sábado, 9 de novembro de 2013

Tempo de uvaias


9 de novembro de 2013

No terreno ao lado, na marca da cerca que faz divisa com minha chácara, há uma grande árvore de uvaia (Eugenia uvalha Cambess). Mais ou menos na mesma época da grumixama (veja o post que publiquei sobre ela), as uvaias frutificam. Os galhos ficam enfeitados de flores, frutos verdes e maduros, tudo ao mesmo tempo, aromatizando o ambiente. As uvaias têm um forte aroma irresistível. Os dias azuis e ensolarados ganham de presente essa árvore que às vezes me parece ser uma grande e generosa jarra de refresco amarelo com sabor azedo e, quando bem maduras, ácido e levemente adocicado. Uma essência única.

A essência da uvaia além de atrair pelo olfato e surpreender as papilas é medicinal. Ao analisarem sete frutas da Mata Atlântica brasileira, pesquisadores chegaram à conclusão de que duas dessas frutas têm um potencial medicinal antioxidante superior: a jabuticaba e a uvaia. Além disso, são antimicrobianas, com atuação inibidora contra três bactérias (Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae e Staphylococcus aureus). (Veja)

A uvaia contém ácido ascórbico e carotenoides, substâncias muito importantes para a saúde, além de possuir uma elevada capacidade antioxidante in vitro. Ela também tem um efeito significativo contra o colesterol (Veja).

Na uvaia há alto teor de flavonóides, como a mircetina e a quercetina. Essas duas substâncias são anti-inflamatórias, anticarcinogênicas, atuam no sistema imunológico. A quercetina também é antiviral, influencia na inibição de cataratas em diabéticos, é anti-histamínica (antialérgica), cardiovascular e está presente nas maçãs e cebolas. A uvaia também contém ácidos fenólicos (que são antioxidantes), especialmente o ácido gálico. (Veja).

As folhas da uvaia são utilizadas na medicina popular para o tratamento de gota, pois têm a ação de baixar o ácido úrico no organismo. Ao analisarem as propriedades das folhas e do caule da uvaia, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná constataram sua importância medicinal (Veja).. 

Ao lado da árvore de uvaia, cresce um ramo que já tem um pouco mais de meio metro. Apesar de pequeno, ele está produzindo muitas frutas. A boa notícia é que, ao contrário das grumixamas, a uvaia se desenvolve mais rápido, embora o cultivo de plantas requer paciência e cuidado. Esse processo é semelhante à mudança de estilo de vida. Plantar árvores e mudar os hábitos de vida envolvem dedicação, tempo, cuidado para que a fruta surja e a saúde volte a frutificar. Cultivar uvaias e grumixamas pode nos ensinar a entender o tempo da terra e o tempo do corpo. Mas apesar de gradativo, o tempo de cura da endometriose, com a mudança de estilo de vida, é rápido. Em três anos, os focos de endometriose em meu corpo já não cresciam e começaram a diminuir. Agora um bebê cresce. Ter a saúde de volta não é um processo rápido desencadeado por uma injeção mágica, uma pílula pretensamente curativa. A terra e a frutificação, o desenvolvimento da planta, o olhar voltado para a natureza nos ajudam a entender a essência do tempo de cura.









Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Água


23 de outubro de 2013

Há mais de um mês, fiz o exame de ultrassom morfológico para saber como está o bebê. Minha barriga estava bem grande para cinco meses e, por isso, temia que houvesse líquido amniótico em excesso. Mas está tudo bem. O bebê nada tranquilo nessas águas. Antes do exame, fui à empresa do plano de saúde para pedir aprovação para o procedimento. O dia estava muito seco, mas eu carregava na bolsa minha garrafinha de vidro com água mineral. No elevador, uma funcionária conversava com outra mulher. Dizia-lhe que estava com muita dor nos rins, que sabia que tinha pedras, mas ainda não havia tomado água naquele dia. Trabalhava em um centro ligado à saúde, tinha consciência de sua necessidade, mas parecia sem tempo até para respirar. A correria seca por dentro.

Na semana posterior ao exame, assisti à entrevista de um médico nutrólogo que falou, entre outras coisas, sobre a importância da hidratação. A entrevistadora contou que usava um aplicativo para lembrá-la de tomar água. Não disse se com o suporte tecnológico passou a tomar água ou não, mas contou que o aparelho a fazia perceber que ela não toma água. O aplicativo desperta certa consciência, mas não sei se desperta a sede.

Minha mãe não tem sede de água pura desde sempre. Para ela, a fonte da seca está em um filtro de barro que vertia água com gosto de terra. A criança não quis mais saber da bebida; a mulher carrega o legado severino. Tem consequências. Desde sempre, minha mãe é dor de cabeça. Tem crises de enxaquecas terríveis, pioradas a cada ano pelo remédio que não melhora, apenas torna ainda mais intensa a próxima crise. Mas ela está dependente. A força sucumbe à dor. Há um mês, ela ficou em casa por uma semana. Eu lhe dei água. “Tome como remédio, mãe.” Ela tomou, franzindo o rosto, e a dor de cabeça que ameaçava piorar recuou. Água hidrata, água é remédio para enxaqueca, água é saúde, água combate a endometriose. Água também é fonte de doenças.

Quando estávamos em busca de um sítio, conhecemos um lugar que mistura a terra arenosa com o Cerrado e a Mata Atlântica. Manancial de águas que abastece o Aquífero Guarani, cravado de milhares e milhares de árvores de eucaliptos que secam as nascentes e poluem os lençóis de água com um remédio que lhes injetam no lenho – roundup, um agrotóxico nocivo da Monsanto, utilizado pelas grandes indústrias de papéis instaladas na região.

