, não uma vida de devoção mágica. É nEle que temos encontrado forças para ultrapassar desafios intransponíveis. Deus abre a visão, mostra as saídas, nos salva do desespero, mesmo quando o desfecho não é aquele que esperávamos. Ele nos ajuda a transformar o desejo de justiça em justiça efetiva, transforma a religião em uma ação real, interligada, movida pelo Amor que nos faz amar o outro enquanto amamos a nós mesmos.

Eu tinha alguns medos relacionados à gravidez, mas nunca fui tão feliz em minha vida. Contudo, continuo acreditando que nem a gravidez nem o dinheiro nem mesmo a superação das dores da endometriose, e muito menos títulos acadêmicos, são a garantia para uma vida sem dor. Não é o dinheiro que resolve. Não é um bebê que resolve. Não é uma profissão ou a adoção de uma criança – a expressão máxima do amor – que nos salva deste mundo. Neste mundo, teremos muitas aflições, aflições inúmeras, mas tende bom ânimo, diz Cristo. Há algo mais.

Ainda não venci o mundo, mas creio nAquele que venceu. Eu o reconheço em meus caminhos e quando olho pra trás percebo claramente que Ele me tirou, como diz Davi, de um “tremedal de lama”, do qual eu jamais sairia sozinha. Ele me tirou das madrugadas frias e me fez forte, ainda que a dor da doença estivesse presente e o dinheiro ainda faltasse. O grande desafio é olhar para o presente e para o futuro, e continuar confiando. Quantas vezes eu acordei de madrugada em meio às preocupações, e provavelmente terei muitas madrugadas insones pela frente... Mas não posso me esquecer dessas palavras que me têm conduzido: “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nEle, e Ele tudo fará” (Salmo 37:5).

Querida Bianca, você confia nEle e graças a Deus seus pais e sua família tem você na vida deles. Eu me reconheço em você – uma pessoa responsável pelos seus pais, esposa, a mulher que tem que batalhar muito na vida para conseguir o sustento de todos. Sei que há muitos outros desafios.

Hoje de manhã, depois que li sua mensagem, fui ler a Bíblia, como de costume. Li Daniel 10, um livro muito lido e estudado por Isaac Newton, o pai da ciência, embora muitas historiografias da ciência deixem de mencionar que Newton pesquisou mais sobre o livro hebraico de Daniel e suas implicações para o futuro da humanidade do que sobre Física (Isaac Newton é autor do livro “As profecias de Daniel e o Apocalipse”). Nesse capítulo, Daniel faz uma oração, uma súplica. Ele se apresenta a Deus, repetindo a expressão: “coro de vergonha.” Eu coro de vergonha diante das falhas que há em mim. Sou como você disse, uma simples mortal, que se desesperou e ainda se desespera muitas vezes, que falha, que teme, mas que insiste em orar – a Comunicação, minha ligação com a palavra, com o verbo. Em resposta à oração de Daniel, um anjo é enviado e responde inicialmente: “és muito amado.”

Bianca, você é muito amada por Deus. Ele lhe dará forças e lhe mostrará os meios para vencer os desafios, ainda que se mostrem intransponíveis. Ele lhe dará forças para realizar seus sonhos, ter novos sonhos, forças e meios para cuidar de seus queridos.


Com carinho,


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domingo, 11 de agosto de 2013

A orquestra


11 de agosto de 2013

Fomos ouvir uma orquestra jovem em uma igreja. A música instrumental do repertório religioso atraiu crianças para os primeiros bancos, impressionou alguns e pareceu não exercer efeito em muitos. Havia muitos bancos vazios, pessoas conversavam e circulavam pelos corredores. A música existe quando existe o outro. Uma menina, de uns quatro ou cinco anos, inesperadamente pulou do banco e acariciou por alguns instantes o braço da violonista durante a apresentação. Mais do que ouvi-la, a criança completamente entregue ao momento se apropriou da música com seus dedinhos ávidos, seu sorriso de fascínio.    

No final da apresentação, na porta da igreja, uma mulher me deu os parabéns pela gravidez e perguntou quando eu terei o bebê. Minha barriga está grande para quatro meses. Após esse contato inicial, ela me contou que tem dois filhos, uma moça de 21 anos e um menino de 10. Falou que o nascimento do menino foi um milagre, pois ela tinha acabado de fazer um tratamento quimioterápico e engravidou. Descobriu a gestação com cinco meses. Os médicos lhe disseram que o bebê não seria saudável, que provavelmente teria déficits cognitivos. Ela me mostrou o lindo garoto e contou que ele é o primeiro da classe e, recentemente, foi aprovado em um teste concorrido para um conservatório musical de referência. História de milagres e superação em meio à dor que persiste nela. 

Depois de ouvi-la, disse que eu também não esperava engravidar e que a gestação contrariou as estatísticas médicas. Eu tinha apenas 3% de chances. Quando mencionei a endometriose, ela falou que tem a doença. Por causa dela, levou quase dez anos para engravidar da menina, que hoje sofre com endometriose profunda e tem cólicas insuportáveis. Por causa dessa doença, essa mãe teve de fazer cirurgias, limpeza dos focos, tomar injeções de hormônios... A via sacra de um mal que ainda sangra após décadas. No final desse tratamento medicamentoso e cirúrgico contra a endometriose, ela descobriu um câncer agressivo. Hoje, superado o câncer, continua heroicamente lutando contra a endometriose. Ainda há cicatrizes e dores.

Contei rapidamente sobre meu diagnóstico, tratamento e resultados: endometriose profunda com indicação de cirurgia para retirada de segmento intestinal, dores com desmaios, mudança de alimentação, prática de exercícios físicos, sol, fitoterapia, um conjunto de hábitos saudáveis, o não uso de remédios agressivos, de anticoncepcionais, a regressão efetivas dos focos, o fim da dor, uma vida normal... o último resultado ela via em mim. Ela ouviu e se despediu.

No passado, em um templo, no princípio era o som. Aquela ordem firme, os ruídos, o silêncio produziram sons que só as crianças ouviram. O som se fez músicas nelas, que efusivamente cantaram em alta voz infantil (Escrevi A canção das crianças no blog). A sensibilidade das crianças lhes garante sua entrada no céu, ainda na terra. Depois, ouviu-se uma voz do alto que ecoa agora (João 12: 28-30). Alguns escutaram um barulho, outros percebem letras soltas, sem sentido, com sentido distante e confuso para se crer, um deus morto.   

Anoitecera, o vento frio sacudia as árvores próximas, eu queria dizer que é possível, disse, mas foi apenas um som nessa via sacra de audições reais e imaginárias. 