Mas aquele sítio ficava relativamente longe dessa plantação de papel, ao lado de uma montanha de perder o fôlego, ainda coberta pela mais exuberante mata nativa. Para avaliar se valia a pena adquirir o sítio, investigamos, entre outras coisas, a qualidade daquela água. Fiz a coleta em garrafas pet e mandamos as amostras para o laboratório de uma universidade pública. A água atendia a quase todos os parâmetros de potabilidade, mas tinha quatro vezes mais ferro do que o recomendado. Conversei com o professor responsável pela análise e ele me explicou que o ferro em excesso poderia causar problemas de desenvolvimento em crianças e fibromialgia em adultos. O dono daquele paraíso, um senhor dedicado à agricultura em terra arenosa de montanha, sofria justamente de um quadro grave de fibromialgia. Há tecnologias disponíveis para filtrar a água e retirar o excesso do ferro, como fazem em um bairro colonizado por descendentes de alemães em Botucatu. Depois que as crianças da escola rural começaram a apresentar sintomas relacionados à água, a escola instalou o tal filtro, contou-me o professor.

A água que bebemos interfere em nossa saúde.

Para esse professor, embora haja um marketing em torno da “água leve”, com poucos minerais, ele pessoalmente ressalta a importância da água com maior quantidade de cálcio e magnésio, e menor quantidade de sódio, por exemplo. Eu costumo tomar água mineral, com um índice maior de cálcio (é possível ver no rótulo das garrafas e comparar, avaliando principalmente a quantidade de sódio), filtrada em filtro de barro. O ideal seria tomar água de nascente preservada, ter um sítio, cuidar bem do manancial, usar água que não tenha passado por garrafas de plástico, pois elas contêm substâncias que provocam desequilíbrio hormonal e aumentam o estrógeno no corpo. Mas faço o que é possível. Meu possível é não tomar água de torneira, nem mesmo filtrada. Uso água mineral até para cozinhar. Mas se o orçamento não permite, penso que é importante, ao menos, usar água mineral para beber.

Por que a água da torneira, mesmo filtrada, pode representar um risco sério para a saúde?

A água que abastece as casas está contaminada por inúmeras substâncias. Os sistemas de coleta e tratamento de esgotos não são adequados. Por isso, ocorre uma contaminação das nascentes e rios. A água de esgoto está carregada de fármacos (hormônios de anticoncepcionais, hormônios que tratam doenças, anti-inflamatórios, antibióticos, antidepressivos, analgésicos, anti-hipertensivo etc), poluentes de indústrias, agrotóxicos e subprodutos utilizados na agricultura etc. Essa água poluída atinge a água de abastecimento das cidades. Os tratamentos disponíveis atualmente não eliminam essas substâncias. Além disso, acrescentam outras substâncias para limpar a água que são carcinogênicas. Quando essa água chega às residências, os filtros podem até eliminar agentes físicos-biológicos, mas são incapazes de eliminar essas substâncias químicas. Para a mulher com endometriose, o risco real é beber água com hormônio, ingerir estrógeno via líquido, entre outros medicamentos à contragosto, ainda que a quantidade não seja a mesma encontrada em remédios. 

Aqui estão listadas algumas pesquisas sobre a contaminação da água:

Desreguladores endócrinos e fármacos na água potável – A endometriose é caracterizada como uma desordem hormonal. A água potável está contaminada por substâncias conhecidas como desreguladores endócrinos que interferem em todo o equilíbrio hormonal do corpo, causando problemas nos órgãos reprodutivos, afetando toda a saúde. Hormônios sintéticos e naturais, dioxinas, bisfenol, remédios, compostos cafeinados, pesticidas, medicamentos veterinários e dezenas de outras substâncias estão presentes na água provocando aumento do câncer em homens (testículo e próstata), aumento de doenças ginecológicas, puberdade precoce, problemas de desenvolvimento em crianças, abortos, resistência a antibióticos, infertilidade, entre outras graves doenças, além de graves problemas ambientais. A indústria farmacêutica, sobretudo, tem sido um problema de saúde pública e ambiental. (Excelente pesquisa, realizada por pesquisadores canadenses, publicada no Journal Water and Health. Veja aqui: Endocrine disrupting compounds (EDCs) and pharmaceuticals and personal care products (PPCPs) in the aquatic environment: implications for the drinking water industry and global environmental health).

Contaminação da água engarrafada – Sobre a qualidade da água engarrafada, o Le Monde publicou um artigo bem interessante. Um estudo publicado recentemente mostra que a água engarrafada contém moléculas medicamentosas ou disruptores endócrinos. A análise constatou que 10% das garrafas tinham vestígios de tamoxifeno, hormônio sintético para tratar câncer de mama. Foram encontrados vestígios de um perigoso pesticida proibido em 2001, o atrazina. Já os galões de água, constantemente reutilizados, liberam uma concentração de bisfenol A, um dos causadores de endometriose, por exemplo. "Essas constatações revelam até que ponto nosso meio ambiente está contaminado. Não estamos questionando a potabilidade da água, mas sim os possíveis efeitos da mistura entre várias moléculas e as consequências dessas contaminações a longo prazo", diz Emmanuel Poilâne, da France Libertés. Ainda é muito melhor beber água mineral do que água de torneira filtrada. Nenhum filtro retira da água a quantidade de hormônios, medicamentos e contaminantes sintéticos presentes na água “tratada” que chega pela torneira.

Arsênico na água potável – O arsênico está entre os metais mais perigosos para saúde humana. Pequenas quantidades de arsênico podem causar problemas respiratórios em crianças e adultos, doenças cardiovasculares, diabetes e câncer. Para se ter uma ideia do problema, pesquisadores constataram que 24% das mortes por doenças crônicas em Bangladesh podem ter sido provocadas pela ingestão de água contaminada por arsênico. Geralmente, as águas de poço estão contaminadas por arsênico (Veja no jornal New York Times). No Brasil, as áreas de maior risco são as que têm ou tiveram mineração (Quadrilátero Ferrífero, Vale do Riberia etc).

Água, pressão arterial e síndrome metabólica – Se a água que bebemos não tem níveis adequados de magnésio, aumentam as chances de hipertensão e diabetes tipo 2. Pesquisa publicada no Journal Water and Health).

Contaminação química da água potável na Inglaterra e no País de Gales – De 2006 a 2008, foram relatados 82 incidentes de contaminação química da água potável nesses dois países, representando uma séria ameaça à saúde dos consumidores. Foram encontrados elevados níveis de alumínio, manganês, solventes, fármacos na água tratada, que têm efeitos adversos para a saúde. (Pesquisa publicada no Journal Water and Health).  

Veja alguns benefícios da água mineral pura:

Água potável pode diminuir o risco de diabetes – Há muitas razões para se hidratar, uma delas é a prevenção do diabetes. A água diminui a concentração de açúcar no sangue. A água controla o hormônio vasopressina (Veja no jornal New York Times). Portanto, a ingestão adequada de água pura nos protege também contra a endometriose, que está associada à resistência à insulina.

Regulação dos líquidos corpóreos – A água regula o equilíbrio de líquidos no corpo. Isso é muito importante, pois 60% do nosso corpo é água.

 Beber água ajuda a perder peso.

Os músculos precisam de água – A água dá energia aos músculos. Sem água, eles diminuem sua função, murcham. Por isso, o ideal é se hidratar sempre, principalmente durante os exercícios físicos. Beba água durante e após os exercícios.

Beneficia a pele – Retarda o envelhecimento.

Beneficia os rins – Os rins eliminam toxinas de maneira muito eficiente, desde que haja água suficiente. As principais toxinas no corpo são solúveis em água, por isso para eliminá-las é necessário ingerir água na medida certa.

 Beber bastante água resolve 70% das infecções urinárias – Quando há queimação ou outro sintoma que pode indicar infecção urinária, a ingestão de mais de dois litros de água é essencial. Quando sentia alguma queimação que acho que poderia ser decorrente da endometriose ou do excesso de consumo de sal, eu tomava copos e copos de água. O resultado sempre foi muito positivo.

 Beneficia o intestino – Eu não tenho problemas intestinais, mesmo tendo endometriose no intestino. Ele funciona regularmente, todos os dias. Mas nem sempre foi assim. Eu sentia dores a cada evacuação, independentemente do ciclo. Além disso, as fezes não tinham aspecto normal. Tenho certeza de que, além de toda mudança de estilo de vida, um dos maiores benefícios para regularizar minhas funções intestinais é a água pura, entre os intervalos das refeições. “Hidratação adequada mantém fluxo no trato gastrointestinal e evita prisão de ventre. Quando você não há bastante líquido, o cólon puxa água de fezes para manter a hidratação. O resultado é a constipação.” A adequada ingestão de líquidos e fibras é a combinação perfeita, porque age como uma vassoura para manter o funcionamento do intestino corretamente. (Veja aqui).

Seguem recomendações para a ingestão de água:

Beber de seis a oito copos de água pura por dia. Cada pessoa tem uma necessidade hídrica específica, em função das atividades, da altura, peso, condições de saúde etc. Essa é uma recomendação mínima de ingestão de água.

Evitar tomar líquido com as refeições. Tomar água 30 minutos antes e duas horas depois das refeições.

Distribuir a ingestão de água durante todo o dia. Eu tomo dois copos de água e um limão de manhã, em jejum, 30 minutos antes da refeição. Está circulando um e-mail que diz que o hábito de tomar dois copos de água de manhã, em jejum, e o hábito de não misturar líquido com comida podem ajudar a curar várias doenças. Minha experiência demonstra que esses simples hábitos são realmente importante para a saúde. Durante o dia, eu tomo água regularmente, sem concentrar toda a ingestão em um ou outro momento.

Tomar água mineral pura, em temperatura ambiente ou levemente morna, mas nunca gelada.

 Evitar garrafinhas de plástico. Caso não seja possível, não deixá-las ao sol. Se possível, utilizar o filtro de barro.

Substituir as bebidas. No intervalo das refeições, trocar sucos (mesmo que sejam sucos naturais) ou refrigerantes por água mineral pura.

Obedecer ao corpo. Beba água pura. Quando sentir vontade de ir ao banheiro, mesmo que tenha que sair com frequência do local de trabalho, por exemplo, vá ao banheiro. A água nos movimenta. “A maior recomendação para a prevenção da cistite realmente é, além da ingestão de muita água, urinar periodicamente para lavar bem a bexiga e a uretra. [...] Mulheres que seguram muito a urina ou que deixam para usar o banheiro apenas quando estão em casa também têm mais chances de terem cistite" (Ver aqui).

Nasci na cidade das águas, Águas de Lindoia. Minha experiência da infância foi bem diferente da que minha mãe teve. Sempre tive uma ligação com a água, cresci no planeta água. A experiência de beber água no Balneário com o paisagismo de Burle Marx, as brincadeiras do lado das fontes, os azulejos em mosaico de Lívio Abramo derramando o azul, o quadro simples com recortes de jornais falando das propriedades curativas daquele líquido me deu senso de respeito. Água. Simplesmente, água. Além da água-bebida, há inúmeros tratamentos hidroterápicos capazes de restituir a saúde e combater graves doenças, que podem ser feitos em casa. O Balneário de Águas, uma instituição que luta para sobreviver e está em constante ameaça, oferece dezenas de tratamentos hidroterápicos (Veja o site). Mas quem acredita que a água também cura?

Há um entrelaçamento entre a saúde e o meio ambiente, o respeito ao próprio corpo e ao corpo da terra, a urgência em banhar as células e manter limpas as águas, preservando-as, recuperando-as, conhecendo-as. Somos água também. A semente vive em água, respira como peixe, enquanto cresce aquecida chutando com os pezinhos.

A água que bebemos revela muito de nós mesmos. A pérola de grande preço é também ouro azul (Há um documentário muito bem feito sobre a crise da água: Ouro Azul). A água nossa de cada dia pode ser fonte de água viva. Mas as células estão ameaçadas pela falta de sede; a sede pela ausência de água pura, em terra de consciências desertificadas.

Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Cartografia de uma gravidez: endometriose, doenças autoimunes e recursos naturais



14 de outubro de 2013

No sábado, conversei com uma amiga que tem trombofilia (anticorpos antifosfolípides). Ela descobriu a doença após o primeiro aborto. Para a segunda tentativa, a médica receitou injeções à base de heparina antes da gestação, durante e após, em doses diárias. Hoje, sua filha tem 1 ano e 3 meses. Enfrentou alguns desafios de saúde, nasceu com 37 semanas e teve intolerância severa à lactose. Mas é um bebê muito inteligente que apontava para minha barriga enorme e, após a mãe explicar que eu espero um bebezinho, ela repetia o tempo todo, colocando a mão na própria barriga e apontando para a minha: “nenê, nenê.” Uma graça.

A trombose decorrente dos anticorpos antifosfolípides (AAF) é considerada uma doença imunológica. Os anticorpos aumentam o tromboxano, a concentração das plaquetas e podem ocasionar trombos, inclusive na placenta, que levam a abortamentos, restrição do crescimento do feto, prejudicam a implantação e produção de beta-HCG. Para combater esses anticorpos, recomenda-se o uso de heparina e aspirina, que reduzem a incidência de aborto em 54% (Veja).

Existem outras doenças imunológicas relacionadas à infertilidade, tais como anticorpos antinucleares (FAN), trombofilia hereditária, entre outras (Veja). Esses são alguns nomes de exames para avaliar a autoimunidade: Anti-cardiolipina, anti-coagulante lúpico, anti-fosfatidil-serina, anti-fosfatidil-etanolamina, igM, igG, igA, FAN. Mas nem sempre uma portadora de doenças imunológicas terá problemas em engravidar ou com a gravidez. Mesmo mulheres com lúpus podem ter uma gravidez normal. No entanto, precisamos estar atentas ao assunto. Doenças imunológicas estão presentes na mulher com endometriose, considerada também uma doença autoimune (Veja: 1, 2, 3 e 4).

Em minha primeira consulta com um especialista em endometriose, ele me pediu exames para avaliar a autoimunidade. Estava tudo normal. Mas após algum tempo, em que tive uma piora significativa, o FAN deu resultado reagente (positivo), com padrão relativamente alto para duas variações. O FAN pode estar presente em pessoas normais, sem doença ativa, sem sintomas. Mas, no meu caso, havia sintomas, tais como queda de cabelo, muita fraqueza, sensibilidade ao sol, além da própria endometriose profunda que avançava sem tréguas, antes de eu tentar a mudança de estilo de vida. Esse não era um bom sinal. Entre outras coisas, o FAN está relacionado a abortos. 

Para enfrentar esse arsenal de doenças, recorri a um arsenal ainda mais forte: mudança de estilo de vida, que incluiu muita cebola, alho, limão e levedo de cerveja, além de outro importante recurso fitoterápico. O FAN que estava em 320 diminuiu para 80, considerado normal. Minha saúde voltou ao normal.

No início da gravidez, usei limão, alho, levedo, cebola. Depois, com os enjoos e vômitos constantes, eu fiz uma pausa. Após essa fase, voltei a usar esses alimentos-remédio novamente. Mas hoje, ao ler sobre uma mulher que perdeu seu bebê com 27 semanas, mais ou menos na fase em que estou, por causa da falta de oxigenação para o feto decorrente de trombos na placenta e me recordar da conversa de sábado, eu voltei a fazer novas leituras e a traçar uma dieta mais dirigida para o último trimestre.

Minha alimentação continua absolutamente natural, conforme descrevo no blog. Nada de açúcar, nada de ceder “aos desejos da gravidez”, atenta aos alimentos que nutrem e curam. Até agora a gravidez segue normal. Sabendo que tenho um quadro de autoimunidade, que está relacionado à propensão para trombose (a gestação, por si só, predispõe a mulher à trombose), eu decidi voltar a usar limão todos os dias de manhã; alho cru; levedo de cerveja; água em abundância; atenção à respiração profunda. Já estava fazendo uso desses recursos, mas agora a atenção será redobrada. Mas será que algum desses recursos pode fazer mal se usado durante a gravidez? Será que recursos aparentemente tão simples e banais podem deter doenças imunológicas complexas e ameaçadoras? Há muitas pesquisas sobre o assunto, mas vou me deter, neste texto, em alguns estudos científicos sobre o alho, com diferentes enfoques.

Alho é um regulador da imunidade – O extrato do alho tem efeito imunomodulador, re-equilibra as funções imunológicas. “Esses estudos sugerem fortemente que o alho poderia ser um candidato promissor como um modificador imunológico, que mantém a homeostase (equilíbrio) das funções imunológicas” (Veja).

Alho e placenta – A saúde da placenta é essencial para a gravidez. Pesquisadores concluíram que o alho tem um “efeito imunomodulador” em placentas normais e alteradas. O alho regulariza a imunidade, tudo que uma mulher grávida com endometriose precisa. Evita a pré-eclâmpsia (Veja).

Alho combate GBS em grávidas (infecção por Streptococcus grupo B) – Por ano nos EUA, 800 mil mulheres grávidas têm resultado positivo para GBS, detectada entre a 35ª e a 37ª semana. Mesmo com o uso de antibiótico, 80 recém-nascidos morrem da doença. É uma das maiores causas de mortalidade do feto. “Alho mata GBS, mas porque sua utilização não é lucrativa não existe nenhum estudo sobre a utilização de alho para prevenir GBS em recém-nascidos” (Veja). Os pesquisadores defendem o uso de alho na gravidez, em vez do antibiótico, para prevenção da infecção.