   


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sábado, 3 de agosto de 2013

Estou grávida

3 de agosto de 2013

Estou grávida. Em 2008, recebi o falso diagnóstico de câncer, mas era endometriose profunda, infiltrativa, grau IV. Após uma ooforectomia de urgência, perdi meu ovário direito, que estava com um endometrioma de 15 cm. Posteriormente, fui diagnosticada com aderências, focos espalhados pela cavidade abdominal, endometriose no intestino, no ovário esquerdo (endometrioma), na parede do útero (adenomiose), na região septo retocervical, entre outros locais. À época, também fui diagnosticada com marcadores de autoimunidade reagentes (dois padrões reagentes de FAN-Fator antinuclear), CA-125 alto e vitamina D muito baixa. Tive crises de dores que me fizeram desmaiar.

Primeiro, superei a dor. Depois, os focos pararam de crescer. Então, começaram a diminuir. Agora, estou grávida, com 36 anos.

Estou na 18ª semana da gestação, no quarto mês. Tive muitos enjoos, vomitei bastante, minha pressão baixou, mas o bebezinho está muito bem. A cada exame, uma boa notícia.

Há cinco anos, em 8/8/2008, fui operada; em setembro do mesmo ano, iniciei este blog anônimo. Esta é a 97ª postagem. Foi a maneira que encontrei de dizer a mim mesma que superaria essa doença. Consultei-me com médicos especialistas que me indicaram, primeiramente, o uso de medicamentos hormonais e depois a cirurgia para retirada de focos e de um segmento do intestino, já que eu tinha dores na evacuação e estava visivelmente com a saúde comprometida. Um médico de referência me disse que o risco de cancerização de focos de endometriose no intestino é muito alto, por isso ele recomendava que eu fizesse a cirurgia. Além de muito cara (30 mil reais, valor que seria cobrado na época por uma equipe multidisciplinar liderada por um grande especialista), a cirurgia implicava na possibilidade de colostomia provisória ou permanente (bolsa externa para coleta de fezes), além dos riscos inerentes a um procedimento cirúrgico de grande porte. Nessas idas e vindas a consultas, também me ofereceram por inúmeras vezes a fertilização in vitro (FVI), muitas vezes, como forma de vencer a endometriose. Com a saúde debilitada, emagrecida, desfalecida, eu jamais cogitei essa possibilidade.

Mesmo com esse arsenal, os médicos com muita honestidade me disseram que não havia garantia de que eu não necessitasse novamente de novas intervenções cirúrgicas. “Não há cura, há controle”, diziam. A partir dessa informação e da leitura de experiência de dezenas de mulheres que compartilham sua história na internet, decidi não fazer a cirurgia nem usar hormônios ou qualquer outro medicamento. Conversei com meu marido, e tomei a decisão de mudar meu estilo de vida. Se algo estava muito errado, mais errado que a própria doença, era a forma como eu vivia, minha alimentação, meu sedentarismo, minha alienação em relação aos hábitos saudáveis.

Há cinco anos comecei, timidamente, a mudança no estilo de vida, com enfoque basicamente em dez áreas: alimentação, exercícios físicos, água pura, respiração, eliminação de produtos estimulantes, sol, fitoterapia, interação social (o blog também é meu remédio), emoções e confiança em Deus. Esses itens têm vários desdobramentos e implicações, que procurei entender por meio de leituras de livros (fundamentalmente, li os escritos de Ellen White), pesquisas científicas, consultas médicas, trocas de experiências. O principal dos dez aspectos citados é o que enumerei por último – confiança em Deus e em Seu Filho, Cristo. Por mim mesma, com a minha força de vontade apenas, eu não teria conseguido. Mas penso que esse caminho de mudanças é para todos, para os que têm fé em Deus, para os que não a têm. Se mudarmos nosso estilo de vida, o corpo responderá positivamente. É ciência, a mais perfeita ciência. Ciência que, em minha história, é marcada por Ele, Aquele que aplainou as subidas impossíveis, apontou o caminho e aliviou o peso da madeira sobre meus ombros.

Depois de muitos altos e baixos, erros e ajustes, em 2011, os exames constataram que os focos de endometriose diminuíram consideravelmente. Como acompanhei todo o tratamento por meio de exames médicos, eu estava disposta a aceitar a cirurgia caso essas mudanças não resultassem em manutenção do tamanho ou diminuição dos focos, a meta que defini. Mas os focos diminuíram significativamente, o FAN baixou (de 320 para 80), o CA-125 baixou (de 150 para 30), a vitamina D aumentou (de 14 para 38), a vida voltou. Tenho relatado essa experiência no blog.

Antes da grande surpresa, já me considerava curada, pois meu conceito de cura é controle que controla, pois o tratamento é eficaz e permanente. Os dez aspectos de mudança que mencionei não formam uma pílula que se toma por alguns meses, não é um regime provisório e flexível, não é um acessório encarado sem seriedade e entrega, um pedido por milagre, é um tratar-se seriamente que se estende pelo tempo da vida, o continuum saudável. A cada exame, recebia no decorrer dos meses a boa notícia de que os focos diminuíam. No ovário, por exemplo, o endometrioma estava com mais de 6 cm. Hoje, tem menos de 3 cm. No intestino, e por toda parte, os focos diminuíram. Os exames atestam.

Então, a vida surgiu. Eu não estava tentando engravidar agora. A médica havia falado que minhas chances eram remotas. No ano passado, tentamos engravidar, mas tivemos decepções. Meu marido e eu havíamos decidido não fazer qualquer tratamento hormonal para engravidar, pois eles podem inclusive provocar ou agravar a endometriose, entre outros efeitos indesejáveis e implicações diversas (Veja este artigo que escrevi O livro da vida). Decidimos que iríamos adotar uma criança, ainda pensamos nessa possibilidade para o futuro. Mas embora minha alimentação já estivesse minimamente corrigida, decidimos que faríamos novas tentativas de engravidar no início do próximo ano para que eu tivesse tempo suficiente para corrigir melhor meu estado nutricional, com outras fontes saudáveis de nutrientes e vitaminas.

No dia 21 de abril, no entanto, senti algo diferente. Tive certeza de que estava ovulando. Nunca fui de ler sobre sinais de ovulação ou tentar detectar meus dias férteis. Havia apenas feito poucas leituras superficiais sobre o assunto. O dia estava ensolarado e meu marido trabalhava no jardim, podando a árvore de jambolão que ameaçava eclipsar a luz do sol que entra pela janela do nosso quarto. O dia estava lindo, um domingo azul. Eu o chamei, disse o que sentia, nos aconchegamos. Não tentamos outra vez. Naquele dia de sol, eu fiquei grávida.