Alho combate alterações prejudiciais no feto – Pesquisadores deram uma dieta com colesterol antes e durante a gravidez de ratas grávidas. Os recém-nascidos apresentaram miocárdio com aterosclerose, edema nos vasos sanguíneos, alterações significativas nos componentes celulares. As ratas que receberam alho, junto com a dieta rica em colesterol, tiveram filhotes mais fortes e com menos defeitos (Veja).

Alho inibe a toxidade em embriões – Pesquisadores deram um composto com mercúrio para ratas grávidas e analisaram o efeito do alho na proteção aos embriões. O “suco de alho efetivamente inibiu” a contaminação dos embriões por mercúrio (Veja).

Alho previne e combate a trombose – Homens receberam um dente de alho cru por 26 dias. Após esse período, foi constatada diminuição de 20% do colesterol e 80% do fator de trombose no sangue (tromboxano) (Veja).

Alho é tão eficaz quanto a aspirina – Pesquisadores compararam o alho e o ácido acetilsalicílico (aspirina). O alho foi tão eficaz quanto à aspirina no combate à agregação plaquetária (trombose) (Veja).

Alho e cebolas crus combatem a trombose – Pesquisadores afirmam que a combinação de alho e cebola crus combate a trombose (o tromboxano). Já alho e cebola cozidos não tiveram efeito anti-trombose. “Estes resultados mostram que o alho e cebola podem ser usados frequentemente em doses baixas sem quaisquer efeitos secundários e ainda podem produzir um efeito anti-trombótico importante.” (Veja).

Se você faz uso de heparina ou aspirina, não use o alho – “A heparina é uma droga muito forte para afinar o sangue, que é administrada por injeção”, por isso fique atento à bula e às interações medicamentosas e com suplementos. O alho tem o efeito de “afinar o sangue” assim como a heparina, por isso não devem ser usados conjuntamente. Além disso, a heparina diminui a vitamina D no corpo. Há vários relatos de mulheres grávidas que fizeram uso de heparina e tiveram fraturas ósseas. Veja aqui outras recomendações. 

Heparina e efeitos colaterais – Há relatos de efeitos colaterais hematológicos (derrames, hemorragias, hemorragias intracranianas, do ovário etc), cardiovascular, dermatológico, hepáticos, endócrino, metabólico, músculo-esquelético (osteoporose) etc. (Veja).

Alho e efeitos colaterais – A ingestão de alho é geralmente reconhecida como segura. Em uma pesquisa, ratos receberam por seis meses, uma dose muito elevada de alho e não apresentaram efeitos negativos. O maior inconveniente é o odor. Um estudo com quase 2 mil pessoas constatou que ao ingerir alho cru, 6% tiveram náusea;  1,3%, tontura; 1,1%, reações alérgicas. Houve alguns poucos relatos de inchaço, dores de cabeça, sudorese e tontura. Mas se o alho cru for usado em excesso pode sim causar dores no estômago, azia, náuseas, vômitos, diarreia, flatulência, rubor facial, pulso rápido e insônia. Colocado na pele pode causar queimaduras de até terceiro grau, embora seja eficiente para tratamentos tópicos na sola do pé. Não deve ser usado em interação com os seguintes medicamentos e produtos naturais: varfarina, heparina , aspirina, anti-inflamatórios, clopidogrel, ticlopidina, pentoxifilina, medicamentos para HIV. O alho é seguro para mulheres grávidas e mães que amamentam, mas não deve ser usado imediatamente antes e após o parto ou procedimentos cirúrgicos porque afina o sangue e pode provocar hemorragia (Veja).  

A trombofilia pode, entretanto, ser provocada por vários fatores, entre eles o anticoncepcional, que desconfio esteja diretamente relacionado a minha endometriose (Veja). Pode ser uma condição hereditária ou adquirida. Não há uma única causa. Poderia o alho ser eficiente em casos de doenças hereditárias, por exemplo? Pesquisadores concluíram que o alho pode melhorar em 20% a condição de pessoas com anemia falciforme, uma doença genética que tem graves implicações (Veja). Um simples alho pode melhorar o estado de saúde de pessoas com uma doença genética complexa. Há inúmeras pesquisas sobre o benefício do alho relacionado a diversas doenças. O alho combate a endometriose.

A pequena Helena nasceu graças às injeções de heparina. Ela está linda, apesar de alguns percalços. A partir de minhas conclusões pessoais, o João cresce forte graças ao arsenal poderoso da nutrição e dos recursos naturais que renovam a placenta, oxigenam o sangue e combatem disfunções imunológicas. Mas eu não posso dizer nada sobre o futuro. Não tenho comprovação alguma, por enquanto. Posso dizer sobre o passado. Esse arsenal me livrou da endometriose, fez diminuir os focos, combateu a dor e possibilitou a gravidez que chega ao terceiro trimestre agora. O alho, por exemplo, não é uma pílula malcheirosa que substitui outra pílula “de vitrine”. É mais um recurso, não qualquer recurso, um recurso nobre, que se integra a um novo estilo de vida, a um conjunto de novos hábitos. Contudo, esse texto se completará com o tempo, para ser confirmado ou não. Meu mapa tem sido este que desenho no blog após se desenhar na vida; mas há outras cartografias. Pouco posso dizer sobre elas, mas compartilho a condição de meu corpo diante de minhas decisões.

Após fazer uma série de perguntas para um obstetra sobre o parto, condições dos hospitais, recursos de UTI etc., parecendo bem contrariado, ele me disse: “Você precisa confiar em Deus.” Se para ele a confiança em Deus é uma fé mágica sem ações e pensamento, sem lei ou palavra, para mim não é. Como afirma o neurocirurgião Benjamin Carson, um médico revolucionário e cristão, “Deus nos deu o cérebro para pensar”. E o pensamento não deve ser privilégio de alguns para que se imponham sobre os outros.