Neste sábado azul, quero dizer que estou grávida naturalmente. Tenho endometriose profunda, os focos diminuíram, superei a dor, engravidei. A vida voltou, a vida surgiu, estou à espera da vida que nasce. Orem por nós.

Não posso mais guardar isso para mim, eu não tenho mais dúvida alguma do que essas mudanças fizeram pela minha vida. Moro no Estado de São Paulo e me coloco à disposição para contar pessoalmente minha história, mostrar meus exames e compartilhar o que recebi de graça, pela graça de um Amigo.


PS.: 1. Agradeço imensamente as mulheres anônimas que entraram neste blog e me enviaram palavras de força e carinho, mesmo tendo que suportar a própria dor. Agradeço especialmente a quatro amigas que me dão força, alegria, fé e me transmitem o amor de Cristo – Daniella, Débora, Iranete e Michele, minhas amigas queridas. O que teria sido de mim sem as suas palavras, sem as suas ações? Em muitos momentos de cansaço, dor e fragilidade, vocês me salvaram de mim mesma.


PS.: 2. Além desses dez aspectos, há mais um que devo informar. Durante esses cinco anos, eu não utilizei qualquer medicamento, nem para combater a dor, nem para tratar a endometriose por métodos hormonais. Menstruei por todo esse tempo, pois há mais de cinco anos eu parei de usar o anticoncepcional, por motivos que já escrevi neste blog (Veja o texto que escrevi: Anticocepcional e endometriose). Para combater uma gripe, por exemplo, eu fiz uso de meios naturais, como alho e cebola, entre outros recursos que não apresentam os efeitos colaterais dos remédios.

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domingo, 14 de julho de 2013

Vitamina B12

14 de julho de 2013

Havíamos acabado de nos casar. Morávamos em uma edícula alugada que cabia no orçamento de um jornalista que cursava a segunda faculdade e de uma jornalista que iniciava o mestrado. O orçamento era curto, os desafios imensos. Na medida do possível, ajudávamos financeiramente meus pais. Embora essa pequena ajuda tenha aliviado um pouco a situação deles, a conta do passado de carestia e lutas ainda chegaria de forma dramática. Faltara nutrição. A falta de nutrição é pior do que a falta de dinheiro. Não sentiram fome, mas havia fome oculta, a fome das células por algo mais do que massa, açúcar e gordura.

Meu pai, mais sábio, subia nas árvores e colhia o que encontrava – lichias, ameixas, jabuticabas, bananas. Faltava tanta coisa, e as árvores frutificavam, mas minha mãe e minha irmã mais nova não eram de comer frutas. Li que na Grécia, famílias da classe média empobrecida agora dão a seus filhos macarrão com molho. Enchem a barriga, mas o corpo das pequenas crianças se fragmenta em vida. Não há fome mais triste do que a fome oculta, a fome das células por nutrientes que atinge tanto pobres quanto ricos, uns por falta de dinheiro; outros, por falta de conhecimento.


Meu pai ligou em desespero. A situação havia melhorado um pouco, eu já havia levado minha mãe a consultas, mas algo em seu corpo não estava bem. A pele apresentava uma alergia disseminada, seu aspecto era de abatimento. A dermatologista havia sugerido que a medicássemos com cortisona. Para quê? Para combater sintomas ou a causa? Na época, sabia pouco dos efeitos danosos de drogas farmacêuticas, mas havia ouvido falar de uma amiga de minha mãe que tomara cortisona para um mal sem causa identificada. Depois de anos a fio de “tratamento”, teve um câncer. Parecia-me que a cortisona tinha algo a ver com aquele corpo debilitado, com a ruína daquele sistema imunológico. Era uma suspeita. Com base nela, não obedeci à médica.


Naquele domingo, meu pai ligou com a voz embargada. Minha mãe gemia, estava inconsciente. “Vem logo. Ela está morrendo.”


Fizemos a viagem, levamos minha mãe para o pronto-socorro. Lá, deram-lhe calmante e a liberaram. Ela morria. Ligamos para amigos para tentar uma internação em um hospital particular, mas ninguém nos ajudou. À noite, exausta, eu tive a completa convicção de que fora o tempo de carestia alimentar que a deixara daquela forma. Mesmo com a alimentação restabelecida, a doença era sequela. Lembrei-me do que a tradição judaica testamentária afirma: “o filho de Deus jamais mendigará o pão.” A pequena mulher que havia alimentado a tantos morria por causa da comida que faltara. Em prece solitária e desesperada, expressei meus sentimentos de contrariedade. Ela não poderia morrer porque faltara o pão, não por isso. Ninguém deveria morrer por isso, ninguém.


No dia seguinte, minha mãe foi submetida a um ultrassom do abdômen total e a uma ressonância magnética do cérebro. Se ela estava inconsciente, o mapa do cérebro certamente nos diria algo, foi o que pensei. O ultrassom mostrou dezenas de pedras na vesícula. Parecia que havia risco de superar, mas minha mãe não sentia dores, um sintoma comum nesses casos. A ressonância revelou pontos brancos no cérebro. Morte de neurônios que poderia estar sendo provocada por um derrame, mas não havia sintomas claros de um derrame. Ela precisava retirar a vesícula, mas não tínhamos a quantia que o médico pediu. No SUS, não havia vaga.


Liguei para minha orientadora de mestrado, embora nosso contato fosse recente. A sogra dela havia sido professora de Medicina em uma universidade pública. Estava aposentada. Será que poderia nos ajudar? Em dez minutos, minha orientadora retornou a ligação e disse para levarmos minha mãe ao pronto-socorro dessa universidade. Havia um médico a esperando. Fizemos isso, era noite. Na metade do dia seguinte, ela continuava em uma maca no corredor do hospital. Eu sabia que era uma urgência, mas os médicos não pensaram assim devido à ausência de dor. De acordo com a triagem deles, minha mãe poderia esperar mais um pouco. Fui à casa de minha orientadora, passamos na casa de sua sogra e, em meio à chuva, aquela senhora forte, com seus quase 90 anos, saiu com seu crachá em direção à universidade. “Operem essa mulher.”


Após a cirurgia, o jovem médico nos disse: “Havia apenas uma camada fina de pele. A vesícula estava quase supurando.” Por mais um pouco, a perderíamos. Ela saiu da cirurgia querendo se levantar, não sentia dor. Na internação, manifestava perda de memória, personalidade adversa. “Ela é uma pessoa calma, sensata. Há algo de errado”, disse ao médico. Mas ele não me escutou. “Ela não foi sempre assim?”, retrucou com descaso e assinou a alta. Em casa, ela teve surtos e depois perdeu a consciência. Nesse meio tempo, chegou o resultado de um exame de sangue que eu havia pedido por pedir. Uma senhora da igreja me dissera que conhecia alguém com os sintomas da minha mãe. A pessoa havia tido carência de vitamina B12. Na última hora, lembrei-me desse comentário e pedi o exame. O resultado do exame apontava que ela estava com carência de B12. Seria isso?


Voltamos à universidade pública. A médica viu o exame, examinou minha mãe e nos mandou para o pronto-socorro da universidade. Era carência de B12, mas a universidade tinha falta da injeção de cianocobalamina. Hospital universitário sem B12 é caso tão grave quanto um corpo sem B12. Fomos à farmácia, e a primeira dose foi aplicada. Em dois dias, minha mãe havia recuperado a consciência. Sim, em dois dias. Embora tenha ficado com alguma sequela nas pernas, como formigamento e dormência, ela está muito bem. Atualmente, toma injeção de B12 periodicamente.


Dormência, formigamento, sintomas na língua, dermatite e, nos casos mais graves, demência, incontinência urinária: são esses alguns dos sintomas de carência de vitamina B12. Quando falta a vitamina, os neurônios começam a morrer. Mas nem sempre a carência é bem percebida. Com a diminuição da vitamina pode haver perda quase imperceptível de memória, cansaço, certo formigamento nas mãos. A vitamina é essencial para a vida.


A busca por entender o que estava acontecendo com minha mãe, em meio a consultas médicas superficiais e a diagnósticos errôneos, manteve viva quem me trouxe ao mundo. Deu-me também vida uma vez mais. Se apenas tivéssemos aceitado o que diziam, se após aquele cirurgia tivéssemos concluído que tudo que precisava ser feito havia sido feito, nós a teríamos perdido. Também teria conhecido menos de mim mesma. Ao desvendar o que atacava seu corpo, pude me preparar para me socorrer. Anos depois, eu mesma apresentei uma deficiência de B12 preocupante, que foi corrigida a tempo. Eu conhecia minha mãe, conhecia a doença, conhecia a vitamina e pude reconhecer os sinais em meu corpo. Honra pai e mãe e seus dias se prolongarão, diz a sábia palavra bíblica. A palavra se confirma em mais um fôlego.


Fôlego a fôlego, outros conhecimentos surgiram. Essa experiência com minha mãe me ensinou várias coisas: a importância de saber ler os sinais, lutar pela vida, não se contentar com diagnósticos superficiais, não usar remédios que atenuam sintomas, valorizar a formação médica inteligente, fazer os exames necessários, admirar o saber médico especializado que oferece os diagnósticos corretos, suspeitar de quem não valoriza diagnósticos, admirar profundamente a bondade de duas mulheres não religiosas que estenderam a mão para uma desconhecida e salvaram a vida de sua mãe, expor a Deus as dúvidas e confiar nEle, indagar, indagar, indagar, olhar para o corpo, olhar para cima. Lições que me fizeram forte para iniciar a luta contra a endometriose, anos mais tarde. Luta que considero vencida.


Em minha história contra a endo, também tive de saber aprender a lidar com a questão da B12. Quando tive a carência de B12, tomei uma injeção intramuscular de cianocobalamina. Eu havia feito um exame para acompanhar os focos de endometriose antes da injeção. Um mês após a injeção, não me senti bem e resolvi refazer o exame para avaliar a endometriose. Os focos haviam aumentado consideravelmente. Para mim, a injeção aumentou os focos. Não há qualquer comprovação científica do que estou dizendo. Minha conclusão vem da observação de meu corpo. Mas nunca mais repus a vitamina B12 com injeção intramuscular. 


A vitamina B12 além de ser encontrada em alimentos cárneos e lácteos é produzida pelo próprio corpo, por bactérias presentes no intestino. A indústria também oferece alimentos enriquecidos com a vitamina, como o Neston, entre outros. A deficiência dessa vitamina está relacionada a vários fatores: gastrite atrófica (gastrite autoimune), alcoolismo, problemas na vesícula, alimentação vegana, uso de metformina (remédio para diabetes –
veja aqui), entre outros. Todas as pessoas, vegetarianos ou não, especialmente os mais idosos e os diabéticos, devem fazer o exame de sangue anualmente. Basta pedir ao seu médico um exame de sangue de “vitamina B12”. Se for particular, o valor é acessível.

Alguns médicos dizem que a carência de B12 leva tempo para se manifestar. Nem sempre é assim, conforme tenho observado. Algumas pessoas não terão carência, mesmo fazendo parte do grupo de risco. Minha sogra, por exemplo, é vegetariana e usa metformina. Seus exames estão sempre normais. Outras apresentam a deficiência mesmo não fazendo parte do grupo de risco. A esposa do avô de meu marido, que tem 87 anos, come carne regularmente e não faz uso de remédios, apresentou a carência de vitaminas. Uma das sequelas tem sido dificuldade de andar e dores nas pernas, algo que minha mãe sente. A carência de B12 também predispõe o organismo a doenças neurológicas degenerativas, alterando a mobilidade e o comportamento. Nesses casos, é recomendável a reposição periódica. Não basta tomar uma ou duas doses de injeção. O problema é que boa parte dos médicos desconhece a importância da vitamina e a forma correta de reposição (
Veja aqui uma matéria excelente sobre a B12, com explicações e alertas da médica Sara Saad, da Unicamp). Por isso, é tão importante se informar e não aceitar o que chamam de “inevitáveis doenças da velhice”. 

Se você tem alguém idoso na família, não deixe de pedir os exames de B12 e vitamina D, principalmente. Muitas queixas que parecem ser “emocionais” ou de “fundo psicológico” são resultado de deficiências graves de vitaminas. Acredito que essa consciência evitaria muito sofrimento e mortes desnecessárias. Os mais velhos merecem a nossa mais completa atenção. Além de ser um ato de amor, o conhecimento das doenças que os acometem e dos recursos preventivos é uma proteção para nosso organismo também, pois somos sua continuidade genética e estamos susceptíveis às mesmas doenças.