No início da gestação, o médico não pediu e eu optei por não fazer os exames relativos à função autoimune, mas fiquei atenta à alimentação. Ao escolher a tranquilidade e preferir “não ouvir as frases prontas das comadres”, como o médico dizia com bom humor, eu não me descuidei da nutrição e dos alimentos que curam. Paz não é sinônimo de alienação e complacência, e vice-versa. A informação é sempre uma boa aliada, mas depende também da forma como a buscamos e recebemos. Não há receita pronta. Há vivências e evidências. Esta tem sido minha vivência. Vivência em construção.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Coisa de passarinho


11 de outubro de 2013




Nasceram os passarinhos. A mãe olha para dentro do ninho. Vejo pelos olhos dela o milagre da vida. Ela olha para aquelas avezinhas peladas e frágeis como se fossem os primeiros filhinhos que ela descobriu que existem, saem dos ovinhos, saem dela e precisam desesperadamente de seu calor e de seu bico. Há encantamento e compaixão, sentimentos de passarinho. O pai acompanha e participa, coisa de passarinho. Vai até o ninho e dá comida à mãe que dá comida aos filhos, família de passarinho. Às vezes, vejo os dois ao redor do pequeno ninho, olhando-se e olhando para dentro dele. Companheirismo de passarinhos.  A mãe pássaro, acostumada a voar velozmente em liberdade, mantém-se boa parte do tempo imóvel para fazer nascer e fazer crescer fortes seus filhotes. Depois, quando eles já estão mais independentes, não sentem tanto frio e precisam de mais comida, ela sai em busca de mais comida, voando e voltando a todo momento, em parceria com o pássaro pai. União apaixonante entre um casal com asas. Amor de passarinho. Olhai as aves do céu, não-são, não-têm, vestem-se de pena. Olhai as famílias que se formam nas pilastras da garagem e aprendei com a sua passaridade.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

domingo, 6 de outubro de 2013

Meu pé de jabuticaba














6 de outubro de 2013

Está mais frio e chove mais do que no ano passado. O pomar sente. Um arbusto, antes não identificado, produziu flores rosas das quais brotaram pequenos pêssegos peludos que não devem resistir ao primeiro dia de calor. Surpreendi-me com a imitação exuberante de ipê branco. Depois de uma noite de chuva intensa, o pé de jabuticaba amanheceu coberto de sua própria neve aromática. O aroma intenso invadia a casa e, por dois dias, foi acompanhado de uma sinfonia de centenas de abelhas. O enxame das flores brancas da jabuticabeira. Logo virão as jabuticabas mais doces que já comi. As jabuticabas são medicinais, como todo bom alimento. Em abril deste ano, pesquisadores da Unicamp demonstraram que extratos da casca de jabuticaba podem reduzir até 50% das células cancerígenas, impedindo que células anômalas se multipliquem; prevenir e tratar diabetes tipo 2, pois reduz em 10% a glicemia. Dez jabuticabas por dia, aliadas a uma vida com hábitos saudáveis, já têm esse efeito benéfico. A jabuticaba possui vitamina C e do complexo B (Veja aqui). Ela cura tanto quanto seu aroma e beleza atraem. Se combatem a multiplicação de células anômalas e a glicemia alta, combatem também a endometriose.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Remédios


24 de setembro de 2013

Meu marido escreveu o texto abaixo.

Superar uma doença sistêmica é encontrar o equilíbrio do organismo. Como achar o equilíbrio num mundo de desequilíbrios é o desafio. Às vezes, alcançamos uma alimentação balanceada, a carga de exercícios adequada, o controle das emoções e, quando tudo parece perfeito, somos apanhados por uma gripe ou algum mal-estar temporário. Nessa hora, o que fazer? Minha resposta costumava ser muito simples: os sãos não precisam de remédio, mas os doentes são obrigados a tomá-los. Quanta razão haveria nesse arrazoado?

Antes do casamento, tinha no quarto minha farmácia particular. Minha coleção era formada por variados tipos de anti-inflamatórios, em cápsulas e em bombinha, companheiros inseparáveis de portadores de rinite alérgica. Também colecionava analgésicos, muito úteis para aliviar as dores e tensões do dia a dia. Contra as afecções de pele, tinha pomadas que amenizavam a coceira de picadas de insetos e outras que se destinavam a tratar as mais diversas vermelhidões. Posteriormente, sofrendo de refluxo, tornei-me dependente de omeprazol. Dificilmente passava uma semana sem tomar algum remédio, pois cada dia traz algum mal-estar. Para mim, isso era absolutamente normal.

Depois do casamento, certo dia cheguei em casa e procurei minha pequena farmácia, nem me lembro a razão. “Você viu os meus remédios”, perguntei a minha querida esposa. “Joguei fora”, ela respondeu despreocupadamente. “Você não fez isso, fez?”, perguntei de novo tentando controlar a ira. “Joguei tudo fora. Você estava muito viciado nessas coisas”, ela me falou com a maior tranquilidade. Achei melhor sair de perto. Para refazer o estoque perdido, o gasto seria alto, levando em conta nosso apertado orçamento de recém-casados. Como viver sem o Dorflex nosso de cada dia? Porém, a sabedoria popular já dizia: “Se não tem remédio, remediado está.”

Passaram-se dias e semanas. O episódio e os remédios ficaram esquecidos até que fui apanhado por uma forte gripe. Com gripe ou não, eu precisaria trabalhar. Teria que dirigir 500 quilômetros e participar de dois eventos. Nada de ficar em casa tomando chazinho. Teria apenas uma noite para me recuperar antes daquele dia cheio. Tomei o chá à noite. Quando acordei, estava melhor. No início da viagem, tudo parecia sob controle, mas aos poucos a gripe foi voltando. Em uma parada na casa de minha sogra, onde almoçamos, eu já pensava em cancelar o resto da viagem. Minha esposa então recomendou: “Tome um limão puro e descanse um pouco. Depois continuamos.” Depois continuamos... “Ela não sabe como eu estou, se pelo menos tivesse algum remédio!” Com esse pensamento, adormeci sentado no sofá após tragar alguns limões puros espremidos num copo.

Uma hora depois acordei como um novo homem. A coriza havia cessado. O mal-estar havia sumido. Seguimos viagem e completamos o roteiro previsto com tranquilidade. Nenhum remédio nunca tinha me recuperado tão rapidamente. Eu não precisava deles. Minha convicção se firmou com esse episódio. Confesso que nunca mais um limão teve um efeito tão imediato. Porém, o efeito dos remédios também nunca foi instantâneo.

Algum tempo depois, deparei-me com uma situação constrangedora: uma hemorroida horrível me fez procurar o médico. Saí com a receita de uma pomada e de um remédio para a circulação, além de uma recomendação clara: “Você precisa ser operado.” Os gastos seriam cobertos pelo plano de saúde. Porém, eu sabia o que aquilo significava. Meu pai já havia enfrentado uma situação semelhante. Minha esposa falou: “Vamos procurar um tratamento alternativo. Se não der certo, você opera.” Após algumas pesquisas, ela me recomendou tomar chá de casca de jatobá. Na pracinha da cidade, um senhor vendia os frutos amarronzados. Jogávamos fora a polpa farelenta e púnhamos a casca para ferver. Tomei litros e litros. De manhã e à noite fazia banhos de assento com chá de camomila. Para ajudar a me manter sentado no trabalho, na faculdade e nas viagens, fiz uso da pomada recomenda pelo médico. O remédio para a circulação foi substituído pelo jatobá. E a cirurgia, depois de um mês, tornou-se desnecessária. Até hoje, mais de sete anos depois, o problema não voltou.  Enquanto isso, alguns fazem mais de uma cirurgia para tratar desse tipo de problema.

Mais uma vez, espantei-me com o poder dessa abordagem. No futuro, a luta contra a endometriose nos levaria a um aprofundamento maior nesse caminho. Mudaríamos muitas coisas em nosso estilo de vida. Abandonaríamos muitas fontes de contaminação do organismo relacionadas a alimentos industrializados e fast-food. Passaríamos a nos exercitar com mais compromisso. Porém, essa tênue e frágil construção do equilíbrio do organismo, da desintoxicação interna, seria perdida se no primeiro mal-estar recorrêssemos às receitas da drogaria. Para muitos problemas de saúde, os remédios costumam ser desnecessários, pois o próprio organismo encontra forças para superá-los. Já dizia Nietzsche: “O que não me mata, me torna mais forte.”


Alguns anos depois de casados, enquanto mexia em umas bagunças, encontrei minha antiga caixa de remédios. Eles estavam todos lá. Antigos amuletos que haviam perdido a magia. E lá poderiam permanecer como relíquias de uma época soterrada. O feitiço estava quebrado.


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.

Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Quantas vezes ao dia devo comer? Isso é realmente importante?




9 de setembro de 2013


É comum ouvirmos de profissionais de saúde que temos que nos alimentar de três em três horas, o que daria mais ou menos umas seis refeições por dia. 

Neste blog, conto a minha experiência de superação da endometriose que inclui uma mudança de estilo de vida. Não apenas o que comemos, mas a forma e a frequência com que nos alimentamos são importantes para recuperação ou preservação da saúde. Sendo assim, quantas vezes ao dia devo comer?

Com as mudanças que fiz, a endometriose profunda diminuiu de maneira significativa, conforme os exames médicos comprovam. Não tenho dores e agora engravidei naturalmente. A endometriose profunda se tornou endometriose sob controle, sem remédios hormonais ou cirurgias.

Entre os novos hábitos que adquiri estão aqueles relacionados à frequência das refeições. Contrariando a recomendação médica, eu faço três refeições diárias, sem comer nada nos intervalos, apenas bebo água pura. O intervalo entre as refeições dura de 5 horas a 6 horas.

Tomo o café da manhã por voltas das 7h. É a refeição mais reforçada. Por volta do meio-dia, eu almoço. E entre 17h e 18h, eu faço a última refeição, geralmente um lanche mais leve. Esse lanche, que substitui a janta, mesmo que seja um pouco mais tarde, eu tomo duas horas antes de dormir. Esses hábitos realmente têm importância na luta contra a endometriose?

Minha resposta pessoal é sim, a frequência das refeições é muito importante. Comer mais, de manhã, e bem menos no final do dia também é essencial. Mas quais são as evidências de que esse hábito, tão contrário à orientação médica predominante e ao nosso próprio desejo de nos alimentar com mais frequência, está correto?


1. Primeiro, foi dessa forma que eu superei a endometriose. As mudanças que fiz incluíram a frequência das refeições: três refeições diárias, comendo bem, de manhã, e muito pouco no final do dia, tomando apenas água pura (e não sucos de frutas naturais ou industrializados) nos intervalos das refeições (30 minutos antes das refeições e duas horas depois).


2. Outro fator que me fez tomar essa decisão foi a leitura dos livros sobre saúde de Ellen G. White, uma escritora norte-americana. Ela teve de enfrentar a doença em sua própria experiência pessoal. Ela fez essas mudanças e ficou curada. Orientou outras pessoas que também tiveram a saúde restabelecida. Ellen White escreveu que devemos nos alimentar preferencialmente duas vezes ao dia, com intervalos de 5 horas a 6 horas. Se as atividades diárias exigiram mais, é adequado fazer uma terceira refeição, porém leve. No entanto, ela escreveu essas orientações no século 19 e no início do século 20. Além disso, não era médica. Qual é a validade dessas informações? Alguns médicos de outros países e mesmo no Brasil seguem essa orientação, mas são poucos. Eu simplesmente acredito que ela está certa, pois comprovei em meu próprio organismo os benefícios dessa mudança. Mas há alguma evidência científica sobre as afirmações que ela faz?