Embora os quadros de deficiência sejam mais comuns nos mais velhos, os jovens devem estar atentos. Como escrevi, eu tive e deficiência e, regularmente, refaço os exames. Amigos jovens que mudaram a alimentação também tiveram uma rápida baixa na quantidade de vitamina. Para ter a quantidade aceitável, faço uso de ovos orgânicos de boa procedência. Alguns médicos vegetarianos defendem uma dieta ovolactovegetariana para prevenir a deficiência. Outros são inflexíveis contra os ovos e leite, indicando o uso de suplementos. Há ainda algumas pessoas que dizem ser inteiramente desnecessário repor a vitamina, pois o organismo a produziria na quantidade necessária. Esses estão errados em grande parte dos casos. Por algum motivo – talvez relacionado ao modo de produção de alimentos, à poluição ambiental, a fatores nutricionais, ao estilo de vida atual –, nosso organismo está perdendo a capacidade de produzir B12, mas continuamos precisando muito dela. Não deixe de fazer os exames, de ler sobre o assunto, de conhecer os sinais que o corpo envia. A vitamina B12 é uma das essências da vida. 


Por último, essa experiência marcante, que ajudou a definir meu caminho de luta e persistência para superação da endometriose, me deixou uma grande lição. Por uma única vitamina, minha mãe quase morreu. Por uma única vitamina, ela voltou a viver. As doenças aparentemente mais complexas podem ter – e na maioria das vezes têm – um caminho de cura muito simples. A médica Sara Saad, da Unicamp, descreve pacientes que foram submetidos até a transfusão de sangue e o que tinham era “apenas” carência de B12. O médico Cícero Coimbra, da Unifesp, fala de pacientes com esclerose múltipla, em cadeira de rodas, que foram tratados com vitamina D e agora estavam praticamente curados, andando, falando, vivendo. Nomes complexos de doenças acabam camuflando verdades médicas impressionantemente simples – a falta de nutrição faz adoecer, a nutrição cura. É assim com a endometriose também. Com a nutrição certa, com o estilo de vida correto, eu não precisei de remédios ou cirurgias. A doença “sem cura”, espalhada em aderências, está desaparecendo, centímetro a centímetro. Uma verdade médica simples que exige entrega total. 


PS.: A experiência com minha mãe fez com que eu iniciasse um blog sobre B12, mas acabei não o atualizando. Há muitas pesquisas, controvérsias, implicações que merecem ser reunidas, discutidas e conhecidas. Embora atualmente a importância da vitamina B12 seja mais amplamente conhecida, há muita pesquisa que precisa ser feita e, principalmente, muita divulgação de pesquisas e experiências a se fazer. Ainda pretendo retomar o blog.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

domingo, 30 de junho de 2013

Palavras de esperança



30 de junho de 2013

Tenho 30 anos e em 11/ 11/11 descobri que tinha endometriose.

Fiz um ultrassom específico demorado e ouvia o médico passando vários números em tom de voz baixo para a secretária, achei estranho. No final do exame, percebi que a secretaria tentou me agradar, tratou-me com um carinho diferente. Depois descobri o porquê.

Ao receber o laudo de duas páginas não me preocupei porque não entendi uma palavra. Ao levar o exame ao médico eu tive a consulta mais marcante da minha vida. Uma cirurgia de 8 horas ou mais, muito delicada, com retirada de parte do intestino, apêndice, seria necessária. O médico não pintou a pílula de dourado. Foi direto ao ponto.

Eu tremia o queixo, as pernas, quase desmaiei. Sou uma pessoa tranquila, controlada, não exagero nas reações. Na hora, senti que começava uma longa caminhada, mas, como sempre, não demonstrei.

Passei a noite em claro. Bem cedo sentei na internet e comecei a pesquisar. A primeira coisa que li foi “portadoras de endometriose”. Já tive uma má impressão, pois se você “porta” uma doença quer dizer que não há remédio ou cirurgia que cure. Como as pessoas portadoras de diabetes.

Num mar de informações, perdida, tentando filtrar conteúdos, suplicando por algum que me tocasse eu, enfim, achei o endometrioma.blogspot.com.br. É difícil falar sobre esse momento. Eu fui tocada de maneira tão inexplicável pelo conteúdo, pelo sentimento da editora do Blog que eu não sei mensurar.

Li todos os posts do Blog em um único dia. Sentia como se eu não tivesse mais doença. Saí para tomar sol, caminhei, amassei um dente de alho e comi com água e limão espremido.

Meu marido chegou em casa à noite e encontrou outra mulher. Amo meu marido, e esse amor se agiganta principalmente porque ele me ouve, presta atenção em mim, temos qualidade de tempo juntos, por mais que ele tenha mil problemas também. Ele doa seu tempo. Ele ouviu naquela noite eu falar do endometrioma.blogspot.com.br por um longo tempo.

E assim comecei minha jornada de reeducar meu paladar, perceber meu corpo, minhas dores, minhas tristezas, alegrias. Autoconhecimento que eu nunca tinha experimentado. Talvez seja uma característica comum das mulheres com endometriose a doação ao outro.

Um post muitíssimo interessante do blog é Mulheres em Pote de Vidro. De fato, ouvimos muito por aí que a tal da endometriose é a doença da mulher moderna, trabalhadora, multitarefas, estressada, pilar da casa, que não sabe dizer não (eu ouvi tudo isso de médicos muito renomados).

Isso significa o quê? A culpa é minha? A minha amiga que não se preocupa com a dor do outro, não se coloca no lugar de ninguém, só pensa em si mesma, não tem endometriose?


Quantas perguntas tolas para frases que não deveriam ser ditas. Mas eu disse tudo isso, porque eu raramente prestava atenção em mim, no meu corpo, nas minhas dores. Até ouvi outro médico me dizer que o meu “limiar de dor” era bastante alto. Mas mal ele sabia que o meu limiar de esperança também era bastante alto.



Talvez a minha preocupação com o problema do meu pai, da minha mãe, do meu marido, da minha irmã não me deixavam parar para notar a minha dor. Eu não percebia essa situação, apenas vivia no piloto automático.

O fato é que quis de todo o coração me aproximar da mulher por trás do blog. Eu mandei um e-mail a ela abrindo o meu coração e pedindo ajuda. Queria me contagiar com a sua força, ouvir suas histórias.

Foi assim que começou uma grande amizade. É incrível como um acontecimento ruim (a descoberta de uma doença) pode lhe trazer coisas incrivelmente boas.

Esses dias fiquei pensando: “imagine se a editora do blog tivesse tido a ideia de criar esse canal de comunicação, mas nunca tivesse tirado do papel. Quantas coisas nós idealizamos, mas não fazemos. O primeiro passo nunca é dado".

Esse foi um grande exemplo para mim. Faça. Escreva. O paradoxo é que a solidão do momento de escrever sozinha é logo compensada pela pulverização da ideia aos quatro ventos. Quantas brasileiras na Europa, na Ásia, na África, na América.

Assim como eu, depois de ser golpeada com a notícia quantas mulheres procuram ajuda na internet? Encontramos médicos se autopromovendo, blogs querendo atrair leitoras para ganhar anúncios, notícias trágicas.