3. A ciência apresenta evidências a favor de poucas refeições. Não precisei da ciência para tomar essa decisão, mas acho fundamental que estejamos atentos aos seus resultados. Em 2012, pesquisadores da Clinical and Experimental Medicine de Praga, República Checa, concluíram que duas refeições são preferíveis a seis refeições. Eles realizaram a pesquisa com portadores de diabetes tipo 2. Não foi alterado o conteúdo calórico e de micronutrientes, mas apenas a frequência das refeições. As pessoas pesquisadas comeram a mesma quantidade de alimento, mas em duas refeições em vez de seis. O estudo foi comparativo. Outro grupo se alimentou seis vezes ao dia. Quem fez as duas refeições diárias teve maior redução do peso corporal, da glicemia em jejum e de C-peptídio no plasma, em comparação ao outro grupo. Os pesquisadores concluíram: “Os nossos dados sugerem que pode ser mais benéfico para pacientes com diabetes tipo 2 distribuir uma dieta em menos refeições maiores do que em pequenas refeições durante o dia.” (Veja aqui) O Washington Post destaca a importância do estudo pioneiro. Em entrevista ao jornal Hana Kahleova, uma das pesquisadoras afirmou: “Nossos resultados apoiam o antigo provérbio: ‘Tome café da manhã como um rei, almoce como um príncipe e jante como um mendigo.’” (Veja aqui).


4. Há outra evidência científica, relacionada com o funcionamento das células, para que adotemos duas ou três refeições. Diariamente, as células recebem nutrientes e partículas para o seu funcionamento. Como resultado de seu trabalho contínuo, produzem subprodutos, resíduos ou lixos. Nosso organismo é produtor de resíduos diversos que se acumulados dentro das células causam problemas que podem desencadear doenças. Para eliminar esses resíduos, as células fazem a autofagia, a atividade de se auto-comer. Um processo de destruição e reciclagem de componentes tóxicos e de estruturas da própria célula. A autofagia é muito importante, pois nos “protege contra várias doenças como câncer, doenças neurodegenerativas, infecções, doenças inflamatórias e resistência à insulina”, afirma Mayana Zatz, que aponta os exercícios físicos e o hábito de comer menos como aliados importantes da autofagia nas células (Veja aqui). A autofagia também nos protege contra a endometriose, de maneira direta e indireta, pois elimina toxinas nas células e combate a resistência à insulina, uma condição presente em mulheres com a afecção (Veja também: The Role ofAutophagy in Human Endometrium).  Pesquisadores do The Scripps Research Institute, Molecular and Integrative Neurosciences de São Diego, Califórnia, estavam procurando uma forma de aumentar a autofagia nas células dos neurônios como uma condição essencial para se ter saúde. Embora houvesse um entendimento científico contrário, eles descobriram que o jejum de curto prazo aumenta a autofagia em neurônios. “Nossos dados nos levam a especular que o jejum esporádico pode representar uma forma simples, segura e barata de promover essa resposta neuronal potencialmente terapêutica”, afirmam os pesquisadores (Veja aqui).  De acordo com Mayana Zatz, as células-tronco, por exemplo, “gostam de passar fome”. A restrição alimentar pode estender a vida. Com base em evidências científicas, Zatz afirma: “Depois de ler mais esse trabalho decidi que ao invés de jantar, só vou comer uma frutinha. Pelo menos hoje.” (Veja aqui). Há inúmeras pesquisas que fazem essa constatação. 



Tendo em vista a importância desses resultados científicos, concluo que os intervalos maiores sem comer – um jejum entre as refeições – é fundamental para promover a autofagia diária, combatendo doenças graves como o câncer e a endometriose. Não encontrei uma pesquisa que relacione a frequência das refeições com a autofagia, mas a associação me parece direta. Se nos alimentamos de três em três horas nossos órgãos digestivos não têm descanso, prejudicando esse processo de limpeza interna. Vive melhor quem vive mais leve, se nutre adequadamente e come menos, dando descanso aos órgãos e às células para que possam se renovar e combater as toxinas. Nutrição adequada, redução calórica e frequência das refeições são aspectos centrais.

Uma decisão de saúde pode ser tomada em função apenas de uma pesquisa científica cuja amostragem é pequena? Ou em função de hipóteses ou especulações? Outras pesquisas científicas, cuja validade se deve analisar, sugerem resultados opostos. Portanto, essa questão não tem consenso científico nem médico. Na prática, nossos desejos por comida apenas facilitam a prescrição médica de comer com frequência. Mas nossos desejos não são um argumento consistente para estabelecer hábitos saudáveis. Não somos deuses, nem os desejos devem ser endeusados. O melhor indicador é a saúde. Se não estamos bem, precisamos refletir sobre os hábitos, analisar cuidadosamente a força dos argumentos, estudar e entender a fisiologia do corpo, avaliar as evidências, mesmo que a amostragem seja de um corpo só, o seu corpo.

Quantas vezes ao dia eu me alimento é uma questão central para o tratamento da endometriose, não um ponto periférico das mudanças necessárias. Para que as três refeições sejam satisfatórias tendo em vista as necessidades calóricas e nutricionais do organismo e seu biorritmo, é essencial começar o dia com um café da manhã fortificado, almoçar bem na hora certa e comer bem pouco no final do dia, sem o acompanhamento de líquidos (sucos, água ou refrigerantes). O intervalo entre as refeições deve ser de 5 horas a 6 horas. Entre as refeições, o ideal é tomar água pura, em temperatura ambiente, 30 minutos antes das refeições e duas horas depois para não atrapalhar o processo de digestão. Tenho feito dessa forma há cinco anos.

Nem sempre me sinto feliz em não comer entre as refeições, mas ao persistir com esse hábito minha saúde tem sido renovada diariamente, sem a necessidade de um tratamento caro, complexo e com efeitos colaterais indesejados. 
Como dizem os pesquisadores, estabelecer hábitos corretos é uma forma simples, segura e barata de promover a saúde. 


Conheça meu novo blog: Beith Lehem, A Casa do Pão.


Acesse neste blog: Eu venci a endometriose.