E eu encontro alguém tentando gritar para o mundo: “ei, existe uma saída. A saída está aí dentro de você. É sua vontade de mudar. Olhe para a natureza. A água, o sol, o mar, a terra, a respiração, o vento no rosto durante a caminhada”.

Alguém me ensinou que eu posso trocar o círculo vicioso da vida moderna com suas consequências pelo círculo virtuoso VIDA. A realidade é que a vida moderna com tantas informações, tecnologias e chamarizes em 3 D  nos cegam para a beleza das coisas simples. O pássaro perto da janela, as cores do pôr do sol, o cheiro da chuva.

Eu agradeço a Deus pelo blog e pela vida por trás do blog. Quisera eu imaginar que um dia eu iria agradecer a Deus por ser portadora de endometriose.

E muita dessa gratidão a Deus decorre do meu encontro com o blog. Ele me ajudou a dar outro enfoque à doença. Não combater os efeitos, mas buscar as causas. Por causa disso tudo, eu MUDEI. Mudei o meu olhar sobre o mundo, sobre o trabalho, sobre a família, sobre eu mesma.

Confesso que não é simples assim. Hábitos arraigados, vida agitada, trânsito, poluição. Gatilhos que te puxam como areia movediça.

Quem disse que seria fácil?

Nisso consiste a beleza da vida. O aprendizado constante. Avanços e retrocessos. Desfrutar as alegrias, chorar as tristezas. Receber o desprezo de uma amiga ao lado. Encontrar um ombro amigo numa terra nunca imaginada ("Em todo tempo ama o amigo e na angústia nasce o irmão” Prov. 17:17).

Hoje, especialmente, me senti inspirada a expor meus sentimentos. Alguns ficaram ainda recônditos, outros não consegui expressar. Que essas palavras sirvam para te alegrar e principalmente te inspirar a continuar. Exercitar o seu dom de escrever e nos tocar.

Uma coisa posso dizer com todo o coração: Enquanto houver vida, haverá esperança.

Com muito carinho


domingo, 23 de junho de 2013

Resposta aos Comentários


23 de junho de 2013



Fico muito feliz em saber que corre tudo bem com você. Continue com a sua poesia, sempre. Bjos. Postado por Jenni no texto Na sala de espera , em 1 de junho de 2013
Assisti a dois filmes nesta semana. Fazia tempo que não admirava a força da arte e da poesia para falar da essência da vida, para nos ajudar a enfrentar as durezas da vida. Assisti ao filme Crônicas de Nárnia, inspirado nos livros de C.S.Lewis. Parece apenas um filme infantil, com uma mensagem boba. Mas ele tem a maior de todas as verdades. Assisti também ao belíssimo Miss Potter. Em meio ao caos e a descrença, quanta poesia e delicadeza. Ela não teve filhos, mas quantas crianças essa mulher extraordinária acarinhou com a beleza da vida. Somos autoras de nosso pequeno livro e podemos, a despeito das dores, desenhá-lo com toques suaves e vivos. Obrigada pelas palavras Jenni, elas compõem o meu livro. Bjos.         

Descobri há pouco tempo ter a doença. Dia 28/05/2013 fiz a láparo e minha médica disse que o grau está bem avançado. Estou arrasada... Engravidar será só um sonho? Eu me pergunto... Que bom ter com quem dividir essa dor, que não é só física, mas principalmente emocional. Parabéns pelo blog! Postado por Gabriela no texto Na sala de espera, em 1 de junho de 2013
Olá, querida Gabriela. Recentemente, esses dias, precisei muito de palavras de força. Recebi as palavras mais lindas pelo e-mail. Não pude responder na hora, mas elas ficaram me fortalecendo, me ajudando, me amparando. Como você disse, precisamos dividir nossas dores. Nem sempre há um ombro amigo, mas sempre eu oro, converso com Deus como se conversa com um amigo. Gabriela, em 2008, eu também recebi a notícia de que minha endometriose estava alastrada, grau IV. Os médicos chegaram a me dar o diagnóstico de câncer, mas era endometriose profunda, infiltrativa. Hoje, passado quase cinco anos, estou sem dor, os focos diminuíram muito e minha saúde está renovada, tudo por meio da mudança de estilo de vida, sobre a qual eu conto neste blog. “Engravidar será só um sonho?”, você pergunta. Não é só um sonho. É possível, sim, engravidar naturalmente tendo endometriose. É possível que esse nosso mundo tomado de endometriose fique grávido de outro mundo, então a gravidez se torna uma possibilidade real. Em breve, escreverei sobre uma mulher que engravidou naturalmente, mesmo tendo sido aconselhada a fazer FIV ou desistir desse sonho. O que não podemos é desistir de nós mesmas e a fertilidade poderá vir na forma de uma saúde restaurada, mesmo sem filhos; com filhos naturais ou adotados, com uma nova vida ressignificada. Estou melhor agora do que antes. O caminho foi difícil, mas o que seria de mim se eu não tivesse dado ao meu próprio corpo a chance de se recuperar? Por mais difícil que pareça, a mudança de estilo de vida é um fardo leve, um jugo suave. Há cura. Escreva sempre. Com carinho,

Querida amiga! Que bom saber que você está bem e que está cada dia mais combatendo essa doença de forma, simples, natural, saudável e efetiva. Quem bom que encontrei você para abrir minha visão. Deus é bom! Tenho tido cada vez menos dores e creio que esse é o caminho correto e certeiro para a vencermos a endometriose. Às vezes, árduo, difícil mas que traz resultados. Lágrimas e choros fazem parte da vida, mas nos ensinam a sermos mais fortes. E ainda mais, nos fazem persistir e lutar para que um dia, ao invés de tristeza e dor, se tornem lágrimas de alegria! Um grande abraço com carinho. Postado por Gabriela no texto Na sala de espera, em 2 de junho de 2013
Olá, Gaby! Fico muito feliz em saber de suas conquistas por meio de um caminho “simples, natural, saudável e efetivo”. Você o descreve muito bem. Embora a endometriose pareça uma doença complexa e invencível, a cura para ela pode ser simples, natural, saudável e permanente. Que bom que Aquele em que cremos tem transformado nosso olhar e nos dado forças para trilhar um caminho de mudanças, pois mudar é uma tarefa árdua. Como conseguir alterar nossos hábitos apenas com a mais intensa autodisciplina? As dores diminuem, os focos diminuem, a endometriose desaparece, com a mudança de estilo de vida. Sim, é real. É maravilhoso saber que suas dores estão diminuindo a cada dia! Não deixe de acompanhar com exames para medir os focos, pelo menos a cada seis meses, agora no início. “Um dia, a terra será bela, e o mal não existirá”, fala a canção. Esse dia não está distante. Com muito carinho!

Minha querida cortadora de pedras,
Que muitas mulheres tenham a chance de ouvir suas palavras e a felicidade de seguir os seus ensinamentos, matemática que o corpo obedece e agradece com satisfação. Tenha uma ótima semana, minha amiga! Um abraço carinhoso. Postado por Michele no texto Na sala de espera, em 3 de junho de 2013
 Essa matemática vem de gênesis. No princípio, havia um jardim, onde se comia dele, daquilo que a terra dava, a partir do cultivo de um solo produtivo, com atividade física sem hora marcada, em meio ao sol, ao ar e água preservados, em uma interação confortadora. A vida era movimento. A matemática das origens. No final do livro Cândido, depois de tantas violências e planos e ambições e andanças por pensamentos e vivências, a terra em transe, Voltaire faz profundas reflexões sobre os desejos que temos, sobre o sentido da vida, e encerra, após meditar sobre o fim de tantos conquistadores e ambições, sobre um senhor que ele encontrou cultivando a terra junto de suas crianças: “Está certo, disse Pangloss, pois, quando o homem foi colocado no jardim do Éden, aí foi posto ut operaretur eum, para que trabalhasse, o que prova que o homem não foi feito para o repouso”[...] “Está bem dito, respondeu Cândido, mas é preciso cultivar nosso jardim.” Nos envolvemos em tantas astúcias, mas talvez, medita Voltaire, não deveríamos ter saído daquele jardim, lugar para onde Rousseau queria tanto voltar, numa espécie de restauração do paraíso dentro do não paraíso, impossibilidade que o enlouqueceu. É filosofia? É poesia? É fantasia de que se trata? Tem tantos outros significados? Para mim, é prova. Se é real, então funciona. Ao seguir a matemática das origens, não um relato, mas um acontecimento, constatei as mudanças no meu corpo pelos exames. Ainda que muito distante desse jardim perfeito, o corpo ainda responde à lógica do início, crendo ou não, aceitando a filosofia que sustenta essa escolha ou não. Incrível que responda à mudança de estilo de vida em meio a tanta destruição nessa reta final, mas responde. Não há árvore da vida aqui, nem alquimia da perenidade, nem a transparência total almejada por Rousseau, estamos fora do jardim porque escolhemos estar, mas podemos olhar para ele e entender, podemos acompanhar até as últimas linhas e descobrir que o corpo exige cultivo, o terreno onde se mora pode se tornar terra produtiva, os sonhos por conquistas são legítimos, a saúde não é fim em si mesma porque um dia iremos partir, mas há algo mais. Há, além da superfície, uma pedra de grande preço. A pedra que, por vezes, eu mesma rejeito. Ah, minha querida amiga abençoada, que eu me volte a esta pedra.  

Olá gostaria de Saber se alguém já realizou o USG doppler com preparo do intestino na clínica Pacaembu em São Paulo com Dr. João Frederico. Postado por Anônimo no texto Exame para detecção de endometriose profunda em 3 de junho de 2013
Eu não o conheço. Se alguma leitora o conhece, peço que envie um e-mail . Na escolha de um médico é sempre importante saber se ele tem de fato a formação específica para fazer o exame de endometriose profunda. Ele tem que ter feito um treinamento com médicos credenciados. É muito importante que o exame seja feito por profissionais treinados para que o diagnóstico seja confiável.

Há mais de quinze anos, convivo com desequilíbrios hormonais fortes, que me causam problemas como ovários policísticos e endometriose. Os tratamentos foram inúmeros ao longo de todo esse tempo, incluindo videolaparoscopia e cauterizacao/remocao de tecidos, porém sem resultados definitivos e duradouros. Por acaso, comecei a fazer uma dieta de baixo teor de carboidratos, apenas com o objetivo de perder alguns poucos quilinhos. Incrível foi perceber que, conforme meu organismo se adaptava à minha nova alimentação, meus hormônios foram se regularizando naturalmente! Dessa maneira, descobri que possuo uma condição de resistência à insulina, que uma vez normalizada pelo baixo consumo de carboidratos, fez com que minhas dores, causadas pela endometriose e cistos ovarianos, praticamente desaparecessem, pois meus hormonios que eram super desregulados, com alta producao de estrogeno, cortisol e androgenicos, ficaram super regulados pela primeira vez em minha vida! E sem medicacao! Para que eu continue com os efeitos positivos causados pela dieta Low Carb em minha saúde, a restrição aos carboidratos deverá ser permanente. Só que chega uma hora em que fica muito difícil ter criatividade para inovar no cardápio e se segurar para não cair na tentação dos doces. Esse é o principal objetivo desse site: disponibilizar receitas fáceis, saborosas, criativas, testadas e adaptadas por mim, sempre de acordo com o estilo de vida LowCarbing. Postado por LowCarbing LifeStyle no texto Dieta antiestrogênica 
Agradeço o envio de seu relato de superação. Uma dieta com menos carboidratos é realmente importante. Eu não eliminei os carboidratos, mas diminuí o consumo. Parabéns pelo seu projeto e pela sua persistência em adquirir novos hábitos. A resistência à insulina, o desequilíbrio hormonal e as doenças de forma geral podem ser combatidos com uma nova alimentação, que considere não só retirar ingredientes, mas principalmente incluir novos sabores e nutrientes.  Não é um caminho meramente restritivo, mas uma ampliação das possibilidades gastronômicas, sem deixar de lado o sabor. Uma nova saúde inclui exercícios físicos, atividade, luz solar, a respiração, o descanso, as interações sociais, compartilhamento. Assim, não precisaremos recorrer aos hormônios sintéticos para simular uma tentativa de restauração provisória. Obrigada por compartilhar seus ideais. Um grande abraço,

Adorei seu blog. Eu tenho endometriose há 2 anos e já retirei o útero e as trompas e continuo com dores mas depois de ver seus relatos e ideias fiquei mas fortalecida e motivada a mudar meus hábitos e procurar viver sem dores muito obrigada você é ótima muita saúde e paz pra você... Postado por Janinne no texto Dieta antiestrogênica
Olá, querida Janine! Adorei suas palavras também, sua motivação. Que você fique cada vez mais fortalecida para mudar os seus hábitos e alcançar a saúde sem dores, porque eu posso lhe dizer: é possível sim. É um caminho de descobertas, renúncias, novidades naturais deliciosas, desafios, mas é, sobretudo, um caminho de liberdade e cura. Depois do que passei, de todas as dores e falta de esperança, agora me sinto normal, sem a doença me definindo. Isso é maravilhoso! Busque informações, busque forças em Deus, pois a mudança de hábitos mexe com a gente, mas vale a pena. É a melhor escolha. Você vai vencer essas dores e terá muita saúde e paz.

Nossa! Como me identifiquei com seu texto... Maravilha!!! Gostaria muito de poder não somente pensar assim, mas, também, agir desta forma!! Isso caiu como uma luva para um ponta pé inicial, quem sabe? Um estímulo talvez... uma esperança maior... Obrigada!! Postado por Charlene Almeida no texto Endometriose e crise financeira em 10 de junho de 2013
Olá, querida Charlene. Seu e-mail tem tanta alegria, motivação, força! Ele me faz bem. Você é uma pessoa alegre e, especialmente em dias como hoje, gelados e acinzentados pelo inverno, é um prazer ler suas palavras! Minha amiga, siga esse caminho, pois eu posso lhe dizer com toda certeza, eu sarei. Emociono-me em dizer: eu sarei. Vale a pena. Conte comigo para o que precisar. Carinho,

Querida amiga! Há muitos dias queria lhe escrever... Seu texto nos faz parar e refletir. Dizemos que o estilo de vida saudável e uma boa alimentação custa caro. Mas quanto gastamos com analgésicos e anti-inflamatórios para amenizar as dores causadas pela endo? Quanto gastamos com medicamentos para "reduzir" ou "estabilizar" a endometriose, que além de serem caros causam diversos efeitos colaterais? Quanto gastamos na compra de medicamentos para combater esse efeitos colaterais? Quanto gastamos com consultas, exames e médicos especialistas que não atendem convênios e com cirurgias que não resolvem o problema? Sem falar no que podemos ou poderíamos gastar com tratamentos para fertilidade e FIVs... Se colocarmos na ponta do lápis, a alimentação saudável é muito mais econômica e nos proporciona qualidade de vida. Nos proporciona saúde e vida. No mesmo dia em que li seu texto, meu marido colocou em um filme/ documentário chamado Food Matters (segue o link: http://www.foodmatters.tv), onde especialistas falam sobre a extrema importância de se alimentar saudavelmente. Doenças como o câncer têm sido tratadas de forma natural e com a ingestão do que eles chamam de super alimentos e super dosagem de vitaminas. Os resultados tem sido excelentes! Vale muito a pensa assistir o documentário. Uma frase que uma das médicas disse me chamou a atenção: "Nosso próprio corpo é a fonte da nossa cura." E isso é real. O corpo humano é a mais perfeita máquina criada pelo Grande Arquiteto, o Grande Deus. Ele nos fez saudáveis e nos deu as ferramentas para nos mantermos assim e vivermos bem. Basta querermos. É uma escolha. Não é uma escolha fácil e nem o caminho fácil de trilhar. Não é fácil abrir mão de tantas delicias e praticidade que nos é exposta a cada prateleira, em cada freezer, em cada vitrine de padarias e docerias... É uma escolha árdua, porém prazerosa, pois surte resultados, é efetiva. Viver com muito menos dor é incrível! Ainda sinto um pouco e tenho que recorrer a medicamentos, mas sei que isso tudo é reflexo daquilo que como ou deixo de comer, daquilo que eu faço ou deixo de fazer... mas nada se compara ao que eu sentia antes. E isso não tem preço! Agora posso afirmar que a frase tão conhecida "você é aquilo que você come" é verdadeira. Faz sentido pra mim e pra minha vida. Desejo continuar aprendendo e seguindo o caminho estreito (rsrs), pois é ele que me levará onde quero chegar. Um grande beijo com carinho. Postado por Gabriela no texto Endometriose e crise financeira em 21 de junho de 2013
Querida Gabriela, como você diz, é real! As mudanças são efetivas e relativamente rápidas. “Relativamente” porque há um caminho a percorrer. Precisamos considerar que o corpo, por muito tempo, pode ter ficado exposto a remédios, hormônios, efeitos colaterais de FIVs e indutores, cirurgias e maus hábitos. Sempre me recordo de uma pesquisa sobre os efeitos colaterais de um antibiótico. Leva, por exemplo, dois anos para a flora intestinal se recompor. Nossa flora intestinal é super importante para imunidade, além de produzir vitaminas essenciais, como B12, entre outras. O que dizer dos efeitos das drogas receitadas para endometriose? O organismo tem de aprender a funcionar sozinho de novo, sem sintéticos. Onde encontrar a força para vencer a doença e seguir em frente? Novos hábitos. Alimentação, exercícios, sol, água pura, refeições em horários corretos, para dar descanso ao sistema digestório, não ingestão de líquido com a comida, respiração correta, novas emoções. Às vezes, é necessário a ajuda de um fitoterápico, como foi meu caso. Confiança. Esse processo de mudança requer convicção. Se o encararmos como um acessório, como um detalhe a mais para ajudar a tecnologia médica avançada, pode não dar certo. Essa decisão é séria. Encaro como um tratamento médico, acompanhado por exames médicos. A primeira coisa que superei foi a dor, mas os focos ainda cresciam um pouco. Não se pode viver com o focos avançando, então fui aperfeiçoando o tratamento, até que os focos estabilizaram. Depois, começaram a diminuir. Se de um mês ao outro, os focos não cresceram, mantiveram o tamanho, mesmo menstruando, isso já é incrível. Mas se eles diminuem, isso é realmente fantástico. Não podemos desanimar se os resultados não aparecerem tão rápido, precisamos revisar os hábitos, buscar mais informações, corrigir trajetórias, acreditar que precisamos fazer nossa parte. A cura não é mágica, a mudança de estilo de vida não é uma versão hippie ou exotérica da pílula farmacêutica, a fé precisa ser racional. No meu último exame, feito no dia 29 de maio, o endometrioma que estava com mais de 6 cm está ainda menor. As novas medidas são: 2.9 x 2.2 x 3.3. Então, é real. E também é muito econômico. Economiza dinheiro e economiza o corpo. Como é maravilhoso viver sem revoluções hormonais danosas. Viver normalmente. Uma mulher com endometriose profunda, que já enfrentou dores aterrorizantes, pode viver normalmente? Sim, eu vivo. Doces? Frituras? Inatividade?... Leite moça com chocolate em pó?... Tudo parece muito pequeno diante da liberdade de viver.

Gaby, suas palavras nos ajudam, são estímulo e força. E isso “não tem preço!”.


PS.: Os vídeos do excelente documentário Food Matters estão no meu blog.  Fiz um pequeno comentário. Para quem deseja assistir, o link é: http://endometrioma.blogspot.com.br/2012/02/food-matters-endometriose-e-nutricao.html